segunda-feira, 5 de maio de 2014

romances históricos

hoje suas mãos não podem ficar nuas. você usa luvas. dirige todo dia para um lugar chamado Almeida e Guto Entulhos. você usa um chapéu de plástico amarelo que sempre achou idiota os políticos usarem na tv não porque eram frágeis para sugerir proteção mas sim por não terem nada de valioso para protegerem. essa é você. macacão tão anos oitenta. empilhadeiras. um crachá com o sobrenome de um marido que te deixou por uma fita pornô como dois braços e pernas. você. difícil lembrar daquele tempo. houve um tempo. você sussurra só para o ouvido esquerdo porque o direito não é confiável. ainda. algumas coisas nunca mudam como a desconfiança dos ouvidos. outras sim. essa é você. é inverno e está no sul. note suas mãos. luvas de lã com lhamas no diminutivo. não. não há luvas de lã. você não consegue escrever com elas. escreve. é jovem. tem cabelos cumpridos porque sabe que o tempo se encarregará de cortá-los. como é bonito o diâmetro de uma gastrite nascendo. toma café. muito. você está na aula de escrita criativa. esse tempo em que mentia a idade para entrar na aula de escrita criativa. "na verdade professor eu tenho 19". depois do susto todos voltam aos romances históricos. menos você que se apaixona. quando isso acontece não consegue acordar cedo. olhar para o professor e seus sapatos de van gogh e dizer "eu amo romances históricos". (mais tarde descobrirá que aquilo é heidegger e ficará brava). porque quando está apaixonada e se é 19 anos não se pode dormir de conchinha com a narrativa linear. tudo acaba e manda trazer um par de meias que não fale português. ele vem do uruguai. pronto. agora pode voltar às aulas. você diz: professor voltei. agora já sou mais velha. 10 anos mais. porque me apaixonei e tive de importar meias do uruguai para não pisar no mesmo lugar de novo. já posso escrever romances históricos. ele te aceita. essa é você. aula de escrita criativa. o professor ainda ama van gogh. você viu o filme dos anos 50 mas parou antes dele virar um pintor. para você ele é um mineiro cristão. nessa época um amigo seu volta da holanda. diz: "vi van gogh mas me identifiquei com theo". não lembra do que ele te disse. só dos encantos de visitar a heineken. gosta de cerveja. ele te dá um caderno e te escreve algo bonito. então pensa: "serei velha porque terei esse caderno e um dia o papel ficará amarelo". um dia bebe muita heineken e te roubam. na delegacia "levaram as pérolas falsas da vó, sagarana do joão e minha velhice."essa é você. está na aula de escrita criativa. 10 anos. contudo não escreve. "não tenho velhice". "escrever é colocar o colchão na rua e tentar dormir". um dia você acorda em esparta e chega na aula. olha para cada um dos romancistas históricos. lê algo. depois fala: é que é um poema. você fala algo sobre braços encapados. ninguém entende. e pior. ninguém quer entender porque há silêncio. o silêncio coletivo é como subornar o tempo. perto da escola de escrita tem um parque. se esconde lá embaixo de uma árvore. no futuro uma daquelas árvores matou alguém no domingo. você meio que anteviu isso. no seu desejo todas aquelas árvores cairiam no mesmo tempo. e nem sinal. bolufas. de você. do seu texto. agora que abandonou a aula com aquele professor não sabe como medir se o tempo realmente passou. não sabe mais nada. gostaria de ficar no colo de uma prostituta e chorar. mas isso seria estranho. quando não estava de ressaca e o mundo parecia estar caindo para a direita alguém te disse: "se ficar o bicho pega se correr o bicho". não ouviu o final da frase então ficou. essa é você. de capacete amarelo. macacão jeans. diens? não. jeans. o dia vai acabar porque o expediente acabou. está voltando para casa. todos tem uma casa inclusive as tuas luvas também têm. é lá que vai acordar. esse é o jeito de saber que não morreu. de noite às vezes tem esse sonho. está com a empilhadeira. o lugar: uma biblioteca. você junta todo esse entulho mas não pode ver o que é. há muito muito pó. finalmente você chega perto e percebe. são romances históricos. romances gaúchos. históricos. o sonho acaba. e o que era para ser coração é uma gota em queda pela garganta. bem que poderia escrever isso. mas ao invés prefere cuidar melhor da dieta. beterraba, rabanete. essas coisas.

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