domingo, 22 de fevereiro de 2026

naquele tempo eu queria realmente me matar. andava a cidade a procura de algo ou alguém que colaborasse em meu plano. mas nada, nada me apetecia de verdade. os caixões eram todos feios, as armas todas muito brutas e difíceis de manejar. os remédios poderiam dar errado e tenho problemas para engoli-los. pensei de me jogar da ponte ou no meio dos carros. mas o medo de não conseguir me matar, o medo de me salvarem era maior, maior que tudo. havia pensando em alugar um quarto do hotel e me aplicar com seginga qualquer hiperdosagem. imagino alguém que trabalhe nesse tipo de lugar entrando, vendo a cena, me levando a um hospital. tenho medo de hospitais. tenho medo de ser um fardo, tenho medo de dar trabalho. tenho medo de ser salvo. outra opção seria uma autoamolação, mas eu sou muito burro, erraria com certeza a artéria correta. precisaria de ajuda, cirurgia, recuperação, para um dia, quando estivesse melhor, conseguisse achá-la, dessa vez, de forma certeira e rápida. pensei também de subir o morro, no meio da floresta, de simplesmente não conseguir voltar. mas tenho medo que não encontrasse formas de me matar la e ficasse a sofrer, a comer bichos nojentos, a me ver rezando para voltar, rezando para retornar para minha casa. nossa cultura não incluiu o suicídio, ao contrário de outras, não sabemos fazer um belo de um haraquiri. por isso, penso agora em aumentar minha pesquisa para dar conta de rituais, de magias. busco alguma simpatia que me leve a vida, como um sopro. misturo componentes em frascos, falo feitiços, digo por favor porfavor no final, não sei se é meu desespero que estraga tudo, não sei se é porque não sou digno. eu sei que pessoas boas vivem pouco, senão morro agora, não morrerei nunca. queria uma morte sutil, devagar, que ninguém desconfie que foi minha, sempre mim. este seria meu presente para o mundo. que não sujasse lençois, que não precisasse fazer pit-stop em hospitais e tirar um leito por algum tempo até ir ao necrotério. penso na ideia de um corpo desaparecido. há magia para desaparecer depois de morto? sou muito burro, devia ter estudado mais. penso em fazer um teste genético e descobrir qual alimento comer ou hábito adiquirir para ir dessa para uma melhor. ou fraudar uma dor no nervo trigemeo. ou adquirir dinheiro, casar com alguma europeia, e fazer suicídio assistido. não sou exibicionista. não goste de ninguém me olhando. acho uma falta de respeito. naquele tempo eu queria muito me matar mas a cidade era tão feia. tão feia, só pioraria tudo. guardei um dinheiro, andava cheio de ouro, nem os marinheiros, implorando para que entendesse o sinal: vendam tudo, me compre um terreno embaixo da terra. não preciso de dignidade, não preciso de opiniões alheias. analisei muito os guindastes das construções, os arranhacéus, os carros elétricos e os carros a gasolina, os animais predadores no zoológico,  aprendi a tropeçar, a andar cambaleante, aprendi a não olhar para trás na eminência de algo me atingir, me treinei na arte de ser uma presa fácil, de sofrer um latrocínio, andando na rua durante as madrugadas com meus percentes para fora dos bolsos, me envolvi com mulheres dos outros, xinguei políciais, advogados, deputados federais, juízes, na cada deles, falei mal das torcidas organizadas. mas fiz muito mal feito porque não tenho raiva de ninguém, a verdade é essa. não consigo odiar ninguém, não consigo fazer mal a quase nada. naquele tempo queria realmente me matar. andava a cidade com olhos cumpridos de madrugada, emendava cafés, fazia meu estômago um tambor de tão oco, tão vazio. eu só posso dizer que fracassei que é o que sempre faço. e que desisti, porque é o que sempre faço. não mereço morrer porque não mereço nada, nenhum tipo de felicidade.

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