naquele tempo eu queria realmente me matar. andava a cidade a procura de algo ou alguém que colaborasse em meu plano. mas nada, nada me apetecia de verdade. os caixões eram todos feios, as armas todas muito brutas e difíceis de manejar. os remédios poderiam dar errado e tenho problemas para engoli-los. pensei de me jogar da ponte ou no meio dos carros. mas o medo de não conseguir me matar, o medo de me salvarem era maior, maior que tudo. havia pensando em alugar um quarto do hotel e me aplicar com seginga qualquer hiperdosagem. imagino alguém que trabalhe nesse tipo de lugar entrando, vendo a cena, me levando a um hospital. tenho medo de hospitais. tenho medo de ser um fardo, tenho medo de dar trabalho. tenho medo de ser salvo. outra opção seria uma autoamolação, mas eu sou muito burro, erraria com certeza a artéria correta. precisaria de ajuda, cirurgia, recuperação, para um dia, quando estivesse melhor, conseguisse achá-la, dessa vez, de forma certeira e rápida. pensei também de subir o morro, no meio da floresta, de simplesmente não conseguir voltar. mas tenho medo que não encontrasse formas de me matar la e ficasse a sofrer, a comer bichos nojentos, a me ver rezando para voltar, rezando para retornar para minha casa. nossa cultura não incluiu o suicídio, ao contrário de outras, não sabemos fazer um belo de um haraquiri. por isso, penso agora em aumentar minha pesquisa para dar conta de rituais, de magias. busco alguma simpatia que me leve a vida, como um sopro. misturo componentes em frascos, falo feitiços, digo por favor porfavor no final, não sei se é meu desespero que estraga tudo, não sei se é porque não sou digno. eu sei que pessoas boas vivem pouco, senão morro agora, não morrerei nunca. queria uma morte sutil, devagar, que ninguém desconfie que foi minha, sempre mim. este seria meu presente para o mundo. que não sujasse lençois, que não precisasse fazer pit-stop em hospitais e tirar um leito por algum tempo até ir ao necrotério. penso na ideia de um corpo desaparecido. há magia para desaparecer depois de morto? sou muito burro, devia ter estudado mais. penso em fazer um teste genético e descobrir qual alimento comer ou hábito adiquirir para ir dessa para uma melhor. ou fraudar uma dor no nervo trigemeo. ou adquirir dinheiro, casar com alguma europeia, e fazer suicídio assistido. não sou exibicionista. não goste de ninguém me olhando. acho uma falta de respeito. naquele tempo eu queria muito me matar mas a cidade era tão feia. tão feia, só pioraria tudo. guardei um dinheiro, andava cheio de ouro, nem os marinheiros, implorando para que entendesse o sinal: vendam tudo, me compre um terreno embaixo da terra. não preciso de dignidade, não preciso de opiniões alheias. analisei muito os guindastes das construções, os arranhacéus, os carros elétricos e os carros a gasolina, os animais predadores no zoológico, aprendi a tropeçar, a andar cambaleante, aprendi a não olhar para trás na eminência de algo me atingir, me treinei na arte de ser uma presa fácil, de sofrer um latrocínio, andando na rua durante as madrugadas com meus percentes para fora dos bolsos, me envolvi com mulheres dos outros, xinguei políciais, advogados, deputados federais, juízes, na cada deles, falei mal das torcidas organizadas. mas fiz muito mal feito porque não tenho raiva de ninguém, a verdade é essa. não consigo odiar ninguém, não consigo fazer mal a quase nada. naquele tempo queria realmente me matar. andava a cidade com olhos cumpridos de madrugada, emendava cafés, fazia meu estômago um tambor de tão oco, tão vazio. eu só posso dizer que fracassei que é o que sempre faço. e que desisti, porque é o que sempre faço. não mereço morrer porque não mereço nada, nenhum tipo de felicidade.
perdi a cabeça no jogo
domingo, 22 de fevereiro de 2026
domingo, 1 de fevereiro de 2026
teatro
Quando minha cunhada abandonou meu irmão eu estava no teatro. havia ido secretamente ver a estreia da peça de uma nova professora, que recém tinha começado a trabalhar conosco do Dom Infante II. Ela era jovem, bonita, responsável e aparentemente talentosa. Não consegui acreditar com meus próprios olhos, então, lá fui eu. Estava com muita vergonha então sentei no fundo. Não queria ser vista porque meus motivos não era os menos benéficos e mais beligerantes possíveis e tinha a ciência moral total dos meus atos. Então, na verdade, escondia-me na fileira z-06 para esconder-me de mim. Ia ao teatro para fugir da minha vida. E ficava lá depois das luzes para esquecer do que eu sentia. Era como se meus 14 anos senta-se ao meu lado, pegasse na minha mão e sentisse nojo, dizendo: a sudorose aumenta com a idade? que nojo. Que nojo, eu disse. Meio sozinha, meio espiã. Até o momento em que vi a mensagem eu meu celular de Afonso e então fui embora. Eu não precisava ver a peça da talentosa diretora para saber que era talentosa. Infelizmente.
Encontrei-o em sua casa. A porta estava aberta. Eu o perguntei, tem certeza? Ele apenas falou: olhe em volta. Os móveis haviam sumido. São só objetos, devolvi. Meu irmão chorava de forma silenciosa, só percebida pelos soluções em colisão dentro da garganta. Sua voz, chorosa, era bonita. É por isso que há aqueles que cantam chorando, entendi. É como os chuveiros. Ela apenas levou tudo que haviam comprados juntos e deixou o apartamento. Que vendo assim, nu, simples, estrutural era feio. Seu apartamento é feio, eu disse, sem papas na língua. Sempre foi, ele respondeu. Questionei então o que aconteceu. Afonso me contou que guardava este segredo só para si havia meses. Tinha descoberto que sua mulher tinha uma amante.
Na verdade, começou muito antes disso. Primeiro sonhou que sua mulher teria uma amante. Depois, tiveram em um jantar com os sócios do escritório. Ele viu uma mulher muito elegante. Alta, com maquiagem sóbria, cabelos entre o laranja e o amarelo claro. Era a esposa de um de seus clientes mais importantes. Então, algo lhe disse, com uma estranha rígida e argilosa, esta será a amante de minha mulher. Lá, elas foram apresentadas. Foi uma pequena conversa protocolar. Mas meu irmão leu o rosto de sua mulher no exato momento que pronunciou seu nome para os presentes, naquela altura, testemunhas. Ele leu como seu olho desceu mais à esquerda e sua respiração parecia pressionada contra o chão. E os dedos viraram apenas periféricos das mãos, sem uso aparente. E a voz afrouxou como um colete salva vidas recém desinflado. Então ele viu ela se apaixonar desde o primeiro momento. Que durou semanas, pois começaram a sair juntas para praticar rapel (agora sua mulher gostava de rapel). Neste ponto acho que nem ela mesmo sabia, ele me disse. Mas a conheço muito bem. Então a vida dos dois melhorou muito. Havia mais sexo, mais presença. Por um momento, meu irmão quase amou a mulher - um amor de agredecimento, um amor de esperança. E sentiu-se também parte daquela paixão que se encaminhava lentamente para um endereço. Então, elas passaram sua primeira noite juntas e tudo mudou.
Toda vez que minha cunhada tentava tocar no assunto ele fugia, desesperado. No fundo, nunca acreditou que isto seria o bastante para terminarem um casamento, uma promessa de filhos, todos os sonhos que reviram juntos tantas vezes. Em um ato de desespero, segundo eu mesma, ela levou tudo. Deixou uma carta explicando tudo. Disse que havia mudado para o outro lado da cidade, portanto, pode ser que se virão no futuro. Falou que o amava muito, mas que a amizade deles tinha acabado. E que a relação não era mais possível pois havia escolhido ter uma relação com outra pessoa. Simples assim. Ela estava magoada com ele porque, quando mais preciso, ele não estava lá.
Finalmente tinha reunido a coragem para me chamar. Sentia-se envergonhado e enojado. E completamente paranoico. Não consegui parar de pensar nas duas juntas, transando sem parar, por cima de todos os móveis que haviam escolhidos um na presença do outro. Estava obssecado e eu não podia ajudá-lo em muita coisa uma vez que também guardava uma própria obssessão. Mas para ajudá-lo e despistá-lo de meus próprios pecados, falei com que vinha à mente. É apenas uma mulher. As mulheres são assim, eu disse. Não param para pensar. Não pensam.
Na semana posterior, o convenci a ir ao teatro. Eu tinha um plano perfeito: apresentar meu irmão a minha companheira de trabalho. Era um disfarce à altura. Ele tinha pedido licença do trabalho por questão de saude. Ninguem poderia saber o que de fato ocorreu, era vergonhoso demais. Ele não gostou da peça, é claro. Ele não gosta de teatro. Era sobre se Shekeaspere nascesse hoje em dia, e usasse as redes sociais para atrair seu público. A peça não era boa, o que foi um alívio, mas era bem feita e funcionava. O público ria e professores levavam seus alunos para assistir e depois escrever redações sobre. Suspeiteu se aquela altura meu irmão era um misogino incorrigivel. Se eu era a unica mulher que ele nao odiava ou que ele me odiou desde sempre e fora misogino desde sempre e precisou levar um fora de uma mulher para eu entender isso.O levei até a cabine dos atores e apresentei os dois. nada aconteceu, nem uma sobrancelha fora do normal. Os dedos eram coisas de agarrar e de obdecer. E só. Então fomos tomar uns copos.
Era um pé sujo na rua atrás do teatro. Os atores eram jovens e socialmente inteligentes. Sentamos numa grande mesa. Minha colega entre eu e ele. Então o mais absurdo ocorreu: minha colega não parou de secar meu irmão. Começou a fazer perguntas esdruxulas de tao desinteressantes sobre seu trabalho com especialista em direito autoral de pinturas antigas. Ele a tratou com desprezo. Quanto mais desprezo tinha, mais ela insistia - imersa naquele rastro de conquista ou submissão máxima mesclado por desejo de humilhação. Não sei se olhou ele e achou bonito ou apenas viu em sua insignificancia a insignificancia de tantos homens que ja teve. Meu irmão era alguem que eu amava porque era meu, meu irmão. E só. Ele chegou a dizer que arte para ele era apenas dinheiro. E que deveria ser para os artistas. Por isso que a arte neste país nao ia para frente - pelo medo do dinheiro. Falou mal de teatro. Mal a olhava nos olhos, empinando copos de cerveja sem parar. O que eu posso dizer? Não foram embora juntos. Ela queria. Ele queria que ela queresse. Queria negar. E no fundo, esta é uma história com uma moral da história. Uma história ruim, portanto. Pois foi aí que percebi o quanto eu e meu irmão éramos parecidos. Não apenas fisicamente. E no fundo odiassemos talvez todas as mulheres do mundo. O que para ele talvez estivesse tudo bem - era sua condição. Mas para mim era um auto-extermínio. Tive vergonha. vontade de desaparecer com todos meus móveis eu mesma. Colocar fogo na casa. Me abandonar na cama. Precisava que algo ou alguém fosse embora.
