quinta-feira, 22 de março de 2018

alameda potiguar

em alguns locais desta cidade ocorre um fenômeno estranho, em lugares esparsos, com certos moradores. as pessoas vão dormir cansadas, pois é isto que esta cidade também faz com as pessoas, depois de um dia de trabalho, tomam leite ou cachaça, vão na igreja, no samba, no terreiro ou tiram uma noite sabática, deitam-se em suas camas. quando despertam ainda estão no sonho, mas demoram para descobrir. faróis de carros gritam alto, carros feito para o deserto ou a selva, carros que são eles a própria ferocidade do deserto e selva, a sobreposição unificadora de ambos, ou assim buscam sua identidade. canhões de luz pescam certos tipos corpos miados, entre os prédios, em fuga manchados de noite escura, arranhados nas radiações dos postes, pescam como seus antepassados pescassem marisco, tainha, mas sem a fome. ou a fome sendo uma outra coisa. alguns alegam escutar juras de morte, batidas seguidas de berros explosivos, o berro da mão é diferente do berro das costas, e pasme, contam alguns, o grito do pé pode ser quiçá o maior de tudo, ninguém desconfia, mas é uma barulho pisoteado, seguido de uma família de ruídos, como uma espécie inteira que agoniza. às vezes, uma das pessoas reconhecem alguém. parece o tio, ou o avô, muito jovem, muito bonito, ou muito ensanguentado, quase irreconhecível se não fosse aquele sotaque ranhoso de dizer chega, tanto tempo ouvido em um almoço de infância. às vezes é um dos poliças, e em outras até mesmo, qualquer um que por ali passou no momento do baque, do choque, do pulo, do que dizer ser o azar de um momento infeliz, como uma prostituta, um vendedor de jogo de loteria ilegal, um jovem que sai à noite para comprar cigarros a avó, ossos: pedras desajeitadas na terra a chacolhar. o sonho acontece de novo e de novo. há aqueles que se cansam, mudam de casa, não aguentam a repetição, os gritos, o barulho das armas (armas que riem até os dentes caírem, eis os disparos). outros já se acostumaram e usam este lugar, o sonho, para conversar com pessoas que não estão mais aqui, para pagar seus pecados, para chorar, para rezar pelo alma de alguém cujo o corpo é o infinito. o infinito mistério cuja posse é usurpada. também existem aqueles que usam este sonho, este portal, como um lugar de encontro, e lá conversam com as outras pessoas que também moram na mesma cidade, aproveitando que lá o preço do metrô ainda não é tão caro, e a velocidade do tempo não faz os carros ficarem tão parados, usam isto para jogar conversa fora e tal.

terça-feira, 20 de março de 2018

um e-mail nunca escrito direto do ano de 1996

foram mais de quatro os quarteirões arrastados por seus cadarços desamarrados. no dia anterior ainda chovia, as poças demoram tanto para secar nesta parte específica da cidade, desatenta à qualquer força natural. o terreno úmido, o sol à degola, o corpo servindo de cansaço para a digestão do pesadelo de uma parte considerável da zona norte. foi ali onde decidiu-se por escrever uma carta, tão breve como um reflexo, um soluço, um espasmo. era o ano de 1996, Eugenio Trinto não dava sinal de vida ou morte há mais de três. era o ano de 1996, travestido no ano de 1992, onde em um final de semana o carro quase atingiu um cavalo, um caminhão, uma travessia para qualquer lugar desconhecido, também com uma pitada de 1990, onde tanto ela quanto Eugenio se achavam gênios incansáveis, capazes de redecorar qualquer cela, de curar tudo com um estardalhaço, afinar um violão no grito. foi ali, ao lado  da vendia de abacate e mamão, no mistura influenciada pela fala da senhora com alzheimer confundindo o engraxate com um primo morto na guerra agora vivo, segurando o peito como as mãos, faz de conta elas, dois ímãs gigantes, que entrou na lan house e mandou uma pequena mensagem.

na penúltima vez que se falaram, quando ambos deram por encontrar-se meio sem querer numa exposição de Chico Baltar, em algum lugar de Vitória, Eugenio recém tinha as passagens compradas. alguns meses depois mandava um longo e-mail, recheado de fotos de pássaros, e cocos de pássaro, e comidas de pássaro, alegre por morar perto de um viveiro, onde dizia: Madri é linda. Logo em seguida, enganchado a esta mensagem, havia um segundo e-mail onde escrevia atônito que engravidara uma mulher, que seria pai. o tempo dentre uma mensagem e outra era de não mais que dez minutos, dez minutos que Eugênio já era outra pessoa, pessoa que tinha perdido qualquer vestígio, e agora tudo que possuía eram rastros na mata seca. aquele intervalo, ela pensou, era como um bote fora do tempo, onde sempre é possível retornar, é o momento em que achamos não saber mais de nada, é portanto o melhor de nós - o que está por vir. os dois, ele e a mãe da criança, tinham se conhecido na boate onde ele trabalhava às terças e sextas e também as vezes aos domingos o que era triste, e aconteceu durante dividiam a cama, pela manhã, absolutamente sóbrios e conscientes, depois de um dia de trabalho puxado e uma raiva compartilhada por seu chefe em comum. meses depois de seu e-mail, o filho, o milagre do filho, é perdido e Eugenio se deprime. nunca achou que teria um filho, ou que transaria de novo com uma mulher. nunca pensou na possibilidade do primeiro. algo lhe dissera e este algo era praticamente o mundo todo, pode-se dizer, algo o chutara, o xingara, o arrastara certa vez no desnível de uma feira de interior dentro de algum buraco de são paulo, algo o comunicara com olhos, ou cartilhas, ou referências pops, ou cultos subentendidos, ou tanto faz, que deixar uma prova viva no mundo, uma criança, não fazia parte daquilo que ele era. este era o preço, o simples preço, e em pouco tempo aquela vidinha se mexendo em seus braços, estragando seu cabelo, capaz de alcançá-lo quarenta anos no futuro e agora, talvez seu único real confidente que havia superado tudo isto apenas desapareceu, para não dizer que seu pequeno corpo não aguentou. agora era, mas já foi. não a respondeu, diria até mesmo, quase um ano. não é sabido por onde andou, se andou, se tinha comida, fome, ou alguém que o cuidasse. sabia sim que ele estava mal. mas depois disso, algumas mensagens esparsas de uma viagem com um possível namorado sérvio, doutor em arte brasileira, fotos de Samara Silva, uma amiga em comum, enquanto os dois fugiam de um péssimo quarto de hotel, claro, sem pagar.

Pensava no filho morto de Eugenio, porque pensava no filho não vivo que a ela veio. pensava em Regina, a médica amável e cara que a recebeu em uma clínica embaixo de sua própria casa, onde seus filhos viam um desenho japonês na sala, onde os suportos palavrões eram traduzidos a palavras ridículas como carambolas, pensava em quão sem sentido era servir água frutada às visitas, pensava no sinal em forma  de coluna vertebral de conha (o que claro não faz sentido) que a médica tinha no pescoço e como o pescoço é algo que não podemos de jeito nenhum esconder. que a médica sabia disso, e para ela seu pescoço era feio ou bonito por isso, mas exatamente dela. pensava que embora soubesse absolutamente bastante sobre como fazer uma interrupção de gravidez, mesmo assim perguntou a Regina se deixaria alguma cicatriz à mostra, em parte porque sabia que sim, uma do tipo enigmática e misteriosa apenas para os que insistem demais, e também porque queria uma de preferência bem visível. e que seus olhos fecharam não com a medicação somente, mas com o chorinho que a médica cantorolava, que parecia em um muito algo vindo de paulo moura, mas lálálá de dentro. que paulo moura agora estava para ela arruinado, embora a imagem dos lábios da médica tivessem um tom tranquilizante. pensava no filho abortado e no filho desejado, que em sua cabeça, em uma suave piração, poderia ser o mesmo filho de Eugenio, tentando uma segunda vez, ao que ela recusou. e de certa forma, achava que o traía.

o que ela queria escrever naquela lan house talvez tivesse a ver com o medo de no outro dia as crateras da lua mudarem de lugar e tudo ser para sempre inconsistente. tem a ver com o momento em que ela acordou, sozinha, e gritou pela médica, e esta chegou de pantufas e cheirando a alho. que por uns segundos imaginou as duas viverem ali e aquela ser sua vida, dua família, embora o nome de Regina só veio a sua mente depois. que o filho havia nascido, a médica em parte o adotado como uma segunda mãe, e agora passava o dia passando roupas, checando lições de casa, cheirando a sopa, leite, talco, decorando as genealogias dos desenhos japoneses e que não havia nenhum problema que não se resolvesse naquela casa com uma conversa que duraria uma semana, uma semana que duraria pra sempre. queria falar de como foi sentir-se a mercê das patas dos bois, dos cabritos, das vacas, sentir-se o próprio campo, onde os animais, antes do abate amontoam-se, ser o pasto, ter seus pedaços retirados e o corpo todo doer, esta sensação enquanto acordava. saber que o mundo ainda funcionava pois o útero doía, raspado, enjaulado em pequenas feridinhas da raspagem, como se atingido por um asteróide comprado no mercado ilegal. sobre escolher entre a vida e a morte.

