terça-feira, 4 de abril de 2017
a amiga de uma amiga minha era vinte e quatro horas
Amiga de uma amiga minha foi colega de faculdade de uma menina que fazia isso. Ao vivo. Vinte e quatro horinhas. Ela tinha de fazer streaming de absolutamente tudo, absolutamente parava nunquinha, patavina nenhuma, era pela celular a transmissão. Na hora de dormir, pegar o ônibus, tomar banho, ir ao cinema. Não precisava o tempo todo aparecer diante a câmera, mas bastava estar ligada, no mesmo local onde ela estava. Seu cliente, ou seus clientes – não sabemos -, tinham o desejo do alcance interrupto, da espiada contínua, mesmo que, a câmera não mostrasse nada mas tivesse lá – ligada. Talvez assim melhor ainda. A amiga da minha amiga fazia a disciplina de teorias culturalistas com ela. Sempre chegava atrasada, com o celular mirando aos alunos, solenes ouvintes. Não intimidava-se por ser vista como interpelação. Sentava-se na primeira fileira, colocava o celular apoiado na parede ou em um livro, e falava muito em Margareth Mead sempre que podia, teve uma fez, fato curioso, citou até mesmo um trecho de suas cartas quando alguém falara que o bebedouro do primeiro andar tinha parado de funcionar, algo sem nenhuma ligação aparente. Era muito participativa e volta e outra arranjava briga com um menino robusto da outra ala da sala, o tipo de pessoa que interrompia os presentes falando desculpa interromper para em seguida interromper completamente, e estes presentes eram quase sempre mulheres. Quando ela chegava, absolutamente segura de si, algumas, ou talvez todas, ou só minha amiga por tabela, sentiam uma sensação estranha de não saber onde se está, da sala estar cheia, irrespirável talvez, ou vazia. A câmera ligada dizia que alguém mais havia ali, quem, impossível de saber, onde, complicado demais. Tudo que era dito poderia nunca mais ser desdito, gravado, editado, armazenado na biblioteca de um desconhecido, por isso parecia que todo mundo lá era outra coisa, uma pessoa que nem sabiam-se. O celular era uma criatura muito pequena que funcionava tal como o Aleph, como um pequeno buraco negro, uma falha geológica, uma descostura por onde vazavam as vozes e as realidades mantenedoras de sua sanidade. O estranho aparelho era o binóculo do voeyer e o voeyer poderia ser todos, todos aqueles patifes que uma mulher já teve em sua vida de raspão ou beliscão. Mesmo assim ninguém nunca reclamou. A professora era um tipo de gente muito da pavirada, estava ciente dos novos tempos, das novas tecnologias, e sabia: a faculdade era cara e o dinheiro no mundo escasso. Os outros alunos deviam se sentir de alguma forma importantes pois era visível como mudavam com o celular ligado vasculhando toda a sala. Um dia a menina não apareceu, a aula terminou mais cedo e as discussões foram rasas, e logo depois, no fim do semestre, a amiga da minha amiga deu de cara com ela no café da faculdade. Com a câmera transmitindo um pão de queijo meio comido, perguntou quem era o destinatário do vídeo e essa menina disse que não sabia, mas que pagava muito bem, tanto que podia passar os dias inteiros estudando e lendo Margaret Mead, inclusive as cartas, sim inclusive elas, e as destinadas para Ruth Benedict? Sim inclusive elas, você já parou para pensar que poderia ser Mead que está este tempo todo observando? A menina ficou séria e não voltou a terminar o pão de queijo creio eu, era só o piada, mas isso a fez pensar em outras coisas. Sempre imaginou que seria um homem desses, um homem tarado, um fetiche e só. Nada além disso.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário