domingo, 28 de julho de 2013

cachoeiras não são conhecidas pelo seu silêncio

Depois do expediente, mesmo sem muita sobra de dinheiro, gosto de entrar em uma loja como quem não precisa de nada, mas quer ser impressionado mesmo sem nenhuma imaginação pronta para ser substituída por realidade.

 Entro em joalherias e vejo as formas cilíndricas e octogonais dos colares, examino as fendas em ouro como quem relembra a pele por trás deles, como quem já tivesse o pescoço só faltasse o presente para dá-lo. Mas no fim os pescoços e as mulheres que construo são sempre mais belos e belas do que um relato pronto, e me coloco a pensar nelas indo embora com facilidade e deixando os vendedores inseguros com a qualidade de seu estoque.

 Gosto de andar pela rua, meu terno, uniforme de trabalho alinhado, feito exatamente para o homem que me tornei. Quem me enxerga com uma gravata borboleta, os sapatos engraxados, nunca imagina meu trabalho e sempre me trata como se eu existisse, com um cumprimento, uma oferta de flores, um convite.
 Quem me enxerga imersos em linhas de giz nunca pensaria por exemplo que ganho a vida a tocar piano, e todo dia acordo muito cedo, porque a morte nunca descansa, e chego em meu local de trabalho, ou seja, o hospital. Que trabalho num hospital.

 Há alguns anos atrás fui internado lá, tempo em que eu bebia demais e uma infecção levou parte de meu fígado. Sem ter dinheiro para pagar, o diretor do hospital me ofereceu outra saída. Esse lugar é muito triste, me disse ele, talvez se houvesse um piano. E assim foi que comecei a usar esse terno, esses sapatos, e a tocar no saguão de recepção do Hospital Fonte de Luz.

Todos que aqui chegam, desde o táxi, desde a esquina, já são surpreendidos pelos cordas altas, por um Bach e eles não sabem nomear, mas lembram seus avós ou pais, já são guiados pela minha música e ficam curiosos por saber quem é o responsável por essa distração. Este não é o lugar onde eu imaginava estar quando crescesse depois de inúmeros noites de estudo ao lado de Neuza, uma mulher baixinha que me deu a impressão de que tudo pode ser portátil, e com muita força nos dedos, que me injetou a capacidade de não errar e mesmo se errar um ou outro reflexo e combinações de notas, continuar.

Fora Neuza também que me deu lições sobre a mística dos pianos. Há certos pianos que tem o poder de ensurdecer algumas partes do corpo das pessoas, de controlá-las por assim dizer, mas apenas os muito bons, ou muito ruins, conseguem isso. Nunca pensei ser um nem o outro.
Sempre lembro de Neuza uma ou outra vez no meu dia. Seja porque alguma flecha aguda de choro percorreu três corredores intacta, Neuza nunca demonstrava falar com as dobras do rosto, seja porque alguém reclamou do serviço dos atendentes de recepção, Neuza possuía uma severidade que em outro mundo seria um navio de guerra.

Como meu senhor disse um hospital é um lugar muito triste mesmo, mas não precisava ser visto assim. É claro que existe a presença das unhas sujas da morte, infectando os lenços brancos e feridas de acaso, mas também há os eventos de nascimentos, e fomos criamos para achar que bebês e crianças são coisas boas, portanto a esperança aqui anda nua. Mas este é um lugar diferente. Colorido, com lustres grandes, detalhes bem talhados ao redor das portas janelas, cores vivas como o vermelho sendo usada na maioria das paredes sem medo do que ela possa despertar. Esquecer aqui ganha de qualquer descuido.

 Quando comecei a tocar por aqui, uns achavam um absurdo, o barulho, a  perturbação dos doentes, dos familiares.  Como se meus dedos soletrassem desafinassem seus instrumentos de percussão, deformasse a imagem dos parentes doentes, os fizessem sentir culpa por lembra de uma viagem à uma cachoeira, a visão do mundo por trás de uma cachoeira, achar lindo e se acostumar com os traços da beleza. Mas depois de um tempo percebi o meu dever ali. Antes de eu chegar havia gritos, choros, muitas mulheres em desespero por seus parentes mortos, homens calados pela  gravidade de seus peitos, criancinhas sem volta, uma dor a vista de todos como um forte de uma guerra que não existiu: inútil.

 Depois do piano desabafar, era como se os mortos deixassem de viverem para seus amigos e familiares, as pessoas tomavam um tom de serenidade com um grande gole, e outras, por mais que gritassem e sofressem, era impossível ouvi-las pois meu piano era muito alto e denso, como uma nuvem de areia. Era esse meu ofício ali afinal, espantar a dor dos falecidos, algo que nunca imaginei que um instrumento fosse capaz de fazer. No final do dia, as pessoas chegavam em casa com grãos de areia entre as camisas e os casacos, entendi que arte é esfarelar-se e a música é sempre alguém fugido e não necessariamente procurado.
Um dia desses como de habitual fui dar meu passeio depois do trabalho. Quando saio de lá, de forma desastrada me atravessa uma pena daquelas pobres pessoas que não terão o consolo da minha música e estarão sozinhas com suas próprias nevadas de dor, um frio conhecido por mim que já passei por isso em frases curtas de minha história. Eu estava a ver camisas da qual nunca poderia comprar, me divertindo com suas estampas tão parecidas e ridículas dos detalhes mínimos, quando espichei a atenção para uma conversa.

 Dois homens conversando, um deles, o que eu reconheci, contava que a esposa estava seriamente doente. Embora eu fique a maior parte do tempo de costas para meu público no saguão, tenho que fazer as horas passarem então me divirto em deslizar os olhares pelas roupas de invernos dos visitantes do hospital, ouvir seus relatos tristes que ultrapassam a barreira do som de meu piano.

A mulher dele, muito bonita, me marcou não só pelos traços indianos mas também por sua mãe ter ido muito jovem, o que muito lembrou minha própria história pessoal. Senti um pesar na garganta, como dar a luz à um iceberg, que se converteu em uma aspas de longo choro.

A futura morte senti como se toda minha mobília fosse solta fora. Precisava saber mais sobre o que estava acontecendo, talvez salvar os móveis de minha sala íntima. Aquilo tratava-se de uma injustiça. Educação ainda me resta, não falei com o homem de rosto em falta.

 Noutro dia no hospital, em meu intervalo conquistei um pouco de coragem e bisbilhotei a ficha médica da mulher enquanto ela saíra do quarto para um exame. O pâncreas decidira parar de repente, mesmo sem nenhum sinal desse mal na família. Depois disso, toquei o piano por uma hora além do meu expediente, em uma tentativa ridícula talvez de reencantar o órgão suicida pela vida.

Foram talvez duas semanas que vi o homem na sala de recepção. Colocava atenção em suas roupas, eu queria saber se ele estava se cuidando. Perto da morte da esposa, ele parecia bem melhor. Ficava o dia inteiro olhando para o grande lustra da sala, abrigando-se no que saía de minhas partituras, imagino. A mulher faleceu e nesse dia eu consegui estragar meu uniforme. Não parecia justo, depois de tanta bagunça, sujeira, caos aplicado, eu retornar todo dia impecável, com as dobras da roupa bem passadas, e perfume entre as camadas de roupa. Tomei alguns remédios para conter a garganta de sua fuga, tonto me depositei no chão com agressão, me dei um furo de tecido na altura dos quadris.

Pelo menos nunca mais veria o homem, e isso me saudava. Esqueceria desse espetáculo familiar e poderia assim fazer o que o diretor do hospital, aquele homem saudável apenas em teoria (sua barriga parecia apenas possível de ser pensada por um chargista, era muito grande) e abastecer o ambiente com o consolo que a arte promete. Porque a arte é o ato de empregar veludo nas espadas e morteiros, de suavizar as derrapagens, de soldar a beleza até mesmo nos terrenos mais abandonados pelos planos. A vontade da música, a  única legislatura real da arte, é a de nos promover a bancos de carona, colocando a suavidade no controle. O conforto, o pequeno conforto que eu poderia fornecer a qualquer um, me dava vontade de abrir filiais de olhos até nas costas para enxergar mais a vida ao acordar.

Depois de recuperado, e com meu rasgo e quadris devidamente costurados, me entrertia a ver as enfermeiras, sempre firmes em suas panturrilhas mais do que nos humores, em observar o movimento da porta de entrada, sempre maior no inverno. Mas logo, minha leveza se desmanchou no ar. Por esses  dias, apareceu aqui foi o marido da mulher, o marido da morta, que é filha da morta. Como pode, deus do céu, um sobrenome quase inteiro desaparecer. Descobri, que o coração do homem estava parando aos poucos. Logo aquele coração que tanto se fez de público para nossas tardes de Wagner, de Dvorak, agora se silencia.

Fiquei muito triste, nunca tive uma família tão grande, e esse homem estava perdendo tudo que nunca tive. Lembro de ter me socorrido em uma sala esquecida na lavanderia do hospital. Lá deixei um mapa hidrográfico de minha tristeza, chorei, horas ali como prova. Foi então que comecei a me dar conta de algo terrível. A maioria dos rostos que vinham ao hospital eram sempre conhecidos, familiares de familiares, sempre os mesmos, eu conhecia quase que todo meu público. Quando os pacientes saiam dos quartos, me obriguei a ler suas fichas. Os motivos que os levaram ao leito eram sempre parecidos, os órgãos começavam a parar de funcionar, como quem desiste, como quem cala do nada. Um dia eles iam ao hospital, visitar uma  vida ou o acabar de uma, no outro, entravam para nunca mais sair.

Saí no meio de meu expediente. Fui para casa, juntei todas partes de meu uniforme. Os queimei na lareira, o que não foi uma boa ideia porque os botões de plástico deram um cheiro terrível para as cortinas. Comecei a ver as paredes ficarem pretas, os cantos engolirem toda a luz. Olhei para meu piano como quem reconhece um assassino sem ter nenhuma certeza. Tive vergonha do que tinha me tornado. Extrema vergonha e um remorso de mil homens com o entusiasmo de quem recém tinha descoberto a pólvora. Houve uma época que eu pensei que ser música era uma boa coisa, houve uma época em que colocar para dormir o corpo, a vontade, o desespero era apenas metáfora. Neuza veio em minha mente e a odiei com todos hectares de meus anos de paz, a odiei por ter me treinado tão bem. Eu era um ótimo ´pianista, talvez o melhor. Agora tudo fazia sentido, o dono do hospital e sua insistência em me fazer trabalhar lá, no fundo me fez de bobo, me deu o tom escuro não só por fora mas por dentro do corpo também.


Comecei a tocar o piano sem planos de parar, com a raiva elucidando as notas, eu queria que o som fizesse tudo parar, eu queria que tudo calasse, por tudo quero dizer meu corpo, quero dizer minha vida. Mas para minha infelicidade, um assassino não pode se matar definitivamente com sua própria arma. Apenas morrer múltiplas vezes, apenas sofrer, e foi isso que fiz.

