quarta-feira, 12 de agosto de 2020

entrevista

um pouco antes de minha avó morrer tivemos um momento muito especial.  havia surgido uma oportunidade e ir fazer faculdade em outro estado e por um temor da distância e do fato da idade começar a cada vez mais a trazer percalços, alguns sem volta, me veio a ideia. foi uma de nossas longas despedidas. minha avó sabia muito bem o quanto a vida é fulgaz, foi a pessoa que conheci com mais ciência disto. acho que sempre estivemos nos despedindo, eu e ela, parte por uma característica sua de lidar com os encontros. por isso sempre dizíamos tudo, na lábia, na cara dura, por aquela poder ser uma última vez, nunca nos despedíamos brigadas, o oposto, fazíamos questão de usar palavras doces antes de um bater de portas, uma arrancada de automóvel, e nos íamos, leves. 

sabia que minha avó era a pessoa no mundo que eu mais podia confiar pois ela não tinha tempo. ou achava que não tinha. respeitava muito as situações, era muito organizada, levava sua agenda muito à sério. o diálogo era como um teatro, demarcado, uma tribuna. um fala, outro, escuto, cada qual na sua ordem. assim, a convidei para um momento só nós duas, dois dias antes de minha partida. queria saber de sua vida, suas opiniões, suas frustrações, tudo o que não sabia. cheguei com um caderno e um lápis muito bem apontado, me sentei a sua frente como uma repórter e ela deslanchou a falar. era como ouvir um fechamento de contas de uma empresa. uma multinacional. haviam cadernos, caixas, caixas em volta do tapete, com suas anotações, seus diários de anos. minha avó era muito formal e a entrevista no final virou muito mais como uma palestra. começou:

fiquei gripada 57 vezes na vida. em três vezes apenas, fui ao hospital. em duas tive filhos e na última coloquei uma prótese no quadril. não tirei o apêndice muito menos as amígdalas. conheci ao todo 23 países (se pensamos depois da união soviética), este número é de 57. depois dos anos noventa, da guerra da sérvia, 61. ao todo, que me lembre, vi 47 ditaduras surgirem e se desfaleceram. já vi uma pessoa morrer, assassinada, em minha frente. tinha seis anos. depois, vi mais oito pessoas morrerem, todas meus parentes, usualmente em casa, como era naquela época. tive três pais, ao todo, mas considero apenas dois. o biológico, nunca tive contato. morei em 14 casas diferentes, em três estados, dois países. tive 27 tipos de trabalhos diferentes. não terminei nenhuma faculdade. por três vezes pensei que queria ser médica e por quatro, advogada. aprendi a falar cinco línguas. fui no cartório 144 vezes. fiz 29 carteiras de identidades diferentes. tirei a carteira de motorista três vezes. declarei falência duas vezes. fugi quatro vezes ao todo. dos meus pais. do meu primeiro marido. de uma escola de francês e de uma pousada muito estranha que estive na alemanha. tive em torno de 50 amigos, mas hoje, considero apenas quatro. saí para ir ao teatro 77 vezes, para ir ao cinema 634 vezes. tive 63 entrevistas de emprego. mudei de cabelo cinco vezes na vida. quis ser homem uma vez só. confiei, no total, em três pessoas na vida. tive 98 encontros românticos. 122 vezes encontros quase-românticos. me apaixonei uma vez só. amei, seis vezes. a paixão é mais difícil. casei três. traí nove vezes. fui traída 21 vezes. menti muitas. nunca me arrependi do que falei errado apenas do que deixei de falar. não tive coragem cinco vezes. não respondi 56 cartas. me enganei muitas vezes, incontáveis. por 45 vezes parei de sonhar. por 34 anos tive o sonho recorrente, de um navio explodindo, entre a água e o fogo. por 12 anos eu não sonhei. por 1 ano e meio parei de falar completamente. fui a psicóloga 2 vezes. pensei em me matar 475 vezes. por quatro vezes pensei em como. tentei uma vez. já fui em 18 tipos de igrejas e templos diferentes. já acordei antes das quatro da manhã 1062 vezes. briguei com meus filhos 2349 vezes. desliguei 56 vezes na cara de alguém. faltei 23 vezes a um encontro. em 89 vezes deixei alguém esperando de propósito. por 9 vezes deixei de comer carne, por 5 vezes frutas, acho que era a depressão. cancelei 13 vezes a academia. tive 8 cachorros e 13 gatos. pensei ter visto fantasmas 67 vezes, a maioria entre na infância ou na velhice. por 9 vezes ajudei um desconhecido, largando tudo o que estava fazendo. fui demitida 3 vezes. fui deixada 4. deixei alguém 27 vezes. tive vontade de chorar, fruto da beleza, por 8 vezes na vida. a maioria em nascimentos e vocês, seus pais. mas também, quando voltei ao brasil pela primeira vez. e quando deixei a áustria, pela primeira vez. levei ao todo 489 choques. juro que em 3 vezes se não agisse rápido teria morrido vítima de um raio. achei que ia morrer 17 vezes na vida. obedeci a intuições estranhas 10 vezes, como parar na estrada e esperar passar quinze minutos até retornar ou ir embora de um restaurante mais cedo se alguém de nome Cláudio aparecesse, fui intempestiva 1783 vezes, do tipo, dar um beijo a um desconhecido. fiquei bêbada 7890 vezes. me arrependi, nenhuma. fui na taróloga em 18 ocasiões da minha vida. em terreiro, 45. em centro espírita 34. ganhei na raspadinha duas vezes e acertei o jogo do bicho 9. li 4893 livros. 102934 jornais. fiz chucrute 899 vezes e mocotó 454. parei de falar do nada com 31 pessoas. tive 8 cores favoritas. acreditei e desacreditei em signos 19 vezes. dei meu nome errado 47. transei com pessoas desconhecidas 8 vezes apenas. me filiei em 3 partidos e militei em 7. fiz campanha para quem não votei duas vezes. disse que tudo ia ficar bem sabendo que não ia 74435 vezes. fiz promessa 6 e cumpri em 1. perdoei 5 vezes, mas na verdade, duas. bati em 9 pessoas na vida. todas, revidando. me perdi 783 vezes. pedi perdão duas vezes. roubei no carteado 909 vezes, fui ao parque de diversão 13. usei uma desculpa esfarrapada para sair de um jantar 322 vezes. parei o carro em cima da faixa 209 vezes. fui presa uma vez, em um protesto do sindicato. escondi o choro 28877 vezes. não tive nada para comer 49 vezes. chorei de fome 14 vezes. de alegria 14 vezes. nunca chorei de saudade. nunca votei em alguém que não acreditasse. nunca me despedi com um palavrão. nunca fiquei onde não me senti bem vinda. nunca fui amada de lado porque nunca deixei me amarem de lado. nunca amei de lado. nunca toquei nenhum instrumento musical e embora tenha ido a paris quatro vezes nunca fui ao louvre. nunca esqueci o aniversário de alguém que já tinha decorado. nunca gostei de tirar fotografias nem de nada com nome de aipo ou nabo. nunca confiei em quem usa álcool para fazer uma fogueira ou quem bebe sua própria bebida em uma festa. nunca aprendi a dobrar guardanapo. nunca não tive medo, seria mentira. nunca desobedeci uma receita médica ou as indicações de um médium. nunca me arrependi.

- Está anotando? - disse ela, dando um gole no chá de melissa. - Logo em seguida, passaremos passaremos para a consulta as fontes, e em seguida, as fotos.

turismo

antes de viajar, resolvi passar uns três dias em são paulo. fazia tempo que não via amigos meus, da época da faculdade, e seria bom antes de ir ver alguns rostos conhecidos. Jaime e Vanessa me receberam muito bem, como sempre, com um grande sorriso no rosto, a casa cheia de comida e muita atenção a cada palavra que eu dividia com eles. ao contrário de meus outros conhecidos não me perguntaram o motivo da viagem. nem tudo precisava ser explicado para eles, dividia com os dois este tipo de passe, baseado apenas em uma um lampejo, movimento do tédio ou apreço do risco. não havia congressos, ou professores importantes, propostas de emprego, uma pessoa especial, não havia pautas para entrevistas ou contatos a se fazer. não havia sequer um desejo de viajar, se eu parasse para pensar bem, e este era o motivo que mais me motivava, e sinto que eles intuíam isso, capturavam que este tempo longe tinha a ver com autocuidado. depois de lígia, de meu pai, depois de tudo que nem precisamos falar ou explicar, louros de nossa amizade, usando a energia para devorarmos as garrafas de vinho, lembrarmos de causos antigos para rir, do governo para tristemente rir, e do nosso trabalho para desabafadamente rir.

Vanessa contava sobre um aluno dela, da graduação em artes plásticas, que iria fazer o seu trabalho final em torno do fato de não saber ao certo sua data de aniversário. "Nem o ano", ela disse, e à princípio, achamos muito interessante, toda essa judicialização e numeração da vida, não é mesmo?, então, falou meu amigo, essa parte é boa, "um outro menino resolveu discutir paródia e os limites da cópia", "imitação", "roubo", "copyleft", "memórias ruins", disse os dois, e fez sua exposição copiando a do menino sem dia de nascimento. "Pronto", o "cenário estava armado, foi uma confusão", mas muito divertida, disse Jaime, "como a boa arte crítica tem que ser". Vanessa riu mas confessou que estava preocupada, o aluno da primeira história entrou em uma depressão severa, e como tutora, os casos de agravamento de saúde mental se tornavam cada vez mais visíveis. "e são artistas, entende?", então há uma estética específica que torna a atmosfera um tanto mais aterradora. Quando Jaime foi checar a comida, ela me disse baixinho, quase como um segredo, não são, por exemplo aquelas linhas nos braços, clássicas do cortador de pulsos, sabe? são desenhos muito arrojados, alguns abstratos, outros altamente realistas, misturando a última ceia com k-pop, essas coisas, inclusive já houve casos de automuliação onde uma menina amputou o próprio dedo, misturou entre mini cenourinhas em uma caixa, era uma obra interativa chamada encontre o verdadeiro, claro, nem desconfiávamos que ela faria isso, fazia parte da obra, esse choque, disse, e entrou Jaime. ficamos sérios por um momento falando da necessidade de um acompanhamento psicológico, de salas terapêuticas, no campos de artes plástica na cidade de são paulo e que alguém devia encabeçar isto. Segundos depois já estávamos rindo de alguma besteira qualquer, quando começamos a falar novamente sobre minha viagem. "Já sei", disse Vanessa, já que estará por lá, tem que ir a Santa Iurqui. "Sim, é um lindo vilarejo", completou Jaime. 

Por um tempo ficaram tentando me convencer a ir ao tal lugar, contando aqueles causos típicos dos que tem prazer de narrar as viagens como quem assim retornar, por um breve momento, me fizeram prometer. "Lagostas de graça, direto com o pescador, o bar se chama Q, um nome muito bom, não é mesmo?", "Há uma igreja muito engraçada, que sobreviveu a vários saques ao longo dos anos, e a medida que você vai entrando ela vai acabando, e depois, se reerguendo no meio, chamam de Igreja do meio, tem início, e fim, mas no meio, absolutamente nada, pelo menos nada que se possa ver", "a praça central é muito bonita, possui mini-esculturas", "as pessoas são muito gentis e os bares costumam ficarem cheios noite adentro", completou Jaime, "e um amanhecer azul forte, muito, muito raro como se olhassem direto para uma bola de neve". Ouvi tudo com atenção. Apesar deste gesto normalmente me incomodar, as famosas dicas de viagens, ir para Santa Iurqui seria uma oportunidade de rever meus amigos mesmo longe, sentirem eles perto de mim, prestando o comprimento desta promessa. E estranha mente, isto aconteceu.

Já no outro continente, faltando dias para o fim de minha viagem, já cansado de ficar mas ainda não sabendo se havia em mim a vontade de voltar, fui-me para Iurqui como parte do plano. Era um povoado muito pequeno, mas belo por sua nostalgia. As casas eram amareladas e de tijolos, e não brancas, como haviam me contado. O clima era ameno e o sol amansado, com um tipo de ternura abafada. Não encontrei a Igreja do Meio. Por mais que perguntasse, ninguém foi capaz de me indicar onde ficava a praça central com as estátuas em miniatura. Os habitantes eram de poucas palavras e pareciam cansados de turistas. Fiz meu check-in na única pousada que encontrei, já tendo em mente que no outro dia voltaria a estrada e fui para o bar que, ao contrário que me falavam, não serviam lagostas e nem se chamava "Q". Não sabia direito o que sentir, se era engano, desilusão, ou a coceira de um típico humor. Queria ir embora daquela vila o quanto antes, embora reconhecesse uma beleza em sua pacatez clássica da vida no campo. Sem entender direito o que estava fazendo ali, sentado no bar, comecei a beber algumas cervejas, depois, comecei a conversar com o dono, que me serviu algumas vodkas. talvez fosse bom, em meio a viagem, ter um lugar menos movimentado para estar, para aterrar, me disse tentando maquinar para trazer as coisas ao lado positivo. então já bêbado, fui fisgado por uma profunda tristeza e me emudeci frente a cena que se desenrolava aos meus olhos. Nela Jaime e Vanessa brigavam, afoitos, de uma forma que nunca vi. Diziam coisas horríveis um para o outro, como se fosse artigos pesados e perigosos, instrumentos de guerra. Vanessa estava um pouco mais magra e Jaime, começando a ficar careca e mais gordo, estavam mais velhos, sim, com certeza, não eram eles agora, mas depois, então tudo ficou em silêncio, Vanessa e Jaime se separaram diante a meus olhos, e foram embora. Não fiquei para ver o amanhecer bola de neve azul, se é que era azul, se fosse ou não, pouco importa, e de dentro do trem, de madrugada, senti o enjoo mental típico arrepiante dos viajantes. De quando se está longe, mas de alguma forma, mais dentro do que nunca. Mais próximo, do que nunca.

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

A estrada

É impossível esquecer o dia que Antônio nos abandonou. Foi no mesmo período que os bichos queriam se matar. 

Isto foi há quase uma década, céus, me assusta tanto a proximidade como também o tanto de tempo passado. Estávamos já há quase uma semana na casa de campo de mamãe e papai, era fim do ano, um pouco antes do período de férias. 

Nos primeiros dias era só eu, meu ex-esposo, nossas filhas e mamãe. Eu e meu ex-esposo, embora matrimonialmente separados, nos damos muito bem, somos muito afeitos a companhia um do outro, e este gosta muito de minha família, o que é raro, e por isto costumo o trazer como forma de atenuar estes dias com meus pais. Depois foi chegando mais gente, a casa mais cheia, mais comida, mais louça, vai ficando complicado. Vamos tendo que contar de novo e de novo sempre a mesma história, as mesmas atualizações, a cada um que chega, a minha tia Ana, meus sobrinhos Ulisses e Wellignton, meu irmão Chico, dias depois, e vemos por força da repetição e do cansaço a história ir se perdendo à olhos nus dos primeiros ouvintes, a ponto dos acontecimentos ficarem borrados na ameaça se sua autêntica veracidade. A cada um que chega a paciência vai se apequenando, assim como os modos, e em um pulo, é como se voltássemos a ser aquelas crianças berrentas de outros tempo, resolvendo qualquer situação mínima na base do grito, mendigando faíscas briguentas por baixo da rotina. Por fim, chegou Antônio. 

Não disse muita coisa, passou os dias fazendo longas caminhadas. Na hora do almoço e da janta nos ouvia muito, com uma atenção nunca antes manejada nessas ocasiões, e se mantinha apenas testemunha de qualquer desentendimento frequente, sem levantar um verbo sequer. Estava tão estranho a ponto de eu e meus irmãos, Odália e Pacheco, minhas tias e meus pais, ficarmos até mesmo preocupados. Ou estava sofrendo de algum tipo de distúrbio emocional ou tinha, quem sabe, sido iluminado por uma reviravolta de ordem divina ou apenas mágica, da qual o detalhe nos escondia. Metade da família se dividiu em volta da hipótese número 1, enquanto a restante, em volta da número 2. Este era o tipo de coisa que gostávamos de fazer para passar o tempo e enquanto Geraldo (meu ex-marido) imaginou que Antônio estava treinando para padre, Ulisses disse que ele na verdade estava fazendo pesquisa teatral para interpretar um monge hindu e largar os estudos de geologia, eu apostei que estava mal por ter sido revelado a ele em um retiro espiritual que o retiro anterior na verdade não era mais confiável, e vivia agora um intenso dilema da ordem de este tipo específico de granhuras. Chico disse que o abestado provavelmente deve ter levado um pé na bunda e alguém respondeu saindo correndo que meu irmão era um abobado e não tinha entendido a brincadeira. A última coisa que me lembro é dos pratos caindo com a correria de um atrás do outro.

Três dias antes do natal, armou-se uma daquelas brigas ao fim da janta. O motivo era inútil, começou com algo a ver com o fato de meu pai e Pacheco não terem acordado Odália em uma madrugada específica do ano de 2001, durante o jogo da copa do mundo entre Brasil e Inglaterra, na Coreia do Sul, fato que ela considerou imperdoável por toda a vida, e depois, cada um falou o que queria falar, por tédio ou por diversão ou por saudade, pela incompetência de se demonstrar carinho, muitas famílias fazem os gestos mais crus da saudade, até o início motivador daquela cena se perder. Aí, Antônio levantou e disse calmamente: não aguento mais vocês, vou embora. Entrou no carro e sumiu. Ficamos em silêncio pensando que era uma brincadeira, suando as cores de dezembro na camisa.

Papai foi o primeiro a fazer algo. Ficou atônito, pensava o pior. Era um aderido da hipótese 1, de que o filho não estava batendo bem da cabeça, e assim, aquela mensagem estava cifrada. Pensando que poderia fazer uma besteira, entrou no carro junto com minha tia e eu. Fui pela diversão, com um sorriso debochado no rosto. Cresci vendo meus irmãos se desentendendo, com suas brincadeiras de lutinha, suas peripécias e pegadinhas que faziam um com os outros. No chão, entre soquinhos, choros e gargalhadas, tudo misturado. Estava acostumada, era como os áureos tempos. Só parei de rir quando, depois de alguns minutos chegamos na rótula antes da rodovia. 

Havia um cheiro de podre. Em seguida, ouvimos um estrondo, junto a um grunhido, e um policial sair correndo e usar o rádio do carro para gritar com alguém. Um deles se aproximou de nós e disse que não havia como passar adiante pois a estrada estava fechada. Meu pai o pergunto até quando e eu vi atrás das viaturas um rastro vermelho no chão. Até os bichos pararem de se matar contra os carros, vai saber, quando, disse o guarda. Encontraram aves, lobos, gado, marsupiais, cobras, até mesmo duas onças, que a tudo indica vieram de longe, nem eram habitantes naturais de nosso estado. Primeiro começaram aos poucos, se jogavam entre os automóveis, nos vidros, seres menores, então, até vieram os grandes, em larga escala. Mais de trinta pessoas tiveram que morrer naquele trecho da BR até as autoridades fecharem as estradas. Uma vez fechadas, os bichos sumiam, abertas, retornavam. Durou três dias o evento e, ao todo, a estrada ficou fechada por duas semanas. 

Nunca soubemos como meu irmão nos largou, aquela era a única estrada para sair da cidade. Quando voltamos a casa, minha mãe disse, batendo as mãos nos quadris, como quem tira o pó, Não deve ter ido longe, de fato, deve estar aqui, por perto. Era adepta a hipótese 2.

domingo, 9 de agosto de 2020

o porto

Assim que fui nomeado juiz, nos mudamos na semana seguinte para Alvarenga. A maior parte das coisas minha mulher mesmo que separou e empacotou, enquanto eu me dedicava as questões protocolares, com a imobiliária, o clube e o escritório de advocacia, do qual tinha sido sócio. Minha ideia era simples, alguns meses, talvez um a dois anos em Alvarenga, uma pequena cidade litorânea ao sul, e depois, passar para um concurso maior, quem sabe, ir para o Centro-Oeste, onde parte da família de meu pai ainda estava viva. Nunca tinha vivido em uma cidade próxima ao mar, tinha o visto raras vezes, mas o mais interessante não era nem isso. Só queria ir embora de Curitiba o quanto antes, ainda mais depois do escândalo de Ludovico.

Foi nos indicado uma pequena pousada, até que conseguíssemos encontrar uma casa que agradasse minha esposa. Como haveria de abdicar de seu emprego, era professora de maternal, a escolha de uma casa que a fizesse se sentir bem e segura era o mínimo que podia oferecer. Minha mulher não fala muito, então, estou sempre me antevendo. Falo comigo mesmo, antes que haja no futuro, um momento, quase sempre dolorido e ruidoso, onde tenha que confessar algum mal-estar. Nunca reclamou ou colocou alguma objeção a nossa ida, muito pelo contrário. Ficou feliz, riu, me parabenizou e se parabenizou, como se fosse uma conquista conjunta. Mas eu sabia que isto não apagava o fato de que a distância das amigas do colégio, do tempo da faculdade, o barulho dos carros, as sirenes, até mesmo o grito dos bêbados de madrugada, era algo que sentiria falta não apenas, a nostálgica falta, mas aquela aguda, que nos é sentida no tilintar do estômago. Ao contrário de mim, que sempre me mantive satisfeito entre os estudos para o concurso e os processos que lidávamos na firma, me contentando com alguns jantares caseiros ou breves saídas ao parque nos finais de semanas, minha mulher gosta de estar no meio das pessoas. De sair a noite, dançar, de saber o nome do padeiro, do senhor do café, da senhora da feira. Tudo o que ela não me diz, e assim vejo, também a outros, penso eu, não confessa, costuma embrulhar com um acúmulo de floreios, tagarelices, exageros, quase mascaráveis, quase pistas falsas, que usa para se manter menos agitada ou desviando de seus problemas.

Eu teria um salário fixo cinco vezes maios do que o do escritório, claro, sem os adicionais percentuais dos processos e o bônus ao final do ano. A ideia de uma certa estabilidade me alegrava. Nunca me questionei porque queria ser juiz, na verdade, a ideia, é me tornar desembargador. No primeiro dia de aula, ao ser questionado pela professora nesses rituais de apresentação do curso e aos novos colegas, respondi que era o natural a fazer. Simples desta forma. Depois a universidade acabou, fiz duas especializações, mas vi que não havia interesse pela vida acadêmica ou pela pesquisa, mas mesmo assim seria estranho parar por ai. Comecei a fazer concursos, não pelo desejo do ofício ou por não ter um emprego bom, mas seria um desperdício desfazer o canto de estudo, deixar os livros, e o maior de tudo, o tempo reservado para o estudo e o hábito, quero dizer, o gosto pelo lento avançar de etapas. Neste movimento contínuo parecia que sabia para onde estava indo e tudo era feito de forma milimétrica por um sentido, cada escolha minha, se autoexplicava, não tinha a sensação de estar perdendo nada, apenas acrescentando.

Depois de deixarmos as malas na casa da pousada, o dono do local nos convidou para comemorarmos minha vinda em seu restaurante. Pelo visto, era dono da metade dos empreendimentos da região. Apesar de a ideia não me causar entusiasmo e conhecer as figuras particulares daquela cidade não me despertassem um milímetro de curiosidade, aceitei de pronto por minha mulher, sabendo ser este tipo de evento social de seu feitio. Ao chegarmos no local todos foram muito amáveis. A cidade parecia estar a nossa espera como se fôssemos um prato principal prestes a ser devorado. O farmacêutico, o dono do parque turístico, o do dos containers do porto, das fábricas, muitos estavam lá e comecei a desconfiar se fazia a parte de alguma estratégia que poderia gerar favores futuros. Sempre fui mediano e não sou acostumado a ser notado. Nunca fui bonito mas também não era feio o suficiente para ser marcado, estudei em uma faculdade de baixo reconhecimento, barata e de acesso universal, vim de uma família de classe média sem nenhum acontecimento estapafúrdio. Agora estava começando a entender o que aquele cargo realmente queria dizer. O dono da pousada, Sr. Valdecy, me apresentava a todos como o novo juiz e neste momento exato a face do ouvinte se modificava, ganhando um filtro suavizante. – Mas é muito jovem, me disse uma senhora, agarrando um de meus braços. – Vou tomar como um elogio, disse, mas sim, de fato, sou muito jovem. Neste momento estava no centro de uma roda de umas dez pessoas, e para qualquer lugar que buscasse ir parecia haver quilômetros de superação para chegar, mesmo que fosse o outro lado da sala. Foi aí que o vi pela primeira vez, entre os cabelos grisalhos recentemente pintados e taças de espumante, perto do balcão de bebidas, ao lado de minha esposa, alheios a todos comentários e a esta espécie de caçada pela qual estava passando. Um lustre posicionado ao acaso bem em cima dos dois trazia um tom especial a cena, intensificando ainda mais as luzes gotejadas de amarelo avermelhado. Ele era extremamente bonito, com aquele tipo de beleza que não conseguimos expressar, o que nos causa um desnorteio a mais. Fiquei um momento em silêncio, observando a cena dos dois. Senti uma presença perto de mim. O homem riu baixo e disse com as sobrancelhas muito marcantes, como uma gongorra, muito infantis, - Não se preocupe, ele é inofensivo, como se fosse um acordo de cavaleiros. Minha mulher é também muito bonita, uma beleza fácil, destas que cumprem os padrões, e por um momento a proximidade dos dois fez sentido. Poderiam ser um casal, pensei, olhando daqui, senti meu peito esquentar e temi não ficar escandalosamente vermelho na frente de todos aqueles desconhecidos. – Por que o senhor diz isto? – perguntei ao homem que tinha se aproximado, a quem descobri, chama-se Frederico, e era como eu, advogado. – O falta o principal, disse. Vontade.

Não mencionei o jovem para minha esposa em nenhum instante. Seria prudente que ela tocasse no assunto, não queria causar atritos desagradáveis. Antes de dormirmos perguntei a ela o que achou de nossa noite, disse que estava muito cansada, mas que apesar de tudo, do estilo século dezoito daquele povo, com toda pompa e péssima música, tinha sim conseguido se divertir. Quando acordei tive a impressão de que tinha sonhado com ele. O conteúdo do sonho havia desaparecido, restava apenas algo como uma sugestão de sua presença. Durante o café esperei alguma oportunidade de falarmos sobre este episódio, mas minha mulher, sordidamente, como é de seu perfil, não parava de comentar cada detalhe insignificante que notava: a louça, a umidade do ar, a borda das janelas, o tipo de banha usada na produção da comida, o nome do jornal da cidade. Parecia estar não tão infeliz para que abruptamente é retirada de uma cidade e colocada em uma insignificante cidade portuária, e não me aguentei. – E aquele, quem era?, - Como? – ela respondeu. – Você estava conversando com alguém, um rapaz, perto do balcão, os vi em algum momento. – Ah, é Jonas. Vou passar mais tarde na casa dele, ficou de me emprestar alguns livros. Te convidaríamos para ir, mas acho que tens muito o que fazer hoje. – Sim, é verdade, - a disse. – Tenho que resolver a documentação, começo na segunda-feira.

O trabalho estava bem, transcorrendo sem maiores dificuldades. Em meu tempo livre saía para pescar com Valdecy, logo descobri que aqueles passeios faziam parte do trabalho e meu papel era semelhante a de um psicólogo local, praticar o dom da escuta. Minha mulher cada vez mais engrandecia sua relação com Jonas, se tornando uma costumaz frequentadora de sua casa. Quanto mais descobria que sua ausência na casa se justificava pelo fato de estarem em algum de seus programas, como idas a biblioteca, cafés, bares e cuidado dos jardins municipais, mais eu descobri em mim uma novo passatempo, o cultivo da remoagem ordinária, digo, do odiar. Comecei a gostar de odiar o fato dos dois se apreciarem tanto, dela não me dever nenhuma explicação, a natureza fina dos ossos de Jonas, digo fina mesmo, era muito magro, com as omoplatas saltadas, a testa erguida como um escudo, o que prova que poderia ainda ser muito mais bonito se se cuidasse. Por momentos me vinha o rosto de minha mulher rindo, em seu colo, e em outras, apenas o rosto dele, congelado de como estava na primeira vez que o vi, com uma luz própria, brilhando. Perto dele até mesmo minha mulher ficava mais bonita e quem sabe mais interessante, e por vezes, me questionava se sentia era ódio dela por estar com ele, e não dele, por estar com ela. Tinha um medo de compreender o que reamente me deixava incomodado e por isso busquei negar toda oporttunidade que surgisse de um encontro nosso. Quando achava que estava apenas sendo pela primeira vez na vida vítima de um ciúmes mecanizado onde sem enraizam os casamentos, o que seria a resposta mais óbvia, logo me vinha na mente a frase do senhor: - Não te preocupes, és inofensivo. Não entendia o que estava por traz da afirmação. Mesmo se fosse ou casto, ou gay, ou assexual, o suposto ciúmes nao diminuia. Não mudava o fato de minha mulher e ele estarem lá, falando sabe-se de que, rindo, ou chorando, emocionados ou entediados, mas juntos.

