quinta-feira, 22 de março de 2018

alameda potiguar

em alguns locais desta cidade ocorre um fenômeno estranho, em lugares esparsos, com certos moradores. as pessoas vão dormir cansadas, pois é isto que esta cidade também faz com as pessoas, depois de um dia de trabalho, tomam leite ou cachaça, vão na igreja, no samba, no terreiro ou tiram uma noite sabática, deitam-se em suas camas. quando despertam ainda estão no sonho, mas demoram para descobrir. faróis de carros gritam alto, carros feito para o deserto ou a selva, carros que são eles a própria ferocidade do deserto e selva, a sobreposição unificadora de ambos, ou assim buscam sua identidade. canhões de luz pescam certos tipos corpos miados, entre os prédios, em fuga manchados de noite escura, arranhados nas radiações dos postes, pescam como seus antepassados pescassem marisco, tainha, mas sem a fome. ou a fome sendo uma outra coisa. alguns alegam escutar juras de morte, batidas seguidas de berros explosivos, o berro da mão é diferente do berro das costas, e pasme, contam alguns, o grito do pé pode ser quiçá o maior de tudo, ninguém desconfia, mas é uma barulho pisoteado, seguido de uma família de ruídos, como uma espécie inteira que agoniza. às vezes, uma das pessoas reconhecem alguém. parece o tio, ou o avô, muito jovem, muito bonito, ou muito ensanguentado, quase irreconhecível se não fosse aquele sotaque ranhoso de dizer chega, tanto tempo ouvido em um almoço de infância. às vezes é um dos poliças, e em outras até mesmo, qualquer um que por ali passou no momento do baque, do choque, do pulo, do que dizer ser o azar de um momento infeliz, como uma prostituta, um vendedor de jogo de loteria ilegal, um jovem que sai à noite para comprar cigarros a avó, ossos: pedras desajeitadas na terra a chacolhar. o sonho acontece de novo e de novo. há aqueles que se cansam, mudam de casa, não aguentam a repetição, os gritos, o barulho das armas (armas que riem até os dentes caírem, eis os disparos). outros já se acostumaram e usam este lugar, o sonho, para conversar com pessoas que não estão mais aqui, para pagar seus pecados, para chorar, para rezar pelo alma de alguém cujo o corpo é o infinito. o infinito mistério cuja posse é usurpada. também existem aqueles que usam este sonho, este portal, como um lugar de encontro, e lá conversam com as outras pessoas que também moram na mesma cidade, aproveitando que lá o preço do metrô ainda não é tão caro, e a velocidade do tempo não faz os carros ficarem tão parados, usam isto para jogar conversa fora e tal.

Nenhum comentário: