domingo, 1 de fevereiro de 2026

teatro

 Quando minha cunhada abandonou meu irmão eu estava no teatro. havia ido secretamente ver a estreia da peça de uma nova professora, que recém tinha começado a trabalhar conosco do Dom Infante II. Ela era jovem, bonita, responsável e aparentemente talentosa. Não consegui acreditar com meus próprios olhos, então, lá fui eu. Estava com muita vergonha então sentei no fundo. Não queria ser vista porque meus motivos não era os menos benéficos e mais beligerantes possíveis e tinha a ciência moral total dos meus atos. Então, na verdade, escondia-me na fileira z-06 para esconder-me de mim. Ia ao teatro para fugir da minha vida. E ficava lá depois das luzes para esquecer do que eu sentia. Era como se meus 14 anos senta-se ao meu lado, pegasse na minha mão e sentisse nojo, dizendo: a sudorose aumenta com a idade? que nojo. Que nojo, eu disse. Meio sozinha, meio espiã. Até o momento em que vi a mensagem eu meu celular de Afonso e então fui embora. Eu não precisava ver a peça da talentosa diretora para saber que era talentosa. Infelizmente.

Encontrei-o em sua casa. A porta estava aberta. Eu o perguntei, tem certeza? Ele apenas falou: olhe em volta. Os móveis haviam sumido. São só objetos, devolvi. Meu irmão chorava de forma silenciosa, só percebida pelos soluções em colisão dentro da garganta. Sua voz, chorosa, era bonita. É por isso que há aqueles que cantam chorando, entendi. É como os chuveiros. Ela apenas levou tudo que haviam comprados juntos e deixou o apartamento. Que vendo assim, nu, simples, estrutural era feio. Seu apartamento é feio, eu disse, sem papas na língua. Sempre foi, ele respondeu. Questionei então o que aconteceu. Afonso me contou que guardava este segredo só para si havia meses. Tinha descoberto que sua mulher tinha uma amante.

Na verdade, começou muito antes disso. Primeiro sonhou que sua mulher teria uma amante. Depois, tiveram em um jantar com os sócios do escritório. Ele viu uma mulher muito elegante. Alta, com maquiagem sóbria, cabelos entre o laranja e o amarelo claro. Era a esposa de um de seus clientes mais importantes. Então, algo lhe disse, com uma estranha rígida e argilosa, esta será a amante de minha mulher. Lá, elas foram apresentadas. Foi uma pequena conversa protocolar. Mas meu irmão leu o rosto de sua mulher no exato momento que pronunciou seu nome para os presentes, naquela altura, testemunhas. Ele leu como seu olho desceu mais à esquerda e sua respiração parecia pressionada contra o chão. E os dedos viraram apenas periféricos das mãos, sem uso aparente. E a voz afrouxou como um colete salva vidas recém desinflado. Então ele viu ela se apaixonar desde o primeiro momento. Que durou semanas, pois começaram a sair juntas para praticar rapel (agora sua mulher gostava de rapel). Neste ponto acho que nem ela mesmo sabia, ele me disse. Mas a conheço muito bem. Então a vida dos dois melhorou muito. Havia mais sexo, mais presença. Por um momento, meu irmão quase amou a mulher - um amor de agredecimento, um amor de esperança. E sentiu-se também parte daquela paixão que se encaminhava lentamente para um endereço. Então, elas passaram sua primeira noite juntas e tudo mudou.

Toda vez que minha cunhada tentava tocar no assunto ele fugia, desesperado. No fundo, nunca acreditou que isto seria o bastante para terminarem um casamento, uma promessa de filhos, todos os sonhos que reviram juntos tantas vezes. Em um ato de desespero, segundo eu mesma, ela levou tudo. Deixou uma carta explicando tudo. Disse que havia mudado para o outro lado da cidade, portanto, pode ser que se virão no futuro. Falou que o amava muito, mas que a amizade deles tinha acabado. E que a relação não era mais possível pois havia escolhido ter uma relação com outra pessoa. Simples assim. Ela estava magoada com ele porque, quando mais preciso, ele não estava lá.

Finalmente tinha reunido a coragem para me chamar. Sentia-se envergonhado e enojado. E completamente paranoico. Não consegui parar de pensar nas duas juntas, transando sem parar, por cima de todos os móveis que haviam escolhidos um na presença do outro. Estava obssecado e eu não podia ajudá-lo em muita coisa uma vez que também guardava uma própria obssessão. Mas para ajudá-lo e despistá-lo de meus próprios pecados, falei com que vinha à mente. É apenas uma mulher. As mulheres são assim, eu disse. Não param para pensar. Não pensam.

Na semana posterior, o convenci a ir ao teatro. Eu tinha um plano perfeito: apresentar meu irmão a minha companheira de trabalho. Era um disfarce à altura. Ele tinha pedido licença do trabalho por questão de saude. Ninguem poderia saber o que de fato ocorreu, era vergonhoso demais. Ele não gostou da peça, é claro. Ele não gosta de teatro. Era sobre se Shekeaspere nascesse hoje em dia, e usasse as redes sociais para atrair seu público. A peça não era boa, o que foi um alívio, mas era bem feita e funcionava. O público ria e professores levavam seus alunos para assistir e depois escrever redações sobre. Suspeiteu se aquela altura meu irmão era um misogino incorrigivel. Se eu era a unica mulher que ele nao odiava ou que ele me odiou desde sempre e fora misogino desde sempre e precisou levar um fora de uma mulher para eu entender isso.O levei até a cabine dos atores e apresentei os dois. nada aconteceu, nem uma sobrancelha fora do normal. Os dedos eram coisas de agarrar e de obdecer. E só. Então fomos tomar uns copos.

Era um pé sujo na rua atrás do teatro. Os atores eram jovens e socialmente inteligentes. Sentamos numa grande mesa. Minha colega entre eu e ele. Então o mais absurdo ocorreu: minha colega não parou de secar meu irmão. Começou a fazer perguntas esdruxulas de tao desinteressantes sobre seu trabalho com especialista em direito autoral de pinturas antigas. Ele a tratou com desprezo. Quanto mais desprezo tinha, mais ela insistia - imersa naquele rastro de conquista ou submissão máxima mesclado por desejo de humilhação. Não sei se olhou ele e achou bonito ou apenas viu em sua insignificancia a insignificancia de tantos homens que ja teve. Meu irmão era alguem que eu amava porque era meu, meu irmão. E só. Ele chegou a dizer que arte para ele era apenas dinheiro. E que deveria ser para os artistas. Por isso que a arte neste país nao ia para frente - pelo medo do dinheiro. Falou mal de teatro. Mal a olhava nos olhos, empinando copos de cerveja sem parar. O que eu posso dizer? Não foram embora juntos. Ela queria. Ele queria que ela queresse. Queria negar. E no fundo, esta é uma história com uma moral da história. Uma história ruim, portanto. Pois foi aí que percebi o quanto eu e meu irmão éramos parecidos. Não apenas fisicamente. E no fundo odiassemos talvez todas as mulheres do mundo. O que para ele talvez estivesse tudo bem - era sua condição. Mas para mim era um auto-extermínio. Tive vergonha. vontade de desaparecer com todos meus móveis eu mesma. Colocar fogo na casa. Me abandonar na cama. Precisava que algo ou alguém fosse embora.

Congresso dos Autores Desconhecidos

 Estava Rómulo e eu na esquina do grande Congresso dos Autores Desconhecidos. Era janeiro mas estávamos em Pádua, portanto, fazia frio como as chaminés fazem o elo entre o dia e a madrugada: sem noite. eu não falava com Rómulo havia seis anos e parte do meu corpo dividia-se em ter medo de estar lá com ele, enquanto a outra, medo de não estar e perdê-lo para sempre. havia se mudado para Suíça, com a mulher milimétrica, como assim chamavam os nossos amigos da Fronteira. Rómulo era previsível enquanto as mulheres, havendo um ciclo onde nós, os amigos mais íntimos, os que faziam ele chegar em casa mesmo bêbado e mandavam ele enviar mensagem aos pais mesmos brigados, apenas nós sabíamos. Primeiro veio a namorada desajeitada, depois, a certinha. A partir daí tudo se intensificava em uma intercalação sem fim: a completamente bagunçada dava lugar a neurótica, depois, era fácil saber que a intempestiva e passional máxima cederia para a pessoa mais organizadamente exagerada do século. eu amava a previsibilidade amorosa de Rómulo porque me dava estabilidade e e me aproximava dele, apesar dos anos. Rómulo deu a entender que nós, os seres que nascem na fronteira, na fronteira do sul do mundo, estamos sempre vivendo esta dívida de querer ficar em nossa casa mas ir embora. e assim, fui parar não sei como em Stutgart, e, depois disso, consegui uma residência em investigação em Salamanca. E agora estávamos juntos. Ele com uma mãe a menos, eu com um pai me faltando, o dinheiro, os amigos, o coração. Nós dois com uma tristeza que guardávamos no silêncio mais concreto, e que tinha, entre outros, nossos nomes.

O Congresso dos Autores Desconhecidos acontecem desde a guerra da unificação italiana: 1871. Pode ser difícil de imaginar, mas muitas pessoas que lutaram ou contra a monarquia, ou à favor da república ou pela unificação italiana eram escritores. E o motivo era simples: ir a guerra era naquele tempo ir atrás de palavras, principalmente, palavras faladas. Como muitos morreram, Ernesto Cavaglieri, um espano-italiano cuja família materina era de Lecce, teve a ideia de realizar a primeira conferência em nome dos soldados desaparecidos, cuja a ideia era ler seus nomes por dias a fio, contar suas histórias, suas vidas, para que não fossem esquecidos. Ao logo do tempo, as histórias foram sendo fabricadas para dar contínuo a tradição e o confresso dos soldados despaarecidos virou o Congresso dos autores desconhecidos de forma muito natural. Pessoas do mundo inteiro vinham à Itália para apresentar pesquisas, arquivos, textos, estudos sobre autores que viveram uma vida no anonimato, cuja existência talvez nem pudesse ser provada, mas que não podiam ser esquecidos. Cada ano a ansiedade era maior à espera de um nome a altura do seu tempo, que expressa-se a dualidade da guerra fria, o imperalismo no oriente-médio, um novo mundo frente as pragas. Que nos desse um alento, uma obssessão nova, fora do ócio, que fizesse a literatura, depois da guerra, ser viva de novo.

Eu e Rómulo sonhamos por anos estarmos aqui. Havíamos é claro lido Enrico Spaldi: o dono da casa editorial Spaldi, que descobriu diversos autores do início da alta idade média. Havíamos, é claro, seguido o trabalho de Clementino Abreu, que nos templos budistas da Mangólia, descobriu o poetas das pedras: Jan san Io. Nos vinhamos do continente do futuro, das américas, do continente das civilizações perdidas, da literatura de luta, da ressaca do milênio, do barroco máximo. Eu ofereci a Rómulo um café antes de fazermos o check-in e ele aceitou. Enquanto pedia seu ristretto à caráter, eu observava seu consumo excessivo de linho e tentava obter algumas pistas. O que Rómulo havia descoberto?! Sera uma nova epopeia maia, em algum vilarejo da Nicarágua? Ou o inicialismo lírico esquecido nas cavernas do Jalapão por algum nómade maluco, que podia sentir as linhas telúricas da terra com sua caneta e sua espinha e pensava ser sua coluna cervical seu tinteiro? Eu sei o que você está pensando, ele me disse. O que estou fazendo aqui e o porquê de não ter lhe avisado. Você não vai acreditar, disse ele.

Neste ponto estamos no saguão. Adeláide de Sá apresentou uma enorme lecture sobre a relação entre a escala cromática, a pulsão sexual e os espaços vazios na poesia de Célia Correia - uma agroprodutora recentemente falecida do extremo norte de Goiás. Os espaços seriam a monucultura da paisagem, expressa de forma inconsciente na respiração das páginas. A escala cromática viria dos cantos dos boiadeiros - de origem árabe, que dava predileção a palávras proparoxítonas ou de grande quantidades de letras, como os deslocamentos bovinos. Eu, que morria de medo de ser analisado por Adeláide de Sá, escutava tudo com atenção máxima. Tem pessoas que ficam mais bonitas quando sem palavras, eu penso, ou nós ficamos mais bonitos para nós mesmos quando deixamos alguém sem palavras. De qualquer forma, na ausência de palavras acho que surge a abundância do desejo. Não o desejo, aquele que nasce aos poucos, mas aquele que vem como a densidade de uma estrela de neutrons, no seu peito, de uma hora a outra. Eu olhei para Rómulo e ele disse: os brasileiros estão com tudo mais uma vez. Então ele entrou e iniciou sua comunicação.

Meu amigo tinha ganhado exatamente todas as rugas que imaginei que ganharia. Conhecia como seu rosto se retorcia para o aço do choro ou para o elástico do riso. Mas esta calma aparente eu não podia imaginar. havia desacelerado sua inércia, se convertido em um ser prudente - talvez mais chato. Falava devagar com um brilho que surgia por espasmo. Não sei o que a Suíça havia feito com ele, o que a ausência de terapia havia feito com ele, seus filhos, se é que os tinha - e sua esposa milimétrica. Eu avisei que faria mal a nós morarmos longe do mar, nós, que viemos da fronteira. Em Salamanca, tive um período de paranóia. Achei estar perdido para sempre, que haviam soldados pequenos que entravam em minha orelha à noite. Mas era apenas abstinência do oceano. Rómulo saudou a todos e de repente apareceu uma imagem no projetor: Era Lúcia do Carmo. Nossa amiga. Nossa amiga morta.

Minha almofada de Jasmim, escrevo de dentro do fogo dos fracos. Tenho todos os degraus alinhados como dentes de uma criança que tem pressa em nascer. Adivinho a reza das sementes e mudo o gosto das cerejas para a textura das cinzas ao serem desmanchadas. Eu quero menos hoje do que queria ontem e isto é uma conquista. Ganhar um ontem. Significa que estamos velhos, mais vivos, e menos sábios. Que esquecer alguém e iniciar uma nova biblioteca, que os antepassados sussuram alexandria no braile dos arrepios, quando ameaçamos nos apaixonar de novo. Te esquecer será meu maior feito. O cordão de esferas ameaça se retirar. As folhas tem equações mecânicas e se as formigas pararem de respirar os números variáveis e incógnitos nunca mais serão descobertos. A matemática é apenas isso: insistência, teimosia e fé. Perdi a fé, me restou as outras duas. E te esquecer é a outra ponta do tripé. Amar alguém que chega, amar mais alguém que vai embora. Não foste tu que me ensinou que as palmas só dão jeito para dentro por um motivo? Amar porque, seja qual for a direnção, é sempre para dentro.

Minha almofada de Jasmin era a forma como que nossa amiga Lúcia nos chamava. A última vez que a vi, estávamos juntos em uma cafeteria em Montevideo. Estava recém-separada, recém-juntada, de iniciando na arte da confeitaria. Eu fui visitar meus avós, ela, não sei ao certo. Rómulo estava ali, em minha frente, falando de nossa ex-amiga íntima que deve estar confortável em algum pedaço de Pirituba, enquanto ele lia suas cartas, cartas endereçadas a mim, contendo nossa juventude, contendo todos nossos os segredos, como, por exemplo, este fato nunca comunicado do que ocorreu entre Lucia e eu. O que nisso pode ser considerado literatura? O que possivelmente pode denotar isso como a maldita literatura? O estudioso basta? Ou nesse caso, um amigo um pouco fora de sua sanidade costumaz?

Lucia Moura nasceu em 1984 e frequentou a escola de São Vicente, em Santana do Livramento. Ele continuava: mudou-se para Porto Alegre aos 16 anos, depois da recomendação de uma benzedeira para ficar longe da língua espanhola. Foi estudar francês, onde conheceu, no Instituto de Literatura Contemporânea, Romulo Schuartz, Marcela Viera e Sebastição Macedo. Ele continuou ali, narrando toda nossa vida para os presentes. Os almoços na Lancheria dos Onze, as noitadas no Cassino de Mentira. Os saraus que faziamos na cada da Antonia, aos noites de orgia na orla do rio. As recorridas espirituais no dia 2 de fevereiro, a nossa aparenta falta de comprometimento político diante do extremismo político ganhando força. A nossa natureza de gente da cidade virada para o que ele chamou de a romantização do guasca. O portunhol como forma de fugir não maneira de conectar. As bombachas encomendadas em sites chineses, a casa de milongas do Salomão que era primeiro de tudo, um ex-austríaco. Mas eu não estava lá. Meu nome não foi citado. Rómulo me apagou da história e eu sobre apenas com o destinatário das cartas de Lucia Moura, das cartas que ela nunca me enviou, e compuseram seu diário. Tudo o que eu fui para Lucia Moura era tudo que eu nunca consegui ser para Lucia Moura, essa, aparentemente grande escritora desconhecida que a partir deste momento, para Romulo, não poderia mais ser minha amiga.

Dizem que o ressentimento move os que envelhecem. Rómulo estava envelhecendo de forma relâmpaga agora em minha frente. Por um momento, era como se eu estivesse novamente e Salamanca, delirando. Será que eu de fato nunca conheci esta gente? Apenas achei que conheci? Fora Lucia uma miragem?! O que havia naquelas cartas de tão interessante? Aonde ele queria chegar? A Zona Norte de porto alegre se derretia dentro de mim. As ruas se borravam das fotos, como se fosse uma cidade abandonada no século 19. Uma cidade sucumbida ao êxodo em massa, ao vento, às águas. Claro, havia outra opção. E era simples: a vida estudada ali não era a de Lucia, nem de Rómulo, a minha, a nossa. Era apenas a dele. Não podendo se tornar um grande escritor virou um pequeno conadjuvante. Ao ponto de até, talvez, imaginar que o destinatário daquelas cartas poderiam ser ele. Que Lucia Moura tinha uma paixão secreta pelo homem mais previsível do Atlântico Sul. Que precisaria vir na universidade mais antiga do mundo, falar em uma língua que não era sua, longe de tudo que conheceu, que sim, ele fazia parte da vida de Lucia Moura, da grande escritora gaúcha - ainda desconhecida mas já não mais, Lucia Moura. Só não contava com a minha presença.

Pensando agora, isso poderia sim fazer algum sentido. Mas no fundo, lá no fundo, eu não sei o quão próximo eram os dois. Nunca sabemos o que ocorre entre nossos amigos quando deixamos a sala. Eu sei que ele elogiava seus ensaios, sua dedicação com Paul Celan, sua ideia absurda de adaptar As Metamorfoses para animais que vivem no pequeno zoológico da redenção. Não sabia até que ponto falavam de dinheiro, de família, de amor. Ou do fato de uma noite, enquanto Júlio Serate chorava as pitangas por sua ex-namorada de infância se agarrar com nosso amigo Sebatião Macedo em frente a Usina do Gasômetro durante mais uma fanfarra habitual, Lucia me confessar que não dormia a noites seguidas porque tinha certeza que havia alguem de nome Artur em seu quarto, falando sem parar. Alguem morto, mas vivo, e para isso, naquele momento talvez, Lucia me beijara, para se distanciar de Artur, e se certificar mais viva talvez, para forçar os olhos a fecharem por algo substantivo. Não sei se sabia portanto que Lucia também gostava das mulheres - que a Lucia tudo era uma chance de prolongar a interrogação.

Ao fim da comunicação, Rómulo disse que no segundo dia da conferência apresentaria dois trabalhos recém descobertos: Os cadernos da circunferência e Espaços sem fio. Eu consenti. Não tinha maldade dentro de mim. Sentia até mesmo uma rara emoção. Meu amigo não conseguiu me olhar nos olhos, estava irritadiço e nervoso mas eu o abracei com uma piedade que nunca havia experimentado, misto de agradecimento. Talvez esta fosse apenas outra história que Lucia, secretamente, estava a contar. Eu sabia que tudo que importava ali era como ele se sentia ou eu. E o que cada um sentia, ou qualquer coisa que fossse que tivesse ocorrido, importava? O nome disso é literatura, para nós, a coisa mais importante do mundo. Nos os dá fronteira tínhamos nossa particular e unica literatura.

sábado, 31 de janeiro de 2026

cabeça de boi

Quando a encontramos, era uma noite sem lua. Nas noites sem lua gostávamos de fazer um jogo que consistia em andar pela cidade fugindo das luzes, silenciosamente, e contar um segredo. Aquele segredo seria um farol, para a memória, a noite mais duradora. Mas isso não sabíamos. Foi assim que a disse pela primeira vez que gostava dela. Foi assim que descobrimos muitas coisas um do outro, como quando ela testemunhou a morte do tio, ou quando achou que morreria em um barco em Johannesburgo. A doença de meu pai e a mania que tinha quando criança, de roubar coisas das pessoas de que gostava e enterrar no jardim para alimentar as plantas. Era uma noite sem lua, com muitas nuvens. Estávamos na quinta de São Inácio, um pedaço de terra antigo de seu bisavô. Andamos por horas na mata, guiados pelas luzes dos celulares, pelos ouvidos do peão Eugênio, sem conseguir distinguir quase nenhuma imagem, o que era vento com o que era bicho, o que era passado e o que era futuro, o que era noite inventada e noite real. O cão de Eugênio mergulhou o focinho na terra, jogamos ao lume de um fósforo, havia pegadas humanas em meio a algo que pareciam cavalos. Meu primeiro instinto fora o de meter os dedos naquela marca que poderia ser dos seus pés, enfiei os dedos na lama molhada e dóceis, que cedia facilmente, coisa que ela poucas vezes fez, como quem tem certeza de que a encontraria ao fundo. Limpei-me na minha própria camisa, ridículo, e olhei para Christian assustado. Aquele homem que mal falava nossa língua e que estava no meio do nosso país, sem pensar direito, sem saber dos perigos daquela mata. Das cobras, dos mosquitos, dos grileiros, dos fazendeiros, e que não tinha ideia de onde estava se metendo, mas, assim como eu, estava à sua procura. O cão se pôs a correr por uma trilha e o seguimos até um estrado. Não havia latidos. Quando chegamos, andamos mais um pouco, lá ele estava junto aos bois, lambendo a ferida de um deles, na perna esquerda. Mais adiante havia um aglomerado de cabeças, talvez umas trezentas. Eugênio calmamente começou a andar entre os animais, então se agachou. Pude ver uma mancha amarela refletindo de uma fogueira. Ela estava entre os animais, serenamente. Quase nua, coberta de terra e irreconhecível. E dormia silenciosamente.

Eu queria dizer que a conhecia durante toda minha vida. Que na maternidade, dividimos talvez os mesmos quartos ou as primeiras vozes humanos que ouvimos quando viemos a este mundo foram das mesmas pessoas, um médico apressado e uma enfermeira que falava muito justamente por não ter paciência. Queria dizer que crescemos juntos, que subíamos as árvores atrás de carambolas depois da escola, que decorávamos o grande raio de árvores frutíferas que separava nossas casas, ligada por uma mata rasteira mas rica e que a única diferença entre nós é que ela comia as frutas por prazer e eu as comia pelo seu caroço, pelas sementes, pelo gesto de jogá-las pelos cantos, e pensar que algum dia algo ali poderia nascer, algo poderia vir por mim culpa, por minha ação. Eu gostaria de dizer que comigo ela não tinha segredo algum porque quando nos conhecemos na infância isto de segredo não existe: a linguagem ainda é maleável, não é algo tão sério. Os segredos vem depois, as portas fechadas vem depois, a espera na linha – a eterna música da espera na linha, vem depois. Gostaria de recontar toda nossa história como se tivesse sido uma testemunha., mesmo que silenciosa, de sua vida. Porque era isto que eu sentia, porque é isso que eu senti quando a vi pela primeira vez: um amor de trás para frente, capaz de amá-la de forma instantânea por tudo que já havia feito ou pensado. Ao mesmo tempo, um amor sem futuro. Sem chance para acontecer. 

Nesta vez, a que realmente foi a primeira que a vi, estávamos eu e Chrsitian em um dos poucos botecos do centro desta pequena cidade. Ela estava sozinha, com os pés no chão, e escrevia sem parar em um caderno. Agenor, o dono do lugar, viu nossa atenção presa a ela e com desdém disse que não entendia uma mulher vinda de uma família rica, com tantas posses, se comportar assim. Ela não era bonita, não exatamente. Mas tinha uma presença firme, que descosturava a paisagem. Intui ser capaz de acreditar em tudo que me falasse. Em ser captado por qualquer expressão sua. Usava um vestido bordo que acabava antes dos joelhos, levemente rasgado. De vez em quando ria sozinha, cheia de si, como quem esnoba todos os presentes como quem diz não precisar de ninguém. Era única em meio aquela gente que repetia nomes, sobrenomes sem parar e personagens velhos. O filho que virava seu pai, que provavelmente morreria igual seu bisavô, por uma disputa qualquer em uma aposta de bar. Quinhentos anos de sobrenomes que se repetiam, de decisões que envelheciam mal, de profissões escassas. Todos se conheciam, todos eram iguais para não dizer parecidos. Aquela era a terra da família de meu pai, eu sei o que digo. Uma terra de imensos desertos, sem gente. Um deserto verde, de lavouras intermináveis que acabam até mesmo com a ideia de horizonte, com a ideia de início ou fim. Onde a terra pobre gera quilos de alimentos que não alimentam, que vão para outras terras. Onde o silêncio vem dos bichos que nos abandonaram, portanto, este é o pior tipo de silêncio. Um lugar sem movimento, pior do que a morte. 