Congresso dos Autores Desconhecidos
Estava Rómulo e eu na esquina do grande Congresso dos Autores Desconhecidos. Era janeiro mas estávamos em Pádova, portanto, fazia frio como as chaminés fazem o elo entre o dia e a madrugada: insistência. Eu não falava com Rómulo havia seis anos e parte do meu corpo dividia-se em ter medo de estar lá com ele, enquanto a outra, medo de não estar e perdê-lo para sempre. havia se mudado para Suíça, com a mulher milimétrica, como assim chamavam os nossos amigos da Fronteira. Rómulo era previsível enquanto as mulheres, havendo um ciclo onde nós, os amigos mais íntimos, os que faziam ele chegar em casa mesmo bêbado e mandavam ele enviar mensagem aos pais mesmos brigados, apenas nós sabíamos. Primeiro veio a namorada desajeitada, depois, a certinha. A partir daí tudo se intensificava em uma intercalação sem fim: a completamente bagunçada dava lugar a neurótica, depois, era fácil saber que a intempestiva e passional máxima cederia para a pessoa mais organizadamente exagerada do século. eu amava a previsibilidade amorosa de Rómulo porque me dava estabilidade e e me aproximava dele, apesar dos anos. Rómulo deu a entender que nós, os seres que nascem na fronteira, na fronteira do sul do mundo, estamos sempre vivendo esta dívida de querer ficar em nossa casa mas ir embora. e assim, fui parar não sei como em Stutgart, e, depois disso, consegui uma residência em investigação em Salamanca. E agora estávamos juntos. Ele com uma mãe a menos, eu com um pai me faltando, o dinheiro, os amigos, o coração. Nós dois com uma tristeza que guardávamos no silêncio mais concreto, e que tinha, entre outros, nossos nomes.
O Congresso dos Autores Desconhecidos acontecem desde a guerra da unificação italiana: 1871. Pode ser difícil de imaginar, mas muitas pessoas que lutaram ou contra a monarquia, ou à favor da república ou pela unificação italiana eram escritores. E o motivo era simples: ir a guerra era naquele tempo ir atrás de palavras, principalmente, palavras faladas. Como muitos morreram, Ernesto Cavaglieri, um espano-italiano cuja família materina era de Lecce, teve a ideia de realizar a primeira conferência em nome dos soldados desaparecidos, cuja a ideia era ler seus nomes por dias a fio, contar suas histórias, suas vidas, para que não fossem esquecidos. Ao logo do tempo, as histórias foram sendo fabricadas para dar contínuo a tradição e o confresso dos soldados despaarecidos virou o Congresso dos autores desconhecidos de forma muito natural. Pessoas do mundo inteiro vinham à Itália para apresentar pesquisas, arquivos, textos, estudos sobre autores que viveram uma vida no anonimato, cuja existência talvez nem pudesse ser provada, mas que não podiam ser esquecidos. Cada ano a ansiedade era maior à espera de um nome a altura do seu tempo, que expressa-se a dualidade da guerra fria, o imperalismo no oriente-médio, um novo mundo frente as pragas. Que nos desse um alento, uma obssessão nova, fora do ócio, que fizesse a literatura, depois da guerra, ser viva de novo.
Eu e Rómulo sonhamos por anos estarmos aqui. Havíamos é claro lido Enrico Spaldi: o dono da casa editorial Spaldi, que descobriu diversos autores do início da alta idade média. Havíamos, é claro, seguido o trabalho de Clementino Abreu, que nos templos budistas da Mangólia, descobriu o poetas das pedras: Jan san Io. Nos vinhamos do continente do futuro, das américas, do continente das civilizações perdidas, da literatura de luta, da ressaca do milênio, do barroco máximo. Eu ofereci a Rómulo um café antes de fazermos o check-in e ele aceitou. Enquanto pedia seu ristretto à caráter, eu observava seu consumo excessivo de linho e tentava obter algumas pistas. O que Rómulo havia descoberto?! Sera uma nova epopeia maia, em algum vilarejo da Nicarágua? Ou o inicialismo lírico esquecido nas cavernas do Jalapão por algum nómade maluco, que podia sentir as linhas telúricas da terra com sua caneta e sua espinha e pensava ser sua coluna cervical seu tinteiro? Eu sei o que você está pensando, ele me disse. O que estou fazendo aqui e o porquê de não ter lhe avisado. Você não vai acreditar, disse ele.
Neste ponto estamos no saguão. Adeláide de Sá apresentou uma enorme lecture sobre a relação entre a escala cromática, a pulsão sexual e os espaços vazios na poesia de Célia Correia - uma agroprodutora recentemente falecida do extremo norte de Goiás. Os espaços seriam a monucultura da paisagem, expressa de forma inconsciente na respiração das páginas. A escala cromática viria dos cantos dos boiadeiros - de origem árabe, que dava predileção a palávras proparoxítonas ou de grande quantidades de letras, como os deslocamentos bovinos. Eu, que morria de medo de ser analisado por Adeláide de Sá, escutava tudo com atenção máxima. Tem pessoas que ficam mais bonitas quando sem palavras, eu penso, ou nós ficamos mais bonitos para nós mesmos quando deixamos alguém sem palavras. De qualquer forma, na ausência de palavras acho que surge a abundância do desejo. Não o desejo, aquele que nasce aos poucos, mas aquele que vem como a densidade de uma estrela de neutrons, no seu peito, de uma hora a outra. Eu olhei para Rómulo e ele disse: os brasileiros estão com tudo mais uma vez. Então ele entrou e iniciou sua comunicação.
Meu amigo tinha ganhado exatamente todas as rugas que imaginei que ganharia. Conhecia como seu rosto se retorcia para o aço do choro ou para o elástico do riso. Mas esta calma aparente eu não podia imaginar. havia desacelerado sua inércia, se convertido em um ser prudente - talvez mais chato. Falava devagar com um brilho que surgia por espasmo. Não sei o que a Suíça havia feito com ele, o que a ausência de terapia havia feito com ele, seus filhos, se é que os tinha - e sua esposa milimétrica. Eu avisei que faria mal a nós morarmos longe do mar, nós, que viemos da fronteira. Em Salamanca, tive um período de paranóia. Achei estar perdido para sempre, que haviam soldados pequenos que entravam em minha orelha à noite. Mas era apenas abstinência do oceano. Rómulo saudou a todos e de repente apareceu uma imagem no projetor: Era Lúcia do Carmo. Nossa amiga. Nossa amiga morta.
Abre citação: Minha almofada de Jasmim, escrevo de dentro do fogo dos fracos. Tenho todos os degraus alinhados como dentes de uma criança que tem pressa em nascer. Adivinho a reza das sementes e mudo o gosto das cerejas para a textura das cinzas ao serem desmanchadas. Eu quero menos hoje do que queria ontem e isto é uma conquista. Ganhar um ontem. Significa que estamos velhos, mais vivos, e menos sábios. Que esquecer alguém e iniciar uma nova biblioteca, que os antepassados sussuram alexandria no braile dos arrepios, quando ameaçamos nos apaixonar de novo. Te esquecer será meu maior feito. O cordão de esferas ameaça se retirar. As folhas tem equações mecânicas e se as formigas pararem de respirar os números variáveis e incógnitos nunca mais serão descobertos. A matemática é apenas isso: insistência, teimosia e fé. Perdi a fé, me restou as outras duas. E te esquecer é a outra ponta do tripé. Amar alguém que chega, amar mais alguém que vai embora. Não foste tu que me ensinou que as palmas só dão jeito para dentro por um motivo? Amar porque, seja qual for a direnção, é sempre para dentro. Fecha citação.
Minha almofada de Jasmin era a forma como que nossa amiga Lúcia nos chamava. A última vez que a vi, estávamos juntos em uma cafeteria em Montevideo. Estava recém-separada, recém-juntada, de iniciando na arte da confeitaria. Eu fui visitar meus avós, ela, não sei ao certo. Rómulo estava ali, em minha frente, falando de nossa ex-amiga íntima que perdemos para sempre em algum pedaço de Pirituba, enquanto ele lia suas cartas, cartas endereçadas a mim, contendo nossa juventude, contendo todos nossos os segredos, como, por exemplo, este fato nunca comunicado do que ocorreu entre Lucia e eu. O que nisso pode ser considerado literatura? O que possivelmente pode denotar isso como a maldita literatura? O estudioso basta? Ou nesse caso, um amigo um pouco fora de sua sanidade costumaz?
Lucia Moura nasceu em 1984 e frequentou a escola de São Vicente, em Santana do Livramento. Ele continuava: mudou-se para Porto Alegre aos 16 anos, depois da recomendação de uma benzedeira para ficar longe da língua espanhola. Foi estudar francês, onde conheceu, no Instituto de Literatura Contemporânea, Romulo Schuartz, Marcela Viera e Sebastição Macedo. Estava ali, narrando toda nossa vida para os presentes. Os almoços na Lancheria dos Onze, as noitadas no Cassino de Mentira. Os saraus que faziamos na cada da Antonia, aos noites de orgia na orla do rio. As recorridas espirituais no dia 2 de fevereiro, a nossa aparente falta de comprometimento político diante dos nossos inimigos políticos ganhando força. A nossa natureza de gente da cidade virada para o que ele chamou de a romantização do guasca. O portunhol como forma de fugir não maneira de conectar. As bombachas encomendadas em sites chineses, a casa de milongas do Salomão que era primeiro de tudo, um ex-austríaco. Mas eu não estava lá. Meu nome não foi citado. Rómulo me apagou da história e eu sobre apenas com o destinatário das cartas de Lucia Moura, das cartas que ela nunca me enviou, e compuseram seu diário. Tudo o que eu fui para Lucia Moura era tudo que eu nunca consegui ser para Lucia Moura, essa, aparentemente grande escritora desconhecida que a partir deste momento, para Romulo, não poderia mais ser minha amiga.
Dizem que o ressentimento move os que envelhecem. Rómulo estava envelhecendo de forma relâmpaga agora em minha frente. Por um momento, era como se eu estivesse novamente e Salamanca, delirando. Será que eu de fato nunca conheci esta gente? Apenas achei que conheci? Fora Lucia uma miragem?! O que havia naquelas cartas de tão interessante? Aonde ele queria chegar? A Zona Norte de porto alegre se derretia dentro de mim. As ruas se borravam das fotos, como se fosse uma cidade abandonada no século 19. Uma cidade sucumbida ao êxodo em massa, ao vento, às águas. Claro, havia outra opção. E era simples: a vida estudada ali não era a de Lucia, nem de Rómulo, a minha, a nossa. Era apenas a dele. Não podendo se tornar um grande escritor virou um pequeno conadjuvante. Ao ponto de até, talvez, imaginar que o destinatário daquelas cartas poderiam ser ele. Que Lucia Moura tinha uma paixão secreta pelo homem mais previsível do Atlântico Sul. Que precisaria vir na universidade mais antiga do mundo, falar em uma língua que não era sua, longe de tudo que conheceu, que sim, ele fazia parte da vida de Lucia Moura, da grande escritora gaúcha - ainda desconhecida mas já não mais, Lucia Moura. Só não contava com a minha presença.
Pensando agora, isso poderia sim fazer algum sentido. Mas no fundo, lá no fundo, eu não sei o quão próximo eram os dois. Nunca sabemos o que ocorre entre nossos amigos quando deixamos a sala. Eu sei que ele elogiava seus ensaios, sua dedicação com Paul Celan, sua ideia absurda de adaptar As Metamorfoses para animais que vivem no pequeno zoológico da redenção. Não sabia até que ponto falavam de dinheiro, de família, de amor. Ou do fato de uma noite, enquanto Júlio Serate chorava as pitangas por sua ex-namorada de infância se agarrar com nosso amigo Sebatião Macedo em frente a Usina do Gasômetro durante mais uma fanfarra habitual, Lucia me confessar que não dormia a noites seguidas porque tinha certeza que havia alguém de nome Artur em seu quarto, falando sem parar. Alguem morto, mas vivo, Lucia, os mortos desconhecidos não tem nome, você nunca conheceu alguém como ele, e para isso, naquele momento talvez, Lucia me beijara, para se distanciar de Artur, e se certificar mais viva talvez, para forçar os olhos a fecharem por algo substantivo. Não sei se sabia portanto que Lucia também gostava das mulheres - que a Lucia tudo era uma chance de prolongar a interrogação.
Ao fim da comunicação, Rómulo disse que no segundo dia da conferência apresentaria dois trabalhos recém descobertos: Os cadernos da circunferência e Espaços sem fio. Eu consenti. Não tinha maldade dentro de mim. Sentia até mesmo uma rara emoção. Meu amigo não conseguiu me olhar nos olhos, estava irritadiço e nervoso mas eu o abracei com uma piedade que nunca havia experimentado, misto de agradecimento. Talvez esta fosse apenas outra história que Lucia, secretamente, estava a contar. Eu sabia que tudo que importava ali era como ele se sentia ou eu. E o que cada um sentia, ou qualquer coisa que fossse que tivesse ocorrido, importava? O nome disso é literatura, para nós, a coisa mais importante do mundo. Nosso tipo particular e única literatura, dos da fronteira.
sábado, 31 de janeiro de 2026
cabeça de boi
quinta-feira, 11 de dezembro de 2025
quinta-feira, 13 de outubro de 2022
Os dedos
Foi o dedo dele que o trouxe aquele mundo. Era redondo, e extremamente separado dos outros dedos do pé, como se tivesse problema de sociabilidade ou vontade própria. Ou como quisesse fugir. Mas o importante não era o que o diferenciava, mas o que o unia. Era o mesmo dedo que meu pai possuía, que era o mesmo dedo de meu avô. Algo que só fazia sentido enquanto todos estavam reunidos, e quando separados, parecia uma pequena aberração da forma humana. Como se houvera duas pessoas a dividir cada pé. Um desenhista cansado.
Eu não era nascida. Mas minha avó conta que trouxeram o menino em dia de Cosme e Damião. Como se fosse um pacote de doce, como se o doce fosse a cura, foi isso que pensou minha avó, ainda deprimida pela morte do marido. Ainda assim não se deixou convencer. Recebeu a criança por desespero, a colocou no centro da sala, em cima do sofá, e a examinou como um joalheiro em uma investigação prolongada. A mãe havia morrido no parto, a vizinha trouxe a criança, muito quieta, a ponto de só por isso duvidar que era filha de meu pai. Não havia intenções de dinheiro, não havia interesses às claras. Minha vó examinou cada pedaço do pequeno até chegar nos dedos do pé e ali tinha certeza, era seu neto.
Segundo meu pai, os dedos de nossa família nem sempre foram assim. Foi depois que meu avô foi para o quartel. Não conseguiu fugir do país a tempo, era o início da ditadura militar. Pior do que o colocar na cadeia os militares o colocaram dentro do quartel, antes de entender tudo que estava acontecendo, aténs de ter idade para ler livros, estudar, conhecer gente, ir a congressos clandestinos, participar de partidos ilegais, quando tudo era apenas uma raiva sem nome. De noite, nos confins da fronteira, no extremo sul, ele e seus amigos viviam uma vida dupla. Contra o inverno eram peões livres, sabiam usar a lenha, cultivar a comida, sabiam reconhecer os animais e usar o frio ao seu favor. Nas leis do quartel tinham dono e tinham um corpo em que se hospedavam, no máximo. Em algumas noites conspiravam. Tinham um rádio onde ouviam em castelhano as notícias vindas da argentina e Uruguai. Os governos de lá ainda não tinham caído e a rádio pirata tentava ao máximo denunciar crimes a partir de histórias que todos conheciam. João, Pedro, Afonso, dizia a rádio. Todos conhecem no Brasil um João, um Pedro, um Afonso. Como saber se não esses que se encontram presos? Como viver com a dúvida? Meu avô e seus amigos decidiram tentar escapar para o Uruguai mas na primeira tentativa foram pegos. Foram deixados no meio do campo por semanas sem água, comida, no frio do inverno subtropical. Dormiram em covas abertas de defuntos em cemitérios abandonados, se alimentaram de pequenos caramujos. Quando enfim acharam que tinha acabado tudo, os soldados que nunca haviam lhes perdido de vista voltaram com a última lição. Como vocês são um grupo, disse um tenente, vão sofrer com um grupo. Um levou uma surra na cabeça, outro teve as mãos deformadas, outro os ombros detonados. Meu pai, teve os pés massacrados. Se juntar todas as partes avariadas temos um morto completo, riu um dos cabos compreendendo a mensagem do tenente. Sempre em um grupo há um morto. Todos igualmente haviam perdido algo. Depois disso, foi dispensado por questões de saúde.
As irmãs de meu pai riam quando ele dizia que o soldado passou de pai pra filho. Depois de ter os pés torturados, com sua pisada levemente torta, seu filho nasceu com a mesma deformação que agora tinha. Para a família era uma coincidência infeliz, mas uma lembrança, de que meu avô tinha sobrevivido. Que a família era forte, um sinal divino, abençoado. Não era, como estava certo meu pai, uma herança passada automaticamente, como se parte de meu pai tivesse começado a nascer diante daqueles cabos aturdidos e sanguinários. A genética não explicava este absurdo. Não fazia sentido. Era impossível.
Meu pai não recebeu bem meu irmão a primeira vista. Estava com um certo medo, medo do julgamento, medo da família. Ele não sabia ao certo nem de qual mulher o menino tinha vindo. Dessa forma, demorou um certo tempo até descobrir. A partir disso, se afeiçoou mais a ele, amor que cresceu aos poucos. Com o passar do tempo o menino virou sua maior felicidade. Levava ele para mostrar aos colegas do trabalho da fábrica, nos encontros com outras mulheres, tirava fotos sem parar. Virou sua maior conquista.
Depois de um tempo conheceu minha mãe, ela era enfermeira em um posto de saúde. O menino tinha uma febre que não baixava. Minha mãe recebeu o menino de peito aberto como se fosse seu próprio sangue. Era como um pequeno adulto, muito educado, muito quieto, mesmo quando doente, era uma doença imperceptível que apenas os mais chegados poderiam notar, com certa dificuldade.
Quando meu irmão fez três anos meus pais começaram a ficar preocupados. A criança ainda não falava. Nem mamãe, nem papai. A criança não falava nada. O levaram a médicos, especialistas. Nenhum conseguiu encontrar o motivo. Em sua fisiologia tudo estava bem, era saudável de fazer inveja. Isto começou a incomodar meu pai. Ele tinha medo de isto ser uma espécie de castigo. Algo nele intuía que aquilo não iria melhorar. Começou uma obsessão. Foram contratados pedagogos, fonoaudiólogos, neurologistas, todo tipo de especialista. Linguistas. Todos métodos de alfabetização conhecidos foram aplicados. A criança se recusava a falar uma palavra qualquer. Foi a essa altura que vim ao mundo. Como um pedido íntimo de meu pai e minha mãe de que as coisas fossem normais.
Meu irmão era como qualquer outra criança. Poderia vivenciar a tristeza e felicidade em seu ponto mais alto, sem amarras. Em puro êxtase. Era uma criança divertida, inteligente, cheia de energia. Mas não falava conosco. E isto não o preocupava. A mim tampouco. Meu irmão veio antes de mim ao mundo e para mim ele era o mundo que eu conhecia. As vezes sentia que vê-lo já era todo aprendizado que eu precisava. Queria ensinar a ele nossa língua mas a verdade é que meu irmão não precisava de nada, nunca precisou. A medida que ele crescia o verdadeiro problema era meu pai. A não expressão desejada de meu irmão virou sua vergonha. Ele sonhava compartilhar com ele as histórias que ouvia de seu avô, do jeito que foram contadas. Usar as mesmas expressões, até ouvir de sua boca os mesmos xingamentos. De falar palavras que só eles entenderiam o resultado. De ensinar o nome das plantas, das constelações, da comida, as lendas, assim como seus ancestrais chamavam.
Um dia, meu irmão estava mexendo na TV a cabo. Deveria ter no máximo oito anos. A essa altura já frequentava uma escola. Entendia tudo mas não se comunicava. Ele parou em um canal estrangeiro, TVE. Os apresentadores falavam rápido de forma ruidosa. Neste momento escutamos uma voz estranha vindo da sala. Lembro que cheguei primeiro, era calor, e meu corpo estava melequento, sujando o piso completamente e tudo cheirava a corpo, fungos, bactérias, fermentação, misturado com as flores da estação de nosso bairro. Meu irmão começou a falar comigo mas eu não o compreendia. Algumas palavras saltavam, como a palavra campeonato. Olhei a TV, homens e mulheres surfavam em uma ilha do Caribe, mas não conseguiam entender o que diziam. Meu irmão falava normalmente como se tivesse falado a vida toda. Mas falava em outra língua, falava em espanhol.
Não fez grande caso, chegou na cozinha e perguntou o que comeriam mais tarde. Minha mãe levou um susto. Acho que estava falando português mas como nunca tinha falado antes, no início, saia meio esquisito mesmo. Lágrimas escorriam de seus olhos de felicidade. Depois de um tempo a mostrei a televisão. Estes momentos onde os filhos ainda crianças ensinam coisas óbvias aos pais são os momentos mais preciosos da vida para quem sabe acolher. Mas a maioria não sabe. Minha mãe diante da loucura daquela situação decidiu não entender apenas comemorar com o que foi dado. A altura que meu pai chegou em casa, ela já havia comprado um dicionário de português-espanhol. Quando o menino pediu para “cenar”, ela já o tinha na cozinha, e entendeu rapidamente que o menino queria já a janta. Nada nele tinha mudado mas lá em casa tudo estava diferente.
As mulheres de nossa família pareciam não se importar. Não precisavam de explicação. Não precisavam que o neto o filho ou o irmão falassem a mesma língua que elas. Ele decidiu falar sua própria língua. Poderia um dia falar outras. Mas a língua de nossa família, ou se recusava, ou era incapaz de aprender. Incapaz até mesmo de escutar. Minha mãe foi a que mais rápido se dedicou aos estudos. Contratou um professor para toda família. Meu pai se recusou. Para ele era uma prova de que seu filho o ignorava. Que não o amava. Que era de qualquer coisa, ou situação, menos dele. Era como se não tivesse um filho. Ao longo do tempo começou a ficar muito calado. Quando se aposentou, e se aposentou muito cedo, passava os dias como um fantasma pela casa enquanto todos nós falávamos o castelhano, vivíamos uma vida normal. Não era um castelhano com acento argentino, ou chileno, caribenho ou do sul da Espanha. Era um castelhano com nosso acento. Uma língua feia, dizia meu pai, rude e distante. Uma língua que mesmo que se soubesse teria decidido esquecer. Embora claro, já saibamos, seja impossível esquecer uma língua. Impossível esquecer mas bem possível não aprender.
sexta-feira, 3 de junho de 2022
susana
nós achávamos que todos iam morrer. todos os vivos. digo todos que pensavam, sabiam, estar vivos, viviam a vida com uma sana de consciência. alguns já pareciam ter ido. suar cabeças, solilóquios desistentes, o corpo lento. estávamos em um quarto de hotel, havíamos chegado fazia uma semana e meia em Lima, e logo após, decretaram o toque de recolher. uma misteriosa doença. na américa latina? já havíamos sobrevivido a tudo, tudo longe era uma doença. parecia um deja vu historico eu comentei com susana logo nos primeiros dias. minha mulher me amava, sim. mas não o suficiente para me responder? não o suficiente para me contar o que passava, seus pensamentos distantes, encolhidos, periféricos. minha mulher me amava mas o amor nunca foi algo o mais relevante. o definidor. susana já estava distinta havia alguns meses e aquela viagem era uma desculpa para que pudessemos ficar distintos mas com uma razão a mais, exterior. eu a observava como um pássaro insistente, num dia de chuva, com a barriga em pedaços. buscava em seu rosto qualquer rastro que poderia ser lido como um a palavra.
susana sempre foi cabeça dura. um teimosia charmosa, que vira impulso, e arrisca ser sedutora. nunca entendi porque me procurou. os anos que passamos juntos foram os melhores de minha vida, com certeza, mas como foi comigo, poderia ter sido com qualquer um outro. eu amava susana ao ponto dela me desprezar por isso, minha busca por compreensão, minha incapacidade de ficar irritado, meu trabalho árduo em mima-la, em demonstrar-me alegre com qualquer pouco, a minha não exigência de sua presença, de seu modo de agir, incapacidade de critica-la. não buscava compreender com análises sórdidas e psiquismos baratos o porque disto, mas sabia que a causava um desconforto. embora estivesse ali semrpe tive a sensaççao que minha mulher stava em outro lugar, como se esperassemos alguem que iria chegar a pouco. tenho essa sensação desde a primeira vez que a vi e nunca desapareceu. como se aquela fosse quem ela era mas ela nao gostava de quem era. quem seria essa pessoa? o que ela queriria? como seria susana perto dela? uma mulher ainda mais irradiante? alguem capaz a cedear a tudo?
a essa altura eu ja sabia o seu nome e endereço. eu mesmo já tive alguns casos com homens na faculdade e na adolescência, dois ou três, que me fizeram perdoar o resto de todos eles. encantamentos temporários, que nunca deram em algo mais sólido. mas aquele homem, entendi completamente minha mulher. era um grande jornalista que recentemente tinha sido demitido de um meio de comunicação importante de nosso país. tinha varios livros publicados, era destemido, escrevia sobre tudo: moda, esportes, crime organizado. era conhecido por um temperamento forte mas tinha, eu diria, olhos doces. olhos doces e levemente despencados o que conferia uma leveza a tudo que falava.
foi através de ana que descobri o nome de Federico. Susana só o chamava de um antigo namorado. não contava nada pontual, tudo era genérico. eu tive pena de minha mulher por algo a doer tanto. eu tive uma curiosidade tremenda de saber o que se passou. depois que ana tocou em seu nome, busquei outros amigos, professores da faculdade, trabalhos que estivessem atuado juntos, até o dia em que eu mesmo entrei em contato com o próprio. tinah acabado de ser demitido, a namorada havia o deixado. fiquei tão mal por ele que o convidei para um choppe, para nos conhecermos pessoalmente o que seria um risco. ele não se deu ao trabalho de pensar direito, me tomou um por um fã louco, um ex colega de trabalho que não recordava muito bem, um antigo aluno. precisava que alguem o buscasse de carro e pagasse algumas rodadas em seu bar favorito a lapa. precisava escutar as musicas alegres que mais amava e chorar e lembrar que elas tambem o faz chorar e precisava de alguem junto. se minha mulher descubrisse acho que nunca me perdoaria. considero isso uma pequena traição contra susana, mesmo com a melhor das intenções. era uma traição. me coloquei em primeiro lugar. e minha curiosidade ocupava um andar inteiro.
entre uma rodada e outra falou, falou. desabafou como se fossemos amigos de longa data. chamava por nome, sem contexto algum, pessoas como se eu as conhecesse. estava quebrado, deserdado por parte dos pais, tipos ricos da zona sul mas com péssimas filiações politicas, na faculdade estava sendo investigado por um comite de etica depois de dormir com uma aluna e só dava três disciplinas, incluído, etica. etica jornalsita. ele ria sozinho. falou que o ultimo livro estava na editora mas queria mesmo era sair por ai, escrever uma reportagem sobre a madeira na amazonia, ir a campo, investigar a monocultura no cerne das pequenas cidades, entende? nas igrejas, nos bares, falar com a gente. ele dizia que a monocultura não tem a ver com terra, é um tipo de pensamento que dispara na cabeça de pessoas, das mais gentis as mais familiares até as mais violentas. essa gente que vive nesse lugar de um dono só, com uma ideia que o tinge durante qualquer fio de horas. onde o patrão é tudo que há em volta. citei um faroeste de sergio leone, dos que vivem para trabalhar e trabalham para não morrer. ele riu, conhecia o filme, é claro. o peguei em cheio.
