antes de viajar, resolvi passar uns três dias em são paulo. fazia tempo que não via amigos meus, da época da faculdade, e seria bom antes de ir ver alguns rostos conhecidos. Jaime e Vanessa me receberam muito bem, como sempre, com um grande sorriso no rosto, a casa cheia de comida e muita atenção a cada palavra que eu dividia com eles. ao contrário de meus outros conhecidos não me perguntaram o motivo da viagem. nem tudo precisava ser explicado para eles, dividia com os dois este tipo de passe, baseado apenas em uma um lampejo, movimento do tédio ou apreço do risco. não havia congressos, ou professores importantes, propostas de emprego, uma pessoa especial, não havia pautas para entrevistas ou contatos a se fazer. não havia sequer um desejo de viajar, se eu parasse para pensar bem, e este era o motivo que mais me motivava, e sinto que eles intuíam isso, capturavam que este tempo longe tinha a ver com autocuidado. depois de lígia, de meu pai, depois de tudo que nem precisamos falar ou explicar, louros de nossa amizade, usando a energia para devorarmos as garrafas de vinho, lembrarmos de causos antigos para rir, do governo para tristemente rir, e do nosso trabalho para desabafadamente rir.
Vanessa contava sobre um aluno dela, da graduação em artes plásticas, que iria fazer o seu trabalho final em torno do fato de não saber ao certo sua data de aniversário. "Nem o ano", ela disse, e à princípio, achamos muito interessante, toda essa judicialização e numeração da vida, não é mesmo?, então, falou meu amigo, essa parte é boa, "um outro menino resolveu discutir paródia e os limites da cópia", "imitação", "roubo", "copyleft", "memórias ruins", disse os dois, e fez sua exposição copiando a do menino sem dia de nascimento. "Pronto", o "cenário estava armado, foi uma confusão", mas muito divertida, disse Jaime, "como a boa arte crítica tem que ser". Vanessa riu mas confessou que estava preocupada, o aluno da primeira história entrou em uma depressão severa, e como tutora, os casos de agravamento de saúde mental se tornavam cada vez mais visíveis. "e são artistas, entende?", então há uma estética específica que torna a atmosfera um tanto mais aterradora. Quando Jaime foi checar a comida, ela me disse baixinho, quase como um segredo, não são, por exemplo aquelas linhas nos braços, clássicas do cortador de pulsos, sabe? são desenhos muito arrojados, alguns abstratos, outros altamente realistas, misturando a última ceia com k-pop, essas coisas, inclusive já houve casos de automuliação onde uma menina amputou o próprio dedo, misturou entre mini cenourinhas em uma caixa, era uma obra interativa chamada encontre o verdadeiro, claro, nem desconfiávamos que ela faria isso, fazia parte da obra, esse choque, disse, e entrou Jaime. ficamos sérios por um momento falando da necessidade de um acompanhamento psicológico, de salas terapêuticas, no campos de artes plástica na cidade de são paulo e que alguém devia encabeçar isto. Segundos depois já estávamos rindo de alguma besteira qualquer, quando começamos a falar novamente sobre minha viagem. "Já sei", disse Vanessa, já que estará por lá, tem que ir a Santa Iurqui. "Sim, é um lindo vilarejo", completou Jaime.
Por um tempo ficaram tentando me convencer a ir ao tal lugar, contando aqueles causos típicos dos que tem prazer de narrar as viagens como quem assim retornar, por um breve momento, me fizeram prometer. "Lagostas de graça, direto com o pescador, o bar se chama Q, um nome muito bom, não é mesmo?", "Há uma igreja muito engraçada, que sobreviveu a vários saques ao longo dos anos, e a medida que você vai entrando ela vai acabando, e depois, se reerguendo no meio, chamam de Igreja do meio, tem início, e fim, mas no meio, absolutamente nada, pelo menos nada que se possa ver", "a praça central é muito bonita, possui mini-esculturas", "as pessoas são muito gentis e os bares costumam ficarem cheios noite adentro", completou Jaime, "e um amanhecer azul forte, muito, muito raro como se olhassem direto para uma bola de neve". Ouvi tudo com atenção. Apesar deste gesto normalmente me incomodar, as famosas dicas de viagens, ir para Santa Iurqui seria uma oportunidade de rever meus amigos mesmo longe, sentirem eles perto de mim, prestando o comprimento desta promessa. E estranha mente, isto aconteceu.
Já no outro continente, faltando dias para o fim de minha viagem, já cansado de ficar mas ainda não sabendo se havia em mim a vontade de voltar, fui-me para Iurqui como parte do plano. Era um povoado muito pequeno, mas belo por sua nostalgia. As casas eram amareladas e de tijolos, e não brancas, como haviam me contado. O clima era ameno e o sol amansado, com um tipo de ternura abafada. Não encontrei a Igreja do Meio. Por mais que perguntasse, ninguém foi capaz de me indicar onde ficava a praça central com as estátuas em miniatura. Os habitantes eram de poucas palavras e pareciam cansados de turistas. Fiz meu check-in na única pousada que encontrei, já tendo em mente que no outro dia voltaria a estrada e fui para o bar que, ao contrário que me falavam, não serviam lagostas e nem se chamava "Q". Não sabia direito o que sentir, se era engano, desilusão, ou a coceira de um típico humor. Queria ir embora daquela vila o quanto antes, embora reconhecesse uma beleza em sua pacatez clássica da vida no campo. Sem entender direito o que estava fazendo ali, sentado no bar, comecei a beber algumas cervejas, depois, comecei a conversar com o dono, que me serviu algumas vodkas. talvez fosse bom, em meio a viagem, ter um lugar menos movimentado para estar, para aterrar, me disse tentando maquinar para trazer as coisas ao lado positivo. então já bêbado, fui fisgado por uma profunda tristeza e me emudeci frente a cena que se desenrolava aos meus olhos. Nela Jaime e Vanessa brigavam, afoitos, de uma forma que nunca vi. Diziam coisas horríveis um para o outro, como se fosse artigos pesados e perigosos, instrumentos de guerra. Vanessa estava um pouco mais magra e Jaime, começando a ficar careca e mais gordo, estavam mais velhos, sim, com certeza, não eram eles agora, mas depois, então tudo ficou em silêncio, Vanessa e Jaime se separaram diante a meus olhos, e foram embora. Não fiquei para ver o amanhecer bola de neve azul, se é que era azul, se fosse ou não, pouco importa, e de dentro do trem, de madrugada, senti o enjoo mental típico arrepiante dos viajantes. De quando se está longe, mas de alguma forma, mais dentro do que nunca. Mais próximo, do que nunca.
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