Eu e Christian havíamos chegado não fazia nem uma semana. Estávamos na Suécia, onde vivi por 9 meses. Eu havia começado a fazer um curso em mercado de ações, com a desculpa de que poderia ajudar os negócios da família. No segundo mês, abandonei o curso mas não falei disso para meus pais, que era quem pagava a universidade. Cheguei no inverno e as noites entravam dentro dos dias e infectavam até mesmo meus sonhos. Eu dizia para Christian, eu so sonho com a noite. Você percebe o que estou falando? Christian não sonhava, ou pelo menos, não lembrava de seus sonhos. Isto era apenas uma das muitas coisas que não tínhamos em comum mas que nos unia por ele ter uma paciência hábil e uma escuta generosa. Talvez fosse porque nos dois fossemos estrangeiros naquele país que não gostávamos, talvez fosse porque ele falasse algumas palavras em português e eu pudesse ser eu mesmo com ele. Ele havia tido uma grande paixão por uma menina brasileira, que conheceu na Suíça quando trabalhava em um albergue, uma paixão que nunca fora esquecida e volta e meia, quando estávamos bêbados, voltava com tudo lhe tirando as pernas, os pés, qualquer chance de equilíbrio. Era um destes estadounidenses que descobrem que há vida além de seu país e fazem de tudo para não voltar para casa. Com Christian descobri uma intimidade que nunca tive com meus irmãos. Éramos companheiros de casa, fazíamos compras juntos, assistíamos a filmes de ação ruins. Jogávamos tennis em uma quadra aquecida, esquiávamos. Assim, um dia eu lhe contei que teria que voltar para o Mato Grosso, Chrstian se inclui nos meus planos e eu não titubiei por um segundo porque já estava acostumado a sua companhia, a sua segurança e sabia que encontrar minha família seria muito mais fácil com sua presença. Teríamos que falar mais o inglês e esquecer as palavras em nossa língua que nos machucavam tanto e tão frequentemente. As palavras não podem se renovar, infelizmente. Meu pai estava doente, sou o primogênito, tenho que estar presente. Christian me perguntou o quão perto era o Mato Grosso do Espírito Santo e eu disse que era longe, muito longe. Tinha um péssimo plano de parar em Vitória para encontrar a antiga menina que eu carinhosamente chamo de três semanas, porque foi, realmente, o tempo que durou. Naquele dia, Christian estava triste porque havia finalmente entendido que a menina não iria querer vê-lo, mesmo estando no Brasil. Ela havia parado de responder suas mensagens, assim que desembarcou em São Paulo. O arrastei comigo. Ele chorava um choro fino, com soluços quase imperceptíveis e eu não conseguia entender se era saudade ou uma acomodante humilhação. Conversamos a noite toda, no balcão do bar, em frente a ela. De vez em quando via Christian a perseguindo com o canto do olho, no meio de alguma ou outra palavra que eu o dava. Fiz o que os amigos fazem nestes momentos, dão futuros possíveis. Mentem, usam a imaginação, o que preferir. Disse coisas como, veja bem, não era para ser. Talvez gostar dela foi só um jeito de tirar da Suécia, talvez coisas boas aconteçam aqui. É sobre você, não entendeu? É sobre o que você tem para dar. Christian ficava surpreso com meu discurso preparado para ocasiões como essa. Seus amigos não costumavam se interessar tanto por seus problemas, não pense nessa baranga, talvez diriam. Você pode ter que você quiser, elas são todas iguais. Eu sentia pena dele por me dizer isso, mas o admirava em seu exagero. Eu sua fidelidade com o impossível. Em um amor que era só dele e não envolvia nenhuma outra mulher. Não falamos dela, naquela noite. Eu não saberia como abordar o assunto. Mas sabia que os dois estávamos intrigados. E sabia que a cidade poderia facilmente se reduzir ao lugar em que estava, o que estava fazendo. 

Um dia fui tomar banho de rio. Deixei Chrstian com meus irmãos, precisava ficar sozinho. De início, acho que alucinei ao entrar na água. Senti perder controle do meu corpo por alguns segundo, senti mãos quererem me empurrar para fora da água, como quem diz, aqui não. Ainda não. Te conhecemos? Sinto que o nome da minha família era mal visto até mesmo para as águas que corriam da nascente até a foz. Sinto que as folhas conheciam nosso cheiro, que elas alertavam os insetos, que levavam a mensagem adiante. Não que haja uma consciência coletiva nos seres, na natureza, não que ela seja igual, ao contrário. Mas contra nós, se unia. Eu dizia baixinho, com os olhos abertos e doloridos contra o sol, não tem nada a ver com isso. Estou apenas a cumprir o papel de filho. Me perdoe, não sou como eles. De repente, ouvi uma voz dizendo: não se preocupe, não se preocupe! Era a voz de Eugênio, que trabalhava na fazenda da família dela. Vinha com ela e seu cachorro e de repente éramos quatro ali, sozinhos, no meio daquela ilha de verde. Eu não saberia dizer o que aconteceu. Mas sei que naquele dia conversamos muito, eu ela. Eugênio era mais silencioso, consentia e aprovava mais do que se expressava. Ela diz se lembrar de mim, mas não de rosto. De nome. Sua mãe já havia comentado que estaria na cidade, depois de décadas fora. Que meu pai estava doente e ninguém sabia o que ele tinha, que estava desesperado ao ponto de buscar diferentes tipos de gurus espirituais, e havia prometido até mesmo construir duas ou três igrejas evangélicas em troca de sua melhora. Eu estava muito nervoso de início mas ao mesmo tempo muito cômodo. Ela era o tipo de pessoa que faz alguém se sentir bem, que sabe lê-las com perspicácia, o que deve ser algo perturbador para si mesma. Me perguntou como estava, o que achava de toda esta história. Não sei eu disse. Faz anos que não penso nos meus pais, na minha família, nesta casa. No que fazem. Tudo que faço é para não pensar. Só estou aqui para garantir que as coisas não piorem, que mesmo se forem ruins, que sejam as menos ruins possíveis. Ela disse que havia gostado muito de mim e talvez um dia me contaria o porquê. Mas aquele ainda não era o momento. Eu podia sentir a vibração de seu corpo perto do meu, o que ele acordava em mim. Se ela erguesse um dedo na minha direção eu seria capaz de desmoronar. Eu chegaria em casa depois deste encontro e testaria meus braços, minhas pernas. Eu diria pra minha coxa, você sempre foi assim, ou está me pregando peças? É capaz de um braço agir dessa forma? Onde vocês estavam o tempo todo em minha vida, porque me enganaram de suas habilidades?  
Começamos a fazer muitas coisas nós três juntos. De início, eu ela e Christian, depois, Eugênio começou a nos acompanhar. Em um dia bom, caminhávamos bastante e ela nos explicava toda a história daquele solo. Ela tinha aprendido ler a mata com um senhor que trabalhou na fazendo do seu pai, quando era criança. Pelas folhagens sabia a composição do solo. Pelos tipos de nuvem, o que era bom de plantar, onde estava cada tipo de árvore. Sabia onde havia bichos mortos, sabia onde nada vingava, onde tudo daria fruto. Confiávamos cegamente nela. Eu conseguia ver os olhos de Christian melhorarem, conseguia ver o que o afeto dela fazia nele. Ela o dava o que eu não poderia, abraços longos, beijos na testa. O fazia enrubescer a qualquer momento de descompressão, o defendia quando faziam piada da sua ignorância ou humildade extrema. Eu e ele nunca conversamos sobre isso mas sabíamos que era impossível tê-la, nem por uma noite. E para nós bastava. Bastava vê-la movimentar-se com confiança, com sua voz baixa e contínua, bastava como sempre inventava que reconhecia um pássaro que nos chegava perto, com nomes que inventava na hora, bastava vê-la comer ou como tratava todos os habitantes daquela cidade com muita dedicação. Ela se esforçava para fazer daquele lugar uma cidade, um lugar para as pessoas. Mesmo que não se sentisse em casa, não, nós sabíamos, ela não pertencia ali. E também não entendíamos porquê não ia embora. Era como se estivesse esperando alguma coisa. 

Então começaram a acontecer estas coisas. As cabeças de gado começaram a desaparecer. Primeiro, foi no rincão do Seu Assuntino, 200 animais evaporaram da noite para o dia. Minha família foi a próxima, 150 animais apenas não estavam lá de um dia para o outro. Assim foi sucessivamente, até somar, com todos da região mais de 1000 desaparecidos. Diversos peões foram demitidos. A polícia trabalhava com diversas linhas de investigação. Perguntaram se tínhamos inimigos, se algum trabalhador da fazendo poderia fazer mal a nós, poderia ter-nos traído. As outras fazendas tinham seus mercenários, seus capangas contratados que passavam de cidade em cidade pressionando qualquer novo rico que aparecesse. Assustando a todos em bares, prostíbulos, fosse gente da política ou gente sem nenhum poder ou fama. Aquele conjunto de pequenas cidades virou um terreno hostil. Todos se olhavam com desconfiança. No meu caso, não dedicava muito tempo a pensar nisso. Me importava sim como afetava meu pai. Nesta altura já não consegui mais falar direito nem andar. Se comunicava por meio de algumas sílabas, parou de conseguir fazer o som do L e o som do F por exemplo. Poucos o compreendiam e escondíamos dele a perda da fazenda que era em verdade muito pequena comparada as quase 10 mil cabeças de gado que tínhamos. Entendemos que tudo que poderíamos fazer era aguardar sua ida. Depois disso faríamos os trâmites necessários, financeiros, administrativos. Depois disso eu iria embora novamente. 

Christian nos perguntou se aquilo era comum. E se não era comum, porque ninguém falava do assunto. Por que não víamos em telejornais, porque não havia mais agentes de segurança e especialistas e roubos no campo. Eu tentei explica-lo que seria muito vergonhoso e essa gente tentava resolver seus problemas do jeito deles, não do jeito certo. Ele se sentia em um filme de bang-bang. À esta altura o português já tinha melhorado muito, já havia esquecido a menina de Vitória. Estava atuando como bombeiro voluntário da região, estávamos nos preparando para a temporada de seca e de queimadas, e a pouco conheceu uma menina que trabalhava com trilhas em um parque estadual, o que o deixava cada dia mais a vontade com aquela região. Sobre nossa amiga, nós a víamos cada vez menos. Principalmente de noite, quando saíamos para nossas caminhadas, quando fazíamos alguma fogueira e contávamos histórias de nossa infância. Ela lembrava com detalhe tudo na sua vida, diz ela, desde que estava na barriga de sua mãe. Sempre fora assim, era a memória da família. Era quem as pessoas recorriam para se certificar que tal coisa havia acontecido e de como havia acontecido. Mas agora, parecia cansada, abatida. Seus abraços diminuíram, se tornou mais silenciosa. Custava-me a crer que estivesse por exemplo se alimentando. Podia ver o osso moldando sua carne, seus cabeços quebrando no final dos ombros. Seus olhos a cada dia mais fundos, tão fundo, com dois leitos asteroides. Mas nossas perguntas sobre seu estado eram inúteis. Nunca falava de si, nunca falava do que realmente sentia. É uma dessas pessoas que está sempre disposta a fazer algo pelo outro, mas que a qualquer sinal de abertura, sentíamos o barulho da encilhada agindo. Tinha medo que minha preocupação a afastasse cada vez mais. Então, apelei e um dia conversei com Eugênio. Ele me garantiu que em sua família tudo estava bem. Ela morava em uma casa afastada dos pais, feita de madeira, simples e sem caprichos. Mas não é porque não se dava bem com eles. Nada aparentemente tinha mudado, nem financeiramente, nem estruturalmente. Eugênio também não sabia de ninguém que poderia ter chego ou ido embora da sua vida. Era amiga de todos e de todo mundo mas nunca a havia visto nem com um homem nem com uma mulher. Não sabia nem se considerava este tipo de aproximação. 