uma hora foi ao banheiro e quanto voltou, depois de escoar tudo que necessitava, finalmente perguntou de mim. acho que a cachaça o fez esquecer como favia parado ali, talvez, em sua nova reconfiguração de memoria, tivessemos dividido uma cerveja interminavel no boteco e assim que nos conhecemos. ar sou advogado, eu disse. advogado tributário. ele gargalhou como se estivesse o contando uma piada. esta é a hora que você me conta o que realmente queria fazer com sua vida, ele me disse e eu deixei o silencio inundar o ambiante. não tem mais nada que eu queria em minha vida, o disse denunciando minha pequenez aos olhos daquele sujeito. me preocupava com a manutenção. em manter o que já tinha. em segurar firme um momento e mergulhar nele cada vez mais, isto me dava um senso de movimento. estar. realmente estar, entende? ele logo desviou o assunto. não estava interessado em mim. ele era bonito em sua contradição. quando perdia as palavras ou o sentido da frase abaixava a guarda. era frágil. seria ali seu encanto? mas na maior parte do tempo era apenas algum rude, cansado, que falava dos outros para falar de si em uma filatropia disfarçada. um gozo coletivo que se resumia em uma piada interna. me perguntei se havia um serviço público neste comportamento. o homem não vai ao consultório do terapeuta mas denuncia uma quadrilha de roubo dee agrotóxicos ilegais e tudo é perdoado. minha mulher se parece menos interessante perto deste sujeito. não sei se puderia me apaixonar por ela. teria o deixado? penso no desespero de ser deixado por um tipo assim. nos sacrifícios que fez que nunca faria por mim. vejo brigas diárias e um sexo que parece valher a pena até que ele acaba. que seria bom também porque se acaba.
o deixei, paguei a conta. o pus em um taxi. podia sim ter ido a sua casa. termos bebido um uisque, tentado ver as fotos de susana em algum lugar. como quis ver as fotos um dia como quis imagina-los juntos. em minha mente ele era um tipo especial, com uma aura encantadora. um tipo a altura de minha mulher, maior que sua afetividade. atraente, justo. não me doia pensar neles juntos, ao contrario, me intrigava. confio em minha mulher tanto que confio até o passado. de quem escollhera para sua vida fosse alguem que nao a botasse em perigo, que fosse alguem que tinha a maquinaria da mente composta de uma forma genuínamente avassaladora. me senti confuso e de chateado, brochado até mesmo. desejava nunca mais o ver. desejava ter devisto o que vi. era um coitado, pensei. um lindo, bonito mas patético coitado. que mesmo depois de ser deixado ou de fazer ir embora uma mulher a altura de minha esposa, não mudou em nada. era imutável perante as circunstâncias como uma era geológica. estava tão só como uma broca.
foram 14 dias naquele quarto de hotel. susana emudecida em frente aos telejornais em espanhol. eu me trancando no banheiro para falar com ana, minha amiga, me sentindo culpado por seu desprezo ou silenciamento. mas havia isto, uma doença misteriora nas ruas, estavamos no exterior, a televisao estava falando o idioma materno idioma da infancia de minha mulher, longe de casa, sem saber se viveriamos, se voltariamos, com as pessoas tendo os mais estranhos sintomas, impedidos de andar, como bois em uma baia. não era apenas o mesmo quarto de hotel. minha mulher estava presa no mesmo pensamento. não podia perguntar qual era não poderia me contar. mas poderia se irritar comigo. aquele podia ser o fim do mundo e ela estava comigo. nunca me fez para o fim do mundo minha mulher, sempre fui uma espécie de enquanto profundo. enquanto algo não acontece. enquanto ele ou ela não chega. sentia medo de em sua respiração ouvir o barulho escapando de sua imaginação, a fantasia de pegar um avião e encontrar com ele. aquele sujeito. ou qualquer que fosse. até mesmo apenas estar só. era como se a vida estivesse finalmente começando.
foram dias em que me usava para dormir. e as palavras eram cobertar de mais silêncio. não a reconhecia. via nela a tristeza dele. via o egoismo dele no olhar desviado, a falta de coragem no modo de segurar os talheres. não tendo mais nada perder, antes do fim da temporada de lockdown disse para ela que conheci um ex-namorado seu. foi sem querer, nos cruzamos em um bar. não contei antes não entendo porque, acho que precisava pensar sobre o meu lugar. pensar em mim mesmo, eu a disse. me olhou assustada como quem busca um local para se proteger. não sei se era vergonha, repulsa, raiva. se sentia-se extraviada, invadida, descoberta ou se apenas eu tocara em um assunto que não era de sua preferência, que era algo perto do nulo. minha mulher ficava cada dia mais irreconhecível para mim. não falei a verdade. que gostei do sujeito pelas razões erradas e intuo que ela tambem o gostou por essas razoes. que pensando bem não gostei do tipo. que aquilo não me agradava porque ia contra o que pensava dela e nao pelo que vi nele. naquele dia misteriosamente as porta do hotel se abriram. depois de algumas semanas a misteriosa doença assim como chegou se foi. entendi que precisavamos ir embora. o que mais me machucava em isso tudo era estar com alguem que entendi ser uma pessoa covarde. senão tinha coragem para estar com aquele tipo não tinha como eu estar com ela. o amor não se explica, uma vez ela me disse. citei a frase a ela e em seguida o expliquei. abri meu coração como uma sanduichera. entreguei tudo que tinha sabendo que morreria de fome nos próximos meses. queria que minha mulher fosse mais. sempre mais, sabia que poderia. ao chegarmos no brasil a deixei.