sabia que não poderia ter aquele filho, primeiro porque não o queria, segundo porque não tinha ideia de como aquilo tinha acontecido. aquele quase-filho era a marca de um roubo, era uma ameça de morte que poderia voltar quando bem quisesse e sempre chegar nos objetos antes que sua própria mão. não tinha lembrança do que poderia ter ocorrido, e não tinha ainda como dizer algo que não sabe. mas talvez escrevesse para Eugenio, talvez esse Eugenio que nem sabe se existe ainda mesmo, se gosta de comer calamares ainda, se rir do mesmo jeito, ajudassem. mas não falou em estupro, ou em aborto, ou nada. apenas escreveu estar com saudades. porque acreditava que a palavra saudade é a maior palavra que existe, que se faz medida nas cabeças daqueles que passaram por nós, na soma de todas distâncias percorridas. porque nela cabe um mundo, um outro mundo, e lá poderia quem sabe pensar em nada ou muito pouco em si.

quarta-feira, 14 de março de 2018

o tradutor viaja

houve uma vez um tradutor. o tradutor se deparou com uma palavra muito esquisita no meio do texto. acabou que por anos e anos o tradutor perseguiu esta palavra. o sentido da palavra fugiu, e embora tivesse um primo inglês vivo, foi parar no norte da alemanha. o tradutor viajou até o interior da alemanha, onde encontrou antigos registros da palavra. no inglês a palavra queria dar a dizer algo como saciado. contudo, no interior do ex-mosteiro, ex-hospital de guerra, ex-restaurante chiquérrimo, ex-bordel, ex-museu, em terras germânicas, o texto dava a entender que ali indicava vontade de agir. seriam as planícies? o arroto específico do joelho de porco ao mel? mas o tradutor encucado não parou por aí. anos depois, descobriu um parente da tal palavra, um parente finlandês e viajou para a finlândia. a palavra fugida lá queria dizer inquebrável. por anos e anos o tradutor viajou em busca do sentido de sua palavra, e o sentido era sempre outro. em macal, havia uma irmã distante, furtada, que significava pote para guardar sopa, guardar e não comer - note bem. na américa, mais recentemente, a palavra quer dizer pessoa ingrata. um dia alguém levou o que restou desta palavra até a polinésia, que virou um espaço inconfundível por ser muito grande ou muito pequeno ou por apenas não existir o que não o impede de ser notado. sem se dar por realizado, deixando o texto incompleto no meio da tradução, um dia o tradutor cansou. abriu uma loja cujo o nome é a palavra fugida. pode-se dizer que o comércio não anda tão bem nas pernas. mas é inegável, vende muito no inverno.

as caras

uma família tentou contar aos jornais sobre o desaparecimento de uma rua. os jornais telefonaram para a prefeitura a prefeitura telefonou para os jornais que disseram o que já achavam que sabiam: naquele ponte exato ali nunca teve rua alguma. ali é um rio. os jornais telefonaram para o setor de língua portuguesa do próprio jornal, que fica ao lado do setor jurídico, embora todos eles, incluindo a redação metropolitana, fiquem um ao lado do outro no mesmo andar. contou o setor: uma rua é um lugar que possui uma ou duas calçadas. é considerada rua o local com a) espaço de passagem e b) espaço de permanência. uma rua é uma alocação onde é possível ir e vir, vir e ir. e o mais essencial: uma rua só pode ser considerada rua se existe a presença de pedestres. há alguém lá? perguntou o jornal. agora não tem mais mas antes tinha. a rua tinha, respondeu a família. esta rua, pode até ser um córrego, pode até mesmo ser um canal, destes que cortam a nossa cidade, água sobre terra. mas não é uma rua e portanto não pode desaparecer respondeu o repórter do jornal e desligou o telefone na cara deles. só que eles, a família, ainda estavam ali, pessoalmente em sua frente, e não usavam o aparelho. ficaram algum tempo olhando a feição do jornalista virar outra coisa, enquanto imaginavam para onde tinham sido levadas suas casas, inteiras ou despedaçadas?, imaginavam com a barriga para auxiliar a caber tal imagem. um dia os telefones também deixarão de existir, seja à mando ou à natural, tudo terá que ser coletado do rosto, aí eu quero ver.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Repolhos não dão a vida às lagartas depois de Merian desembarcar na América

- "Você sabe muito bem, a linha do equador é um rabo de saia" - disferiu o coronel Heshinball, enquanto procurava um local para deixar a colher à pouco mergulhada no chá.