Foi antes da morte de meu pai, uns dois dias antes eu diria. A soma já estava em três mil gados desaparecidos. Mortos? Fugidos? Não se sabe. As câmeras não mostraram nada, as câmeras mostraram isso: um desaparecimento. Nenhuma tecnologia do mundo era capaz de explicar o que aconteceu. Alguns criadores já cogitavam vender as terras e transferir o cultivo. Alguns, os pequenos, já tinham ido embora e o preço das terras em geral estava mais baixo do que nunca. Os mais velhos falavam até mesmo que se tratava de algo sobrenatural, algo próximo a maldição. Ninguém se importava se os bichos estavam vivos ou mortos, apenas queriam achar o culpado. Estávamos jantando em casa e meus irmãos se demonstravam muito preocupados com as perdas. Era pior do que uma gripe ou qualquer doença, não sabíamos como enfrenta-la. Não a víamos. Eu estava cansado, sentia falta da minha amiga, sentia falta de Chrstian, cada vez mais envolvido na sua nova vida com aquela namorada que havia arranjado. Eugênio me ligou e me disse que fazia dois dias que não a via e isto nunca havia acontecido. Perguntou por ela em toda cidade, sem nenhum sinal. Queria saber se eu sabia de alguma coisa, pois a família estava preocupada. Nunca tinham sido capazes de compreendela, por isso mesmo, estavam mais afoitos do que nunca. Assim começou nossa busca. 

Christian nos encontrou depois da janta e fomos de casa em casa perguntar por ela. Nenhuma pista. Por um momento, cogitei a ir naquele rio. A mergulhar naquela água, a dizer, agora é hora? Tens algo para me dizer. Eu estava desesperado a ponto de usar as técnicas que ela usava para encontrá-la. Mas nós não éramos ela. Aliás, sabíamos muito pouco sobre sua presença. Apenas a amávamos. E nos preocupávamos por ela ter feito alguma besteira. Por ter se machucado feio. Por algum homem te-la pego em algum momento em que a viu desprotegida. Durante cinco dias nos encontramos todo dia, pela noite. Começamos a entrar na mata juntos. Nas trilhas, até mesmo no parque estadual, o que era proibido aquela hora da noite. Eu não vou mentir, achei que estaria morta. Eu falava mentalmente com ela todas as coisas que eu tinha coragem de dizê-la. Enquanto me doíam os dedos do pé e caminhávamos sem rumo por horas a fio na noite, guiados apenas por um cachorro, um cachorro sem nome, o cachorro do seu Eugênio, eu dizia o quanto a desejava, o quanto era especial, o quanto gostaria que me deixasse amá-la como eu queria. Nesta ponto, falava com uma morta. Tinha esperança de vê-la, nem que fosse como um fantasma. Uma despedida. Uma explicação. Lembra por que gostou de mim? Lembra do que contaríamos um ao outro? 

Então o cão gritou. Vimos as marcas de pés, pequenos, humanos, leves. Inicialmente, como disse, pareciam trezentas cabeças de gado, todos ao redor dela, como se a protegessem. Como se ela fosse um deles. Ou o oposto. Eu sabia que estava viva. Eu sabia que estava bem. Eu sabia que nunca entenderia esta forma de estar vivo. Enquanto nos aproximávamos dela, e o cheiro de terra, estrume, de mato seco, o cheiro de urina, de bicho, nos acometia, nos tornava em apenas mais um deles, pudemos ver mais ao fundo até quando as nossas luzes deixavam ver, milhares de animais um ao lado do outro. Ela ainda estava desacordada e muito fraca. Andamos por uns três quilômetros e encontramos nosso carro. Eu estava muito aliviado e fiz algo que não imaginaria, rezei. Rezei e nunca falamos para ninguém o que aconteceu.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

minha irmã agora fica em silêncio e anota algumas frases que eu digo, para pensar depois, antes de pegar seu voo para nossa cidade com a mala recheada de lembranças dos países que passamos nos últimos dois anos. meu amigo está feliz porque encontrou um grande amor e também encontrou o pai do filho dos dois, anunciando para sua mãe e tia. hoje ela me disse que pensou em mim e tive medo por saber a verdade temporária mas menos medo por saber a verdade duradoura. minha amiga não para de trabalhar mas está em dia com os santos, meu pai construiu uma ponte muito bonita aonde pode-se enquadrar o sol e minha mãe esta viciada em tirar fotos de jupter onde o que vemos na verdade é apenas uma luz muito forte a expulsar os olhos. meu amigo me escreve para dizer que seu sogro saiu do hospital e que seu sobrinho a partir de agora pode nascer a qualquer momento enquanto eu escuto músicas de um antigo amigo, que fez para mim, no tempo em que morava em são paulo. agora já moro no outro lado do oceano, como lembrou alguém em uma mensagem anônima que li hoje, perguntando se vim para cá atrás de homem. eu ri. minha amiga recém voltou da espanha e diz começar uma campanha para que nosso amigo encontro logo o amor, ela está feliz aqui, com o menino do meu estado, cantamos música sertaneja e cozinhamos muito, hoje eles consertaram todos os móveis da sala. meu amigo em breve irá levar o menino que ele gosta para sua pequena cidade, no interior de minas gerais, enquanto isso, um casal de amigos meus está no egito, minha amiga acabou de voltar de Colónia, e meu amigo do futebol e da poesia, que mora em Paris, está aqui, e logo iremos nos encontrar no meu lugar favorito, amor records. hoje passei o dia editando um vídeo que gravei com minha irmã, do percruso da zona sul até o centro histórico de carro, e o sol era forte e vinha por todos os cantos, tive tanta vontade de chorar, de chorar porque retornar é sim possível, e todos meus amigos, debaixo daquele sol vivem a vida de uma forma possível porque estão juntos embora exigam apenas o inesperado e o extraordinário. hoje disse para meu amigo que não posso mais trabalhar com ele, enviei uma proposta de trabalho para outro amigo porque sei que para ele também isto é carinho. sei que em breve meu amigo virá de Madrid e nos abraçaremos fortemente, sei que em breve meu amigo virá da Malásia e ele me dirá palavras muito fortes, que preciso ouvir, porque sei também que admiro neles a capacidade de saber aonde exatamente estão. meus amigos estão em são paulo, voltaram para o natal, meu amigo voltou a fazer drag, e quase se apaixona muito frequentemente, ante-ontem foi aniversário da minha amiga mas ela dedicou muito tempo a me dizer que preciso ter coragem, especialmente no amor. há poucos dias estreiamos nosso filme e era eu a dizer a ela, depois de uma fala ao público, está tudo bem, já passou, nos resta rir, aqui regra o signo de sartigário. faz tempos que pedi ao meu amigo que me mandasse algo que escreve, embora eu mesmo já não escreva e isto me faça muito mal. estamos no fim do ano, hoje olhei a foto de minha avô, e de como quero lembrar dela como alguém que não se rendeu. eu disse a minha irmã, isto é importante para mim, depois de nosso desentendimento na exposição brasileira. é quase o fim do ano, todos os sensistivos falam bem do meu signo solar, tenho medo de cair como todos os outros ou pior, medo de pegar atalhos, elevadores, escadas rolantes, o que não faz o meu feitio, medo de perder por não ser eu mesma. sinto uma falta absurda do mar, meu amigo terminou o relacionamento com o menino que gostava depois de conhecer seus amigos portugueses, minha amiga pisciana está na cidade e precisamos nos ver de novo, mas amanhã haverá um temporal de nome emília. comemos pasteis de nata esta semana quando ela brigou com a amiga belga e ela me contou que conheceu uma mulher e de como foi duro o retorno com o ex, o retorno que não lembrei por preferir esquecer. eu quero dizer que gosto dela, eu quero dizer a todos meus amigos presentes e distantes o quanto gosto deles. neste momento onde quando como sinto sentar-se comigo todos meus amigos de minha cidade e como por todos, e corro por todos, e durmo por todos. Ando inquieta, eu mesma acabei de voltar dos pirineus, e não reconheço bem este quarto onde vivo, muito pequeno, muito só. Eu quero ligar para minha amiga que mora na argentina e dizer a ela que ela está certa sobre tudo, preciso dizer a ela que eu descobri outra vida no País Basco e não quero deixá-la ir embora. E que sentir o amor, este tipo de amor que para mim é dos mais reconhecíveis e valiosos, é para mim a felicidade. E de como me emociono com isto, com este rosto, e de como espero firmemente estar à altura dele e da situação. E que no fundo é isto que eu sou, como se estivesse retornando a mim mesma finalmente depois de anos. Eu sei que ela choraria e eu choraria, ao dizer das cavernas que entrei, dos espíritos antigos, das bruxas como nós, do cinturão de ferro do dia em que pensamos ter vencido a guerra, do ficar o dia todo em casa, em uma casa que não é sua com uma vontade que agarra todos centímentros do corpo e ignora qualquer geografia ou contrução. E talvez, possamos falar em poesia de novo. Mas antes tiro o tarot, digo a minha amiga, não tirava o tarot agora o faço, porque tenho algo que não cabe no peito e tem medo enfim da palavra. Tiro cartas de espera seguidas de cartas de extrema felicidade, dúvido. Enquanto isto, na metade do mês, quase enlouqueço com tanto trabalho, penso em como seria mais fácil a vida falando outro idioma, penso no ano novo em que passei sozinha na zona norte de porto alegre, apenas com meu violão e o coração cheio, cheio de esperança e de tudo que desejei. Penso nos livros que quero escrever, penso em tirar a carta e viajar rumo ao sul do meu continente com ela. Penso em dizer aos meus pais que os amo, de insistir com amigos que não vejo há tempos, penso nos filhos que quero ter, que são sim tão importantes para mim, penso no amor, como rezo para o mundo um prolongamento. São estas pequenas coisas, estamos vivos, a duração de um segundo contra o século, teu rosto tocando meu passado e futuro, as histórias que contamos para dar as céus nuvens que são nossas, para reclamar o tempo também para nós. Estou cheia de medo, estou cheia de desejo, e ambiciosamente em busca de me unir na face elaborante do amor. Pela primeira vez, quando e talvez, porque vejo algo tão lindo, reconheço este medo mas também, quero dividi-lo, e quero celebrar tudo o que não é ele. Estamos juntos é tudo que eu quero dizer, na velocidade infreável dos próximos anos, com a cara a postas, os amigos a mesa, e tudo que um dia ainda diremos massageando o ar, a pele, o mais fundo das palavras e de nossas gargantas.

