segunda-feira, 27 de março de 2017
vários tantos
Uns diziam: seu tio era gay. Outros diziam: seu tio era um ótimo orador. Seu tio era advogado. Seu tio era cantor. Seu tio comunista. Outros falavam: o irmão de sua mãe como se isto garantisse uma distância segura de mim e o perigoso ele. Quando uma pessoa some ela pode virar várias pessoas? Existem tantos tios quanto caminhos para a insônia. Cada dia o teatro com meus tios, ganha um nov, já passam de 300 as cadeiras. Se há tantos tios eu sou muitos sobrinhos? Pode-se herdar coisas de alguém morto antes de você vivo? Meu tio é sempre diversas coisas mas nunca dizem as pessoas que ele não é alguma coisa. Seu tio era terrorista. Seu tio era péssimo em lidar com plantas. Seu tio era voluntário em um abrigo de cães. Seu tio tinha uma admiração incompreensível pela Hungria. Seu tio colecionava porcelanas de manteigueira. Seu tio morreu pelo MR-8. Seu tio era ótimo em gamão. Seu tio. O outro filho de seu avô e de sua avó era péssimo pescador. Às vezes no natal alguém bebe um tanto, ou não, apenas esquece-se pelo orgânico de nossa tipificação, alguém lembra, alguém fala dele no presente, fulano é tão bom cozinheiro, fulano é especialista em direito, ele saberia. Então outra pessoa no outro lado da sala, enrubesce. Como se agora meu tio estivesse ali, de pé, junto com ele a fuga, os tiros, as perseguições, em torno de mim e de meus primos, e nós no meio de tudo isso, um perigo que nunca foi embora porque nós existimos.
domingo, 26 de março de 2017
companheiros
Ao leste há um país muito parecido com o nosso. Nossa floresta e nosso deserto vazam um encima do outro como um belo bolo de mármore. As fronteiras são dois braços se roçando, os pelos arrepiados dão destinos ao vento. Contudo, não falamos a mesma língua. Não comemos as mesmas coisas. Não falamos um dos outros nas pousadas ou telejornais. Não trocamos bilhetinhos de amor, telefonemas, receitas, feitiços, frutas curandeiras. Não trocamos em gritos, como alguns vizinhos irritados, ou olhares, como os que definem a existência de uma grade. Nunca, nem se quer, nos juntamos na guerra. Na bebida exagerada ou naquele desejo humano e meteórico de contar segredos aos desconhecidos. Mas eu minto. Houve uma vez. Uma e única vez. Nossos governos caíram em derrocadas, os dois juntos, exatamente ao mesmo tempo. Os que assumiram no lugar não queriam um país. Mas sim um estrado. Uma dispensa de desmanches. Os que assumiram se juntaram, e no trabalho conjunto mataram e sumiram, e mataram e sumiram, com as pessoas tanto do lado de cá como do lado de lá. Hoje tudo voltou como era. Ainda sim imaginamos. Em algum lugar, enterrados embaixo da terra, talvez no mesmo buraco. No mesmo recife de coral. As pessoas do nosso país, e as do outro. Estão juntas.
30 000 de novo
Há um país. Não falam muito dele. E quando falam falam errado. Mas eu boto o ouvido o ouvido na borda do continente, nas américas os telefones são assim, nosso povo, nossa telepatia pela borda, e recebo notícias de lá. Neste país quando alguém some, desaparece, quando alguém falta a aula por dias e a diretora chama os pais, quando alguém some da casa, do emprego, do empréstimo do banco, da internet, do locatário, da reunião de família. Da intervenção dos amigos. Quando alguém era mas não com certeza. Escapuliu. Não aparece. Quando alguém desaparece neste país dizem que quem sumiu foram 30.000 pessoas. Mesmo que este alguém seja uma pessoa só. 30 000 pessoas desapareceram hoje na província de Coalapatzu. 30 0000 no centro comercial San José de la Cuerva. No rio Aldomascor. Esta poderia ser uma lei, mas não é. É só algo que as pessoas se acostumaram em fazer pois é preciso estar atento. Nunca ninguém conseguiu definir ou reconhecer o que é um fim. Nunca se sabe se a história está começando ou se na verdade nunca havia acabado. É preciso estar atento.
quinta-feira, 23 de março de 2017
lavagem
em toda entrevista ela dizia a mesma coisa. todo dia ele acordava e lavava a calçada hoje a calçada está suja com o sangue dele. os repórteres tentavam mudar de assunto. todo dia ele acordava - tinha filhos? - e lavava a calçada - que horas eram? - hoje a calçada - você viu algo? está suja com o sangue - usava drogas? - dele. o sujo era um vermelho tão vivo. os cameramans pisando nesse vivo. ninguém a dava uma resposta. como se limpa isto quanto tempo a chuva leva para escorrer este cimento porque isto não aparece na previsão do tempo. por que no programa matinal da emissora ninguém ensina como remover a marca de um corpo na rua, especialmente, depois da ambulância não chegar a tanto tempo, e tudo voltar a ser resíduos? como contar aquilo a uma criança? ninguém fez a pergunta necessária. a que ela precisava responder. este é meu terceiro morto e o ano não termina. a morte custa dinheiro, limpar custa, arrumar. eu quero que vocês se lixem ela pensa, enquanto joga pela janela aberta um saco de carne decomposta dentro da van da reportagem quando eles partem de novo.