terça-feira, 23 de julho de 2013

como refazer laços com janelas

Você deve achar uma loucura terminar com uma pessoa só porque ela dirige rápido demais. Você provavelmente não sabe o que é pensar seriamente que vai morrer num domingo, numa ida  à padaria, com a barriga recheada de chá preto, o que ficaria lindo na hora do acidente, morrer inchada, depois de uma refeição, com o cream cheese de morango inteiro na sacola do sangue,  morrer num domingo, pensar em morrer num domingo é muito vergonhoso, um atestado de insignificância, um motim desmarcado por falta de motivo, todo dia ser domingo todo dia ser uma adivinhação fácil, uma angústia curvada aos pés da memória, todo dia domingo. Não me acostumei com o perigo. Mas não classificaria isso de covardia. Elogia à diferença, talvez. Apenas posso dizer que a velocidade é uma saída muito previsível e que meus ossos libaneses, acostumado aos desertos de meus antepassados, não foram criados para avançar o corpo antes dos olhos, nunca tive pressa, nunca tivemos pressa, e foi assim que forjamos tão bonitos sonhos como roupa de cama, tendo sempre a vantagem do acaso abrir uma porta em qualquer rocha, duna ou platô para que nos entregássemos ao silêncio. Minha família demorou eras para chegar neste lado no planeta. Não se pode andar rápido e enxergar silêncio, o movimento chantageia as coisas para que ganhem susto, o susto nunca é mundo, apenas rascunho pouco. Para onde íamos, íamos de carro. Para ele, era incômodo o metrô, as expressões ilegíveis lhe pedindo explicações, os cães trapaceiros que conseguiam engatar na carona, o jogo de peso dos olhares. Como era muito fraco para caminhadas, nada imune a um vendaval ou sopro de acaso, até no mesmo bairro pegávamos a direção do carro. Qualquer frio o retorcia, ou manobra de ar o despia fácil e ficava a fornecer careta irritáveis. Era fácil o ver irritado. Detestava a espera. Me deu um relógio de presente na primeira vez que investi no tempo no lugar oposto onde havíamos marcado. O tempo pode nos fazer ganhar ouvidos, gostava de dizer, não assim, com palavras, mas nos gestos que sobravam da fiscalização do rosto, no olhar abotoado nas testas curvas que sempre haviam por perto, e sempre haviam tantas testas curvas perto dele. Não mandava cartas para não esperar recebê-las, não pegava filas não experimentar o estado parado, a inutilidade com maior número de piadas ruins dos dias. Era pensar em ir a um cinema, confundir narizes com os dedos no escuro, embaçar a fome com as oferendas francesas, que já vinham a mim a sensação de velocidade recortada, os cabelos perdidos para o vento. Seu olhar grampeado no risco de caminho que a cidade asfaltara. Por várias vezes esse seu ânimo quase nos deu acidentes, já me vi morta de tantas formas, por baixo de estoques de madeira, dentro de uma agência bancário, comprimida nas ferragens como uma armadura espacial e inútil, assim ia me acostumando com a sensação de proximidade da dor última, achava normal colocar tudo a perder ao engolir a distância de um quilômetro de cidade, a cerveja era sempre a última cerveja, o beijo tomado a última vacina, a possibilidade de desejar o barco civilizado que restava. Uma vez, cansada, não resisti mais a imaginação. Ou nos mata agora, ou me deixe com as pernas úteis em qualquer esquina. Ele apertou quase 200 km por hora, era noite, era mini reino urbano, eu digo que se me ama largaria dos ponteiros, eu lhe digo que a pressa é o medo de conversar sobre a paisagem, que nós somos a paisagem, abandonada a 200 km por hora, onde enfim quer chegar com todo esse terrorismo, quer se ver morto e me levar junto como uma ajudante na pós-vida, tem medo de frear aos poucos e se acostumar ao balanço sumido, a cada bloco de segundos que deslizavam de minhas mãos, porque ele estava rebocando meu futuro ali aquilo era um roubo, estava me levando a idade que eu tanto gastaria com pequenezas, horas fazendo as unhas, banhos de 40 minutos, terapia com o sol que se vai, em pouco tempo estaríamos longe de Caxias, logo depois, ultrapassaríamos um hospital onde eu daria a luz, um casal de gêmeos talvez, o motor poderia engasgar, o líquido do freio secar, mas continuaríamos em constância velocidade, até uma pequena aldeia onde construiríamos uma casa, que mais adiante , alguns potes de percurso adiante, deixaríamos para os mesmos filhos recém acaronados a pouco, era ontem quando ainda os prendemos nos banquinhos de carona atrás de nossos bancos, antes da batida, porque sim em algum momento deveria haver uma batida a sorte não possui todas numerações, pararíamos para sempre mesmo a quilometragem tão ampla do para-choque, talvez por ironia, o carro permaneça inteiro, apenas nossos corpos provaram a imobilidade, nossos filhos bem educados o usarão para conhecer seus futuros amantes, fazer netos, pegar nossos netos nas escolas, e de nossa família tudo que lembrarão será desse carro, esse Corsa herdado dos teus pais, que poderia nos levar a lugares mais rapidamente do que o tempo que levei para contar essa história que de fato não aconteceu pois eu a deixei a tempo, por uma vez pelo menos fui eu a agarrar as barbas longas do tempo e desmontar a carroça a tempo de sua velha receita, enquanto ele, por estar atrasado, foi atrás de um posto de gasolina, sozinho, diz a física com menos peso menor é o gasto mais a rapidez, enquanto eu comia uma torta de maça numa lanchonete no cordão da estrada, eu a recém deixada, vi o carro adiante reduzir a velocidade, quase parando, provavelmente o medo de morrer sozinho, ou apenas uma necessidade de conserto no motor, vai saber a mim não importava. Mas a você tudo que eu tenho a dizer é que terminei com ele porque dirigia rápido demais. 

domingo, 23 de junho de 2013

A morte de Púshkin


I
Com uma lâmina
No lugar do sorriso
Aponta para você sorrindo
Dentro seu grito
Gangrena
O silêncio pedra
De afiar

II
Chegou em sua casa
Onde a língua russa alimenta
Deixou os olhos
Na abotuadura de sua mulher
Pouco importou o seio
De Tatiana e as palavras
em seu bojo
Amor um remo quebrado
Na geleira.

III
Sua espada feita de vento
Poesia respiração parada
Seu inimigo
Não temia temporal
Uma nuvem caída
Murcha
Carregava no peito
Durante o duelo
Foi o ferro contra o sopro
Seus golpes feitos de tempo
Você filho do voo
Esqueceu que a carne
Dentro do sonho
morre também
Seu amor a roupa verdadeira
O sabre dele acordou
Naquele jardim essa veste sem uso

Deflorava de seus pesos ossos.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

sobre os últimos acontecimentos meu cachorro não é silêncio

não há como não perceber. meu cachorro anda inquieto. hoje, em face de um prato de comida recém posto,   adicionou tal silêncio a cena que parecia querer era um diálogo com a tigela que só fornecia calorias. ficam os dois lá, a armazenar suas contusões. eu acordo, esquento um café. meu cachorro dorme com os olhos abertos. eu sento no sofá, observo o jornal. meu cachorro se senta mais perto. não emite um ruído, não denuncia uma fagulha, não quer saber de expressão. ele chega mais perto. esfrega aqueles olhos amarelos queimados na graxa da tipografia do impresso. meu cachorro não sabe ler. eu leio para ele. no final não me cumprimenta. adota uma parede como ponto de fuga. meu cachorro anda tão estranho. às vezes solta um berro, longo, adestrado. berros não são adestrados. exijo resposta. meu cachorro me segue pela casa, acha que lhe devo uma saída. uma explicação. ligo a televisão, escuto o rádio, suas notícias, me volto ao computador, salgada. deve achar é estranho meu cachorro me ver tanto tempo em casa, sinto vergonha da não fuga, mas finjo que não me pertence o abrigo. ele quer saber o que está acontecendo. quando ele abaixo o focinho, isso é uma pergunta. eu não sei o que dizer. eu não sei nem o que dizer para meu cachorro. nos últimos dias? é complicado, você não entenderia. ele desconfia de minhas reais preocupações. sim, tem muitas pessoas indo para rua. sim, elas estão com uma tristeza em labirinto. sim, elas se lembram que são pessoas na rua. sim, nesse país se mexer é desrespeito. você não compreende. meu cachorro quando não compreende algo vai para o jardim. faz coco nas mudas de manjericão, nas bromélias. depois de um tempo volta e relaxa no piso mais gelado do canto mais inóspito, meu cachorro se faz em confusão. eu ali, naquela casa, eu ali, naquela zona sul, eu ali, recheada de números. o que são números para o meu cachorro. meu cachorro só sabe o que vê. meu cachorro só vê a mim. sem ônibus, sem tarifas, sem tabela de superfaturas, construções. está visivelmente decepcionado a esse ponto. se antes me perseguia, como um comboio em tom de proteção, agora prefere ficar na rua. escutar uma mensagem que vem ao ar, algo do tipo. está triste. deve preferir ter outro dono, aliás, ter é dono nenhum. meu cachorro enfrenta a fresta da rua, debaixo do portão. de lá ele observa os carros passando, a bola das crianças correndo. de lá ele vê. não apenas escuta o que sobra dos canos submersos. pensei que estaria contente, eu aqui, sã, eu aqui salva, eu aqui. meu cachorro sabe que um mapa não é um ponto. que espaço é algo preenchido não desejado. nem sequer explicar as ranhuras da garganta eu pude, nem sequer depositar meu país uma palavra, numa frase, eu não citei Jango, eu não citei empreiteiras, eu não citei Mariguella. Não precisava. lembro que meu cachorro possui a herança dos lobos nas patas de trás, que de alguma forma ele reconhece uma pedra que poderá cair, um atalho a surgir, seu passado o deu o longo faro. eu poderia agora abrir aquele portão. deixar que ele descobrisse por si só. ao invés de ficarmos aqui, tomando uísque, declamando Murilo Mendes, o ensinando piadas de mitologia eslava, ou como os russos são bonitos. se eu realmente entendesse o que está acontecendo, o deixaria escutar a pimenta e decifrar o gás sozinho, depois ele me contaria, chorando chorando, voltaria a minha casa, daí sim o uísque, daí não a poesia, deitaria no meu colo imerso em um duplo sentimento, o de buscar asilo em meu tom de pele quente conhecido e  o de talvez me detestar pelo fato de minha humanidade me punir, que horror, que horror, me diria, chorando com a mesma coragem que não tive. mas cachorros não choram. preciso começar a desensinar coisas. pelo bem das espécies. a distância colabora com o cristal do olho, a mina do corpo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

bem que tentou Clarice não me amar
debaixo das medalhas
ervas pagãs
no cigarro apagado do
próximo fogo
mas seu desamor era engenheiro
duas cidades construiu
para a dar um começo
mas todas as ruas vinham até minha casa
bem que tentou Clarice esquecer minha casa
mas sua infelicidade
era uma motorista hábil
as duas jantavam no meu quarto
naquele tempo comíamos carne vermelha
a primeira vez que Clarice tentou me deixar
quem gritou foi sua sanidade
mas a sanidade de Clarice também a abandonou
depois de duas semanas de choro roxo entupido
extraí seu pequeno rio em minha cama
enquanto em coro o dia
caia lá fora
a segunda vez que Clarice tentou me deixar
quem foi embora foram seus olhos
ela voltava com a mão no rosto
fazíamos amor com
a mão no rosto
trocamos a o rosto pela mão
contávamos piadas para o escuro e quem
ria éramos nós
Clarice deixa os cabelos crescer
começa a fazer mímica e diz para eu ir embora
um lugar longe talvez Hungria
em Budapeste depois do um mês de aulas em húngaro
aparece imersa a casacos e mantas
às vezes acho que ela só queria era
passar férias na Hungria
Clarice vai para a natação e esquece de trazer vinho
junta as palavras de paixão que deixou
pelas estantes da sala
diz para eu esquecer o seu rosto
se passam três dias ela me liga para me perguntar
como é o seu rosto
bem que sabe Clarice que o melhor para Clarice
seria ela não me amar
não ler minhas cartas poemas que são só desculpas
não engolir meus beijos meus braços que são só desespero
mas o impossível sempre a caiu tão bem.

domingo, 2 de junho de 2013

dança para dois de junho

Acordar, sofrer pelos dentes parados, lavar a cara, engolir almoço. Os índios, no Xingu os índios incomodam muita gente, no Xingu do Brasil, do mundo, um índio é morto, um índio é mortos. Lavar a louça, colocar um cd do Leonard Cohen, sentir os barulhos do estômago de Leonard Cohen em sua garganta, cantar para a Suzanne de Cohen, lavar mais a louça. Escutar Anos Dourados, lembrar do rosto dela na mesma cozinha, no mesmo dourado, olhar par ao pai mentindo ao dizer que sabe nada sobre o que diz essa música. Ligar um incenso, lavar a travessa de carne, parar tudo, parar tudo e dançar Clube da Esquina na sala vazia, convidar a cachorra, alegrar a cachorra, dançar com a cachorra, convidar o gato, o gato assiste mas não entende, os passos, a música, o cheiro de café, a alegria da cachorra. Doer o peito, ter um peito, sentir o roncar das áreas de incêndio do peito, perder a respiração para o movimento dos braços, amar Belchior loucamente, mostrar para os pais a nova música que fez com Pedro, Pedro agora canta sobre o tempo, areia seca corroi o osso duro do tempo, meu avô chora quando Pedro fala sobre o tempo, depois da volta do hospital, depois da dor,meu avô não perde tempo e agradece com choro. Olhar para a mãe e mentir que compreende completamente a letra de sua própria música. De pantufa chorar e dançar mais um pouco, a louça ainda suja, pedir uma brecha para a sujeira, de pantufa chorar com Nei Lisboa, de pantufa acordar de novo.Sujar a louça da pele. Da sala. Sujar o vazio com dança. A Turquia é aqui, ler o jornal, não ler o jornal e sim os blogues, ler nos blogs sobre porque a Turquia é aqui. Discutir sobre a Turquia com os pais, fazer um minuto de silêncio, entender que houve mortes e que haverá. Ir para o cinema, convencer a todos, aos pais, a irmã, a família, ao Xingu e a Turquia que faz bem ir ao cinema e assistir a um filme. Corrijo. Ir ao cinema e assistir a morte. Corrijo. Ir ao cinema e sentir dor, no maxilar, nos ventrículos, a água do corpo tremer e fazer doer tudo, expor lágrimas na pachimina, agradecer a si mesmo por ter saído de pachimina e esboçar rosto seco. Corrijo. Ir ao cinema e dançar ao contrário. Ver a irmã, ver o Araguaia, ver a família, ver aquilo que diz memória inconsolável. E daí dançar mesmo. Sair do cinema com a família, a dor, o Araguaia, a Turquia, o Xingu e dançar quadrilha. Comer bauru, que não é xis e nem hambúrguer, comer bauru com fritas que são francesas, cortar o livro, desenhar no Drummond, falar do menino que não se matou, falar do menino que três vezes não se matou, falar da dor que cinco vezes não se matou. Fingir a todos que não conhecer: o menino, as vezes, a dor, o matou. Enganar a todos muito bem, principalmente a Drummond. voltar para casa. pensar  em fugir, cantar Você Não Entende Nada Do Que Eu Digo e quase fugir pro Rio de Janeiro para a dança, para a água, para a memória, para a dor, para o teatro do inconsolável. Depois tentar dormir, mandar os dentes dormir, saber que na verdade nunca nada dorme. Ter certeza de que nada nunca dorme mas enganar tudo&todos de que pelo menos os dentes podem sim conseguir dormir. E é assim que a gente descansa. Estudar com o escuro como cantar uma canção de ninar para os dentes e assim aguardar no rosto a espera. A espera é uma rua que caminha. Lembrar que já saiu do cinema. Parar.

sábado, 1 de junho de 2013

A barriga do pai

Aquele pequeno grito atravessa seu rosto. Entre os enredos de pele e carne encontra novas aberturas, onde se amplifica e ressoa. Como nenhum grito possui tempo real (porque o incomodo não é algo passível de contabilidade), ele o acompanha durante uma caminhada até o ponto de táxi, um descanso depois do almoço, na memória dos tempos da faculdade o grito se instala lá pelos seus 20 anos. O grito se fantasia de juventude, de camiseta estampada e bom gosto musical, Schubert talvez, o grito o acompanha na aula de Mercadologia I. Senta-se na fileira de trás, sorri alto e o observa convicto. Naquele tempo ele não sabia o identificar nas multidões, nos estádios, nas festas. Quem dirá em uma sala de aula.

A mulher tinha cheiro de pomada nos dedos. Os mesmos dedos que depois usava para tomar carinho e presença do rosto dele. Mas não se pode tocar em tudo. Ela terminava de atar a nova fralda na criança que há pouco tinha parado de exibir barulhos, se acomodado no silêncio, o rasgando apenas com risadas tímidas. Ainda bem que ela chegou a tempo. Naquela época, sempre que a mulher saia de casa no fim de semana ou em dia de folga da babá, normalmente para a compra de alguns cigarros ou visitar a mãe, a respiração dele se transforma em um cronômetro. Na espera de seu retorno, não conseguia respirar direito, quem diria trabalhar.

A verdade é que não suportava ficar sozinho com a criança. Ela o ofendia. Ela o ofende. A roupa sempre suja, implicando em falta de cuidado. O seu desrespeito pelos objetos, fazendo ir ao chão qualquer coisa ao alcance de seus dedos. E principalmente, seu rosto. Era sobretudo uma bebê muito feio. Ele não tinha dúvida disso. Seu nariz era muito fino, o queixo agudo como um arco quebrado. Aqueles olhos enterrados que encurtam qualquer ângulo de visão. Cabelos escuros e lisos, como uma lagoa esquecida pelo movimento do mundo. Expulsa do trânsito das coisas. Desde muito tempo não suporta ficar perto da feiura.

Imaginava quanto demoraria para a mulher descobrir isso. A forma que encontrou para lidar com essa adversidade foi se ater a um personagem pronto. A figura do pai distante e hostil que tanto antes detestou. Se viu sem saída e teve que assumir essa coreografia com a mais péssima desculpa. Em casa a fala era economizada, os comentários de vez em quando hostis para não alimentar novos tópicos. Era entendido como um adulto que não sabia lidar com suas emoções, principalmente as mais especiais, tal como o fato do amor exagerado de um pai por um filho. Alguém que não sabia expressar seus sentimentos. Uma vez que, ocorria mesmo era o fato de sua lucidez o mostrar exatamente o que sentia a tal ponto que esconder a verdadeira sinceridade era a  forma de proteger sua família.

 No início, tentou disfarçar como conseguia. Estudava sorrisos forjados. Quando a mulher passava o bebê para seu colo ele inventava um exagero de cautela. Dizia ter medo de machucar, a criança, tão delicada. Tão perfeita em suas limitações. Quando, na verdade, nem se culpava por às vezes desejar que esse passatempo quebrasse. Parasse de funcionar. Assim como tudo que vem com defeito.

Cobria seu dia com maiores compromissos. Passava mais tempo forra de casa, usava o escritório para ler, assistir a algum filme. Se interessou por novas coisas que precisavam do domínio da minúcia e do exagero de dedicação. Começou a praticar modelismo de aviões, carros. O período fora de casa o gastava a mente. Embora sozinho imerso por seus oceanos conhecidos sentia saudade da mulher. Apesar do que aconteceu com suas vidas ele a amava muito. Se conheceram cedo. Ela era muito bonita. Uma das mais que até hoje já pode conhecer. Seu corpo não exagera em nenhuma deformidade. Suas pernas respeitam o cursor de um lápis hábil. Seus olhos equilibram-se no rosto de maneira perfeita, expondo-se em cores, tal como a azul que sugere o quão sua visão é especial. A sua presença é completa porque apenas o fato de sua beleza ocupar lugar no espaço já o basta.

O menino tem sete anos agora. Eles estão a tomar café. Por uma tentativa de se aproximar do pai a criança repete seus gestos. Simula a personalidade de seu familiar. Fechada. Sabe que proporcionar silêncio  na hora de comer, por exemplo, é visto como um agrado. A criança aprendeu que amar é também algo estático. É também distância. Respeito. A indiferença não quer dizer insensibilidade para ela. Nunca a passou por sua cabeça que o pai não a ama. Ele sempre esteve lá. Nas fotos de aniversário, nas comemorações. Ele nunca perdeu uma luta de judô do filho. Sempre concordou com qualquer atividade que o menino se prepusesse a desempenhar. Apreender francês, comprar  algum videogame. Enquanto que seus colegas de colégio mal viam seus pais, por serem separados ou apenas irresponsáveis, o seu sempre estivera próximo. O amava por ele preencher uma cadeira, principalmente. E pela certeza de não  ter que levar sua solidão sozinho.

A mãe está no trabalho. Ele observa o menino. Os anos não consertaram em nada os mesmos motivos que o fez manter em seu pulmão, no lado direito, um desdém tuberculoso.  Ele cresceu. Contudo é ainda baixo para sua idade. Os ombros são muito próximos, o nariz espichou de altura mas a largura ainda é insatisfeita. Ele passa a impressão de alguém doente, alguém sem sorte desde pequeno. Alguém que não merece ser visto. Marcar presença em uma rua, ser percebido em toda sala que entra. Sua falta de beleza vem do fato de que ele é opaco. A luz não volta de seu rosto. Ela some. Desaparece. O menino tem semelhança com cantos escuros.

Não consegue compreender como foi que isso aconteceu. Sua mãe sendo tão bonita. Ele escolheu aquela mulher com exatidão. A pincelou de uma paisagem renascentista. Teve tanta certeza em seu investimento que nunca procurou outra. Desde começos a preencheu de confiança. Sua fé por ela só aumentava enquanto faziam amor, enquanto experimentava cada encontro de pele do seu corpo e certificava-se de sua perfeição, sendo feliz por ter tido sucesso, acertado na escolha, por ter conquistado o melhor do melhor. A desejava também por orgulho de a ter, de possuir o belo do tom de corpo próximo ao seu, no controle de seu tônus. Mas principalmente porque eles eram iguais. Ambos bem freqüentados pelas formas, bem selecionados. Ambos belos. Quando ela engravidou fora tudo pensado de antecedência. Queria muito um filho. Queria engordar seu orgulho.

Não foi o que aconteceu. No navegar dos dias, no pentear dos momentos, tinha vezes que ele entristecia. A sensação de derrota consumia sua tranqüilidade. Não gostava de sair com a criança na rua, não gostava de pensar o que os outros achariam. Que aquele seria ele aos sete anos de idade. Começou a desenvolver uma vontade muito grande de ter outro filho. Desde que o menino nasceu pensava constantemente nisso, tal como uma cicatriz no lado central do olho. O único motivo de não propor a mulher o assunto era medo. Medo que na segunda aposta a decepção fosse ainda maior. Medo que pela segunda vez, medo que o segundo pulmão também guardasse tamanho desgosto.

Incerto de sua decisão, ele a levava para passear em qualquer hora do dia. Às vezes, se uma mulher esbarrasse nele no prédio onde trabalhava, ou, se avistasse uma pessoa muito interessante na rua, no trânsito, ele ficava imaginado. Colocar um filho dentro daquelas barrigas, como eles seriam, que acréscimo uma mulher ruiva daria ao seu possível projeto. Como os rostos dessas crianças seriam desenhados, como elas ficariam no futuro. Como ele velho olharia para elas, com a idade que tem hoje, e o que sentiria ao saber que tudo deu certo. Poderia ter outra família. Poderia ter várias. Mas não era isso que ambicionava. Não adiantava em nada. Seria apenas uma fuga.

A mulher sempre o elogia de como está bem arrumado, com cheiros agradáveis espalhados no mapa do corpo. Se cuida. Usa o dinheiro para isso. Frequenta especialistas em saúde, em esporte, vai a manicure, spas. Não apenas porque adora seu rosto e gosta de visitar o próprio corpo.Mas também em respeito a própria beleza da mulher. Ele acha que tem que devolver a ela o mesmo que ela o proporciona. A mesma intensidade. Por isso, se um dia chegou a pensar que ela talvez estivesse o traído, se por acaso dormiu com outro homem e engravidou e que a criança seria essa, talvez, e que essa concepção é exterior a ele, logo deixou essa raciocínio sumir. Nunca a deu motivos para tal coisa. Além disso, tinha certeza que ela o amava.


Era difícil para o convívio com esse infortúnio. Mas não impossível. Desde que surgiu a criança em sua vida, qualquer palavra dela abastece o grito que ele carrega. Por mais que ambos costurem a mesma tenda de silêncio, nenhuma ausência pode impedir que o grito continue lá. O atravesse. O raspe. O tire mais um pedaço além do filho. Poderia ter previsto que isso talvez acontecesse. Mas não fez.

Sentou em seu quarto. Ficara a colar pedaços de fuselagens de mini-aviões, spitfires, miniaturas da segunda guerra. Passou pela sua cabeça que nunca teve vergonha pelo o que sente pelo filho. Que nunca se sentiu mal por ver ele como um problema a ser contornado. Deixou de lado a cópia do avião inglês. Correu por entre seus pensamentos a facilidade com as quais aquelas metralhadoras instaladas nas asas do caça poderia causar facilmente qualquer destruição. Veio uma amargura. Numa hipótese boa, por se dar conta de que por dentro seus órgãos eram dissimétricos, pouco elaborados. Teve a impressão de que sabia muito da morte.


Chorou a tarde inteira. Só parou quando ouviu barulhos vindos da sala onde o menino estava. Ali naquele momento se assemelhavam.