Quando a encontramos, era uma noite sem lua. Nas noites sem lua gostávamos de fazer um jogo que consistia em andar pela cidade fugindo das luzes, silenciosamente, e contar um segredo. Aquele segredo seria um farol, para a memória, a noite mais duradora. Mas isso não sabíamos. Foi assim que a disse pela primeira vez que gostava dela. Foi assim que descobrimos muitas coisas um do outro, como quando ela testemunhou a morte do tio, ou quando achou que morreria em um barco em Johannesburgo. A doença de meu pai e a mania que tinha quando criança, de roubar coisas das pessoas de que gostava e enterrar no jardim para alimentar as plantas. Era uma noite sem lua, com muitas nuvens. Estávamos na quinta de São Inácio, um pedaço de terra antigo de seu bisavô. Andamos por horas na mata, guiados pelas luzes dos celulares, pelos ouvidos do peão Eugênio, sem conseguir distinguir quase nenhuma imagem, o que era vento com o que era bicho, o que era passado e o que era futuro, o que era noite inventada e noite real. O cão de Eugênio mergulhou o focinho na terra, jogamos ao lume de um fósforo, havia pegadas humanas em meio a algo que pareciam cavalos. Meu primeiro instinto fora o de meter os dedos naquela marca que poderia ser dos seus pés, enfiei os dedos na lama molhada e dóceis, que cedia facilmente, coisa que ela poucas vezes fez, como quem tem certeza de que a encontraria ao fundo. Limpei-me na minha própria camisa, ridículo, e olhei para Christian assustado. Aquele homem que mal falava nossa língua e que estava no meio do nosso país, sem pensar direito, sem saber dos perigos daquela mata. Das cobras, dos mosquitos, dos grileiros, dos fazendeiros, e que não tinha ideia de onde estava se metendo, mas, assim como eu, estava à sua procura. O cão se pôs a correr por uma trilha e o seguimos até um estrado. Não havia latidos. Quando chegamos, andamos mais um pouco, lá ele estava junto aos bois, lambendo a ferida de um deles, na perna esquerda. Mais adiante havia um aglomerado de cabeças, talvez umas trezentas. Eugênio calmamente começou a andar entre os animais, então se agachou. Pude ver uma mancha amarela refletindo de uma fogueira. Ela estava entre os animais, serenamente. Quase nua, coberta de terra e irreconhecível. E dormia silenciosamente.
Eu queria dizer que a conhecia durante toda minha vida. Que na maternidade, dividimos talvez os mesmos quartos ou as primeiras vozes humanos que ouvimos quando viemos a este mundo foram das mesmas pessoas, um médico apressado e uma enfermeira que falava muito justamente por não ter paciência. Queria dizer que crescemos juntos, que subíamos as árvores atrás de carambolas depois da escola, que decorávamos o grande raio de árvores frutíferas que separava nossas casas, ligada por uma mata rasteira mas rica e que a única diferença entre nós é que ela comia as frutas por prazer e eu as comia pelo seu caroço, pelas sementes, pelo gesto de jogá-las pelos cantos, e pensar que algum dia algo ali poderia nascer, algo poderia vir por mim culpa, por minha ação. Eu gostaria de dizer que comigo ela não tinha segredo algum porque quando nos conhecemos na infância isto de segredo não existe: a linguagem ainda é maleável, não é algo tão sério. Os segredos vem depois, as portas fechadas vem depois, a espera na linha – a eterna música da espera na linha, vem depois. Gostaria de recontar toda nossa história como se tivesse sido uma testemunha., mesmo que silenciosa, de sua vida. Porque era isto que eu sentia, porque é isso que eu senti quando a vi pela primeira vez: um amor de trás para frente, capaz de amá-la de forma instantânea por tudo que já havia feito ou pensado. Ao mesmo tempo, um amor sem futuro. Sem chance para acontecer.
