domingo, 1 de fevereiro de 2026

teatro

 Quando minha cunhada abandonou meu irmão eu estava no teatro. havia ido secretamente ver a estreia da peça de uma nova professora, que recém tinha começado a trabalhar conosco do Dom Infante II. Ela era jovem, bonita, responsável e aparentemente talentosa. Não consegui acreditar com meus próprios olhos, então, lá fui eu. Estava com muita vergonha então sentei no fundo. Não queria ser vista porque meus motivos não era os menos benéficos e mais beligerantes possíveis e tinha a ciência moral total dos meus atos. Então, na verdade, escondia-me na fileira z-06 para esconder-me de mim. Ia ao teatro para fugir da minha vida. E ficava lá depois das luzes para esquecer do que eu sentia. Era como se meus 14 anos senta-se ao meu lado, pegasse na minha mão e sentisse nojo, dizendo: a sudorose aumenta com a idade? que nojo. Que nojo, eu disse. Meio sozinha, meio espiã. Até o momento em que vi a mensagem eu meu celular de Afonso e então fui embora. Eu não precisava ver a peça da talentosa diretora para saber que era talentosa. Infelizmente.

Encontrei-o em sua casa. A porta estava aberta. Eu o perguntei, tem certeza? Ele apenas falou: olhe em volta. Os móveis haviam sumido. São só objetos, devolvi. Meu irmão chorava de forma silenciosa, só percebida pelos soluções em colisão dentro da garganta. Sua voz, chorosa, era bonita. É por isso que há aqueles que cantam chorando, entendi. É como os chuveiros. Ela apenas levou tudo que haviam comprados juntos e deixou o apartamento. Que vendo assim, nu, simples, estrutural era feio. Seu apartamento é feio, eu disse, sem papas na língua. Sempre foi, ele respondeu. Questionei então o que aconteceu. Afonso me contou que guardava este segredo só para si havia meses. Tinha descoberto que sua mulher tinha uma amante.

Na verdade, começou muito antes disso. Primeiro sonhou que sua mulher teria uma amante. Depois, tiveram em um jantar com os sócios do escritório. Ele viu uma mulher muito elegante. Alta, com maquiagem sóbria, cabelos entre o laranja e o amarelo claro. Era a esposa de um de seus clientes mais importantes. Então, algo lhe disse, com uma estranha rígida e argilosa, esta será a amante de minha mulher. Lá, elas foram apresentadas. Foi uma pequena conversa protocolar. Mas meu irmão leu o rosto de sua mulher no exato momento que pronunciou seu nome para os presentes, naquela altura, testemunhas. Ele leu como seu olho desceu mais à esquerda e sua respiração parecia pressionada contra o chão. E os dedos viraram apenas periféricos das mãos, sem uso aparente. E a voz afrouxou como um colete salva vidas recém desinflado. Então ele viu ela se apaixonar desde o primeiro momento. Que durou semanas, pois começaram a sair juntas para praticar rapel (agora sua mulher gostava de rapel). Neste ponto acho que nem ela mesmo sabia, ele me disse. Mas a conheço muito bem. Então a vida dos dois melhorou muito. Havia mais sexo, mais presença. Por um momento, meu irmão quase amou a mulher - um amor de agredecimento, um amor de esperança. E sentiu-se também parte daquela paixão que se encaminhava lentamente para um endereço. Então, elas passaram sua primeira noite juntas e tudo mudou.

Toda vez que minha cunhada tentava tocar no assunto ele fugia, desesperado. No fundo, nunca acreditou que isto seria o bastante para terminarem um casamento, uma promessa de filhos, todos os sonhos que reviram juntos tantas vezes. Em um ato de desespero, segundo eu mesma, ela levou tudo. Deixou uma carta explicando tudo. Disse que havia mudado para o outro lado da cidade, portanto, pode ser que se virão no futuro. Falou que o amava muito, mas que a amizade deles tinha acabado. E que a relação não era mais possível pois havia escolhido ter uma relação com outra pessoa. Simples assim. Ela estava magoada com ele porque, quando mais preciso, ele não estava lá.

Finalmente tinha reunido a coragem para me chamar. Sentia-se envergonhado e enojado. E completamente paranoico. Não consegui parar de pensar nas duas juntas, transando sem parar, por cima de todos os móveis que haviam escolhidos um na presença do outro. Estava obssecado e eu não podia ajudá-lo em muita coisa uma vez que também guardava uma própria obssessão. Mas para ajudá-lo e despistá-lo de meus próprios pecados, falei com que vinha à mente. É apenas uma mulher. As mulheres são assim, eu disse. Não param para pensar. Não pensam.

Na semana posterior, o convenci a ir ao teatro. Eu tinha um plano perfeito: apresentar meu irmão a minha companheira de trabalho. Era um disfarce à altura. Ele tinha pedido licença do trabalho por questão de saude. Ninguem poderia saber o que de fato ocorreu, era vergonhoso demais. Ele não gostou da peça, é claro. Ele não gosta de teatro. Era sobre se Shekeaspere nascesse hoje em dia, e usasse as redes sociais para atrair seu público. A peça não era boa, o que foi um alívio, mas era bem feita e funcionava. O público ria e professores levavam seus alunos para assistir e depois escrever redações sobre. Suspeiteu se aquela altura meu irmão era um misogino incorrigivel. Se eu era a unica mulher que ele nao odiava ou que ele me odiou desde sempre e fora misogino desde sempre e precisou levar um fora de uma mulher para eu entender isso.O levei até a cabine dos atores e apresentei os dois. nada aconteceu, nem uma sobrancelha fora do normal. Os dedos eram coisas de agarrar e de obdecer. E só. Então fomos tomar uns copos.

Era um pé sujo na rua atrás do teatro. Os atores eram jovens e socialmente inteligentes. Sentamos numa grande mesa. Minha colega entre eu e ele. Então o mais absurdo ocorreu: minha colega não parou de secar meu irmão. Começou a fazer perguntas esdruxulas de tao desinteressantes sobre seu trabalho com especialista em direito autoral de pinturas antigas. Ele a tratou com desprezo. Quanto mais desprezo tinha, mais ela insistia - imersa naquele rastro de conquista ou submissão máxima mesclado por desejo de humilhação. Não sei se olhou ele e achou bonito ou apenas viu em sua insignificancia a insignificancia de tantos homens que ja teve. Meu irmão era alguem que eu amava porque era meu, meu irmão. E só. Ele chegou a dizer que arte para ele era apenas dinheiro. E que deveria ser para os artistas. Por isso que a arte neste país nao ia para frente - pelo medo do dinheiro. Falou mal de teatro. Mal a olhava nos olhos, empinando copos de cerveja sem parar. O que eu posso dizer? Não foram embora juntos. Ela queria. Ele queria que ela queresse. Queria negar. E no fundo, esta é uma história com uma moral da história. Uma história ruim, portanto. Pois foi aí que percebi o quanto eu e meu irmão éramos parecidos. Não apenas fisicamente. E no fundo odiassemos talvez todas as mulheres do mundo. O que para ele talvez estivesse tudo bem - era sua condição. Mas para mim era um auto-extermínio. Tive vergonha. vontade de desaparecer com todos meus móveis eu mesma. Colocar fogo na casa. Me abandonar na cama. Precisava que algo ou alguém fosse embora.

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