terça-feira, 7 de novembro de 2017
os objetos
como acreditar em uma xícara? o pão vai na boca, antes, vai no prato. o café vai no coador depois vai na cabeça. tomar o café da tarde significa prestar continência ao café da manhã, significa marcar de chegar atrasado ao início da noite. uma faca corta, mas amacia, a manteiga. a manteiga já foi gordura de porco, o porco morria gritando, hoje, uma pistola de ar é mais rápida do que o piscar de olhos. os olhos do porco nas bolhas de café. o café da manhã no café da tarde como um trilho, nos abrindo. como confiar em uma xícara? diz minha tia. tudo pode desaparecer. uma xícara, de porcelana ou vidro, pode sumir ao ser erguida entre o dedo e os lábios. o café nunca. o café manha diz minha tia. seus dentes são amarelos. está estampado na sua cara e não há vergonha nisso. os objetos, como confiá-los. eles se quebram. desaparecem mas não se vão. assim como os ossos. embaixo do tapete, cravado na sola do pé. de surpresa anos depois entre as plantas do jardim. o café lava o cálcio, o potássio, é diurético. minha tia mexe a xícara muito devagar, coloca mais fatias de pão do que come em cima da mesa. este come com a mão, embalsamando uma ligeira tranquilidade.
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
campeã
nosso país não possui desaparecidos disse um homem de nosso país. uma parte das pessoas discordou. um concurso foi feito na qual a pessoal com mais desaparecidos ganharia. uma moça ao meu lado tinha três desaparecidos. o avô, o irmão mais novo e um vizinho. e, se carlinhos não voltar até semana que vem, digo que são quatro. ganhou uma senhora, ao todo tinha, 31 desaparecidos. ela era muito, muito velha e onde um dia respirou as pessoas aqui não ousavam existência. 26 desaparecidos eram do século passado, sendo 11 apenas do início dele. o resto eram sobrinhos, netos e bisnetos. o homem alegou a mulher ser muito velha, indigna de testemunho. a senhora foi condecorada com uma grande cesta de frutas, embora não pudesse usufruí-la. sobravam problemas na sua dentadura.
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
estranha sensação
um dia a encontrei. semiárida, granular. posando para as coisas, tocando cada situação com atenção que parecia acobertar uma fuga. se oferecendo de luva para o mundo. dizendo pouco ou quase nada, palavras rasantes e rasteiras.quem sabem, talvez, pode ser. como se estivesse jogada entre os carros, as buzinas tateando altos amperes, o fluxo interrompido com seus cotovelos sujos pelo asfalto. a encontrei como se voltasse de uma viagem obrigada, despachada, saísse de um continente intruso, de um país desconhecido, desaprendesse a falar o próprio idioma, o tempo de comer, de sinalizar um movimento. se tivesse a esquecido ou fosse despejada após um sequestro, não fizesse nota nem do ano, da confusão política recente de nossa cidade, do cigarro agora proibido no bares, dos jogos cancelados pelo governo. a encontrei e a retirei das escadas, da rodoviária, dos lábios de duas pedras, do meio do mato, em cima de uma marquise, a conheci mesmo a puxando pelo braço como quem finge a conhecer de verdade. depois de dois homens insistirem para ela os acompanhar com uma péssima intenção impressa como se escrita no ar, depois de não oferecer resistência, depois de esgotada qualquer espasmo de resistência, agarrei-me no seu braço e disse não, você não vai, a xinguei horrores, por seu desgarro, sua incoerência, o perigo besuntado na expressão em falta, em verdade não a xinguei. a recolhi pela mão, calmamente, como uma corda ao mar a guinchei daquilo, a pus sentada em um café, a dei comida, perguntei seu nome, sua idade, o contato de alguém próximo. não disse. apenas olhava para mim, como uma sonda. uma dessas espaciais. recordei de cassini muda, mas altamente atenta, recolhendo seus sinais em torno de saturno antes de seu voo mortal adentro do planeta. a palma de minha mão atritou como um choque.
a levei para casa.
como algo que encontramos no meio da rua. como um troço. restada. uma coisa. farelo. deixada e não mais pertencente a algo ou alguém.
preparei um banho, fiz comida, ajudei a colocar roupas limpas e a ofereci minha cama.
no outro dia conversamos sobre plantas. a planta mais antiga do mundo se chama Silene. Microlinia era uma planta extinta até um belo dia não ser mais. tomamos café, ela riu de um comercial bobo na televisão. fui trabalhar, voltei. não disse seu nome. apenas abriu a geladeira, fritou um ovo. comeu só o centro, o amarelinho, e dormiu. eu via alguém com medo. alguém desaprendido. com esforço faria a memória das coisas retornarem. dizia não ter força, dizia não ser boa, dizia não ter certeza, pedia desculpas sem motivo. permaneceu na cama por dias, como uma conha, ficou por duas ou três semanas lá em casa e depois foi embora de vez.
um dia me procurou a noite. deitou em cima de mim, agarrou-se a minha barriga. cheirava os meus braços rastreando algo perdido ou irreconhecível. em seguida soltou um berro como uma criatura portadora do último respiro, ruminante como uma orca, contorcido como um peixe, debateu-se no meu corpo pequeno e chorou. chorava pelos cabelos, pelas orelhas, chorava com os calcanhares despencando nem lágrima, num cheiro salgado, de guardado, um cheiro que dá até sede. acordei com ela dormida no meu ombro, como um cobertor recolhido em si mesma e ao tomar banho notei meu corpo estar roxo. repleto de pequenos e grandes hematomas da noite passada, de sua atroz transformação em um mamífero marítimo. fui para a galeria, onde era meu trabalho, com o corpo doendo, uma curva do ônibus quase me levou junto, movia as pernas mas esquecia seus recentes detalhes, e a força delas era interrompida sem me avisar e quase caía em passos que antes tendiam a ser tão simples.
parecia estar melhor. lembro de chegar e a casa estar arrumada, aquela casa com que tinha muito pouco e quase nada de ligação, lembro de seus cabelos parecerem soltos de verdade, eles iam e vinham, ela estava se mexendo, subindo e descendo do quarto a sala, fazendo comida, falando sem pedir permissão ou com medo de ser inútil em alguma espontânea naturalidade. me disse seu nome, falou o que fazia, pelo menos o pouco que se lembrava, tudo parecia sem importância e ela achava ser este o motivo do esquecimento. recordo de pensar como ser possível esta pessoa em minha frente construir casas, essa pessoa tão desesperada por plantas, tão frágil, pelo menos agora como uma, esta menina que me conta estudar arquitetura, ter vindo do noroeste, ser criada entre os bois, gostar mais de goiaba do que chocolate. ou não. não era importante acreditar tanto no que dizia. o importante era ela insistir em dizer. mas a medida que conversávamos havia também uma estranha sensação de minha parte de sentir uma pequena angústia a medida que novas informações de sua vida vinham a mim, como se desqualifica-se a realidade, nossa relação naquela casa, como se algo fosse sendo perdido. eu gostava dela existir, dela não ter ido embora com aqueles homens, a tragédia possível da qual nunca me perdoaria. também gostava de não sabê-la.
o trabalho me exigia muito tempo fora de casa. estava produzindo uma mostra de uma artista colombiana, uma amiga minha de muitos anos atrás, de outra vida, de outra promessa, só vinha a casa para dormir e comer, o que fazia o apartamento ser toda dela por estes momentos. estava melhor, é claro, assumindo seu direito de sorrir só por desaforo, de ter vontade, e apesar de sentir que nossa inexistente amizade estava sendo desfeita, eu estava feliz.
via esta melhora de maneira límpida até o dia em que de novo ela me achou no sofá da sala, de novo me deu um coice como um animal, mas agora de forma mais violenta, trancando meu quadril nas almofadas, pesando o corpo contra minha possibilidade de respirar levemente, com muita muita força como um bicho na secura de uma mudança de estação onde tudo se acaba e o que sobra não cabe no estômago. havia pouca luz vindo da rua, com o pouco dela, enxerguei suas coxas presas no meu corpo como uma garra, seu rosto desfigurado com os sons ilegíveis berrados pela boca, suas coxas firmes, vermelhas, duras, em silêncio tentei acalmá-la, mas ela não correspondia. com uma calma vinda do susto, só esperei tudo passar, enquanto ela mordia-me a nuca, o ante-braço, embaixo dos seios, enterrando os dentes de escavadeira, de broca, de perícia, especiando-me em pedaços, me dividindo mas me completando na sua boca. lentamente foi se assossegando, dormindo sobre meus ombros e ao levantar de manhã não é possível se desfazer de nenhum detalhe do momento que meu sangue seco, que nos unia como cola, me exigia certo molejo para desgrudar de seu rosto sem acordá-la.
a deixei lá, emboscada em meu sofá, meu sangue, minhas almofadas, e os motivos inacessíveis que eram os dela. a água escorria nos ferimentos e a dor que antes pude usar para destroçar meu corpo de qualquer sensação mais emotiva agora era apenas dor. dor carnívora, monstruosa por retalhar, rasgar a pele ferida, por poder ser sentida no corpo todo simultaneamente. coloquei bicarbonato de sódio para limpar as feridas, arranjei esparadrapos, meio sem pensar fiz tudo muito rápido, como se fosse uma rotina diária, como se fosse como trocar o absorvente enxurrado de sangue e pitadas de endométrio, uma norma automática como escovar os dentes. peguei o carro, comprei dois cafés, fui ao aeroporto, esperei Raji minha artista e amiga, sair do portão de desembarque, esqueci completamente de meu estado quando confundi seu vestido colorido e borbulhante com seu sorriso e levada por estes dois tecidos a abracei forte, em um abraço no qual coube eu ela e aquela mulher que ainda dormia em minha casa, me dando uma presença inescapável, disparando uma dor mais forte ainda a partir dos ferimentos. eram poças, tiros, buracos expostos em frente de Raji e me senti vulnerável como a pouco não sentia em frente a alguém. enquanto ela falava sem parar sobre sua recente ida ao méxico, sua ancestralidade indiana melhor entendida, sua recente separação, suas novas ideias para a montagem do espaço expositivo da galeria, notei algo úmido, como a carícia de um molusco, perto do meu umbigo, uma língua solta a salivar. olhei para baixo da direção do carro, minhas pernas, olhei para a barriga, lá estava uma mancha vermelha começando a surgir em minha blusa. a mantive ocupada com perguntas e mais perguntas para que não me desperdiçasse compenetração em minha situação, e depois, na galeria, coloquei um velho blusão por cima de tudo e suei, suei como uma porca o dia todo.
cheguei no corredor do meu prédio, sentei no chão ao lado da porta. fiquei bons minutos ali tentando sistematizar algumas palavras soltas, me colocar em um local que faça sentido. o suor e sangue juntos tem um cheiro engraçado porque afasta viciando. tudo passava pela minha cabeça como um túnel, apenas informações muito rápidas , não conseguia tocar de verdade e tocar de verdade seria se importar, dar a mínima, levar a sério. não era possível dar a devida preocupação, devida euforia para o que ocorria, o que ocorria agora era meu corpo caduco, caduco vermelhando, dolorido, com marcas de dente de uma menina. um campo de mina terrestre. decidi que sentiria as palavras mais corretas de serem ditas na hora de entrar em casa e as coisas seriam tratadas de maneira natural.
cheguei em casa e lá estava ela. me abraçou, me tocou com as palmas completas, escorregando da testa as bochechas seus dedos. me agradeceu. sentamos na mesa e me contou como estava melhor, como se sentia outra pessoa. era tão absurdo imaginar agora mas houve dias que não viveu em memória ou em plena capacidade, apenas consentiu, empinada pelo vento. não sabia direito qual caminho havia a trazido para ter chego aqui mas disse ser aqui onde voltou a si. falava e falava sem pausa como minha amiga colombiana, e eu ouvia. abriu a geladeira pegou um chá gelado de erca cidreira com laranja, entortou as sobrancelhas e me contou o que descobriu.
então me contou uma história triste. triste triste. história que eu não lembro pois o que eu lembro é apenas o que pensei na hora, o que imaginei. pensei ter se lembrado de quando havia um homem, eles estavam juntos, ele a engravidou. que o homem parecia feliz, e ela estava mais feliz por ter um filho do que qualquer coisa, então o bebe se foi e ela descobriu que o homem dava há dias antiabortivo, escondido na em cada refeição que faziam juntos. ela teve de ir para o hospital, depois voltou a faculdade mas não tinha ânimo para nada. ou poderia ser outra coisa. poderia ter sido expulsa da casa dos pais por ter pego barriga, ter levado uma surra e perdido o bebê, ou sem bebê algum, expulsa de casa por não ser o que os pais esperavam que ela fosse. ou apenas foi atacada por alguém que achava conhecer, depois de uma festa, no banheiro acadêmico, no carro de um amigo, deitada na sua cama recebendo as primeiras pistas que o sol estava nascendo. poderia ser isso, nada disso, ou tudo. o que importa era a raiva que abaixava as têmporas, esquadriava o peito, um engano, uma decepção, vinda de uma confiança traída que cegou todas as facas, limou as torções dos parafusos, fez até mesmo as coisas serem menos confiáveis e aos poucos foi a paralisando.
ela sentiu vergonha do que me confidenciara, vergonha de ser roubada assim, desrespeitada, enganada, de estar enfraquecida. vergonha de chorar estando com a consciência no máximo sinal. de não bater, de não responder, de não socar, mesmo estando com os músculos entorpecidos na força máxima. pela minha experiência alguém que estava assim como ela, vivendo uma sétima encarnação de um tipo de pedra, desandada, retirante de si, pausada, poderia sentir ou pensar saber qualquer coisa. este é um estágio onde dos que chegam na gastura mais desgastante, a ponto de tudo retroceder, e ser difícil distinguir acontecimentos falsos ou reais porque tudo foi levado, contaminado, rompido, até o passado primeiro. as coisas aconteceram e não aconteceram com ela, era isto que eu achava, mas sua presença ali era o que fazia as coisas serem certas e inegáveis.
devagar muito devagar me curvei sobre seus ombros, coloquei o queixo sobre seus cabelos. me permiti colocar os braços nos seus braços pois é isso que me ensinaram ser o normal a fazer para ajudar os outros seres humanos, milimetricamente, como uma receita médica, à risca a pressionei medindo o nível deste encontro. eu repetia tudo bem bem bem baixinho, bem baixinho mesmo, como uma ciranda, de novo e de novo, até que eu mesma caí em minha armadilha e me perdi ali, saí de mim e quando retornei ela estava de pé, eu ainda tudo bem tudo bem, como pega na mentira mas não era mentira, era apenas um lugar que não sabia onde para nós duas entrarmos apenas. me olhou por um tempo e buscou com as mãos meu rosto, no que automaticamente pensei ser a lembrança daquele ataque da noite anterior, mas ao invés disso, delicadamente juntou meu olhar e me beijou.
me beijou na boca. se deteve com cautela pelos meridianos do rosto como um novo mapeamento. um recomeço na promessa da lucidez
ela tirava minha blusa, enquanto eu inerte a via beijar-me de olhos fechados, aos poucos, oferecendo pequenos extratos de doçura, muito distante do cuidado das outras noites. abriu os olhos, abriu a blusa, abriu, então se deparou com aquela cena - o meu peito nu. soltou um grito, ficou preocupada. não lembrava de nada, de nada dos nossos pequenos encontros. eu não tinha coragem de dizê-la como antes não tinha tido. parecia que simplesmente não merecia. perguntou se doía e eu assenti. trouxe alguns remédios, desfez os curativos e os melhorou. aquela estranha sensação de seus dedos rolando sobre as marcas de seus próprios dentes, com horror. aos poucos senti algo nela despertando, algum conhecimento entre meu corpo e ela sendo indiretamente trocado, ela ia aceitando o que havia tinha mesmo ocorrido sem eu ao menos dizer nada. não me importo, eu disse, é verdade, não me importo, não me interessa, está tudo bem. é só pele, superfície. esta nem era toda a verdade. talvez até gostasse, talvez até precisasse, talvez até fosse essa minha forma de me caber, de me roçar no mundo, de perseguir meus fugitivos com gana. tive sonhos estranhos, mas nada como isso, não era você, gaguejou incrédula mais por não lembrar, agora que estava tão clara das coisas, do que pelo que fez.
mesmo assim fomos para a cama, e eu acossada com meus pedaços, me recolhi. nos deitamos juntas como antigas conhecidas, como um segredo dividido em duas partes que precisa de ambas para ser legível, antigas amigas, amantes, qualquer coisa. extremamente conscientes o que não fazia nada ser mais fácil mas também não menos natural. tirou a roupa, depois me ajudou a me despir, e ainda com os olhos inchados, vagando como uma rede, borrão vermelho no vento conjunto desvairado, me beijou. por mais sutil que fosse o movimento dos seus braços, suas pernas, seu quadril, mais brandos que fosse sua língua, sua boca, sua mão, seus seios, o que de todo não eram, mesmo assim meu corpo doía. exclamava, inchado, perfurado, habitado, qualquer titubeio, maior ou menor, era o mesmo, o pouco era muito. enquanto se movia levava junto minhas partes, meus pedaços, meus poços, meus buracos, por instantes, nossos. tudo antes de ser algo era antes dor, difundindo pelo corpo, meu corpo sem centro, meu corpo que era um duplo, dublê. minha armadura ferida, ensaiando o início de um levante, no que era ferozmente dolorido e além de tudo extremamente prazeroso.
a levei para casa.
como algo que encontramos no meio da rua. como um troço. restada. uma coisa. farelo. deixada e não mais pertencente a algo ou alguém.
preparei um banho, fiz comida, ajudei a colocar roupas limpas e a ofereci minha cama.
no outro dia conversamos sobre plantas. a planta mais antiga do mundo se chama Silene. Microlinia era uma planta extinta até um belo dia não ser mais. tomamos café, ela riu de um comercial bobo na televisão. fui trabalhar, voltei. não disse seu nome. apenas abriu a geladeira, fritou um ovo. comeu só o centro, o amarelinho, e dormiu. eu via alguém com medo. alguém desaprendido. com esforço faria a memória das coisas retornarem. dizia não ter força, dizia não ser boa, dizia não ter certeza, pedia desculpas sem motivo. permaneceu na cama por dias, como uma conha, ficou por duas ou três semanas lá em casa e depois foi embora de vez.
um dia me procurou a noite. deitou em cima de mim, agarrou-se a minha barriga. cheirava os meus braços rastreando algo perdido ou irreconhecível. em seguida soltou um berro como uma criatura portadora do último respiro, ruminante como uma orca, contorcido como um peixe, debateu-se no meu corpo pequeno e chorou. chorava pelos cabelos, pelas orelhas, chorava com os calcanhares despencando nem lágrima, num cheiro salgado, de guardado, um cheiro que dá até sede. acordei com ela dormida no meu ombro, como um cobertor recolhido em si mesma e ao tomar banho notei meu corpo estar roxo. repleto de pequenos e grandes hematomas da noite passada, de sua atroz transformação em um mamífero marítimo. fui para a galeria, onde era meu trabalho, com o corpo doendo, uma curva do ônibus quase me levou junto, movia as pernas mas esquecia seus recentes detalhes, e a força delas era interrompida sem me avisar e quase caía em passos que antes tendiam a ser tão simples.
parecia estar melhor. lembro de chegar e a casa estar arrumada, aquela casa com que tinha muito pouco e quase nada de ligação, lembro de seus cabelos parecerem soltos de verdade, eles iam e vinham, ela estava se mexendo, subindo e descendo do quarto a sala, fazendo comida, falando sem pedir permissão ou com medo de ser inútil em alguma espontânea naturalidade. me disse seu nome, falou o que fazia, pelo menos o pouco que se lembrava, tudo parecia sem importância e ela achava ser este o motivo do esquecimento. recordo de pensar como ser possível esta pessoa em minha frente construir casas, essa pessoa tão desesperada por plantas, tão frágil, pelo menos agora como uma, esta menina que me conta estudar arquitetura, ter vindo do noroeste, ser criada entre os bois, gostar mais de goiaba do que chocolate. ou não. não era importante acreditar tanto no que dizia. o importante era ela insistir em dizer. mas a medida que conversávamos havia também uma estranha sensação de minha parte de sentir uma pequena angústia a medida que novas informações de sua vida vinham a mim, como se desqualifica-se a realidade, nossa relação naquela casa, como se algo fosse sendo perdido. eu gostava dela existir, dela não ter ido embora com aqueles homens, a tragédia possível da qual nunca me perdoaria. também gostava de não sabê-la.
o trabalho me exigia muito tempo fora de casa. estava produzindo uma mostra de uma artista colombiana, uma amiga minha de muitos anos atrás, de outra vida, de outra promessa, só vinha a casa para dormir e comer, o que fazia o apartamento ser toda dela por estes momentos. estava melhor, é claro, assumindo seu direito de sorrir só por desaforo, de ter vontade, e apesar de sentir que nossa inexistente amizade estava sendo desfeita, eu estava feliz.
via esta melhora de maneira límpida até o dia em que de novo ela me achou no sofá da sala, de novo me deu um coice como um animal, mas agora de forma mais violenta, trancando meu quadril nas almofadas, pesando o corpo contra minha possibilidade de respirar levemente, com muita muita força como um bicho na secura de uma mudança de estação onde tudo se acaba e o que sobra não cabe no estômago. havia pouca luz vindo da rua, com o pouco dela, enxerguei suas coxas presas no meu corpo como uma garra, seu rosto desfigurado com os sons ilegíveis berrados pela boca, suas coxas firmes, vermelhas, duras, em silêncio tentei acalmá-la, mas ela não correspondia. com uma calma vinda do susto, só esperei tudo passar, enquanto ela mordia-me a nuca, o ante-braço, embaixo dos seios, enterrando os dentes de escavadeira, de broca, de perícia, especiando-me em pedaços, me dividindo mas me completando na sua boca. lentamente foi se assossegando, dormindo sobre meus ombros e ao levantar de manhã não é possível se desfazer de nenhum detalhe do momento que meu sangue seco, que nos unia como cola, me exigia certo molejo para desgrudar de seu rosto sem acordá-la.
a deixei lá, emboscada em meu sofá, meu sangue, minhas almofadas, e os motivos inacessíveis que eram os dela. a água escorria nos ferimentos e a dor que antes pude usar para destroçar meu corpo de qualquer sensação mais emotiva agora era apenas dor. dor carnívora, monstruosa por retalhar, rasgar a pele ferida, por poder ser sentida no corpo todo simultaneamente. coloquei bicarbonato de sódio para limpar as feridas, arranjei esparadrapos, meio sem pensar fiz tudo muito rápido, como se fosse uma rotina diária, como se fosse como trocar o absorvente enxurrado de sangue e pitadas de endométrio, uma norma automática como escovar os dentes. peguei o carro, comprei dois cafés, fui ao aeroporto, esperei Raji minha artista e amiga, sair do portão de desembarque, esqueci completamente de meu estado quando confundi seu vestido colorido e borbulhante com seu sorriso e levada por estes dois tecidos a abracei forte, em um abraço no qual coube eu ela e aquela mulher que ainda dormia em minha casa, me dando uma presença inescapável, disparando uma dor mais forte ainda a partir dos ferimentos. eram poças, tiros, buracos expostos em frente de Raji e me senti vulnerável como a pouco não sentia em frente a alguém. enquanto ela falava sem parar sobre sua recente ida ao méxico, sua ancestralidade indiana melhor entendida, sua recente separação, suas novas ideias para a montagem do espaço expositivo da galeria, notei algo úmido, como a carícia de um molusco, perto do meu umbigo, uma língua solta a salivar. olhei para baixo da direção do carro, minhas pernas, olhei para a barriga, lá estava uma mancha vermelha começando a surgir em minha blusa. a mantive ocupada com perguntas e mais perguntas para que não me desperdiçasse compenetração em minha situação, e depois, na galeria, coloquei um velho blusão por cima de tudo e suei, suei como uma porca o dia todo.
cheguei no corredor do meu prédio, sentei no chão ao lado da porta. fiquei bons minutos ali tentando sistematizar algumas palavras soltas, me colocar em um local que faça sentido. o suor e sangue juntos tem um cheiro engraçado porque afasta viciando. tudo passava pela minha cabeça como um túnel, apenas informações muito rápidas , não conseguia tocar de verdade e tocar de verdade seria se importar, dar a mínima, levar a sério. não era possível dar a devida preocupação, devida euforia para o que ocorria, o que ocorria agora era meu corpo caduco, caduco vermelhando, dolorido, com marcas de dente de uma menina. um campo de mina terrestre. decidi que sentiria as palavras mais corretas de serem ditas na hora de entrar em casa e as coisas seriam tratadas de maneira natural.
cheguei em casa e lá estava ela. me abraçou, me tocou com as palmas completas, escorregando da testa as bochechas seus dedos. me agradeceu. sentamos na mesa e me contou como estava melhor, como se sentia outra pessoa. era tão absurdo imaginar agora mas houve dias que não viveu em memória ou em plena capacidade, apenas consentiu, empinada pelo vento. não sabia direito qual caminho havia a trazido para ter chego aqui mas disse ser aqui onde voltou a si. falava e falava sem pausa como minha amiga colombiana, e eu ouvia. abriu a geladeira pegou um chá gelado de erca cidreira com laranja, entortou as sobrancelhas e me contou o que descobriu.
então me contou uma história triste. triste triste. história que eu não lembro pois o que eu lembro é apenas o que pensei na hora, o que imaginei. pensei ter se lembrado de quando havia um homem, eles estavam juntos, ele a engravidou. que o homem parecia feliz, e ela estava mais feliz por ter um filho do que qualquer coisa, então o bebe se foi e ela descobriu que o homem dava há dias antiabortivo, escondido na em cada refeição que faziam juntos. ela teve de ir para o hospital, depois voltou a faculdade mas não tinha ânimo para nada. ou poderia ser outra coisa. poderia ter sido expulsa da casa dos pais por ter pego barriga, ter levado uma surra e perdido o bebê, ou sem bebê algum, expulsa de casa por não ser o que os pais esperavam que ela fosse. ou apenas foi atacada por alguém que achava conhecer, depois de uma festa, no banheiro acadêmico, no carro de um amigo, deitada na sua cama recebendo as primeiras pistas que o sol estava nascendo. poderia ser isso, nada disso, ou tudo. o que importa era a raiva que abaixava as têmporas, esquadriava o peito, um engano, uma decepção, vinda de uma confiança traída que cegou todas as facas, limou as torções dos parafusos, fez até mesmo as coisas serem menos confiáveis e aos poucos foi a paralisando.
ela sentiu vergonha do que me confidenciara, vergonha de ser roubada assim, desrespeitada, enganada, de estar enfraquecida. vergonha de chorar estando com a consciência no máximo sinal. de não bater, de não responder, de não socar, mesmo estando com os músculos entorpecidos na força máxima. pela minha experiência alguém que estava assim como ela, vivendo uma sétima encarnação de um tipo de pedra, desandada, retirante de si, pausada, poderia sentir ou pensar saber qualquer coisa. este é um estágio onde dos que chegam na gastura mais desgastante, a ponto de tudo retroceder, e ser difícil distinguir acontecimentos falsos ou reais porque tudo foi levado, contaminado, rompido, até o passado primeiro. as coisas aconteceram e não aconteceram com ela, era isto que eu achava, mas sua presença ali era o que fazia as coisas serem certas e inegáveis.
devagar muito devagar me curvei sobre seus ombros, coloquei o queixo sobre seus cabelos. me permiti colocar os braços nos seus braços pois é isso que me ensinaram ser o normal a fazer para ajudar os outros seres humanos, milimetricamente, como uma receita médica, à risca a pressionei medindo o nível deste encontro. eu repetia tudo bem bem bem baixinho, bem baixinho mesmo, como uma ciranda, de novo e de novo, até que eu mesma caí em minha armadilha e me perdi ali, saí de mim e quando retornei ela estava de pé, eu ainda tudo bem tudo bem, como pega na mentira mas não era mentira, era apenas um lugar que não sabia onde para nós duas entrarmos apenas. me olhou por um tempo e buscou com as mãos meu rosto, no que automaticamente pensei ser a lembrança daquele ataque da noite anterior, mas ao invés disso, delicadamente juntou meu olhar e me beijou.
me beijou na boca. se deteve com cautela pelos meridianos do rosto como um novo mapeamento. um recomeço na promessa da lucidez
ela tirava minha blusa, enquanto eu inerte a via beijar-me de olhos fechados, aos poucos, oferecendo pequenos extratos de doçura, muito distante do cuidado das outras noites. abriu os olhos, abriu a blusa, abriu, então se deparou com aquela cena - o meu peito nu. soltou um grito, ficou preocupada. não lembrava de nada, de nada dos nossos pequenos encontros. eu não tinha coragem de dizê-la como antes não tinha tido. parecia que simplesmente não merecia. perguntou se doía e eu assenti. trouxe alguns remédios, desfez os curativos e os melhorou. aquela estranha sensação de seus dedos rolando sobre as marcas de seus próprios dentes, com horror. aos poucos senti algo nela despertando, algum conhecimento entre meu corpo e ela sendo indiretamente trocado, ela ia aceitando o que havia tinha mesmo ocorrido sem eu ao menos dizer nada. não me importo, eu disse, é verdade, não me importo, não me interessa, está tudo bem. é só pele, superfície. esta nem era toda a verdade. talvez até gostasse, talvez até precisasse, talvez até fosse essa minha forma de me caber, de me roçar no mundo, de perseguir meus fugitivos com gana. tive sonhos estranhos, mas nada como isso, não era você, gaguejou incrédula mais por não lembrar, agora que estava tão clara das coisas, do que pelo que fez.
mesmo assim fomos para a cama, e eu acossada com meus pedaços, me recolhi. nos deitamos juntas como antigas conhecidas, como um segredo dividido em duas partes que precisa de ambas para ser legível, antigas amigas, amantes, qualquer coisa. extremamente conscientes o que não fazia nada ser mais fácil mas também não menos natural. tirou a roupa, depois me ajudou a me despir, e ainda com os olhos inchados, vagando como uma rede, borrão vermelho no vento conjunto desvairado, me beijou. por mais sutil que fosse o movimento dos seus braços, suas pernas, seu quadril, mais brandos que fosse sua língua, sua boca, sua mão, seus seios, o que de todo não eram, mesmo assim meu corpo doía. exclamava, inchado, perfurado, habitado, qualquer titubeio, maior ou menor, era o mesmo, o pouco era muito. enquanto se movia levava junto minhas partes, meus pedaços, meus poços, meus buracos, por instantes, nossos. tudo antes de ser algo era antes dor, difundindo pelo corpo, meu corpo sem centro, meu corpo que era um duplo, dublê. minha armadura ferida, ensaiando o início de um levante, no que era ferozmente dolorido e além de tudo extremamente prazeroso.
rua Rojas
um homem tentou denunciar aos jornais o desaparecimento de uma casa. a casa fora vista em dois diferentes locais antes de desaparecer completamente. a casa habitava a rua Rojas e só a terra marrom ficou. as fotografias e palavras dos vizinhos são as provas. o homem tem medo de ir a polícia, o homem sabe o que acontece com uma casa nesses dias. os jornais não acreditam. quem faria isto, teria este trabalho, no beliscar da luz do dia? o homem dorme embaixo de uma marquise e olha constantemente para os lados.
solidão
a escritora fora a tv não para falar nada em especial mas para ser a escritora portanto como ela é a escritora ficou quieta. a escritora ficou quieta até que a plateia, um conjunto de quatro pessoas de maior prestígio e júblio e carrochinhas, a fizeram uma pergunta. a pergunta era sobre solidão. a escritora disse neste país não há como ninguém ou nada ficarem apenas sozinhos. ninguém está sozinho neste país mesmo em seu próprio quarto pois este quarto também fica neste país e este país sendo o país que é também é um país de desaparecidos. embaixo do seu piso ou sobre o céu de seus telhados. um desaparecido. enterrado no chão ou jogado do ar em eterno repite. um desaparecido quando desaparece é um desaparecido em todo lugar que um dia apareceu. portanto estar sozinho neste país está absolutamente proibido. depois ela olhou para a parede e falou algo que o microfone não captou e o enquadramento da câmera não mostrou mas tudo indica estar lá.
segunda-feira, 7 de agosto de 2017
três hipóteses
na rua da praia, no número 146, terceiro piso há um andar
inteiro com documentos sobre os desaparecidos. há um andar inteiro para os
desaparecidos. dos desaparecidos. há inclusive roupas. objetos. canivetes.
carteiras.charutos. caixas de fósforo. bilhetes com telefones. manchas de
bebida em coletes. pulseiras de sementes. livretos de ortega y gasset.
anotações das próximas leituras de ortega y gasset. a viagem ao maranhão onde
as sementes foram encontradas ao lado da cabine telefônica que ficava ao lado
de nada. o pisco chileno que o amigo australiano trouxe quando tombaram da
prova de cálculo III. o fósforo comprado não para o cigarro mas para ajudar o
menino que demorava quatro horas para voltar do centro até sua casa. o canivete
não só para a luta mano a mano a sobrevivência no cerrado ou na mata atlântica
mas onde o nome do avô estava escrito comprovando a imanência de certas coisas.
não só objetos. também ossadas. mais 10 ossadas de desconhecidos constam neste
prédio. algumas quase completas, com crânio, rádio, tíbias. outras com o
desfalque suficiente. mais de dez corpos de desconhecidos estão guardados no
terceiro andar da rua principal desta cidade, uma rua que leva ao porto, ao
rio, ao mar, ao mar internacional. antes de chegar a elas há homens armados,
soldados que colocam e retiram a bandeira nacional todo dia que finda. podemos
tirar algumas conclusões: os desaparecidos, aqueles nunca achados, estão
guardados no terceiro andar deste prédio. portanto um desaparecido é também
alguém separado de seu próprio corpo. um desaparecido não é um corpo, senão
estaríamos resolvidos. ou, ainda, há uma opção que prefiro: o andar deste prédio
está desaparecido, o prédio está desaparecido, a rua de cidade está
completamente desaparecida. por isso não nos deixam chegar perto. por isso as
armas. ver algo desaparecido é algo extremamente perigoso para eles. mentir
para eles é uma questão primeiro de arquitetura e geografia.
barrigonas
As duas grávidas. Ao mesmo tempo. Saíam escondidas das freiras, iam catar bergamotas no terreno ao lado. Gostavam de nadar em Jacaú. Colocavam o barrigão para cima, pareado com o sol, deixavam eles sozinhos como montanhas ou cascas de tartaruga tudo menos um pedaço vivo. Debaixo da água se olhavam mergulhadas até que uma lembrasse de respirar. Eram muito parecidas. Os cabelos mais para o escuro, a altura nivelada. Confundiam empregadas, usavam mesmas roupas, davam susto aos desavisados, ao ponto da madre superior desconfiar terem as duas um idioma próprio.
Quando todas meninas iam dormir, no grande quarto principal com seus segundos corações abrindo-lhes as botoaduras, uma procurava a cama da outra. Embaixo do lençol conversavam dentro dos túneis dos ouvidos até pegarem no sono. Se questionavam até que tamanho poderia crescer um coelho, quanto tempo durou a mais velha uva verde solta na natureza, quantas pessoas eram necessárias para construir um aparelho de televisão ou quantas palavras falariam até pararem um dia de falar. Qualquer coisa que fosse um lugar e não um tempo. Qualquer coisa que fosse delas e de mais ninguém. Enroscavam-se uma na outra, o que era difícil porque as barrigas, muito grandes já, talvez sete meses ou oito, acalmavam a intimidade. Por isso, invertiam-se para dormir uma nas pernas da outra, como algo sem fim ou começo, e pegavam o sono assim.
Se uma de repente parecia estar triste, o que era raro, a outra cantava uma canção que inventava na hora, depois se esquecia, e elas riam juntas do que não mais volta. Ou então, tascavam-se beijos brandos pelo pescoço, devagar, como quem forja um mapa, uma trilha, e como o povos antigos pedem com licença a mata para perambular. Os beijos finos e acurados, um ritmo meditativo, eram uma outra coisa como uma permissão para não pensar em nada, ou talvez, lembrar seu próprio corpo pode falar por si, assim como, um arrepio ergue-se soberano.
Ao irem tomar banho com outras meninas, ou passavam mal e vomitavam no banheiro, estes eram os momentos que lembravam ter um barriga, por tanto, algo nela, o que não sabiam direito pois não pensavam no assunto. Sabiam o que viam: a pele a se esfolar pelos lados, a silhueta a desfazer as medidas melódicas, o peso ganho, a dificuldade de correr, jogar bola, limpar as paredes da instituição. Mas eram crianças e tudo muda a todo instante quando tudo recém já se foi e alem do mais passavam por aquilo juntas. Juntas além daquelas outras vinte meninas que com elas se embrenhavam nos corredores, choravam achatadas por trás de móveis, liam muito ou nada, algumas por serem analfabetas outro por raiva, desapareciam apenas em uma noite desigual. Mas disto também não designavam muita atenção. Tinham uma a outra e este conjunto era inquebrável pois o exterior parecia mais como um reflexo.
As barrigonas cada vez maiores eram postas uma de frente a outra. Eu terei uma casa, pois aqui dentro eu guardo um castelo diz a outra. Pois a barriga é minha e digo que dentro dela terei um exército e este exército marchará para o seu castelo. E se te dizer que teu exército são cópias minhas e não tuas? Milhares de você aqui dentro, diz a outra! Eu gosto. Especialmente se souberem fazer um belo doce de leite, pudim ou bolo de fubá. As histórias eram contadas durante o dia inteiro, as tarefas, as rotinas de higiene. As histórias eram caminhos de alargar o dia, para que lá de longe, parecesse grande e gordo como elas. Tem vezes, em um lapso de realidade, chegavam mais perto das pistas sólidas. Terei quatro filhos e eles casarão com as suas filhas e teremos uma família. Mas nós já somos uma família. Então lembravam como um caco de vidro sobrevivente a alguma limpeza descuidada, o antes, o vir para cá agulhando a pele, um pedaço tão pequeno e tão afiado, e abraçavam-se odiando as barrigas mais que tudo por chegarem antes delas no peito da outra.
Odiavam as barrigas mas odiavam juntas e por isso não era tanto um problema. Ao mesmo tempo, não havia como ignorá-las. Se a criança chutava os pequenos corpos não tinham muita força para conter sua ressaca no resto da carne. Se a criança se mexia acordavam e se enroscavam mais forte os quatro como partes do mesmo tentáculo. Mas ali continuava a noite mal dormida, o coice, em algum lugar repetindo-se. Quando eram levadas ao médicos pelas freiras para serem examinadas, um pano era posto para que não vissem o monitor ou qualquer resultado visual. Só o que viam era o rosto da outra, atrás da mesma cortina de hospital, enquanto um graveto gelado saracoteava suas barrigas em busca de ouro ou qualquer metal.
Sabiam o que tinha acontecido uma a outra. Sabiam por pensamento dedutivo e porque houve historias antes delas. Quando o irmão de uma pulou na outra, veio correndo da oficina do tio não acreditando que os gritos seriam do gato recém salvo do abandono, não acreditando seu irmão não cumprir a palavra. Quando chegou havia sangue pela sala e o gato vivo e calmo deixavam manchas vermelhas na casa. As manchas, O gato, o meu gato em nossa casa. A culpa será minha imaginou até no outro dia ao visitar a amiga notar algo diferente. Embora não falasse nada, mancava e tinha alguns arranhões. Brincaram aquele dia, e quando ele começava a insinuar seu fim, fez-lhe um sanduíche de mortadela, e abraçou a amiga muito forte até chorar sobre seu cabelos o que o silêncio da outra não conseguia.
A dor, uma vez, mais que uma, tanto várias, sentira e deixara de sentir em pouco para ser muito. Foram mais de quatro vezes que homens chegaram e foram embora, falaram coisas parecidas, fizeram similares, em uma repetição onde tudo se perde, ao ponto de entender ser deste modo as direções das coisas. Mas ver a outra assim, irremediada, desfilada, feita de partilhas, teve vontade genuína de não se conter.
As palavras e as histórias elas também precisam de um descanso precisam ser postas de lado para se refazerem, olharem-se no espelho, notar suas próprias rugas. Quando elas se vão, quando o dia será pesado, de faxina e conversa com desconhecidos, pessoas de fora que vez e outra vem olhar as crianças, tentam conquistar a calma com bolhas e mais bolhas. Fazem bolhas com os lábios e para que não estourem eles trocam-se de bocas, beijam-se devagarzinho, cuidando de suas próprias criaturas, instantaneamente suas mentes são lidas e nada pode ser escondido.
As freiras também tem seus segredos, suas fontes milagrosas ou interrompidas. Em um dia, escondidas no quarto de uma a procurar algo que tivesse botões, um celular, um telefone, qualquer mágica que falassem com os dedos, encontraram duas próximas demais. Desfilava-se uma na outra como leoas, tateando uma armadilha, o melhor lugar para uma mordida eficiente. O barulho alto dos gemidos da savana desfalcou ao som dos pés durante a fuga e tiveram a impressão de ser aquilo muito distante e de impossível comparação com que sentiam, mas ainda presente, em uma insinuação ilegível ainda a elas.
Mais tarde, fazem o que fazem. Como imaginar o dia que suas barrigas se abrirão. Ao mesmo tempo, se seduzem a acreditar. No mesmo minuto! Primeiro eu. Uma dará o nome do filho da outra. Depois viajará por anos e quando retornar trocarão de filhos. Se a vida assim as quiser longe, mudarão de filhos durante boa parte dela, de modo que eles nunca saibam quem será sua verdadeira mãe. Ou se ficarem juntas, inventarão histórias. Inverterão seus nomes, os deixarão confusos, mesclarão memórias, primeiros passos e primeiras palavras, até que todos se sintam muito próximos um do outro.
Aramaram uma brincadeira nova. Quando o irmão chegasse, tropeçaria da escada. A brincadeira seria um acidente depois de ser uma brincadeira. Pensava até mesmo em culpar o gato. A amiga parecia não entender completamente, ou apenas não se permitir. O irmão chegou, no fio esticado em frente a escada, titubeou mas não caiu. A irmã então o empurrou com toda a força por outros cedida. As crianças falham em tentar matá-o e este cai mas apenas desmaia. Ainda há uma segunda opção. Uma faca escondida ali perto de propósito. Elas estão se olhando, a irmã ousa pegar a faca mas sangue está migrando da cabeça ao chão afora. O sangue de novo. E de novo acredita que as coisas são como são, acredita no acidente, no tropeço e nada nunca aconteceu nem este dia nem o dia que a amiga foi encontrada nesta casa. O irmão sobrevive. As coisas são o que os homens fazem com as coisas – ouviu dizerem um dia. Dias depois, engravida. O pai a chama de puta e a expulsa de casa.
Não tem raiva do irmão. Não como antes. Agora estão sozinhas, só elas, naquele lugar. Fazem tudo juntas, se aproximam como se o braço de uma fosse apelido do braço de outra. Se chamam pelos olhos. Não tem vergonha da nudez ou do choro, muito menos dos corpos desengonçados, das feridas, das estrias que os beijos tentam remendar ou apenas botar para dormir como um animal nômade no corpo. Aqui puderam crescer juntas. Ou não crescerem nunca ao mesmo tempo.
Aqui descobriram saber muito bem o que querem. Quando o tempo for limite não deixaram que toquem em seus filhos. Não deixarão que nenhum casal as leve para longe deste orfanato ou de volta a sua fazenda. Antes de tudo isto irão embora e terão sua própria casa, com seus filhos, sua própria vida. Isto não precisa estar nas histórias que contam de jeito exausto a cada fio de minuto. Não precisa ser traduzido. É um instinto compartilhado. Bolhas. Elas sabem, saber é onde ninguém vigia, lá dentro. Possuem olhos nos pés, agarradas uma na outra. Além do mais são quatro agora.
Quando todas meninas iam dormir, no grande quarto principal com seus segundos corações abrindo-lhes as botoaduras, uma procurava a cama da outra. Embaixo do lençol conversavam dentro dos túneis dos ouvidos até pegarem no sono. Se questionavam até que tamanho poderia crescer um coelho, quanto tempo durou a mais velha uva verde solta na natureza, quantas pessoas eram necessárias para construir um aparelho de televisão ou quantas palavras falariam até pararem um dia de falar. Qualquer coisa que fosse um lugar e não um tempo. Qualquer coisa que fosse delas e de mais ninguém. Enroscavam-se uma na outra, o que era difícil porque as barrigas, muito grandes já, talvez sete meses ou oito, acalmavam a intimidade. Por isso, invertiam-se para dormir uma nas pernas da outra, como algo sem fim ou começo, e pegavam o sono assim.
Se uma de repente parecia estar triste, o que era raro, a outra cantava uma canção que inventava na hora, depois se esquecia, e elas riam juntas do que não mais volta. Ou então, tascavam-se beijos brandos pelo pescoço, devagar, como quem forja um mapa, uma trilha, e como o povos antigos pedem com licença a mata para perambular. Os beijos finos e acurados, um ritmo meditativo, eram uma outra coisa como uma permissão para não pensar em nada, ou talvez, lembrar seu próprio corpo pode falar por si, assim como, um arrepio ergue-se soberano.
Ao irem tomar banho com outras meninas, ou passavam mal e vomitavam no banheiro, estes eram os momentos que lembravam ter um barriga, por tanto, algo nela, o que não sabiam direito pois não pensavam no assunto. Sabiam o que viam: a pele a se esfolar pelos lados, a silhueta a desfazer as medidas melódicas, o peso ganho, a dificuldade de correr, jogar bola, limpar as paredes da instituição. Mas eram crianças e tudo muda a todo instante quando tudo recém já se foi e alem do mais passavam por aquilo juntas. Juntas além daquelas outras vinte meninas que com elas se embrenhavam nos corredores, choravam achatadas por trás de móveis, liam muito ou nada, algumas por serem analfabetas outro por raiva, desapareciam apenas em uma noite desigual. Mas disto também não designavam muita atenção. Tinham uma a outra e este conjunto era inquebrável pois o exterior parecia mais como um reflexo.