Era de manhã, mas difícil convencer Merian disto. No dia anterior a este não dormiu, embora o responsável pela troca do querosene dos postes estivesse bêbado mais uma vez, e a rua rulminou noite a dentro completamente escura ela própria como um animal que dorme abraçada em seus pequenos brinquedos, as casas, podiasse notar um pequeno candaleiro aceso na terceira quadra. Era Merian lendo o livro contrabandeado por sir. Kruvon, do arquivo pessoal do palácio Prussiano, pela quarta vez durante aquela semana. Merian copiava qualquer figura desconhecida em seu próprio caderno, como quem busca salvar uma espécie da extinção. Ali dormiam seres nunca antes vistos pelos germênicos, seres de duas cabeças? oh não, o lampareiro está fraco outra vez, seres alces, metade gente? porque a mitologia grega sempre toca a campainha primeiro?, insetos de oito patas, gigantes perto de uma folha, ou sera a folha tão minúscula quanto um seixo? seres irreais por porsuposto, pois estes rabiscos da corte imperial possuem quase cem anos, o ambiente tropical dizem, é como cavalgar em nuvens e os sentidos são mudados. "acreditar no sonho é acreditar no mundo", lembrou da fala de sua mãe tantas vezes antes de dormir. detestava este tipo de falsa arquitetura, onde o conhecimento prático é tão nítido quanto tentar desenhar um animal pela visão da gaiola vazia. "esta não é a verdade, é apenas o começo de uma delas", e no findar dos calcanhares no inverno, os casacos cumpridos são os reis. para o mistério a ciência aluga as chaves. a ciência aluga? isto caberia em um discurso na associação de especies exóticas de Hamburgo? a ciência alaga..., é o último pensamento consciente antes de pegar no sono em cima de sua mesa de trabalho. na mão um caso de besouro resteia em meio ao toque exato para que não sofra nenhum dano. não havia como negar é isto, na hora de dormir, surgiam os traços da mãe, por hora via-se extremamente poética.

- "Eu sei aonde tu queres chegar com isto sr. Heshinball. A américa não é lugar para mulheres".

- "A américa não é lugar para ninguém, não é lugar para gente alguma".

-"Não é em gente que estou interessada. O sr. sabe muito bem. Mas em bor.."

- "Borboletas! Borboletas, oh céus. Pelo coração de Maria. Sim, eu sei, querida Marian"

- "Oh que surpresa. O sr. me ouve afinal de contas" - falou rapidamente enquanto usava os olhos para espionar qualquer coisa que Doroteia estava fazendo na estante de livros perto dos dois.

Marian tinha 52 anos quando desembarcou no Suriname, junto com sua filha no ano de 1699. Desde os 13 anos de idade, sendo capaz de manejar o lápis com uma precisão indomável, enquanto as crianças corriam de um lado a outro, passava a maior parte do tempo parada. Observando. Como se parte da paisagem. As flores, os ramos, as folhas, o botão das flores, seu desaparecimento no solo. Um louva-deus. Suas pernas cumpridas, hora menos, hora mais, seu meteórico ritual de casamento, uma peça shakespeariana. Como se o mundo coubesse em uma peneirinha e depois de muito balanço, naturalmente, se depurasse, até as peças fundamentais ficarem presentes. E elas eram belas, e assim, construiam outras peças, como por exemplo a seda inglesa que constituia o jogo de cama herdado dos avós, só usado em alguns momentos especiais do ano. os bichos fazem a seda, quando dispostos de maneira particular. mais tarde a seda compre os bichos, digamos, nós mesmos. entre uma coisa e outra existem os mais diversos passos coreográficos que poucos se despuseram a anotar, decorar, decifrar, e em seus desenhos eram relatados de modo obssessivo. Foram estes mesmos o resposável por, anos mais tarde, por via da publicação deles em forma de livro, ter dinheiro para esta viagem.