Nesta vez, a que realmente foi a primeira que a vi, estávamos eu e Chrsitian em um dos poucos botecos do centro desta pequena cidade. Ela estava sozinha, com os pés no chão, e escrevia sem parar em um caderno. Agenor, o dono do lugar, viu nossa atenção presa a ela e com desdém disse que não entendia uma mulher vinda de uma família rica, com tantas posses, se comportar assim. Ela não era bonita, não exatamente. Mas tinha uma presença firme, que descosturava a paisagem. Intui ser capaz de acreditar em tudo que me falasse. Em ser captado por qualquer expressão sua. Usava um vestido bordo que acabava antes dos joelhos, levemente rasgado. De vez em quando ria sozinha, cheia de si, como quem esnoba todos os presentes como quem diz não precisar de ninguém. Era única em meio aquela gente que repetia nomes, sobrenomes sem parar e personagens velhos. O filho que virava seu pai, que provavelmente morreria igual seu bisavô, por uma disputa qualquer em uma aposta de bar. Quinhentos anos de sobrenomes que se repetiam, de decisões que envelheciam mal, de profissões escassas. Todos se conheciam, todos eram iguais para não dizer parecidos. Aquela era a terra da família de meu pai, eu sei o que digo. Uma terra de imensos desertos, sem gente. Um deserto verde, de lavouras intermináveis que acabam até mesmo com a ideia de horizonte, com a ideia de início ou fim. Onde a terra pobre gera quilos de alimentos que não alimentam, que vão para outras terras. Onde o silêncio vem dos bichos que nos abandonaram, portanto, este é o pior tipo de silêncio. Um lugar sem movimento, pior do que a morte.
Eu e Christian havíamos chegado não fazia nem uma semana. Estávamos na Suécia, onde vivi por 9 meses. Eu havia começado a fazer um curso em mercado de ações, com a desculpa de que poderia ajudar os negócios da família. No segundo mês, abandonei o curso mas não falei disso para meus pais, que era quem pagava a universidade. Cheguei no inverno e as noites entravam dentro dos dias e infectavam até mesmo meus sonhos. Eu dizia para Christian, eu so sonho com a noite. Você percebe o que estou falando? Christian não sonhava, ou pelo menos, não lembrava de seus sonhos. Isto era apenas uma das muitas coisas que não tínhamos em comum mas que nos unia por ele ter uma paciência hábil e uma escuta generosa. Talvez fosse porque nos dois fossemos estrangeiros naquele país que não gostávamos, talvez fosse porque ele falasse algumas palavras em português e eu pudesse ser eu mesmo com ele. Ele havia tido uma grande paixão por uma menina brasileira, que conheceu na Suíça quando trabalhava em um albergue, uma paixão que nunca fora esquecida e volta e meia, quando estávamos bêbados, voltava com tudo lhe tirando as pernas, os pés, qualquer chance de equilíbrio. Era um destes estadounidenses que descobrem que há vida além de seu país e fazem de tudo para não voltar para casa. Com Christian descobri uma intimidade que nunca tive com meus irmãos. Éramos companheiros de casa, fazíamos compras juntos, assistíamos a filmes de ação ruins. Jogávamos tennis em uma quadra aquecida, esquiávamos. Assim, um dia eu lhe contei que teria que voltar para o Mato Grosso, Chrstian se inclui nos meus planos e eu não titubiei por um segundo porque já estava acostumado a sua companhia, a sua segurança e sabia que encontrar minha família seria muito mais fácil com sua presença. Teríamos que falar mais o inglês e esquecer as palavras em nossa língua que nos machucavam tanto e tão frequentemente. As palavras não podem se renovar, infelizmente. Meu pai estava doente, sou o primogênito, tenho que estar presente. Christian me perguntou o quão perto era o Mato Grosso do Espírito Santo e eu disse que era longe, muito longe. Tinha um péssimo plano de parar em Vitória para encontrar a antiga menina que eu carinhosamente chamo de três semanas, porque foi, realmente, o tempo que durou.
Naquele dia, Christian estava triste porque havia finalmente entendido que a menina não iria querer vê-lo, mesmo estando no Brasil. Ela havia parado de responder suas mensagens, assim que desembarcou em São Paulo. O arrastei comigo. Ele chorava um choro fino, com soluços quase imperceptíveis e eu não conseguia entender se era saudade ou uma acomodante humilhação. Conversamos a noite toda, no balcão do bar, em frente a ela. De vez em quando via Christian a perseguindo com o canto do olho, no meio de alguma ou outra palavra que eu o dava. Fiz o que os amigos fazem nestes momentos, dão futuros possíveis. Mentem, usam a imaginação, o que preferir. Disse coisas como, veja bem, não era para ser. Talvez gostar dela foi só um jeito de tirar da Suécia, talvez coisas boas aconteçam aqui. É sobre você, não entendeu? É sobre o que você tem para dar. Christian ficava surpreso com meu discurso preparado para ocasiões como essa. Seus amigos não costumavam se interessar tanto por seus problemas, não pense nessa baranga, talvez diriam. Você pode ter que você quiser, elas são todas iguais. Eu sentia pena dele por me dizer isso, mas o admirava em seu exagero. Eu sua fidelidade com o impossível. Em um amor que era só dele e não envolvia nenhuma outra mulher. Não falamos dela, naquela noite. Eu não saberia como abordar o assunto. Mas sabia que os dois estávamos intrigados. E sabia que a cidade poderia facilmente se reduzir ao lugar em que estava, o que estava fazendo.
Um dia fui tomar banho de rio. Deixei Chrstian com meus irmãos, precisava ficar sozinho. De início, acho que alucinei ao entrar na água. Senti perder controle do meu corpo por alguns segundo, senti mãos quererem me empurrar para fora da água, como quem diz, aqui não. Ainda não. Te conhecemos? Sinto que o nome da minha família era mal visto até mesmo para as águas que corriam da nascente até a foz. Sinto que as folhas conheciam nosso cheiro, que elas alertavam os insetos, que levavam a mensagem adiante. Não que haja uma consciência coletiva nos seres, na natureza, não que ela seja igual, ao contrário. Mas contra nós, se unia. Eu dizia baixinho, com os olhos abertos e doloridos contra o sol, não tem nada a ver com isso. Estou apenas a cumprir o papel de filho. Me perdoe, não sou como eles. De repente, ouvi uma voz dizendo: não se preocupe, não se preocupe! Era a voz de Eugênio, que trabalhava na fazenda da família dela. Vinha com ela e seu cachorro e de repente éramos quatro ali, sozinhos, no meio daquela ilha de verde.
Eu não saberia dizer o que aconteceu. Mas sei que naquele dia conversamos muito, eu ela. Eugênio era mais silencioso, consentia e aprovava mais do que se expressava. Ela diz se lembrar de mim, mas não de rosto. De nome. Sua mãe já havia comentado que estaria na cidade, depois de décadas fora. Que meu pai estava doente e ninguém sabia o que ele tinha, que estava desesperado ao ponto de buscar diferentes tipos de gurus espirituais, e havia prometido até mesmo construir duas ou três igrejas evangélicas em troca de sua melhora. Eu estava muito nervoso de início mas ao mesmo tempo muito cômodo. Ela era o tipo de pessoa que faz alguém se sentir bem, que sabe lê-las com perspicácia, o que deve ser algo perturbador para si mesma. Me perguntou como estava, o que achava de toda esta história. Não sei eu disse. Faz anos que não penso nos meus pais, na minha família, nesta casa. No que fazem. Tudo que faço é para não pensar. Só estou aqui para garantir que as coisas não piorem, que mesmo se forem ruins, que sejam as menos ruins possíveis. Ela disse que havia gostado muito de mim e talvez um dia me contaria o porquê. Mas aquele ainda não era o momento. Eu podia sentir a vibração de seu corpo perto do meu, o que ele acordava em mim. Se ela erguesse um dedo na minha direção eu seria capaz de desmoronar. Eu chegaria em casa depois deste encontro e testaria meus braços, minhas pernas. Eu diria pra minha coxa, você sempre foi assim, ou está me pregando peças? É capaz de um braço agir dessa forma? Onde vocês estavam o tempo todo em minha vida, porque me enganaram de suas habilidades?