As barrigonas cada vez maiores eram postas uma de frente a outra. Eu terei uma casa, pois aqui dentro eu guardo um castelo diz a outra. Pois a barriga é minha e digo que dentro dela terei um exército e este exército marchará para o seu castelo. E se te dizer que teu exército são cópias minhas e não tuas? Milhares de você aqui dentro, diz a outra! Eu gosto. Especialmente se souberem fazer um belo doce de leite, pudim ou bolo de fubá. As histórias eram contadas durante o dia inteiro, as tarefas, as rotinas de higiene. As histórias eram caminhos de alargar o dia, para que lá de longe, parecesse grande e gordo como elas. Tem vezes, em um lapso de realidade, chegavam mais perto das pistas sólidas. Terei quatro filhos e eles casarão com as suas filhas e teremos uma família. Mas nós já somos uma família. Então lembravam como um caco de vidro sobrevivente a alguma limpeza descuidada, o antes, o vir para cá agulhando a pele, um pedaço tão pequeno e tão afiado, e abraçavam-se odiando as barrigas mais que tudo por chegarem antes delas no peito da outra.
Odiavam as barrigas mas odiavam juntas e por isso não era tanto um problema. Ao mesmo tempo, não havia como ignorá-las. Se a criança chutava os pequenos corpos não tinham muita força para conter sua ressaca no resto da carne. Se a criança se mexia acordavam e se enroscavam mais forte os quatro como partes do mesmo tentáculo. Mas ali continuava a noite mal dormida, o coice, em algum lugar repetindo-se. Quando eram levadas ao médicos pelas freiras para serem examinadas, um pano era posto para que não vissem o monitor ou qualquer resultado visual. Só o que viam era o rosto da outra, atrás da mesma cortina de hospital, enquanto um graveto gelado saracoteava suas barrigas em busca de ouro ou qualquer metal.
Sabiam o que tinha acontecido uma a outra. Sabiam por pensamento dedutivo e porque houve historias antes delas. Quando o irmão de uma pulou na outra, veio correndo da oficina do tio não acreditando que os gritos seriam do gato recém salvo do abandono, não acreditando seu irmão não cumprir a palavra. Quando chegou havia sangue pela sala e o gato vivo e calmo deixavam manchas vermelhas na casa. As manchas, O gato, o meu gato em nossa casa. A culpa será minha imaginou até no outro dia ao visitar a amiga notar algo diferente. Embora não falasse nada, mancava e tinha alguns arranhões. Brincaram aquele dia, e quando ele começava a insinuar seu fim, fez-lhe um sanduíche de mortadela, e abraçou a amiga muito forte até chorar sobre seu cabelos o que o silêncio da outra não conseguia.
A dor, uma vez, mais que uma, tanto várias, sentira e deixara de sentir em pouco para ser muito. Foram mais de quatro vezes que homens chegaram e foram embora, falaram coisas parecidas, fizeram similares, em uma repetição onde tudo se perde, ao ponto de entender ser deste modo as direções das coisas. Mas ver a outra assim, irremediada, desfilada, feita de partilhas, teve vontade genuína de não se conter.
As palavras e as histórias elas também precisam de um descanso precisam ser postas de lado para se refazerem, olharem-se no espelho, notar suas próprias rugas. Quando elas se vão, quando o dia será pesado, de faxina e conversa com desconhecidos, pessoas de fora que vez e outra vem olhar as crianças, tentam conquistar a calma com bolhas e mais bolhas. Fazem bolhas com os lábios e para que não estourem eles trocam-se de bocas, beijam-se devagarzinho, cuidando de suas próprias criaturas, instantaneamente suas mentes são lidas e nada pode ser escondido.
As freiras também tem seus segredos, suas fontes milagrosas ou interrompidas. Em um dia, escondidas no quarto de uma a procurar algo que tivesse botões, um celular, um telefone, qualquer mágica que falassem com os dedos, encontraram duas próximas demais. Desfilava-se uma na outra como leoas, tateando uma armadilha, o melhor lugar para uma mordida eficiente. O barulho alto dos gemidos da savana desfalcou ao som dos pés durante a fuga e tiveram a impressão de ser aquilo muito distante e de impossível comparação com que sentiam, mas ainda presente, em uma insinuação ilegível ainda a elas.
Mais tarde, fazem o que fazem. Como imaginar o dia que suas barrigas se abrirão. Ao mesmo tempo, se seduzem a acreditar. No mesmo minuto! Primeiro eu. Uma dará o nome do filho da outra. Depois viajará por anos e quando retornar trocarão de filhos. Se a vida assim as quiser longe, mudarão de filhos durante boa parte dela, de modo que eles nunca saibam quem será sua verdadeira mãe. Ou se ficarem juntas, inventarão histórias. Inverterão seus nomes, os deixarão confusos, mesclarão memórias, primeiros passos e primeiras palavras, até que todos se sintam muito próximos um do outro.
Aramaram uma brincadeira nova. Quando o irmão chegasse, tropeçaria da escada. A brincadeira seria um acidente depois de ser uma brincadeira. Pensava até mesmo em culpar o gato. A amiga parecia não entender completamente, ou apenas não se permitir. O irmão chegou, no fio esticado em frente a escada, titubeou mas não caiu. A irmã então o empurrou com toda a força por outros cedida. As crianças falham em tentar matá-o e este cai mas apenas desmaia. Ainda há uma segunda opção. Uma faca escondida ali perto de propósito. Elas estão se olhando, a irmã ousa pegar a faca mas sangue está migrando da cabeça ao chão afora. O sangue de novo. E de novo acredita que as coisas são como são, acredita no acidente, no tropeço e nada nunca aconteceu nem este dia nem o dia que a amiga foi encontrada nesta casa. O irmão sobrevive. As coisas são o que os homens fazem com as coisas – ouviu dizerem um dia. Dias depois, engravida. O pai a chama de puta e a expulsa de casa.
Não tem raiva do irmão. Não como antes. Agora estão sozinhas, só elas, naquele lugar. Fazem tudo juntas, se aproximam como se o braço de uma fosse apelido do braço de outra. Se chamam pelos olhos. Não tem vergonha da nudez ou do choro, muito menos dos corpos desengonçados, das feridas, das estrias que os beijos tentam remendar ou apenas botar para dormir como um animal nômade no corpo. Aqui puderam crescer juntas. Ou não crescerem nunca ao mesmo tempo.
Aqui descobriram saber muito bem o que querem. Quando o tempo for limite não deixaram que toquem em seus filhos. Não deixarão que nenhum casal as leve para longe deste orfanato ou de volta a sua fazenda. Antes de tudo isto irão embora e terão sua própria casa, com seus filhos, sua própria vida. Isto não precisa estar nas histórias que contam de jeito exausto a cada fio de minuto. Não precisa ser traduzido. É um instinto compartilhado. Bolhas. Elas sabem, saber é onde ninguém vigia, lá dentro. Possuem olhos nos pés, agarradas uma na outra. Além do mais são quatro agora.
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