Estou nas costas do rio. Para nós o rio tem costas, e é assim: onde a mata cresce e a água inunda e se dissipa devagar até perder as vistas. Ela parece alguém que é muito importante para mim. Me balanço sem parar, aguardando sua chegada. O sol faz carinho nos pelos que nascem na terra, que informam a tua extensão que o movimento não desistiu de nós. Não há sede, nem fome, nem frio ou calor. O dia parece perfeito. Ela está hesitante. Pode ser que tenhamos vivido juntos desde o primeiro dia. Talvez seja minha irmã, talvez seja minha parceira. Ela tem joelhos moles e os testa na terra fofa. Pode ir, confie, eu queria dizer mas não sei como. Fico aflito. Tenho medo de que meu amor por ela faça eu desconhecer o verdadeiro desejo das nuvens. Que tudo mude em um segundo. Que o tempo vire e ela vá embora. Meus olhos a veem recortada entre o capim. Sinto o cheiro de laranjas, o cheiro que elegi para ser o da confiança. Nos olhamos e é como se eu lançasse uma tirolesa entre nossa linha dos olhos e nela, avança. Já está agora dentro da água, a expulsa para os lados. Como é bela imersa no líquido, como suas orelhas ficam expressivas, ensaiam sustentar todo aquele céu. Mas de repente, ouço um som. De desespero. Vejo borbulhas e ela desaparece. Perco tudo. A água é onde tive tudo. Acordo.
Faz tanto tempo que estou sozinho. Estou muito confuso e triste. Tenho sede mas sinto raiva da água. Foi neste dia, com saudade de algo que não conhecia nem sequer existiu, que ele me encontrou.
Era o comecinho do inverno e, nesta altura, costumava visitar uma casa em particular. Era o tempo de deixar a laguna, a areia doce, o pântano, as marismas. Entre o grito do mar e a calma alagada da água rasgada costurada por biguás e capororocas, que deixavam a paisagem de alguma forma coesa. Era tempo de retornar para dentro, para quando tudo ainda é verde, preenchido, e a memória consegue tocar em qualquer fio de distância.
Era uma pequena fazenda, com muito mato ao redor, mas não só: bananeiras, caquis, butiás, pêssegos, ameixas. Não se podia encontrar muitos bichos, os poucos que lá estavam, eram livres. Saiam e voltavam a hora que queriam, como alguns cães, felinos e passarinhos. O homem que lá morava vivia só. Deixava para nós aberto o galpão, pensando no frio que viraria nossa vida pelo avesso, qualhando os olhos até quase fechá-los, rebaixando a visão. Feita madeira muito antiga e úmida, da cor das árvores quando estão prestes a cair, ele a usava para guardar alguns veículos e instrumentos agrícolas, um cheiro de ferro acumulado, antigo, junto a estocagem de grãos. Havia sempre água fresca e um tanto de feno, que o sujeito renovava quando voltava ao campo. Nessa época do ano nem mesmo ele deveria conseguir suportar aquela casa e nos víamos muito pouco. Tinha um rosto que custava muito a mudar, de poucas expressões, como se antevisse os fatos antes deles acontecerem, como se fosse o espião de um deus ou alguém muito importante. Uma barba espetada, um bigode cambaleante e era já velho. Quando me via, logo vinha me saudar. Em minha fantasia, me esperava, sabia a hora exata da minha chegada. Devia saber que há um tempo ando só, embora não tenha sido sempre assim. Devia sentir o gosto deste tipo de solidão, um gosto que se sente com a parte de dentro das mãos. Durante a recepção, logo fazia-me um carinho específico me puxando levemente as crinas, depois em cima das minhas costas. Eu me arrepiava todo em espasmos e ele quase ria, embora eu estivesse coberto de carrapichos, de algumas ferida ainda abertas, resultado da minha incapacidade de saber dormir em ambientes seguros. Não se importava, me afava, solenemente. Era assim nossa amizade.
Conheci muitos, inclusive parecidos com ele: a mesma pança, o mesmo cheiro de carvalho e tabaco, as mesmas cordas nos pés, costurando a sola dos sapatos. Muitos que me fizeram mal, muitos que me juravam eu ser deles. Carrego a grafia de um ou outro, a grafia de sua raiva, perto da terra, desenhando minhas pernas. Mas com este tipo, me entendia. Acho que é óbvio o que vou dizer, mas algo me dizia que havíamos passado por experiências muito semelhantes. Nos reconhecíamos. Quando ele me enxergava, olhava para si. E eu agradecia a sua confusão.
Foram tantos galopeios, por vezes, trotes acelerados, cortando a noite gélida, para chegar novamente aqui. Era esta minha prova de vida, anual. O inverno veio como na garupa de um tímido cometa, quando ele passou, tudo se desmanchou de uma hora para outra: tive de acelerar o passo, estava tão cansado que desmaiei logo que alcancei o interior do armazém. Não vi o homem. O céu estava roxo, de início da manhã, asfixiado, tentando nascer nos cristais de gelo que desconcentravam a luz do sol em sua maneira única de refletir – a luz lutava por ser no mínimo um borrão sobre nós. Já me sentia mais quente respirava fundo, muito fundo, até tentar chegar no centro daquele sonho novamente. Queria respirar pelo sonho, queria respirar por ela, e quem sabe, aprender a respirar embaixo da água, salvar a ela, salvar a nós. Meus olhos grudados e queimados de gelo tentavam me reconhecer no reflexo da água do bebedouro. A marca branca do meu rosto que começava no cume de minha cabeça já se insinuava até a minha boca. Quanto tempo fazia que não me via, quase levei um susto com a magreza daquelas bochechas, com o branco dos dentes grandes. Durante a apreciação desta imagem turva escutei um barulho. Algo parecia se arrastar. Nem muito pequeno nem muito grande. O chão estava vivo.
Relinchei e ouvi um pequeno gritinho. Com muito cuidado fui me aproximando das bolotas de feno amarradas bem ao fundo da construção. Ali estava. Era engraçadinho, mal conseguia ficar em pé, então caía, inabalável, ria de si mesmo. De sua queda, de sua tentativa. Quando deu-se conta da minha presença, ficou animado. Tentou vir correndo para meu encontro. Seus bracinhos no alto tentavam buscar algo no ar que o segurasse, e logo entendi que este algo teria que ser eu. Na velocidade que estava, ele ia cair com tudo – as pernas eram ainda apenas dois projetos, dois rascunhos de equilíbrio – então avancei e o segurei com meu nariz um segundo antes que o pior pudesse acontecer. Ele se agarrou em mim, puxou minhas orelhas. Não havia força dentro dele, havia sim muita vontade e essa era sua força. Botou seus olhos nos meus olhos, um de cada vez como estivesse crente que aquilo fosse um poço profundo, uma via de envio de mensagens, aí, abraçou toda minha cabeça e sentou-se ofegante e rindo, com sua imensidão de baba colando as partes. Não sei no que ele poderia estar pensando. Eu sei o que sucedeu no meu estomago, um arrepio cortante quando pensei que o pior poderia triunfar. Pelo cheiro era possível entender que era muito novo, e que estava ali não há muito tempo. Era muito frágil, não sabia nada do mundo. Devia ajudá-lo.
Os dias se passaram rápido, se desenhando entre nós. Ele não parava um segundo. Queria brincar, subir em tudo. Eu era seu assistente, seu guia, seu professor. O mais importante era não perde-lo de vista, deixar aquele casarão onde poderia morrer de fome e frio, aonde quem o perdeu ou o deixou talvez não mais o encontrasse. O algodão que enlaçava suas roupas parecia inútil para seu membros. Os olhos eram dois balaços cor de terra recente, terra pisada, fieis e discípulos da ideia de que tudo que existia eram a extensão dele. Em especial, gostava de escalar nas minhas pernas, o que me deixava nervoso. De início era difícil calcular minha força, suavizar meus movimentos, descer a uma velocidade amaciada entre o carinho e a firmeza para tocá-lo, para preservar seu pequeno corpinho, para sugerir uma proximidade que não o ameaçasse em sua integridade. Minha carcaça que antes era pesada, dura, veloz e forte teve de se reformar, fui amolecendo e reconhecendo cada parte do meu sangue, respirando dentro de cada veia, uma por uma, por dentro de cada tecido, dos meus músculos, funcionavam agora como uma orquestra junto a meus tendões e meus pelos, fui sentindo com todos encontros da minha pele, fui tendo mais ciência de mim e isto estendeu uma calmaria para me relaxar.