Começamos a fazer muitas coisas nós três juntos. De início, eu ela e Christian, depois, Eugênio começou a nos acompanhar. Em um dia bom, caminhávamos bastante e ela nos explicava toda a história daquele solo. Ela tinha aprendido ler a mata com um senhor que trabalhou na fazendo do seu pai, quando era criança. Pelas folhagens sabia a composição do solo. Pelos tipos de nuvem, o que era bom de plantar, onde estava cada tipo de árvore. Sabia onde havia bichos mortos, sabia onde nada vingava, onde tudo daria fruto. Confiávamos cegamente nela. Eu conseguia ver os olhos de Christian melhorarem, conseguia ver o que o afeto dela fazia nele. Ela o dava o que eu não poderia, abraços longos, beijos na testa. O fazia enrubescer a qualquer momento de descompressão, o defendia quando faziam piada da sua ignorância ou humildade extrema. Eu e ele nunca conversamos sobre isso mas sabíamos que era impossível tê-la, nem por uma noite. E para nós bastava. Bastava vê-la movimentar-se com confiança, com sua voz baixa e contínua, bastava como sempre inventava que reconhecia um pássaro que nos chegava perto, com nomes que inventava na hora, bastava vê-la comer ou como tratava todos os habitantes daquela cidade com muita dedicação. Ela se esforçava para fazer daquele lugar uma cidade, um lugar para as pessoas. Mesmo que não se sentisse em casa, não, nós sabíamos, ela não pertencia ali. E também não entendíamos porquê não ia embora. Era como se estivesse esperando alguma coisa.
Então começaram a acontecer estas coisas. As cabeças de gado começaram a desaparecer. Primeiro, foi no rincão do Seu Assuntino, 200 animais evaporaram da noite para o dia. Minha família foi a próxima, 150 animais apenas não estavam lá de um dia para o outro. Assim foi sucessivamente, até somar, com todos da região mais de 1000 desaparecidos. Diversos peões foram demitidos. A polícia trabalhava com diversas linhas de investigação. Perguntaram se tínhamos inimigos, se algum trabalhador da fazendo poderia fazer mal a nós, poderia ter-nos traído. As outras fazendas tinham seus mercenários, seus capangas contratados que passavam de cidade em cidade pressionando qualquer novo rico que aparecesse. Assustando a todos em bares, prostíbulos, fosse gente da política ou gente sem nenhum poder ou fama. Aquele conjunto de pequenas cidades virou um terreno hostil. Todos se olhavam com desconfiança. No meu caso, não dedicava muito tempo a pensar nisso. Me importava sim como afetava meu pai. Nesta altura já não consegui mais falar direito nem andar. Se comunicava por meio de algumas sílabas, parou de conseguir fazer o som do L e o som do F por exemplo. Poucos o compreendiam e escondíamos dele a perda da fazenda que era em verdade muito pequena comparada as quase 10 mil cabeças de gado que tínhamos. Entendemos que tudo que poderíamos fazer era aguardar sua ida. Depois disso faríamos os trâmites necessários, financeiros, administrativos. Depois disso eu iria embora novamente.
Christian nos perguntou se aquilo era comum. E se não era comum, porque ninguém falava do assunto. Por que não víamos em telejornais, porque não havia mais agentes de segurança e especialistas e roubos no campo. Eu tentei explica-lo que seria muito vergonhoso e essa gente tentava resolver seus problemas do jeito deles, não do jeito certo. Ele se sentia em um filme de bang-bang. À esta altura o português já tinha melhorado muito, já havia esquecido a menina de Vitória. Estava atuando como bombeiro voluntário da região, estávamos nos preparando para a temporada de seca e de queimadas, e a pouco conheceu uma menina que trabalhava com trilhas em um parque estadual, o que o deixava cada dia mais a vontade com aquela região. Sobre nossa amiga, nós a víamos cada vez menos. Principalmente de noite, quando saíamos para nossas caminhadas, quando fazíamos alguma fogueira e contávamos histórias de nossa infância. Ela lembrava com detalhe tudo na sua vida, diz ela, desde que estava na barriga de sua mãe. Sempre fora assim, era a memória da família. Era quem as pessoas recorriam para se certificar que tal coisa havia acontecido e de como havia acontecido. Mas agora, parecia cansada, abatida. Seus abraços diminuíram, se tornou mais silenciosa. Custava-me a crer que estivesse por exemplo se alimentando. Podia ver o osso moldando sua carne, seus cabeços quebrando no final dos ombros. Seus olhos a cada dia mais fundos, tão fundo, com dois leitos asteroides. Mas nossas perguntas sobre seu estado eram inúteis. Nunca falava de si, nunca falava do que realmente sentia. É uma dessas pessoas que está sempre disposta a fazer algo pelo outro, mas que a qualquer sinal de abertura, sentíamos o barulho da encilhada agindo. Tinha medo que minha preocupação a afastasse cada vez mais. Então, apelei e um dia conversei com Eugênio. Ele me garantiu que em sua família tudo estava bem. Ela morava em uma casa afastada dos pais, feita de madeira, simples e sem caprichos. Mas não é porque não se dava bem com eles. Nada aparentemente tinha mudado, nem financeiramente, nem estruturalmente. Eugênio também não sabia de ninguém que poderia ter chego ou ido embora da sua vida. Era amiga de todos e de todo mundo mas nunca a havia visto nem com um homem nem com uma mulher. Não sabia nem se considerava este tipo de aproximação.
