Procuro pelo cantor. As ruas negam sua função. Me atrapalham.
Enchem as pernas de cascalhos antigo. Contudo, sou branca que nem uma
recém-nascida e não desisto. Continuo as peripécias infinitas para a lógica.
Vês como estou mudada meu bem? Hoje aceito no estômago até o que não é
literatura. E faço barca dos olhos onde a luz falta. Aprendi muitas coisas nos
desprazeres, como por exemplo, nos vemos inteiros apenas nos pedaços. No
pensamento estirado, nos dedos amputados. Não concorda benzinho? Sei que falo
solitariamente. E que essa incrível produção de disfunção da língua escrita não
me deposita um centavo ou me garante um amor. Sei os caminhos exatos para me
desfalcar. Nisso sou expert. Já ganhei
um alambique e eternas dores para cabeça brincando de engenheiro de
mentira. Mas agora, depois do falso telhado e todas as tentativas na arma de
brinquedo, ano por aí. Vira e mexe rebolo nas escrituras. Falo mal do gramado
alheio. Gasto tempo no escuro, nas conversas cíclicas, nas falsas promessas e
enganos mútuos. A pegadinha é que emagreci. E bastante. Foi-se foi a fome, mas
o peso ficou, a sufocar os animais do rosto. Podes me ver por aí sempre quando
ousares comprar teu próprio mal em uma banquinha de revista, em uma conversa
arrependida. Em um vai-vém nostálgicos. E assim se vão as semanas. Os amigos
envelhecem por dentro. E daqui ninguém me convence que sou jovem. Conquisto meu
próprio rosto durante o banho (o que dele sobrou). Sei dos buracos
irredutíveis, da mata silvestre que cresce nos descuidos da oleosa pele. Tenho
aquele corpo do tipo das possibilidades reduzidas. Das apostas cansadas. Dos
remendos que desistem de tentar de novo. Do elástico cansado que entrega-se. Há
uma guerra para ser ganha e nenhuma esperança nos pentes das armas. A
violência, minto, não gosto. Observo o temporal que nos destelha e faz sair
frases rudes, adeuses malcriados e sedes selvagens. Só observo. Enquanto isso,
sigo o caminho do corpo e os ossos de sempre me moldam. Nessa casa fico,
reciosa e anônima. Faço minha concheira. Estabeleço laços espirituais pelo jogo
de forca. E se me obedeço, é deslize. Hoje me vi verdade: me pintei falsa suja
louca para merecer um lugar na dor. As justificativas riem fofoqueiras de
longe, não me dão a mínima. Sem motivo
mancho o rosto só por acordar, rotina de se esquecer.
quinta-feira, 27 de dezembro de 2012
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Tese de Espelho - Tese 5
Você está na cozinha dele. Agora você procura entender
coisas, muitas coisas, dentre elas o porquê daquela coleção de pimentas
(vermelhas, pretas, americana, branca, chilli) -
nomes pronunciadas com entonações de carinho semelhante a falas sobre pais e filhos.
Aliás, quando foi que investigar as discrepâncias, sabores e anatomias das
pimentas começou a ser tão assim importante para ele? Silêncio. Você o olha imaginando
como o perdeu. Quando foi o momento da ruptura, da explosão, do blecaute. Agora
você esconde a mão na barba para demonstrar interesse alheio, uma estratégia estranha. Ele fala das Filipinas.
Vocês estão na sala. Ele te mostra fotografias. Numa delas nativos da tribo Tagbanua pousam ao lado dele. Um dos locais, o mais alto que os demais, usa um chapéu
que você o deu. Que você o deu. Era fevereiro de um ano que começava e você o
presenteou com aquele panamá legítimo dizendo “para que o sol só te traga boas coisas”. Você pensa
como que do outro lado do mundo alguém usa seu ex-chapéu. Como foi que a sua
memória viajou tão longe. Mas agora você se dedica a raciocinar de forma preocupada aonde estava
enquanto as Filipinas e todo o Mar de Sulu era terreno de caça de futuro para ele.