quinta-feira, 13 de outubro de 2022

Os dedos

Foi o dedo dele que o trouxe aquele mundo. Era redondo, e extremamente separado dos outros dedos do pé, como se tivesse problema de sociabilidade ou vontade própria. Ou como quisesse fugir. Mas o importante não era o que o diferenciava, mas o que o unia. Era o mesmo dedo que meu pai possuía, que era o mesmo dedo de meu avô. Algo que só fazia sentido enquanto todos estavam reunidos, e quando separados, parecia uma pequena aberração da forma humana. Como se houvera duas pessoas a dividir cada pé. Um desenhista cansado.

Eu não era nascida. Mas minha avó conta que trouxeram o menino em dia de Cosme e Damião. Como se fosse um pacote de doce, como se o doce fosse a cura, foi isso que pensou minha avó, ainda deprimida pela morte do marido. Ainda assim não se deixou convencer. Recebeu a criança por desespero, a colocou no centro da sala, em cima do sofá, e a examinou como um joalheiro em uma investigação prolongada. A mãe havia morrido no parto, a vizinha trouxe a criança, muito quieta, a ponto de só por isso duvidar que era filha de meu pai. Não havia intenções de dinheiro, não havia interesses às claras. Minha vó examinou cada pedaço do pequeno até chegar nos dedos do pé e ali tinha certeza, era seu neto.

Segundo meu pai, os dedos de nossa família nem sempre foram assim. Foi depois que meu avô foi para o quartel. Não conseguiu fugir do país a tempo, era o início da ditadura militar. Pior do que o colocar na cadeia os militares o colocaram dentro do quartel, antes de entender tudo que estava acontecendo, aténs de ter idade para ler livros, estudar, conhecer gente, ir a congressos clandestinos, participar de partidos ilegais, quando tudo era apenas uma raiva sem nome. De noite, nos confins da fronteira, no extremo sul, ele e seus amigos viviam uma vida dupla. Contra o inverno eram peões livres, sabiam usar a lenha, cultivar a comida, sabiam reconhecer os animais e usar o frio ao seu favor. Nas leis do quartel tinham dono e tinham um corpo em que se hospedavam, no máximo. Em algumas noites conspiravam. Tinham um rádio onde ouviam em castelhano as notícias vindas da argentina e Uruguai. Os governos de lá ainda não tinham caído e a rádio pirata tentava ao máximo denunciar crimes a partir de histórias que todos conheciam. João, Pedro, Afonso, dizia a rádio. Todos conhecem no Brasil um João, um Pedro, um Afonso. Como saber se não esses que se encontram presos? Como viver com a dúvida? Meu avô e seus amigos decidiram tentar escapar para o Uruguai mas na primeira tentativa foram pegos. Foram deixados no meio do campo por semanas sem água, comida, no frio do inverno subtropical. Dormiram em covas abertas de defuntos em cemitérios abandonados, se alimentaram de pequenos caramujos. Quando enfim acharam que tinha acabado tudo, os soldados que nunca haviam lhes perdido de vista voltaram com a última lição. Como vocês são um grupo, disse um tenente, vão sofrer com um grupo. Um levou uma surra na cabeça, outro teve as mãos deformadas, outro os ombros detonados. Meu pai, teve os pés massacrados. Se juntar todas as partes avariadas temos um morto completo, riu um dos cabos compreendendo a mensagem do tenente. Sempre em um grupo há um morto. Todos igualmente haviam perdido algo. Depois disso, foi dispensado por questões de saúde.

As irmãs de meu pai riam quando ele dizia que o soldado passou de pai pra filho. Depois de ter os pés torturados, com sua pisada levemente torta, seu filho nasceu com a mesma deformação que agora tinha. Para a família era uma coincidência infeliz, mas uma lembrança, de que meu avô tinha sobrevivido. Que a família era forte, um sinal divino, abençoado. Não era, como estava certo meu pai, uma herança passada automaticamente, como se parte de meu pai tivesse começado a nascer diante daqueles cabos aturdidos e sanguinários. A genética não explicava este absurdo. Não fazia sentido. Era impossível.

Meu pai não recebeu bem meu irmão a primeira vista. Estava com um certo medo, medo do julgamento, medo da família. Ele não sabia ao certo nem de qual mulher o menino tinha vindo. Dessa forma, demorou um certo tempo até descobrir. A partir disso, se afeiçoou mais a ele, amor que cresceu aos poucos. Com o passar do tempo o menino virou sua maior felicidade. Levava ele para mostrar aos colegas do trabalho da fábrica, nos encontros com outras mulheres, tirava fotos sem parar. Virou sua maior conquista. 

Depois de um tempo conheceu minha mãe, ela era enfermeira em um posto de saúde. O menino tinha uma febre que não baixava. Minha mãe recebeu o menino de peito aberto como se fosse seu próprio sangue. Era como um pequeno adulto, muito educado, muito quieto, mesmo quando doente, era uma doença imperceptível que apenas os mais chegados poderiam notar, com certa dificuldade.

Quando meu irmão fez três anos meus pais começaram a ficar preocupados. A criança ainda não falava. Nem mamãe, nem papai. A criança não falava nada. O levaram a médicos, especialistas. Nenhum conseguiu encontrar o motivo. Em sua fisiologia tudo estava bem, era saudável de fazer inveja. Isto começou a incomodar meu pai. Ele tinha medo de isto ser uma espécie de castigo. Algo nele intuía que aquilo não iria melhorar. Começou uma obsessão. Foram contratados pedagogos, fonoaudiólogos, neurologistas, todo tipo de especialista. Linguistas. Todos métodos de alfabetização conhecidos foram aplicados. A criança se recusava a falar uma palavra qualquer. Foi a essa altura que vim ao mundo. Como um pedido íntimo de meu pai e minha mãe de que as coisas fossem normais.

Meu irmão era como qualquer outra criança. Poderia vivenciar a tristeza e felicidade em seu ponto mais alto, sem amarras. Em puro êxtase. Era uma criança divertida, inteligente, cheia de energia. Mas não falava conosco. E isto não o preocupava. A mim tampouco. Meu irmão veio antes de mim ao mundo e para mim ele era o mundo que eu conhecia. As vezes sentia que vê-lo já era todo aprendizado que eu precisava. Queria ensinar a ele nossa língua mas a verdade é que meu irmão não precisava de nada, nunca precisou. A medida que ele crescia o verdadeiro problema era meu pai. A não expressão desejada de meu irmão virou sua vergonha. Ele sonhava compartilhar com ele as histórias que ouvia de seu avô, do jeito que foram contadas. Usar as mesmas expressões, até ouvir de sua boca os mesmos xingamentos. De falar palavras que só eles entenderiam o resultado. De ensinar o nome das plantas, das constelações, da comida, as lendas, assim como seus ancestrais chamavam.

Um dia, meu irmão estava mexendo na TV a cabo. Deveria ter no máximo oito anos. A essa altura já frequentava uma escola. Entendia tudo mas não se comunicava. Ele parou em um canal estrangeiro, TVE. Os apresentadores falavam rápido de forma ruidosa. Neste momento escutamos uma voz estranha vindo da sala. Lembro que cheguei primeiro, era calor, e meu corpo estava melequento, sujando o piso completamente e tudo cheirava a corpo, fungos, bactérias, fermentação, misturado com as flores da estação de nosso bairro. Meu irmão começou a falar comigo mas eu não o compreendia. Algumas palavras saltavam, como a palavra campeonato. Olhei a TV, homens e mulheres surfavam em uma ilha do Caribe, mas não conseguiam entender o que diziam. Meu irmão falava normalmente como se tivesse falado a vida toda. Mas falava em outra língua, falava em espanhol.

Não fez grande caso, chegou na cozinha e perguntou o que comeriam mais tarde. Minha mãe levou um susto. Acho que estava falando português mas como nunca tinha falado antes, no início, saia meio esquisito mesmo. Lágrimas escorriam de seus olhos de felicidade. Depois de um tempo a mostrei a televisão. Estes momentos onde os filhos ainda crianças ensinam coisas óbvias aos pais são os momentos mais preciosos da vida para quem sabe acolher. Mas a maioria não sabe. Minha mãe diante da loucura daquela situação decidiu não entender apenas comemorar com o que foi dado. A altura que meu pai chegou em casa, ela já havia comprado um dicionário de português-espanhol. Quando o menino pediu para “cenar”, ela já o tinha na cozinha, e entendeu rapidamente que o menino queria já a janta. Nada nele tinha mudado mas lá em casa tudo estava diferente.

As mulheres de nossa família pareciam não se importar. Não precisavam de explicação. Não precisavam que o neto o filho ou o irmão falassem a mesma língua que elas. Ele decidiu falar sua própria língua. Poderia um dia falar outras. Mas a língua de nossa família, ou se recusava, ou era incapaz de aprender. Incapaz até mesmo de escutar. Minha mãe foi a que mais rápido se dedicou aos estudos. Contratou um professor para toda família. Meu pai se recusou. Para ele era uma prova de que seu filho o ignorava. Que não o amava. Que era de qualquer coisa, ou situação, menos dele. Era como se não tivesse um filho. Ao longo do tempo começou a ficar muito calado. Quando se aposentou, e se aposentou muito cedo, passava os dias como um fantasma pela casa enquanto todos nós falávamos o castelhano, vivíamos uma vida normal. Não era um castelhano com acento argentino, ou chileno, caribenho ou do sul da Espanha. Era um castelhano com nosso acento. Uma língua feia, dizia meu pai, rude e distante. Uma língua que mesmo que se soubesse teria decidido esquecer. Embora claro, já saibamos, seja impossível esquecer uma língua. Impossível esquecer mas bem possível não aprender.


sexta-feira, 3 de junho de 2022

susana

nós achávamos que todos iam morrer. todos os vivos. digo todos que pensavam, sabiam, estar vivos, viviam a vida com uma sana de consciência. alguns já pareciam ter ido. suar cabeças, solilóquios desistentes, o corpo lento. estávamos em um quarto de hotel, havíamos chegado fazia uma semana e meia em Lima, e logo após, decretaram o toque de recolher. uma misteriosa doença. na américa latina? já havíamos sobrevivido a tudo, tudo longe era uma doença. parecia um deja vu historico eu comentei com susana logo nos primeiros dias. minha mulher me amava, sim. mas não o suficiente para me responder? não o suficiente para me contar o que passava, seus pensamentos distantes, encolhidos, periféricos. minha mulher me amava mas o amor nunca foi algo o mais relevante. o definidor. susana já estava distinta havia alguns meses e aquela viagem era uma desculpa para que pudessemos ficar distintos mas com uma razão a mais, exterior. eu a observava como um pássaro insistente, num dia de chuva, com  a barriga em pedaços. buscava em seu rosto qualquer rastro que poderia ser lido como um a palavra.

susana sempre foi cabeça dura. um teimosia charmosa, que vira impulso, e arrisca ser sedutora. nunca entendi porque me procurou. os anos que passamos juntos foram os melhores de minha vida, com certeza, mas como foi comigo, poderia ter sido com qualquer um outro. eu amava susana ao ponto dela me desprezar por isso, minha busca por compreensão, minha incapacidade de ficar irritado, meu trabalho árduo em mima-la, em demonstrar-me alegre com qualquer pouco, a minha não exigência de sua presença, de seu modo de agir, incapacidade de critica-la. não buscava compreender com análises sórdidas e psiquismos baratos o porque disto, mas sabia que a causava um desconforto. embora estivesse ali semrpe tive a sensaççao que minha mulher stava em outro lugar, como se esperassemos alguem que iria chegar a pouco. tenho essa sensação desde a primeira vez que a vi e nunca desapareceu. como se aquela fosse quem ela era mas ela nao gostava de quem era. quem seria essa pessoa? o que ela queriria? como seria susana perto dela? uma mulher ainda mais irradiante? alguem capaz a cedear a tudo?

a essa altura eu ja sabia o seu nome e endereço. eu mesmo já tive alguns casos com homens na faculdade e na adolescência, dois ou três, que me fizeram perdoar o resto de todos eles. encantamentos temporários, que nunca deram em algo mais sólido. mas aquele homem, entendi completamente minha mulher. era um grande jornalista que recentemente tinha sido demitido de um meio de comunicação importante de nosso país. tinha varios livros publicados, era destemido, escrevia sobre tudo: moda, esportes, crime organizado. era conhecido por um temperamento forte mas tinha, eu diria, olhos doces. olhos doces e levemente despencados o que conferia uma leveza a tudo que falava.

foi através de ana que descobri o nome de Federico. Susana só o chamava de um antigo namorado. não contava nada pontual, tudo era genérico. eu tive pena de minha mulher por algo a doer tanto. eu tive uma curiosidade tremenda de saber o que se passou. depois que ana tocou em seu nome, busquei outros amigos, professores da faculdade, trabalhos que estivessem atuado juntos, até o dia em que eu mesmo entrei em contato com o próprio. tinah acabado de ser demitido, a namorada havia o deixado. fiquei tão mal por ele que o convidei para um choppe, para nos conhecermos pessoalmente o que seria um risco. ele não se deu ao trabalho de pensar direito, me tomou um por um fã louco, um ex colega de trabalho que não recordava muito bem, um antigo aluno. precisava que alguem o buscasse de carro e pagasse algumas rodadas em seu bar favorito a lapa. precisava escutar as musicas alegres que mais amava e chorar e lembrar que elas tambem o faz chorar e precisava de alguem junto. se minha mulher descubrisse acho que nunca me perdoaria. considero isso uma pequena traição contra susana, mesmo com a melhor das intenções. era uma traição. me coloquei em primeiro lugar. e minha curiosidade ocupava um andar inteiro.

entre uma rodada e outra falou, falou. desabafou como se fossemos amigos de longa data. chamava por nome, sem contexto algum, pessoas como se eu as conhecesse. estava quebrado, deserdado por parte dos pais, tipos ricos da zona sul mas com péssimas filiações politicas, na faculdade estava sendo investigado por um comite de etica depois de dormir com uma aluna e só dava três disciplinas, incluído, etica. etica jornalsita. ele ria sozinho. falou que o ultimo livro estava na editora mas queria mesmo era sair por ai, escrever uma reportagem sobre a madeira na amazonia, ir a campo, investigar a monocultura no cerne das pequenas cidades, entende? nas igrejas, nos bares, falar com a gente. ele dizia que a monocultura não tem a ver com terra, é um tipo de pensamento que dispara na cabeça de pessoas, das mais gentis as mais familiares até as mais violentas. essa gente que vive nesse lugar de um dono só, com uma ideia que o tinge durante qualquer fio de horas. onde o patrão é tudo que há em volta. citei um faroeste de sergio leone, dos que vivem para trabalhar e trabalham para não morrer. ele riu, conhecia o filme, é claro. o peguei em cheio.

uma hora foi ao banheiro e quanto voltou, depois de escoar tudo que necessitava, finalmente perguntou de mim. acho que a cachaça o fez esquecer como favia parado ali, talvez, em sua nova reconfiguração de memoria, tivessemos dividido uma cerveja interminavel no boteco e assim que nos conhecemos. ar sou advogado, eu disse. advogado tributário. ele gargalhou como se estivesse o contando uma piada. esta é a hora que você me conta o que realmente queria fazer com sua vida, ele me disse e eu deixei o silencio inundar o ambiante. não tem mais nada que eu queria em minha vida, o disse denunciando minha pequenez aos olhos daquele sujeito. me preocupava com a manutenção. em manter o que já tinha. em segurar firme um momento e mergulhar nele cada vez mais, isto me dava um senso de movimento. estar. realmente estar, entende? ele logo desviou o assunto. não estava interessado em mim. ele era bonito em sua contradição. quando perdia as palavras ou o sentido da frase abaixava a guarda. era frágil. seria ali seu encanto? mas na maior parte do tempo era apenas algum rude, cansado, que falava dos outros para falar de si em uma filatropia disfarçada. um gozo coletivo que se resumia em uma piada interna. me perguntei se havia um serviço público neste comportamento. o homem não vai ao consultório do terapeuta mas denuncia uma quadrilha de roubo dee agrotóxicos ilegais e tudo é perdoado. minha mulher se parece menos interessante perto deste sujeito. não sei se puderia me apaixonar por ela. teria o deixado? penso no desespero de ser deixado por um tipo assim. nos sacrifícios que fez que nunca faria por mim. vejo brigas diárias e um sexo que parece valher a pena até que ele acaba. que seria bom também porque se acaba.