Ela que por hora vinha me contar sobre algum relato de seu dia e quando estava disposta me usava de folha em branco para pincelar alguns exercícios de pensamentos e suposições sobre Jonas. Enquanto eu tomva banho, fazia higiene, ela falava, mais para ela do que para mim, é claro porque me interessaria, em suas teorias de personalidade, sobre ele, que sempre denunciavam fascinação. Por ela descobri que era o herdeiro de uma fortuna, que sua família havia ganhado muito dinheiro no campo, mas mesmo assim não saiu da casa dos pais, e pouco viajou nestes anos todos. Em quase dez anos, com muita dificuldade, conseguiu um diploma de químico, mais para agradar o pai, que não tinha ninguém com terceiro grau completo na família.  Não havia namorada ou ex-esposa, nem ao menos, casos em que ela me contasse, apenas algumas experiências da juventude, motivadas em suma, pela própria juventude. Passava os dias lendo os jornais e romances de literatura brasileira, principalmente os urbanos, como uma medida protetiva de passagem do tempo. Quando convocado a falar, sempre tinha algo a dizer. Mas se não intimado, permacia suave, à escuta, à espera, e a resposta era quase um respeito, um gesto carinhoso de retorno, destinado ao ouvinte. A beleza, suponho, o entendia - diz minha mulher. - Mas é de fato, um homem muito bonito - disse a ela, querendo ganhar pontos como minha ousadia. - Isto não o interessa em nenhum modo, nem ao ponto de se tornar um estorvo - respondeu ela de boca aberta, como se tivesse se sentindo sortuda por poder estudar de perto uma criatura tão excêntrica. - Então. se nem a beleza o traz compaixão, o que sobra? Eu não tinha entendido até aquele ponto. Não é que não tivesse apreço pelo mundo. Não é que não se apaixonasse pelas pessoas, não as desejasse, por vezes ia a casa de prostituição, ou algo do tipo. Não é que não se interessa-se pelo funcionamento do mundo, do dinheiro. Apenas não havia vontade de fazer. Seria possível? Seria. Por exemplo: se quisesse minha mulher, e eu creio que sim, de fato, poderia estar apaixonado por ela, se de fato fizesse qualquer movimento, ela cederia e a conquistaria. Mas isto estava completamente descartado. A ideia de ter um caso, do trabalho, da dedicação, a ideia de agir e suportar esta ação, isto o trazia um tipo de asco. Pois a longo prazo nao havia motivação. Era uma pessoa triste, sabia que não passaria disto. 

Chegou um dia em que relatei a minha mulher que não gostaria mais de saber nenhum detalhe sobre Jonas. Reais ou não, suas considerações me traziam uma excitação negativa, insuportável, uma raiva desconhecida. Ele parecia cada vez um ser mais diminuto, mais mesquinho e sua negação frente ao movimento das coisas me deixava ocupado em meditações inúteis. Se quer ser amigo desta criatura, que seja, mas faça este experimento longe de mim, eu disse, além do mais se gostasse mesmo dele procuraria ajuda. Eu pensei que com isso suas visitas iriam diminuir, mas começava cada vez mais a passar mais tempo naquela casa. Ás vezes chegava a passar a noite, e eu como não queria detalhes, nem a questionava. Pensei também que sem as histórias e os detalhes vivos narrados por ela eu pararia de pensar em Jonas. Mas os sonhos aumentavam. Em muitos ele só se resume a uma presença, silenciosa, mas presente sempre em qualquer situação. Balança o pé enquanto tomamos chá, e aquele balanço move todos os vidros da casa, se sapato vira o centro do mundo. Em muitos seu olho está muito perto do meu, como se estivéssemos deitados, e eu sinto uma estranha calma em tentar desvendar o mosaico de diferentes cores que compõe seu olho, eu me sinto, digamos, aceito ali naquela suposta cama, aceito por quem eu sou, sinto um alto grau de pertencimento, quase imerso em uma solução de gentileza. É algo que deixa rastros muito calmos, e no trabalho, em situações estressantes, naturalmente eles vinham a tona, usados para me desacelerar, para me confortar. Passado este uso temporário, voltava ao sentimento normal em relação a ele: um profundo ódio.

Um dia, cheguei ao meu limite. Já estávamos há cinco meses naquela cidade e mal consegui me concentrar para o estudo para saírmos logo daquele emplastro. Fui começando a ficar nervoso, me sentindo preso aquele mar inutil, que so servia aos barcos e não as pessoas, aquele mar impossível de nadar, turvo, feio, frio. Minha mulher e eu quase não falávamos, muito menos nos tocávamos. Se ainda tivesse sendo traído de forma real, da forma esperada, se ao menos estivessem os dois tendo um caso, veria isso quem sabe até como algo honroso, algo compreensível mas nem isso, não havia explicações fáceis. Eu descobria inúmeros motivos a mais para odiar Jonas. O fato dele não querer minha mulher a este nível, mas ela estar sempre lá presente, era um deles, o que pensava? Como alguém negaria a minha mulher? As desculpas ficavam cada vez piores e parecia um pretexto de meu cérebro de o trazer a tona. Nesse dia me vi em meio a sua barba, eu pensava, como ele mantinha aquela barba, era recém depois do almoço, o que justifica isso? Sai do escritório correndo e fui até sua casa. Entrei com os braços abertos e ofegante, fiz questão de bater pesado na porta de madeira, esta que se abriu sozinha. Encontrei Jonas e minha mulher na sala, sentados sobre o tapete como duas crianças, ignorando toda a mobília cara em volta. Não pensei muito, só queria tirá-lo da minha cabeça, dar fim ao desprezo que sentia por ele e que me envolvia em mais desprezo, se eu tivesse uma arma teria colocado na sua cabeça naquele momento, mas como não sou este tipo de pessoa, e esta não é este tipo de época, apenas o agarrei pelo colarinho a ponto de seus pés se perderem do chão. Minha mulher gritava comigo e eu o olhava minuciosamente, com uma proximidade como a do sonho. Vamos, me bata, ele disse. Me bata. Falou calmamente, com um leve sorriso, equilibrando-se em uma indiferença açucarada. Era impossível. Dar-lhe um soco, ou dar-lhe, um beijo que fosse. Impossível. - Por fim, queres algo, pensei mas não disse. Não havia o que dizer, seja o que estivesse em jogo ali, eu havia perdido. Talvez perdido desde que me mudei para aquela cidade. Desde que entrei na faculdade. Desde que nasci. Me limitei a apenas ir embora.