Enquanto que ele corria atrás de herbívoros exóticos, de exóticas dançarinas
locais, de toda a biologia que antes nunca tivera dado tanta atenção, você
fazia o que mesmo? Lavava a louça ao som de T-Bonne Walker se achando o centro
da festa do mundo, procurava uma remuneração decente em anúncios na internet,
usava sempre as mesmas desculpas para não sorrir. De tal modo que quando ele
chegou de viagem você temeu perguntas do tipo “e você como está”. Você temia
dizer que aqui o tempo não passou apenas se fez de morto, que aqui só a espera
lançou seu tapete vermelho para qualquer surpresa que não compareceu ao
encontro, que aqui você continua o mesmo, apensar de tudo – o mesmo. Ele está
feliz e decide te apresentar uma nova bebida que trouxe de Mali. Parece
estar disposto a fazer tudo para te convencer que para alguém no planeta você foi ausência. Que
você importa. Te fazer sofrido é uma maneira de te elogiar. Ele serve a vocês dois. Você está cansado. Já havia começado a
beber cedo, no meio da tarde, entre uma justificativa e outra – ambas furadas.
Ele só fala sobre o que você não conhece. Talvez ache que esse
desconhecimento faça bem a você. Te tira do sofá da realidade. Refresca. Talvez ele só queira te convencer que a
distância fez bem para todos. Ele está bonito, está tão bonito quanto o dia que
foi embora. Ele já foi embora tantas vezes que você sempre o olha como uma
partida que ainda não aconteceu. Talvez seja isto que o faça bonito. Ele tem o tipo de fraqueza que você gostaria
de ter, a de não se importar, aquela que faz abrir os olhos ser ao mesmo tempo uma fuga. Você o vê com convicção. Mas não consegue se
concentrar. Você lembra de uma viagem que fizeram. Um sítio. Um final de semana.
Vocês supostamente dividiriam o mesmo quarto. As malas de vocês dois, juntas lá
estavam, mas ele nunca apareceu para dormir. Sozinho. Você lembra que naquela viagem o
encontrou chorando baixo, perto de uma cachoeira. Foi um abraço forte, o que
você o concedeu. Você não perguntou nada, exclamou silêncio, o respeitou até o exato
ponto de só o dar o que ele precisava – a certeza de uma proximidade. Você
lembra de tocar a pele dele mista de águas, pele delicada, correntezas de suor
e água doce, a natureza e o homem cobrindo os mesmos braços e pernas. Você
lembra que o abraço fora intenso, que você o pressionou contra seu peito – você
lembra da força necessária que fez de propósito para poder sentir os ossos dele contra os seus. De
encontrar o queixo na descida do pescoço dele e forjar uma espécie de calma.
Ainda depois de tudo isso, você dera a ele um sorriso que nem sabe de onde
tirou. Mas agora você retorna a essa sala. Se pergunta se este estoque de sorrisos já acabou, sendo usado sem escrúpulos no tempo. Ele pergunta sobre os amigos de
vocês em comum. Você sente o cheiro de apartamento fechado, o tempo apodrecido
nesse décimo andar, enquanto que ele: longe. Pergunta de Aléxia. Você
trava. Guarda os olhos apontados apenas para lugares vazios Você começa a
imaginar aquele tempo. Pensava que hoje seria apenas vocês dois e o presente. Questiona se ele realmente tem direito de mexer nos antigos papéis, que tanto tempo você demorou para organizar. Se sente traído pelo despertar de memórias. Violentado. Mas acaba por lembrar dos dois juntos. De repente, enquanto seu amigo fala,
emocionado e cabisbaixo sobre isso que nada mais é um sonho abortado, um choro
enterrado vivo, você só os imagina ali, naquele apartamento. Ambos nus. Transando.
Naqueles toca-discos, naquela rede da sacada. Seu amigo a fazendo gritar em
cima do tapete, ela o chupando no balcão da cozinha. Ambos desesperados em
fugir um para o dentro do outro, em foder até o suor secar. Você pensa naquela paixão como energia perdida. Como um passeio no precipício. Aquilo o enoja. Primeiro porque o filho que veio de tantas trepadas até o amanhecer foi uma melancolia com dentes de ferro que nunca largou dos braços dele. Uma tristeza sem cálculos possíveis. Você se sente estranho de imaginar ele de pênis ereto nos dias de ontem com ele te olhando tentando convencer que agora é outro. Enquanto você evoca
essa pequena viagem incontrolável e assustadora, perde um pouco da conversa.
Durante alguns minutos você não ouviu praticamente nada do que ele disse e absolutamente
não faz ideia do que falar agora. Você corta o assunto que nem sabe do que se
tratava, pega uma cerveja do congelador. Você está absolutamente dentro apenas
de si mesmo desde que chegou aquela casa, louco para sair, louco para não lembrar do que ele
representa, do que ele traz à tona. Mas então o olha. Suavemente diz que sentiu sua
falta, enquanto o antigo desconforto de segundos atrás vai indo embora e você
sente o que fez o que deveria ser feito -
o que se esperava. E de fato você sentiu isso. Durou pouco aquele adorável esquecimento daqueles anos. Mas agora ele retorna e rompe com esse seu doce passeio lhe dizendo o quanto que é impossível fugir de algo vivo. Passado, porém, vivo.