quarta-feira, 22 de março de 2017
ninguém sabe
Ninguém sabe direito o que é um desaparecido. Então um
desaparecido pode porque não ser qualquer coisa. O olho do sagui, a coruja pela
manhã traindo seu próprio hábito. A sombra deformada de uma figueira no
Ibirapuera. O cão que dorme com seu dono embaixo da marquise, a pomba que
atropela alunos dentro da universidade. Foi o que me disseram. Quando era
criança. Não disseram exatamente. Ninguém teve coragem de dizer as palavras
Edgar vivo. Edgar morto. Mas eu deduzi. Qualquer coisa. Os espíritos da
floresta da cidade das duas que destruímos. Até hoje quando vejo um animal em
meio as ruas, aparecendo nos sentidos, um quero-quero que não devia, uma arara
fugida do cativeiro clandestino, eu digo tio? tio!, eu digo: tio. Sei não fazer
sentido mas é um bom jeito de tentar familiaridade com todas as coisas.
há muito tempo atrás logo ali
Quando eu contei a minha avó que faria faculdade de comunicação ela me disse que não fazia bem a saúde. Eu disse: mas vó. Eu tomo café sem açúcar. Mas vó troco facilmente as drogas por uma boa amizade chave mestra. Era não nada disso que ela queria dizer. Há muito tempo atrás logo ali, disse e apontou para um velho calendário parado em 1967, toda palavra era perigosa. Houve um episódio, ela disse, pense, na rua da praia com a caldas junior, no tempo em que havia um jornal da manhã e um da tarde, dois dias a cada um, um presidente foge, há boatos de cidades inteiras sitiadas, os militares querem ocupar as ruas e serem estátuas ao mesmo tempo. Depois do baque, do pânico, do medo, alguns jornalistas simplesmente jogaram suas máquinas de escrever do terceiro andar da redação, algumas caindo e machucando os pedestres. Houve outros, ainda não acostumados, os jornalistas ainda jornalistas, engoliram as máquinas para dentro das próprias barrigas, pesadas, forçosas de entrar, caras as olivettes, tiravam as notícias pela boca como quem devolve a madrugada em uma latrina de um bar. Não se engane é muito perigoso, me disse minha avó. Eu imaginei os dedos indo fundos ali perto dos próprios umbigos, catando-se as letras, datilografando pelo tato, ou será que faziam eles, uns nos outros por ser mais fácil? Tranquilizei minha avó hoje em dia nós não usamos mais máquinas, mas estes pequenos aparelhos vovó, veja, menor do que algumas bocas, entrem fácil. E fingi não alcançar uma metáfora ruim e descarada, e entendi o mundo dos péssimos jornalistas.
a festa
Este foi um costume surgido em um distrito de Santa Fé, na argentina. Uma vez por ano era organizada uma grande festa no clube central da cidade. Discos de Piazzola e Roberto Carlos, Violeta Parra e Marie Anderson. Muita polenta cozida, milho boliviano, chimarrão, cachaça e cidra de mel para agradar os convidados de todos os lados do continente sul-americano. O povoado da cidade não entrava, ficava do lado de fora só olhando a casa vazia. Ou não. Vazia ou talvez. Vazia mas por a vida ser nossa não. Todos na lista de convidados estavam mortos. Uns, sabiam-se mais ou menos: tinha sido jogados de aviões militares lá por 71, outros metralhados nas barrigas ao levar os filhos para a escola , alguns nem sabiam-se ao certo em qual país se foram – boatos de que não havia este tipo de fronteira naquela época – chilenos, brasileiros, argentinos, paraguaios, que entre suas andanças desapareceram. Simples assim. Era uma lista gorda, com mais de 300 nomes. Uma tentativa desesperada mas com a pretensão de um alcaçuz, de colocar todos eles juntos no mesmo lugar. Todos eles próximos. Os sul-americanos. Todos eles vivos ou não mas presentes. Todos eles comemorando, felizes, em uma festa, como se não tivessem perdido a batalha, porque em verdade nada foi em vão, o Hernandéz, a Cássia, o Léon, O Timeiro, a Sylvia e mais tantos outros. Do lado de fora Miriam diz a mãe acho que posso vê-los, sim posso sim, riem muito, dançam como se tivessem sidos surdos por décadas, se abraçam como fitas dupla-face, em simultâneo todos. Sua mãe se emociona e segura a filha no colo. Esta é coisa sobre os desaparecidos, disse alguém a um telejornal, em um dia que passei pela tv. Os desparecidos estão em todos os lugares. Enquanto não descansam precisam saber que nós também não. Mas que há música ainda, e comida tanta. Alguns moradores ficam madrugada adentro enfeitando os olhos com as janelas do clube. Imaginam ou veem o que ocorre, ou que querem. Choram juntos e separados. Noutro dia vão limpar o salão. A comida, misteriosamente, sempre em parte comida. O resto levam para as creches. Nunca é tempo do desperdício, ainda mais agora. Tudo é tempo. E precisamos de cada pedaço um tudo.
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