o deixei, paguei a conta. o pus em um taxi. podia sim ter ido a sua casa. termos bebido um uisque, tentado ver as fotos de susana em algum lugar. como quis ver as fotos um dia como quis imagina-los juntos. em minha mente ele era um tipo especial, com uma aura encantadora. um tipo a altura de minha mulher, maior que sua afetividade. atraente, justo. não me doia pensar neles juntos, ao contrario, me intrigava. confio em minha mulher tanto que confio até o passado. de quem escollhera para sua vida fosse alguem que nao a botasse em perigo, que fosse alguem que tinha a maquinaria da mente composta de uma forma genuínamente avassaladora. me senti confuso e de chateado, brochado até mesmo. desejava nunca mais o ver. desejava ter devisto o que vi. era um coitado, pensei. um lindo, bonito mas patético coitado. que  mesmo depois de ser deixado ou de fazer ir embora uma mulher a altura de minha esposa, não mudou em nada. era imutável perante as circunstâncias como uma era geológica. estava tão só como uma broca.

foram 14 dias naquele quarto de hotel. susana emudecida em frente aos telejornais em espanhol. eu me trancando no banheiro para falar com ana, minha amiga, me sentindo culpado por seu desprezo ou silenciamento. mas havia isto, uma doença misteriora nas ruas, estavamos no exterior, a televisao estava falando o idioma materno idioma da infancia de minha mulher, longe de casa, sem saber se viveriamos, se voltariamos, com as pessoas tendo os mais estranhos sintomas, impedidos de andar, como bois em uma baia. não era apenas o mesmo quarto de hotel. minha mulher estava presa no mesmo pensamento. não podia perguntar qual era não poderia me contar. mas poderia se irritar comigo. aquele podia ser o fim do mundo e ela estava comigo. nunca me fez para o fim do mundo minha mulher, sempre fui uma espécie de enquanto profundo. enquanto algo não acontece. enquanto ele ou ela não chega. sentia medo de em sua respiração ouvir o barulho escapando de sua imaginação, a fantasia de pegar um avião e encontrar com ele. aquele sujeito. ou qualquer que fosse. até mesmo apenas estar só. era como se a vida estivesse finalmente começando. 

foram dias em que me usava para dormir. e as palavras eram cobertar de mais silêncio. não a reconhecia. via nela a tristeza dele. via o egoismo dele no olhar desviado, a falta de coragem no modo de segurar os talheres. não tendo mais nada  perder, antes do fim da temporada de lockdown disse para ela que conheci um ex-namorado seu. foi sem querer, nos cruzamos em um bar. não contei antes não entendo porque, acho que precisava pensar sobre o meu lugar. pensar em mim mesmo, eu a disse. me olhou assustada como quem busca um local para se proteger. não sei se era vergonha, repulsa, raiva. se sentia-se extraviada, invadida, descoberta ou se apenas eu tocara em um assunto que não era de sua preferência, que era algo perto do nulo. minha mulher ficava cada dia mais irreconhecível para mim. não falei a verdade. que gostei do sujeito pelas razões erradas e intuo que ela tambem o gostou por essas razoes. que pensando bem não gostei do tipo. que aquilo não me agradava porque ia contra o que pensava dela e nao pelo que vi nele. naquele dia misteriosamente as porta do hotel se abriram. depois de algumas semanas a misteriosa doença assim como chegou se foi. entendi que precisavamos ir embora. o que mais me machucava em isso tudo era estar com alguem que entendi ser uma pessoa covarde. senão tinha coragem para estar com aquele tipo não tinha como eu estar com ela. o amor não se explica, uma vez ela me disse. citei a frase a ela e em seguida o expliquei. abri meu coração como uma sanduichera. entreguei tudo que tinha sabendo que morreria de fome nos próximos meses. queria que minha mulher fosse mais. sempre mais, sabia que poderia. ao chegarmos no brasil a deixei.

sábado, 19 de junho de 2021

você lembra

 Lembra daquele dia em que você saiu e eu desenhei nas paredes do quarto todo um mapa eu disse, ei, calma, é um mapa para sempre voltarmos para casa, além disso o giz de cera  sai com certo esforço e quando você voltou voltou com uma voz rígida e elástica e foi ela que gritou algo do tipo

você não é mais uma criança para ser proibida de ficar sozinha, para destruir a casa de nossos pais em menos de uma hora, ainda mais nunca vi um mapa do tamanho de uma casa isto não faz sentido o mapa tem que ser passível de ser levado

E você caiu duro no carpete porque tinha esquecido de tomar seu remédio

E agora este era você um nome um corpo como bolinha de pinball dentro

Do seu surto epilético, batendo batendo, só faltou os ruídos serem em teclado midi

Coloquei a mão em sua barriga como se fosse o topo de uma montanha congelada

Tentando segurar o gelo acumulado por anos para que ele não caísse

E o vilarejo ao redor sobrevivesse a uma possível avalanche

Coloquei um travesseiro embaixo de sua cabeça e deitei no seu corpo como quem tenta forrar o sol excessivo num dia de praia e você ainda vazava por baixo de mim embora eu esperneasse para juntar os braços e as pernas melosas, moluscas, sólido estuário,

Ainda assim uma hora você parou foi aos poucos e eu olhei tanto para as paredes que entrei nelas e senti os riscos em mim as margens as trilhas os caminhos o peso do tesouro um borrão de giz

Surgiu uma tristeza muito grande e corri para o banheiro para me lavar o mais depressa

Quando você acordou na sua cama eu esfregava ainda os rodapés do quarto

Eu te dei o remédio então disse acho que não está dando certo

Limpar é inútil

E você disse tudo bem querida não tem problema sobrou um pouco de tinta amarela no porão

E foi assim que ficamos com o quarto todo dessa cor, você lembra?

Logo depois mamãe ficou doente e a internaram na clínica. Mandamos mensagens para nosso pai com diversos perfils fake na internet, oferecendo até mesmo vagas de emprego, fizemos de tudo para que entrasse em contato mas ele apenas visualizava e não respondia - talvez fosse um sexto sentido contra a gente. E então a assistente social veio e conseguimos convencê-la de que sua certidão de nascimento estava errada e você tinha de fato 20 anos, um emprego estável como fabricante de portas e um humor de dar inveja a qualquer terciário. Seu nome era Eva, como de nossa avó, e quando ela foi embora confundimos as duas coisas e quase imploramos que ficasse mas ela foi, eu olhei seus olhos vermelhos como duas panelas de pressão pensando ai meu deus o que será que tem ali dentro agora, você abriu um pacote de salgadinhos sabor laranja (era assim que chamávamos, como se as cores fossem sabores mesmo porque essa era a realidade da indústria de alimentos) e você disse agora é só eu e você, agora somos só nós dois, e as migalhas corriam da sua boca para seu pescoço e grudavam no sofá e pela primeira vez na vida eu comecei a me importar com a saúde e com a vida dos sofás.

Por um tempo fomos o melhor que poderíamos ser porque éramos nós mesmos no futuro

Eu era uma adulta de onze anos de idade

Você era uma criança com muitos anos de idade mas o responsável

Limpávamos a casa com a mangueira do jardim, guardávamos as sobras dos dias para fazer a sexta-feira da lasanha, que era o resumo da comida de uma semana inteira, nossos rituais de ir dormir onde contávamos o que faríamos no outro dia como se fossemos corretores famosos da bolsa de valores para pegar no sono

ah sim meu chapa eu ouvi falar que o futuro está na engenharia de energia ligada a células de movimento, vamos vender a energia dos passos dos trabalhadores de Manhatan, ouvi dizer que a seção do Banco Schelmann vai fechar porcausa da inflação na Estônia ou do caso da Ruth com a vodka de quiabo, não lembro bem

E dormiamos

E você me levava a escola

E eu te levava ao médico

E regulava seus remédios como um astrônomo mede a luz de uma estrela

E você sera meu deserto Atacama

Com o observatório de Astronomia do deserto do Atacama bem do centro

E quando a pensão da mamãe caía no banco gastávamos uma parte considerável em comidas de outros países para fingirmos estar viajando e quando você dormia

Eu nunca contei isso

Mas eu costumava falar com você enquanto você dormia

Porque eu queria que me conhecesse verdadeiramente

Eu dizia eu vou cuidar para que tu tenhas sempre todos teus dentes ou seja para que tu nunca tenhas uma crise de novo mas se vier tudo bem

Eu não gosto de frutas pequenas porque me lembram uma timidez que me deram quando bebê mas eu as compro para você

Eu não me importo se for sua mãe agora porque no futuro você será ainda meu irmão

Eu te amo até mesmo como um mapa embaixo da água

Porque não precisa ser perfeito

Só precisamos lembrar o caminho de casa

Mesmo sem nunca ter tido nenhuma casa

E os mapas virem antes

das Casas