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Tese de Espelho - Tese 1
I
você está feliz. e acha que isso arredonda as curvas do dia e ele gira mais de pressa. sente o suor acomodado dos que tem apreço pelas coisas pequenas. como a sombra da árvore no dilúvio. claro que no fundo você sabe, trata-se de um caso de filantropia consigo mesmo. diferente a dar trocados para mães desesperadas nas sinaleiras, de onde sai com o nariz apitando ao céu missão cumprida, esse tipo de atividade é o mesmo que dar água as plantas do apartamento quando murchas e amareladas. Trata-se de um caso típico do "pelo menos, ninguém pode dizer que não tentei". Contudo, mesmo praticando essa pequena enganação, roubando do seu próprio bolso para sustentar um sorriso frouxo, você ainda sustenta-se leve. vai a lancheria. come sem fome um par de pães de queijo. a sensação do forno quente ainda pode ser sentido no primeiro salgado a ser devorado, e no rastro de um cometa das causas imediatas você retorna a uma sensação antiga. quando jovem, foi a Belém do Pará para uma missão da ong de seu pai. Lá, beijou uma menina. Ela não era muito bonita, porém, fervorosa, quente. Você a tomou com vontade. Deitou em sua cama como se fosse o jardim que os labirintos prometem em seu desejado interior. Você lixou sua língua em sua boca com se fosse uma causa nobre, uma missão a ser desempenhada. Depois a olhou piedosamente. Quando você foi embora, já não sentindo mais aquilo tudo, você sorriu e a menina chorou. No seu primeiro beijo você estava sozinho, mas isso você não lembra hoje. Apenas da temperatura da energia em trânsito. Você lembra do calor. Esse fiapo de memória o trouxe uma ambiência barroca e delicada. Agora você está mais feliz ainda. Sabe que viveu, essa lembrança afirma isso. Uma pequena excitação aparece de repente como uma formiga que do nada aparece dentro de sua camisa. Caminhando pelo pescoço agora. Você sente falta de pisar fundo no dia e marca-lo com uma feição sua. uma marca de mão, uma forma de pé. você sente falta de surprender-se. De chegar aos amigos e poder contar algo que os faça ficar com silêncio, um silêncio que se instaura quando a inveja trabalha. Você poderia ligar para Clara agora. Quem sabe, ir a sua cobertura. Levaria um vinho, um respeitoso, recado direto. Mas ela diria a ti que não precisa de bebida para dormir contigo e te agarraria antes de buscar duas taças. Na verdade ela te agarraria, mas só depois de completar "aliás, não preciso de nada, só de você". Então fariam amor de luzes acesas dentro do quarto e dos olhos. Mas então você lembra que Clara é uma pessoa muito direta em suas vontades. Que quando decide encontrá-lo, manda uma mensagem com apenas uma palavra e um ponto de interrogação, do tipo, "hoje?". Lembra que tudo que ela tem guardado para te dar são pontos de interrogação, e pior, sempre com a mesma pergunta. Você resonde à altura, com um simples "s", que nessa linguagem escravista dos meios digitais quer dizer "sim". Então você dirige até seu apartamento onde ela provavelmente está terminando um cigarro de maconha, sozinha. Cigarro que ela nem oferece a você. Vocês transam por meia hora e é mais fácil deduzir a velocidade do vento pelo barulho desse na janela do que a respiração de ambos. Ela pede que você vá embora antes de tomar um copo de água, e você, obedece enquanto escuta seu estojo de maquiagem sendo aberto, afinal, a noite apenas começou.