Quando finalmente cansava, de vez em quando, eu estava parado em pé, e se colocava abaixo de minha barriga, brincava com ela, então, recolhia os pés com as mãos, como uma meia-lua e dormia. Dormia ali, embaixo de mim, como se eu fosse toda sua casa. Remanescia ali, sem mexer um músculo, para não desperta-lo, fornecendo meu calor, minha proteção, com muito medo de o machucar, em um movimento brusco ferir seus dedos que recém nasciam dentro de eles mesmos, ou sua mole cabecinha sutil. Segurava a respiração como um monge, como um guarda, que possui a maior tarefa de todas.
Pelas manhãs, despertava muito cedo. Eu colocava uma madeira na porta e ia buscar ovos na granja do homem, assim como frutas, para que ele pudesse comer. Ele dizia Iow Iow, quando me queria pela minha atenção. Entendi que este era o nome que me deu. Nas vezes que a noite endurecia mais, dormíamos os dois no chão. O colocava mergulhado no feno, deitava ao seu redor para que o calor não nos abandonasse, para que nada nos abandonasse. Lembrei do tempo em que tive mãe, do tempo que tive irmãos. Os cavalos já nascem prontos para o mundo. Já podemos ir aonde queremos, temos pernas com ótima memória, não temos tempo a perder, não precisamos que ninguém nos ensine como se levantar, como comer, como tomar banho, como amar. Mas, mesmo assim, é importante que alguém nos ensine porque é essa de fato a vida. Meus sete irmãos, minha mãe de pelugem marrom e branca que nos mostrou todo este pampa até quando nos separaram, até quanto pode. Sentia-me como ela, como eu quando estava com ela, sentia-me quando o tempo nunca escapa, uma memória doce. Queria ser todas aqueles, aqueles oito. E poupá-lo da imagem do fim. Quando eu entrei no mar, para fugir do bando, nem sabia que poderia nadar tanto, até a ilha. Cada um foi para um lado, os outros, eu vi de longe. Foram levados e nunca mais nos cruzamos.
Não sei se foram semanas ou dias, até o homem chegar. Sei que estava bem, gordinho, embora, muito, tremendamente, sujo. Sei que fedia, mas era o seu cheiro. Era como eu poderia o encontrar em qualquer lugar, por quilômetros a fio. Era o seu nome par amim. Sei que respirava bem e quente. Que ria, estava vivo. Que não falava ainda, como os outros fazem, mas que rir parecia mais importante que falar – como se tivesse pulado fases. Sei que fui feliz, por um tempo.
Um dia, meu amigo enfim retornou. Levou um susto quando nos viu. Acho que tampouco ele conhecia o menino. Deve ter sido uma confusão aquela cena, um cavalo e um pequeno humano olhando para ele como se fosse ele o intruso. O galpão era para os animais, não para as crianças de sua espécie. Logo entendeu o que eu tinha feito e tentou me agradecer, não esperava menos dele. A criança foi posta em um carro por ele e outros homens, lembro do seu olhar de terra na parte de trás do vidro se desmanchando no ar. Poeira. Não sei como funciona a memória dos humanos, se lembrarás de mim. Talvez estar vivo seja lembrar. Talvez seu corpo nos recorde. Talvez não ter a lembrança do frio extremo, do quase amputar dos dedos, da fome, talvez esta seja a memória que importa.
Tenho certeza que o homem queria que eu ficasse. Acho que por um tempo me deu uma devoção difícil de categorizar. Me trouxe muita comida, algumas frutas que eu nem conhecia, como mamão, melancia. Me deu banho, me penteou enquanto declamava canções de cor. Sabia que eu gostava de música, me deixava com um rádio ligado, tocando uns tangos antigos. Era sua forma de agradecer por eu ser como era. Mas sabia que eu não ficaria, não poderia ficar. Em respeito aos irmãos que nunca mais vi e não só por isto. Em respeito a mais pra frente. Ainda fazia muito frio, a própria lenha que ele chamuscava na fogueira para me aquecer junto aos outros animais não dava conta. Não importava. Quando fui embora, eu senti o cheiro, o gosto, da lágrima tímida que o acometeu. Não me pergunte como, mas dois seres talvez possam chorar a mesma lágrima, dividi-la. Ao mesmo tempo. Mas se eu ajudei o menino, aquele meu sonho foi o que me ajudou. Eu só precisava encontrar aquele lago. De alguma forma, fazer as pazes com a água.
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