terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

estar errada três vezes seguidas

CAIXA POSTAL

quando alguém me pegunta onde ele mora eu começo a falar do tempo. como está quente. como está frio. como chove muito. como não chove nada. embora seja muito entediante falar do tempo, devido seus poucas variantes, costumo também tentar desviar o assunto dando um espirro. provavelmente esse é o motivo das pessoas sempre me darem tantos lenços de papel como presente, ou não me chamarem para fazer coisas, sair nas sextas-feiras ou comer uma torta de maracujá. 

de qualquer forma é melhor acharem que sou muito doente do que ter que dizer onde é que ele mora.

pai às vezes eu preferia que você não existisse ou estivesse morto do que não saber onde você mora. porque afinal não me conta? recebo esses seus telefonemas, e-mails e a única coisa que eu entendo é de como era bom viver no século XIX. de como era bom mandar cartas. ficar horas olhando aquele endereço no papel. e talvez sorrindo.

ERAM JOVENS

fazem 30 anos que meu marido me trai. eu sei disso porque é eu que o levo. meu marido não sabe dirigir. em outras famílias é o contrário mas na nossa é assim. eu fico com as chaves da velha chevrolet. todas as terças feiras o deixo em frente a mesma porta. às vezes eu o espero lá mesmo, leio uma revista. reorganizo meus recortes de jornal. tem dias que ele aparece na janela e diz

volte amanhã cedo

normalmente respondo dizendo para ele se cuidar, mas a minha resposta não entra na janela fechada.

terça-feira é meu dia favorito. dirijo a noite sozinha até cansar. se tenho vontade de olhar para alguém paro na estrada num bar que não costumo recordar o nome e olho para um uísque. depois vou embora e esqueço tudo.

meu marido nem desconfia. não há nada pior para ele do que não lembrar.

NA VERDADE NÃO É UM SOFÁ

minha mãe tinha 86 anos quando morreu. para meu irmão eu disse: pode ficar com tudo, só quero o sofá. ele tinha sete lugares e já teve mais de dez cores de estofamentos ao longo dos anos. foram naquelas almofadas que eu a contei

sabe o que, é eu transei
depois esclareci dizendo
na verdade foram só algumas mãos. prá lá, pra cá.

estou grávida
depois desmenti dizendo
na verdade foi apenas umazinha e com proteção.

nunca mais acharei que estou grávida
depois explique melhor dizendo
estou completamente apaixonada por Lúcia Consuelo.

eu não saberia dizer o que seria da nossa vida sem aquele sofá. era lá e apenas lá onde nós nos dávamos bem. falávamos de tudo. se eu precisava falar algo urgentemente íamos para o sofá. já tínhamos tentado em outros lugares mas a experiência do do hall das terríveis. foi ali também que estabelecemos um tipo estranho de compensação. e assim eu ia a conhecendo melhor, como assim

sabe o que, é eu transei
na verdade conheci seu pai numa suruba e foi assim que tive certeza.

estou grávida
seu tio avô Geraldo na verdade era uma mulher.

nunca mais acharei que estou grávida
foi assim que eu comecei a achar que nunca iria conhecer você.

tenho pena de meu irmão por ter passado tanto tempo fora de casa. ele achava que ela era apenas uma senhora quando na verdade nossa mão parou de usar roupa de baixo quando entrou na faculdade. pessoas assim nunca viram senhoras. o sofá está aqui em casa, no centro da sala. imagino coisas. imagino que ao compartilhar um segredo com o ar ela apareça no seu estofado e diga coisas do tipo na verdade maconha nunca me fez mal. mas mesmo assim é complicado.

uma pessoa quando morre deixa um sofá. e você não sabe o que fazer com ele. é assim que as coisas são. com todo mundo é assim. mas eu, eu penso que bom que restou um sofá pelo menos. então olho em volta e meu apartamento tem 30m². as pessoas entram em minha sala, o olham e desejam sentar e é tão difícil. porque eu não sei o que poderia acontecer. e é claro que isso é um problema. não é qualquer pessoa que pode sentar no meu sofá. é preciso tempo. intimidade. eu tenho receio. receio de trazer alguém aqui. receio de quem ninguém sente tão bem no sofá como minha mãe.

existem algumas coisas que você não sabe sobre mim.

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