Antes de Marian existir ninguém se interessava em saber da onde vinha as lagartas, ou as borboletas, e ninguém, absolutamente ninguém, havia ligado uma coisa a outra. As lagartas vinham dos repolhos, como seus soldados, como se fosse seu deus. As borboletas eram presságios, um dia bom, riqueza, mal agouro, dependendo se viva ou morta aparecesse, a cor que carregasse. Marian estava obestinada a não perder um momento só da vida de ambas, e com  a ajuda de sua filha, as quatro se encontraram. Antes um casulo foi necessário ser usado para isto.

Os peões carregavam a mala em uma trilha muito estreita na mata. "Mutucas", fala o tradutor. "Se chama mutucas". A trilha parecia menor ainda pela nuvem de insetos que tentavam desesperadamente entrar em contato. "Eles gostam de sangue doce", traduziu do francês desengonçado do indígena, novamente, o acompanhante alemão. Dorotea, assim como a mãe eu seus desenhos, pausou aquele momento. Nele imaginou as barriguinhas dos insetos vermelhas, com um pedaço de cada um que ali estava, tudo misturado, como uma receita de torta. Imaginou seu pedacinho seguindo pela mata amazônica, do extrato do inseto voltando para a terra, depois, vivendo no casco de uma seguingueira por décadas, até se, por azar, fosse roubados por borracheiros e voltasse para a europa em forma de um utensílio da moda completamente sem serventia. Eu quero ficar aqui, pensava Dorotea, enquanto a cada passo ia rasgando mais a barra do vestido, expondo-se ao calor, a umidade, aos insetos. Em sua frente, sua mãe flutuava. O vestido ia se aglomerando em terra, tropeçando em si mesmo, mas nada era capaz de tirar a satisfação que o corpo encarava sem problema algum. Ali eram pequenas, e como prédios, as árvores altas detinham a passagem da luz. Tudo era novo e um mistério temporário. Mas para existir precisava ser contado. Elas estavam no lugar certo.

O quão ridículo era, depois de séculos, a metamorfose das borboletas ser reduzida a uma metáfora tão pobre. A amazônia não é tão longe, e o Suriname está logo ali. Aqui é o lado oposto. A terra é como um talco, o verde é escasso, os animais são poucos. O que os bois podem me ensinar de novo? Radi pensou em como teria sido a primeira vez que Dorotea viu um casulo, com certeza era ela e não a mãe. Estava com as rouplas frouxas, embaixo de uma sequoia, segurando uma edição recente de Yeats. O suor corria como uma simulação de planeta, refrescando e acaolorando ao mesmo tempo, e se o corpo fosse um entrelaço sussetivo de cordas, como a dos barcos, o suor era esta força que as mantinha. Radi imaginou o corpo jovem da alemã, aos coxas resvalando na raiz da velha árvore, o pé, enquanto ninguém olhava, descalçado como o chão, os seios levantados como um animal a botar o rosto sobre a mata, procurando comida. Dorotea estava lá, fugida dos empregados, dos padrinhos do novo mundo, tentando fingindo para si mesma ler poesia inglesa, enquanto na verdade sua imagem folheva o rosto do servente indígena, de idade semelhante, de quem não entendia nenhuma palavra o que não a convencia a tirar os olhos de seu rosto. Então, por gostar de ser literal e viver verdadeiramente as situações fosse o modo de encarar a ciência na vida, se pôs de cabeça para baixo. E este foi o momento, onde na inversão da terra e do céu, acima do seu livro, de uma aparente folha seca muito esquisita, uma pequena borboletinha colocou a pata afora.

Depois, enquanto procurava um lugar para carregar seu celular, na sala da pousada, sentiu um leve pontapé no dorso. Marian relatou o mundo neste continente antes da nossa chegada. Marian era alemã, assim como parte de sua família. Ela também fazia parte daqueles que fizeram os desenhos da bióloga tão raros, pois, ela fazia parte daqueles que a destruiram. E se a mata, no caso aqui, o rio, o pouco pasto, a argila, o mangue, o deserto, tivessem consciência disto sua vida estava à perigo. Não pertenço a este lugar e é aqui também o que quero salvar. Talvez este seja o problema e haja um tipo específico de feição única capaz de relatar o quanto perverso este pensamento dobrado sobre si é.

Mesmo o esforço da imagem da filha de Marian envolta nos lábios de um ar tropical não salvou Radi de se distanciar do tempo seco. Do verdadeiro motivo porque estava tão sozinha neste vilarejo dentro da cidade, dentro de um relógco desacelerado. É verdade que senhorita Marian foi muito famosa. Mas seus desenhos eram bons demais, e ninguém ouvia o que ela falava. Ninguém acreditou no seu relato da tal metamorfose, tendo sido a descoberta atrelada a um homem, pouco tempo depois. Seus textos foram desaparecendo, e só as ilustrações restaram, várias e várias vezes reproduzidas. Meus seios parecem mais murchos, Radi pensou em Dorotea e seus 21 anos, naquela imagem fictícia da sequóia. Não sei quanto mais durarei neste lugar. Não sei se não descobrir o motivo de estar realmente aqui faz uma viagem não ter sido sucedida. Eu estou aqui pelo passado, isto é certo. Por tudo que já aconteceu.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

uma cidade sem mulheres

I

Helenita, com você não posso mentir. Pois você me escuta e além disto é um mistério, não sei onde você começa ou termina, quantas são, quantas perdeu, quantas já tiveram a coragem para pular do alto de uma cachoeira, quantas morreram à nado. Não posso mentir para você pois não sei onde você está, e assim, você está aqui a todo instante e daria muio trabalho encobrir a verdade ao vivo, sem cessar uma vezinha. Não é fácil ser quem eu sou.

Fujo de Euclides, como se em um milagre, os troianos pudessem ter visto o futuro. Digo Euclides, pois me diverto sozinha, Euclides o matemático, chama-se Jonas, e é apenas um professor desses jovens e pacatos, que moram com a mãe e andam por aí, encomendando partes de mulheres, um bom par de peitos na santa efigênia, uma conversa sobre Salvador Pellejo, pernas elásticas no Paraíso, uma boa mão que como tenda o coloque para dormir na zona sul. Não é fácil ser quem eu sou e quem eu sou diz respeito a você também, a nós todas, não está fácil ser mulher. Quando não é Euclides, é Toni, quando não é Toni, é Jaime, quando não é Jaime é Bráulio. Outro dia saímos do centro de estudo e porque é com eles que vivo, que durmo, que como, que almoço, mas nunca que choro ou deixo escapar qualquer tipo de riso sem vistoria, porque é eles infelizmente o que tenho, principalmente a promessa de ajudar-me em uma questão tão específica como esta, fomos jantar no Salgueiro.

Pois não é que a promessa, por óbvio se desfez, como a palavra licor e a pele de uma prostituta numa metáfora da péssima poesia byron-brasileira? Bráulio de novo, me enrolou, falou de um tal de Jeremias, nascido na fazenda de seu avô. O Jeremias agora era traficante, muambeiro, comerciário, o Jeremias falava chinês e vendia barro, mas não era barro, eram pedras muito antigas embora bem a vista do solo pois a terra, em sua competição contra o tempo vence pela confusão, e de repente lá estão, a vida encarcerada dos antigos bichinhos, não menos vida por isso, a pedra, o barro, o esqueleto do peixe do terciário impresso nas mãos dos acadêmicos chineses e Jeremias no meio, ganhando uma nota, dizendo, do barro viemos não é mesmo, aqui é a seca, não é mesmo, eu tiro leite de pedra mamãe, não sou burro. E eu olhando pro tal do Bráulio, eu dizendo, puta que pariu Bráulio, e eu com isso, um traficante de merda, eu não tenho tempo pra essas coisas, e ele pedindo um conhaque, quatro conhaques, babulciando, o Jeremias um dia explodiu o trator do meu pai enquanto foi mijar e deixou ele ligado, depois aprendeu a mijar do trator mesmo, era como um arcoírizinho, o jato amarelo contra o sol, o Jeremias tinha 13 anos quando engravidou a irmã do Lindomar, mas isso ninguém sabe se é mentira ou verdade, e chegando mais perto de mim, com seus olhos de preguiça enroscados em uma hipotética palmeira, eu no caso, em sua imaginação pelo menos, o Jeremias gosta de comer feijoada na terça-a-noite, e hoje é terça-a-noite, e por isso estamos aqui, se explicava enquanto fechava a braguilha após vir do banheiro. Afinal esta é uma cidade pequena e embora o tenho seja pouco, não há muito o que se fazer por aqui, mas mesmo assim me pergunto, enquanto abrigo um crustáceo asfixiado no pulmão direito, o que faço dia e noite, bebendo com esses homens, uma gangue de homens com quem tenho pouco ou nada a ver, desejo de estar, e só me escutam à prestação, com suas línguas de cobras sendo afiadas, à espera de uma troca esquiva, uma trepada, uma indicação futura na acadêmia, o meu nome copiado como carimbo, enquanto sentamos perto demais no balcão e nossas peles se tocam unidos pela mesma luz tímida do salão, ou apenas isto, uma mulher, qualquer que seja, que ache que pode ser mais do que isto, um animal entre nós, que nos dê uma liberdade de virar bicho, pelo imediatismo, fome, desejo, loucura.

Mas apesar de tudo Helenice, há neste mundo Eustácio, e ele é a cópia não da chave, mas da casa, que levo nos ombros, é ele que me salva, pois onde nossas palavras combinam de se encontrar é um cenário com um medo muito parecido, e por isso sincero, e eu ele dividimos algumas coisas. Este é também o tipo de intimidade que faz eu, alguém da minha posição, passar trabalho, não vou dizer que não dói, ter Toni pagando almoços, e eu pagando dobrado para o garçom logo em seguida, de qualquer forma ridícula tentando me impressionar, não como Bráulio, com mãos na coxa como uma pulp pornô italiana, nem sei se existe esta denominação, tentando me vencer pelo cansaço, pela eletricidade independente que cada corpo possui, postanto lembretes aos poucos do tipo, você tem pele, cabelos, seu corpo sua, fode, come e caga, não há como impedir isto, mas sim com pequenos gestos que chegam a dar vergonha, como conselhos para lidar com uma ex-namorada inexistente ao telefone antes de dormir, receitas de massaroca de mandioca, versos de Gilka Vargas nos momentos mais impróprios, como quando sento para escrever e-mails aos parentes, como se ler uma mulher praticamente esquecida, como se ler uma poeta, fizesse dele um ser duas vezes mais presente, mais fiel. Mas esta dor falo pois tem a ver principalmente com aquele cenário meu e de Eustácio que te falo, este véu desbotoado acima de nossas cabeças, onde nos encontramos, e lá, uma mancha mais escura em uma escada pode ser, por exemplo, a memória do sangue, lá por exemplo, embora nossas frases sejam sempre trocas aparentes de amenidades, o dia em que perdeu um dos dentes de trás para um sujeito mal-humorado, que durante um encontro por ambos aceito, ou chamou de bicha, o deu socos e pontapés, e o deixou pingando envolto em um tipo de nuvem polvorosa que de vez em quando aparece em nosso secreto lugar. E me dói olhar para Toni, e olhar para Eustácio, e saber que Eustácio deseja Toni naquele ponto onde um acidente chega a ser programado, isto é, onde não há controle, ou lógica,a vida é em si a própria obsessão, e apesar de prometer a si não deixar escapar nenhum pequeno sinal, nem uma resmungada ao ser ignorado, ou sorriso esticado trazendo um silêncio exagerado consigo, apesar de puxar todas as redes do mar, fechar seus cadernos, há momentos em que algo se sobrepõe e tudo se justifica. Até mesmo a surra, até mesmo a solidão. Este é o Toni que nos apresenta, mas o Toni mesmo, tenho certeza que pode ser capaz de qualquer coisa principalmente matar em um devaneio. Duvido de homens que insistem desta maneira, duvido daqueles que fazem promessas a si. Eu tenho compaixão por Eustácio e talvez até mesmo amor, principalmente porque nos encontramos sem conversarmos, darmos nomes aos objetos, nos limparmos no mesmo segredo. Eu sei que ele é bicha, ele sabe qualquer coisa de mim, e imagino que deva estar certo. Quanto aos outros, ao duelo carinhoso entre Bráulio e Toni, este bar com areia de chão batido onde juro devíamos escutar o rio, mas há algo que bloqueia, apesar de estarmos tão perto da costa, há algo de misterioso que funciona como um muro, que interrompe o ar, a sua vibração, e com toda certeza faz parte do motivo pelo qual estou aqui, o pouco que guardo é uma indiferença quase que geológica. Por que nesta parte específica do país, um solo se degradou a tal ponto, as camadas sedimentares se enroscaram de tal forma, o vento faltou ou exagerou, a erosão, a força da maré, isto é: os tempos do mundo coexistem, os mortos voltam a superfície, e em minha cabeça, estes homens e este lugar muito poderiam ser resultado deste fenômeno. Este é o Ariripe agora.

Sinto falta de você Helenita, mas sei que falo por todas mulheres do mundo. Aqui quase não há mulheres. Há sim pencas de mineradores, jornalistas eventuais que farejam a dor destes tais mineradores, há acadêmicos com eu e esta minha gangue de homens que em um fraquejar de cordas podem me devorar em um instante. As mulheres dos políticos estão nas cidades ricas, as dos trabalhadores em outro estado, onde ainda há água, e a terra é tão espremida para dar em algo, que abandoná-la é como deixar um pedaço da própria mão. As poucas que aqui habitam ou são muito religiosas ou os maridos as impedem de sair de casa. Passo em frente a janelas, elas se fecham para mim, antes levo junto um rasgo, um borrão, é uma mãe de alguém, uma avó, com quem converso apenas mentalmente, e imagino, é por isto que esta cidade é tão silenciosa, é por isso que o cemitério, grande demais, guarda. Alguém pra puxar papo, alguém para chorar por uma bobagem como uma cor imprevisível do céu, alguém para eu confundir com minha irmã, com a mulher no trem de Lisboa que juro que amei, embora nós tenhamos trocados apenas um minuto de olhares cruzados, desbrocando o parafuso da sanidade, sempre retornando em momentos como esse como um fantasma de estimação a me por contra a parede. Alguém para dividir uma escova de cabelos, pedir o absorvente emprestado,e rir pois, não é possível emprestar um absorvente, e a cólica afunda mas nosso corpo não tem centro e tudo bem. Um par de seios, céus, para emagrecer as retas destas pedras e balançar o mundo. Um par de pernas, que acentue. Uma puta a nos lembrar este nome, e me faça sentir mal por ouvi-lo e ter saudade do que remete.

Estou só com nosso passado. Cansada de ser perseguida, treinada na fuga das armadilhas, aprender com a ferrugem a descercar uma palavra exata para um momento continuar sadio. Não é isto com que me importo, desde sempre foi assim, existe o medo, mas o medo é aquela camada vagabunda do afresco, a tinta que descasca rapidamente quando precisamos ser sérios, sei me proteger. Mas para que mesmo preciso? Eu penso em Lucy, penso na Eva mitocondrial, pensou em você, minha maior amiga por mais chegar próximo de me odiar tão completamente e o que seria isto se não não temer conhecer alguém de verdade? Imagino que em outra vida fomos piratas, mulheres piratas, moramos nas Bahamas, e, depois de algumas aventuras, nos dobremos a vida pacata, abrimos escolas, ajudamos prostitutas, tivemos muitos filhos. Mas agora é isto. Estou no interior do Ceará, absolutamente desfalcada. Ainda não sei se tenho raiva de você naquele ponto de querer te ver de novo, como fazem os amigos, pequenos cafés, pequenas dormidas um na casa do outro, lembrando de ex-amantes que esquecemos, de palavras feias que já falamos, a anatomia do monstro estudada no choque do cheiro de torradas com geleia de jabuticaba. O fato é que falo é pra você, e assim corrijo os mapas, e juro, em uma versão deste mundo, estou no caminho certo.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

os objetos

como acreditar em uma xícara? o pão vai na boca, antes, vai no prato. o café vai no coador depois vai na cabeça. tomar o café da tarde significa prestar continência ao café da manhã, significa marcar de chegar atrasado ao início da noite. uma faca corta, mas amacia, a manteiga. a manteiga já foi gordura de porco, o porco morria gritando, hoje, uma pistola de ar é mais rápida do que o piscar de olhos. os olhos do porco nas bolhas de café. o café da manhã no café da tarde como um trilho, nos abrindo. como confiar em uma xícara? diz minha tia. tudo pode desaparecer. uma xícara, de porcelana ou vidro, pode sumir ao ser erguida entre o dedo e os lábios. o café nunca. o café manha diz minha tia. seus dentes são amarelos. está estampado na sua cara e não há vergonha nisso. os objetos, como confiá-los. eles se quebram. desaparecem mas não se vão. assim como os ossos. embaixo do tapete, cravado na sola do pé. de surpresa anos depois entre as plantas do jardim. o café lava o cálcio, o potássio, é diurético. minha tia mexe a xícara muito devagar, coloca mais fatias de pão do que come em cima da mesa. este come com a mão, embalsamando uma ligeira tranquilidade.