Foi antes da morte de meu pai, uns dois dias antes eu diria. A soma já estava em três mil gados desaparecidos. Mortos? Fugidos? Não se sabe. As câmeras não mostraram nada, as câmeras mostraram isso: um desaparecimento. Nenhuma tecnologia do mundo era capaz de explicar o que aconteceu. Alguns criadores já cogitavam vender as terras e transferir o cultivo. Alguns, os pequenos, já tinham ido embora e o preço das terras em geral estava mais baixo do que nunca. Os mais velhos falavam até mesmo que se tratava de algo sobrenatural, algo próximo a maldição. Ninguém se importava se os bichos estavam vivos ou mortos, apenas queriam achar o culpado. Estávamos jantando em casa e meus irmãos se demonstravam muito preocupados com as perdas. Era pior do que uma gripe ou qualquer doença, não sabíamos como enfrenta-la. Não a víamos. Eu estava cansado, sentia falta da minha amiga, sentia falta de Chrstian, cada vez mais envolvido na sua nova vida com aquela namorada que havia arranjado. Eugênio me ligou e me disse que fazia dois dias que não a via e isto nunca havia acontecido. Perguntou por ela em toda cidade, sem nenhum sinal. Queria saber se eu sabia de alguma coisa, pois a família estava preocupada. Nunca tinham sido capazes de compreendela, por isso mesmo, estavam mais afoitos do que nunca.
Assim começou nossa busca.
Christian nos encontrou depois da janta e fomos de casa em casa perguntar por ela. Nenhuma pista. Por um momento, cogitei a ir naquele rio. A mergulhar naquela água, a dizer, agora é hora? Tens algo para me dizer. Eu estava desesperado a ponto de usar as técnicas que ela usava para encontrá-la. Mas nós não éramos ela. Aliás, sabíamos muito pouco sobre sua presença. Apenas a amávamos. E nos preocupávamos por ela ter feito alguma besteira. Por ter se machucado feio. Por algum homem te-la pego em algum momento em que a viu desprotegida. Durante cinco dias nos encontramos todo dia, pela noite. Começamos a entrar na mata juntos. Nas trilhas, até mesmo no parque estadual, o que era proibido aquela hora da noite. Eu não vou mentir, achei que estaria morta. Eu falava mentalmente com ela todas as coisas que eu tinha coragem de dizê-la. Enquanto me doíam os dedos do pé e caminhávamos sem rumo por horas a fio na noite, guiados apenas por um cachorro, um cachorro sem nome, o cachorro do seu Eugênio, eu dizia o quanto a desejava, o quanto era especial, o quanto gostaria que me deixasse amá-la como eu queria. Nesta ponto, falava com uma morta. Tinha esperança de vê-la, nem que fosse como um fantasma. Uma despedida. Uma explicação. Lembra por que gostou de mim? Lembra do que contaríamos um ao outro?
Então o cão gritou. Vimos as marcas de pés, pequenos, humanos, leves. Inicialmente, como disse, pareciam trezentas cabeças de gado, todos ao redor dela, como se a protegessem. Como se ela fosse um deles. Ou o oposto. Eu sabia que estava viva. Eu sabia que estava bem. Eu sabia que nunca entenderia esta forma de estar vivo. Enquanto nos aproximávamos dela, e o cheiro de terra, estrume, de mato seco, o cheiro de urina, de bicho, nos acometia, nos tornava em apenas mais um deles, pudemos ver mais ao fundo até quando as nossas luzes deixavam ver, milhares de animais um ao lado do outro. Ela ainda estava desacordada e muito fraca. Andamos por uns três quilômetros e encontramos nosso carro. Eu estava muito aliviado e fiz algo que não imaginaria, rezei. Rezei e nunca falamos para ninguém o que aconteceu.