quinta-feira, 6 de agosto de 2020

nuvens cinzas

No dia 5 de julho de 1982 meu pai atravessa a avenida azenha a pé, atrasado para uma entrevista de emprego. Era verão e não estava acostumado ao uso da gravata. O colarinho apertava a garganta enquanto as mangas curtas, em contra-ponto, pareciam ter o poder de ampliar a intensidade do sol à pino. Um suor escorria denunciando seu corpo na calça cinza e fazendo os óculos resvalarem. O cheiro da colônia das roupas herdadas de meu avô, combinadas ao suor, o fazia sentir-se como um fantasma. Seu pai havia morrido há poucos meses, e mesmo assim, ainda tinha grande presença no curso de sua vida. A empresa de construção era de um amigo da família, aquelas promessas feitas entre conhecidos em leitos de morte. O emprego estava praticamente garantido, bastava apenas aparecer. No calor de porto alegre, o dilúvio, pequeno rio de esgoto que corta a cidade, anda muito devagar, preso pelo lixo, pela lisura, magro pela alta temperatura. Era como estar no estômago de um abutre, contava meu pai. O odor daquele dia. O rio de colônia, o calor do lixo. Nunca esqueceria este momento na vida inteira. Na passarela, uma senhora de idade o chamou. Ele não deu atenção. Ela foi atrás. Talvez pedisse ajuda, dinheiro ou outra coisa. Esta parte nos foi omitida. Ele parou de ignorá-la quando o chamou pelo nome. Seu corpo travou e ela rapidamente se aproximou e agarrou sua mao com os dedos pressionando fortemente o pulso, como quem busca algo. Meu pai a xingou, assustado. A mulher devolveu calmamente algumas palavras, em uma língua que ele não compreendia. Então veio a hora fatídica: Nuvens cinzas no pescoço. Tens a marca no fracasso na alma. Desde então, desde antes de eu ou meus irmão nascermos, desde antes de minha mãe o encontrar e ele a ela, estava, em sua mente, fadado a esta frase. Tudo seria consequência de uma costura maior traçado por um giz ardiloso. Era como acolher uma deus particular, odioso e pessoal, o local onde encontrou o avesso de sua solidão, a marca imaginária que tentou passar-nos por inércia.

Nas proximidades do mês de julho é possível encontrar meu pai enclausurado no depósito, ou abraçado em seu revólver, dentro do escritório. Silencioso e embriagado de uísque, a espera do retorno daquela mulher que ao longo dos anos virou sua confidente. Sua marca de especialidade, suas trevas particular. À espera de um tornado, um deslizamento de terra, uma catástrofe financeira, uma tragédia enigmática. O sofrimento é para os especiais. O que ele apenas parecia não perceber era que a pretensa maldição o havia lhe dado uma força oposta. A passividade e rendição aquelas palavras o deram uma estranha valentia. Por crença na falência era astuto em seu emprego, tomava as ações mais ousadas no escritório imobiliário, tinha o dom para jogatinas porque tinha certeza na perda. Por dar tudo por perdido, por acreditar estar condenado e não ter nada o que esperar além do prazer momentâneo a ser vociferado, jogou-se na visão de minha mãe no momento primeiro que a viu sem freios na língua. Era um domingo, um almoço de família da casa de vizinhos de um amigo de infância. Ele a viu pela grade e a achou bonita, lembrava uma revista que tinha na infância sobre uma princesa da pérsia. A história era sobre um rei que achava que tinha a roubado, mas na verdade, a mulher deixava-se constantemente ser levada e capturada, para a assim, o controlar. Meu pai, que estava em um encontro a dois na casa de Inácio, o amigo, abandonou a todos e cruzou a rua. Entrou na festa, comeu o frango assado, ajudou a servir o refrigerante, como se fosse da casa, e a encontrou perto do portão e disse me ofereço para ser seu marido, marque a hora. Minha mãe não riu e demorou um tanto para responder, o achou triste. Os olhos tristes, o nariz triste, como se esculpido em uma raiva cansada. Pelo menos, havia lhe perguntado as horas. Lhe consultado. Minha mãe viu isto como uma aposta na cumplicidade. Não havia problema com tristeza, a perda dos irmãos, do pai da casa. Tratava com isto em toda sua vida. Este era seu terreno. De certa forma o mais fascinante em meu pai naquele momento era ser um desconhecido. Seu elemento surpresa, a mesma presença irruptiva herdado do encontro messiânico. Sua natural certeza. Se era uma pergunta vinda do desespero ou da loucura, não saberia, o importante, era por certo, que era um enigma.

Ao longo dos anos não havia ocorrido nenhum grande episódico que desse conta da promessa.
Éramos uma família de classe média do bairro Parthenon, fazíamos viagens consecutivas à casa de campo e a à casa de praia, durante as férias de verão e de inverno. A primeira vez que me contaram esta história, minha mãe chorava depois de receber uma ligação da polícia. Meu pai, ela descobriria depois, sobrevieu sem nenhum arranhão. Ao carro foi decretado perda total. Mas antes disso, antes da ligação do real estado de saúde dele, minha mãe esbravejou em meio aos filhos, meu avô e seus irmãos, a história como ela embrava. A história de minha mãe é um pouco diferente. A mulher era uma cigana jovem e bonita, e pouco importava, na verdade, sua orgiem, cultura, descendência ou credo. O fato é que era uma mulher irresitível e, para ela, foi isso que feriu meu pai tão profundamente. O medo hipotético de ser mandado por uma mulher. Nessa versão, a cigana apareceu em seu bairro junto com a manhã e o seguiu até a avenida Azenha. Isto é comum em todas as versões. A avenida azenha sempre está lá, os carburador dos carros do final dos anos 80 a disel, o sussurro grudento dos resíduos do Dilúvio. A cada par de anos meu pai conta e reconta para ele mesmo o que se sucedeu, como um pescador, se lança a imagens. Numa, a mulher era uma senhora indígena muito antiga, noutra, uma mãe de santo. Em algumas ela o agarra pelo quadril, noutras, aponta a linha da vida ou delicadamente enfeitiça, carinhosamente, os dedos da mão a se abrirem.

Talvez não houvesse tanto efeito se casos como esse tipo de acontecimentos não fosse comum em nossa família. Meu bisavô veio ao Brasil de Portugal guiado por uma visão que teve, quando delirava de Cólera nas batalhas no leste africano. Chegou no interior do Rio Grande do Sul, em uma cidade cujo o nome desconhecia, arranjou uma pá, fez alguns cálculos de cabeça e enterrou a pá. Depois de um dia de trabalho ali estava: ouro, muito ouro, com o qual trouxe o restante da família e abriu uma empresa de travesseiros, um restaurante, uma pousada e uma loja de fantasias. No lado da minha mãe, desde criança aprendemos a ouvir as histórias sem muita contestação. A vizinha havia morrido por feitiço, caiu dura no meio da sopa. Minha tia-avô fora comunicada pelos astros que meu avô morreria e minha tia, escreveu uma carta, sabe-se lá, para quem, pedindo para se sacrificar no lugar, de qualquer modo, foi ela quem morreu. Meu primo um dia fora salvo por um homem muito alto e voz muito grave que sabia seu nome e parece conhecer nossa família, enquanto sofria uma convulsão em meio a Voluntários da Pátria. Lhe deu a receita de um chá, três dais de repouso, no quarto, estará de pé. Chamou minha mãe pelo seu nome e foi embora entre os comerciantes.Minha tia avô Berenice tinha sonhos proféticos que eram a verdadeira fofoca da família e que se mostravam muito reais e igualmente desagradáveis destruindo festas de revelação como de gravidez. Minha outra tia, Eunice, costumava ter a casa cheia, pessoas de toda região vinham a visitar para pedir seus conselhos: ela lia previsões em cabelos e em troca apenas pedia, nunca dinheiro, e sim plantas, e sua casa era uma verdadeira estufa. Havia quem recebesse os mortos em seu corpo, falassem com eles, adivinhasse a morte ou praticasse a cura. Havia os que apenas, ingênuos, acreditavam em tudo: um sinal divino, uma ausência de acaso total. Antes de algo acontecer, e apesar de algo realmente acontecer, havia sempre uma explicação à carater em minha família que embora não fizesse sentido era deliciosa de ouvir, quando se é criança, em noites de inverno, em volta do fogo.

Mas apesar desta característica presente em nossas gerações, o que poderia sim ter facilitado ou atiçado a imaginação de meu progenitor em se entranhar definitivamente neste episódio, levando à sério durante a vida como um pingente ao contrário, creio que aqui não fosse o caso de algo sobrenatural. O que de fato ocorreu naquele dia, se a senhora existiu, o que ela disse, que roupa vestia, pouco importa. É da juventude que estamos falando, este gigante campo de treino onde tudo é possível. Pouco importa quanto tempo estiveram juntos, que frases foram trocadas, quanto tempo durou. Meu pai nunca foi religioso ou fiel a nada a não ser esta imagem. Esta certeza era suficiente para tudo, sua pedra de toque. E o que importa sim, foi vê-lo desmanchando ao longo dos anos, dia a após dia, solitário em sua roda de repetição, em uma tristeza construída com esforço. Nada era suficiente. Os filhos, a mulher, as possíveis mulheres, o emprego. Não éramos ricos mas não nos faltava dinheiro, e meus irmãos poderiam sim ter ido a universidade particular, por exemplo, se assim quisessem, com depois eu fiz. Ao longo dos anos, depois de criar nós três, praticamente sozinha, minha mãe entrou na faculdade, estudou comércio exterior, abriu uma importadora de tapetes, e a relação que mantinha com meu pai era de profundo respeito, mas não era uma relação. Era quase que religiosa, uma devoção, muda, como fazemos em relação as imagens nos tempos. Meu pai foi parando de falar, até o dia em que parou completamente. Nesse dia pensávamos que faltava pouco para sua morte, mas pelo que parece, nós não herdamos os tons adivinhatórios de nossa linhagem. Ele parecia roçar a corda, querer, no fundo, encarar de frente aquela frase. Levar ao limite. À espera do desastre que não veio. De estar comprovadamente certo daquela bendita certeza.

Foi por esta época que meu irmão mais velho começou a ficar doente. Não sabíamos o que ele tinha. Dizia só isto, que estava doente, não conseguia comer, não conseguia dormir. Meu irmão só conseguiu alguma tranquilidade na vida, quando, com um amigo que conheceu em um curso de elétrica, foi trabalhar em uma fazenda, como peão. Não pelo dinheiro, mas pela tranquilidade. Ele dizia que a cidade não o deixava dormir. Eu, naquela época, sabia já o que era depressão. Sabia que meu irmão estava absorto de tristeza, de uma predatória ausência. Desconfiava que por ser mais velho, por ter vivido mais perto de nosso pai, sabia coisas que os outros irmãos não sabiam, e principalmente, tinha absorvido ou criado o medo de absorver, por herança, genética ou convivência, o mesmo mal de nosso pai. Mas nunca falamos disto, nunca falamos de muitas coisas. Escapou do jeito dele, assim como eu, do meu, e minha irmã, do seu.

Na manhã anterior ao falecimento de nosso pai, alguns anos depois de todos nós termos saído de casa, e com ele, acabado qualquer tipo de comunicação, entramos no quarto do hospital. O médico disse que tinha tido uma pequena melhora. Seus olhos estavam afundados no osso, sua mão estava firme, apesar do sistema de fluídos que o ligavam a máquina, parecia uma marionete. A primeira coisa que nos disse quando nos viu, entramos os três juntos, foi como está o céu lá fora, por favor, ele continuou, de que cor está o céu. Meu pai nunca foi muito bom com metáforas. Não havia o que lhe dizer.


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

piso frio


No dia em que meu patrão foi morto eu acendi um cigarro naquela casa pela primeira vez. Puxei o tabaco do bolso, sentei na varanda, enrolei o papel no metrônomo das nuvens daquele céu. Era um dia sem vento e assim foi: sem vento meu cigarro. Inflei os pulmões como quem poderia, dentro desse movimento, alargar as paredes daquela casa espaçosa, abrir o espaço, daquela casa grande e vazia. Como se recolhe-se o espaço gigante da construção para dentro de meus pulmões. Eu poderia deixar o cigarro ainda aceso aqui, despretensiosamente, ao lado dos jornais, da planta chinesa que mais parece uma estátua de espantalho, ao lado da poltrona de cetim fino. Eu poderia botar fogo em tudo como quem calmamente prepara a terra aos poucos, na rotação de cultura, para o próximo inverno, o próximo ano, o primeiro passo que vem do futuro. Não havia nem necessidade e nem vontade. Eu estava livre da vontade, completamente livre, sem fazer nada.

O sangue quente de meu patrão esvaziava seus bolsos, seu peito, seus dedos, e na minha impressão seria para sempre quente. O corpo sim, sucumbe, enrijece, perde calor. O sangue esparramado não. Na minha imaginação parece um cobertor, uma brisa de verão que como um bico de pássaro te arrepia o pescoço em uma tarde rígida. Acariciei o cachorro, tirei os sapatos. Toquei o chão frio, de pedra, fui caminhando pelos cômodos. Nada ali me parecia uma casa. A decoração era impessoal, os objetos pareciam vir de qualquer lugar, era como uma família falsa, uma fotografia animada de uma loja de decoração. Feia, muito feia.

Por que eu era seu caseiro deveria saber de algumas coisas. Eu senti há algumas semanas que algo aconteceria, porque sou suscetível a detalhes e sujeito a pensamentos insistentes, mas não sabia o quê. Escutava algumas de suas conversas enquanto arrumava as toalhas, dava recomendações para seus cozinheiros de como deveria ser se café. Sou jovem e ele gosta da juventude porque ela chama atenção. Tenho certeza que me achava belo e gostava de me ter perto para imprevistos, para me exibir para seus convidados. Gostava de dizer, que apesar de todas as circunstâncias da minha vida, eu era um estudante universitário, gostava de contar minha história como se fosse uma gravata que usava nas festas, exuberante, que o deixava como um ar voluntarioso em meio as reuniões, como se as minhas conquistas, até elas, dele fossem. Eu não me interessava por sua vida, sua óbvia pequena vida, tirava os olhos quando entrava ali, e não o levava para casa. Não achei estranho quando saía de madrugada. Não achei estranho quando começou a rir mais alto e a xingar como mais vontade. Não achei estranho quando este novo grupo de homens começou a o visitar mais frequentemente. Porque dele não achava nada, era ínfimo.

Há uns dias atrás, estava na padaria da esquina da minha casa, antes de sair para a faculdade. Estava cansado e com o estômago embrulhado como fico antes das provas. Foi o irmão do meu cunhado que me disse, que o novo negócio aí, era do meu patrão. O novo negócio aí tava movimentado os terrenos lá pra perto dos antigos terrenos da construtora Scalpin, que estava em recuperação judicial. Imensos prédios residenciais que iriam para pessoas de baixa renda, ainda puro esqueleto, com o tijolo cru se empoeirando no ar. Estava na boca do povo, todos falavam sem dizer e insinuavam sem indicar. O negócio aí era um drive thrue, perto do Morumbi. Mas um drive de luxo, como um pequeno parque de diversões.

O carro entrava e no primeiro estande já recebia um coquetel mesmo que não requeresse nada. Após, havia umas placas especificando o tipo de requerimento que a pessoa desejasse. O tipo de encomenda. Havia três ilhas prévias de pedido, encomendas de sexo, de dinheiro e surpresa. Na surpresa, que ficava bem ao fim do pátio você poderia pedir qualquer coisa. Depois era só pagar e escolher a forma de acompanhamento, ao vivo ou comprovação posterior. Havia pessoas que iam apenas pelo coquetel, e alguns, que iam apenas pelo show: tendas com telões que passavam as encomendas serem feitas ao vivo. Uma dessas pessoas poderia simplesmente sair do shopping, tomar um uísque e requisitar o assassinato do sócio de sua empresa ou de sua mulher, acabar com uma rixa política, em um piscar de olhos. Poderia requisitar um incêndio criminoso em uma fábrica de um concorrente ou fazer uma pequena brincadeira entre conhecidos, tudo no bom humor. Forjar um assalto, um sequestro. Forjar uma batida da polícia, dar aquele susto. Ou resolver um problema de forma anônima por trás do vidro fumê, não se abstendo dos mínimos detalhes: data, hora, circunstância, tipo de arma e forma utilizada.

Aqueles caras são doentes, disse o irmão de meu cunhado. Alguns conhecidos dele tinham recebido ofertas de trabalho, alguns até tentaram por alguns dias, mas sumiram em um piscar de olhos. Não aguentaram. Outros ficaram por um tempo para roubar uma penca de coisa, munição, essas coisas, e até mesmo dinheiro. Alguns desapareceram. É coisa dos caras, é coisa deles, não é de deus. Ele deu a entender que o negócio poderia ser de família, e não por falta de oferta, muitas vezes, o irmão de meu cunhado achava, que eles mesmo que faziam alguns dos trabalhos. Não é uma questão de grana, eu disse e ele concordou. Meu patrão tem muito dinheiro, não teria motivos para investir em algo assim por uma questão tão baixa como dinheiro. Tão pequena.

Naquele dia dispensei todos os empregados. Fiquei olhando o mar, na altura do trigésimo segundo andar que dava de frente a ele. Os prédios me pareciam algo sem sentido. Uma pilha, a criação de um lugar suspenso em um lugar outro, um desespero de um lugar impossível. Suspensão. Não tinha medo de altura, desprezo talvez. Do alto reconhecemos a nós mesmos, tudo é sobre o medo. Ou seu fascínio, um gesto separado do mundo. Fazia horas que ele estava atrasado, tinha ido a Vitória para uma viagem com um vereador. Sabia que não voltaria. Terminei o cigarro e fui embora. Poderia pegar o que quisesse, ninguém daria falta. Não tinha parentes próximos. Mas nada me interessava a tal ponto, era tudo pedaços e uma caverna. Só servia a ele, a ele se esconder. Alguns dias depois, encontrei o irmão de meu cunhado novamente. As coisas estavam voltando ao normal, ele disse. Fecharam o negócio. Alguém encomendou a morte de um dos donos. Levavam o trabalho muito à sério, regra é regra. Depois, o restante dos sócios ficou com medo e botaram abaixo. Parece que eram bons no que faziam.

sábado, 13 de outubro de 2018

silêncio


Badú, acorda.

O cachorro me olha com olhos de tremelin. O mundo é a coreografia do corpo, diz o cachorro com a pelugem seca. A pelugem do cachorro cabe na minha garganta, caberia. Um longo corredor por baixo da terra.

Caminhamos.

As casas nos olham como se nós fóssemos os intrusos. Xespa late para os outros cães, que circulam de um lado a outro nos rondando. Late e se recolhe dentro de minhas pernas. Você não está protegido Xespa, nós não estamos protegidos juntos. Como explicar a Badú. Deveria ser difícil explicar a morte, o abandono. Tento convencê-la do oposto, da vida. Por que foram embora? Me pergunta. Seus dentinhos espaçados deixam a saliva cair no colo dos ombros, tem uma pulga do sol dentro dos dois olhos. Só fecham com muito cansaço. Cansaço é investimento.

Não sei, Bâ. Só foram. Antes de você nascer eu era criança. Essa rua era lotada de gente, tinha gente até quando chovia, no verão. No bairro, tinha mais gente do que quarto e até todo mundo parar de falar demorava, demorava, demorava. O dia começava cedo, já ouvia o barulho das correntes de bicicleta, das buzinas dos ônibus, da propaganda do gás, do vendedor de bananas que brigava com o vendedor de morango, o vendedor do atacado gritava tanto que perdia a voz cedinho. Em dia de jogo, fogos de artifício, gritos, ameaça de brigas, quase sempre só na ameaça. Então foram embora, quem conseguiu juntar dinheiro foi. Quem não conseguiu, ficou por aí. Teve um tempo onde faltava casa, sobrava gente. Hoje ninguém quer saber. As casas velhas ficam cada vez mais velhas, a terra é amarga, indesejada, como se inflamasse a vontade.

A cidade começou a ficar magra, magrinha. Primeiro foi o mato. Cresceu, em alguns lugares, até a barriga. Não se via os pés, era difícil correr para pegar o ônibus. Algumas ruas abriram grandes valas, que quando chovia, pareciam lagos nas pegadas dos gigantes. Tudo ficou mais difícil. Eu já estava grande, e tinha que ir a pé trabalhar. Os carros paravam de vir até aqui. Depois, os cabos começaram a desaparecer. Os cabos dos postes. Tinha pouquíssima região com luz. Ninguém repôs os postes que o vento derrubou. Ou os cabos levados. Muita gente voltou para o interior, comprou uma terra, começou a plantar. Os vizinhos disseram que a cidade tava amaldiçoada. Que só não vinha terremoto porque a geografia não permitia. Que era nosso dever devolver o lugar pros bichos.

Badú e eu entramos dentro de uma gigante casa. A porta está aberta, os objetos foram deixados para trás. Eu não tive coragem de dizer. Nos deixaram aqui para morrer. Para morrermos sós e ninguém se dar o trabalho de saber. Para não sermos vistos. Podemos entrar nas casas, pegar o que queremos, comer as frutas das árvores, das hortas. Mas não há empregos, ou promessas. Ficamos andando de um lado para o outro vendo as tinturas esmaecer, a frente das casas ruir, mas os monumentos continuarem, lembrando como as coisas eram antes.

Como cães, em círculos. Às vezes, colocamos fogo das residências, nos prédios, nas mata. E rezamos para que se alastre. Para que chegue lá. Nosso silêncio sonha com o fogo.