você está feliz. e acha que isso arredonda as curvas do dia e ele gira mais de pressa. sente o suor acomodado dos que tem apreço pelas coisas pequenas. como a sombra da árvore no dilúvio. claro que no fundo você sabe, trata-se de um caso de filantropia consigo mesmo. diferente a dar trocados para mães desesperadas nas sinaleiras, de onde sai com o nariz apitando ao céu missão cumprida, esse tipo de atividade é o mesmo que dar água as plantas do apartamento quando murchas e amareladas. Trata-se de um caso típico do "pelo menos, ninguém pode dizer que não tentei". Contudo, mesmo praticando essa pequena enganação, roubando do seu próprio bolso para sustentar um sorriso frouxo, você ainda sustenta-se leve. vai a lancheria. come sem fome um par de pães de queijo. a sensação do forno quente ainda pode ser sentido no primeiro salgado a ser devorado, e no rastro de um cometa das causas imediatas você retorna a uma sensação antiga. quando jovem, foi a Belém do Pará para uma missão da ong de seu pai. Lá, beijou uma menina. Ela não era muito bonita, porém, fervorosa, quente. Você a tomou com vontade. Deitou em sua cama como se fosse o jardim que os labirintos prometem em seu desejado interior. Você lixou sua língua em sua boca com se fosse uma causa nobre, uma missão a ser desempenhada. Depois a olhou piedosamente. Quando você foi embora, já não sentindo mais aquilo tudo, você sorriu e a menina chorou. No seu primeiro beijo você estava sozinho, mas isso você não lembra hoje. Apenas da temperatura da energia em trânsito. Você lembra do calor. Esse fiapo de memória o trouxe uma ambiência barroca e delicada. Agora você está mais feliz ainda. Sabe que viveu, essa lembrança afirma isso. Uma pequena excitação aparece de repente como uma formiga que do nada aparece dentro de sua camisa. Caminhando pelo pescoço agora. Você sente falta de pisar fundo no dia e marca-lo com uma feição sua. uma marca de mão, uma forma de pé. você sente falta de surprender-se. De chegar aos amigos e poder contar algo que os faça ficar com silêncio, um silêncio que se instaura quando a inveja trabalha. Você poderia ligar para Clara agora. Quem sabe, ir a sua cobertura. Levaria um vinho, um respeitoso, recado direto. Mas ela diria a ti que não precisa de bebida para dormir contigo e te agarraria antes de buscar duas taças. Na verdade ela te agarraria, mas só depois de completar "aliás, não preciso de nada, só de você". Então fariam amor de luzes acesas dentro do quarto e dos olhos. Mas então você lembra que Clara é uma pessoa muito direta em suas vontades. Que quando decide encontrá-lo, manda uma mensagem com apenas uma palavra e um ponto de interrogação, do tipo, "hoje?". Lembra que tudo que ela tem guardado para te dar são pontos de interrogação, e pior, sempre com a mesma pergunta. Você resonde à altura, com um simples "s", que nessa linguagem escravista dos meios digitais quer dizer "sim". Então você dirige até seu apartamento onde ela provavelmente está terminando um cigarro de maconha, sozinha. Cigarro que ela nem oferece a você. Vocês transam por meia hora e é mais fácil deduzir a velocidade do vento pelo barulho desse na janela do que a respiração de ambos. Ela pede que você vá embora antes de tomar um copo de água, e você, obedece enquanto escuta seu estojo de maquiagem sendo aberto, afinal, a noite apenas começou.
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Minha prima disse - enquanto uma lágrima armava-se no encontro de suas pálpebras rochosas e branquiadas – a coisa mais importante no mundo que você pode dar para alguém são seus ouvidos. Ouça com os olhos, a pele, o corpo todo, mas tenha cuidado com os seus ouvidos. Há de se ter muita delicadeza no caminho de volta.
Não ao era ela muito esperta de cativar crenças com atitudes similares a essa, mas acreditava muito no amor que se faz a convite, a empréstimo a concessão no de outra pessoa. Eu já não tinha idade para seriedades, mal escutava o desaforo de seu rosto e garganta, segurando aquele pastel de queijo, (onde até o momento eu procurava o queijo extinto talvez até antes do surgimento do pastel), com os pequenos dedos marcados com o relevo das primeira aulas de violão.
"Me prometa que entendeu" - disse sua forma de me olhar.
Cercado por aqueles olhos tive que me decidir.
Escolhi ser o direito, o olho direito que já secara e não dava sinais de seu passado.
"Me prometa que entendeu" - disse sua forma de me olhar.
Cercado por aqueles olhos tive que me decidir.
Escolhi ser o direito, o olho direito que já secara e não dava sinais de seu passado.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
gosto de castanhas
Começou enquanto eu buscava algumas pastas para arquivar
documentos que tinham recentemente chegado ao Museu, processos antigos, do tempo de Duque de Caxias. Desci para a salinha azul, um pequeno
amontoado de centímetros onde guardamos material de escritório, e ao abrir uma
das gavetas do armário me deparei com um seguimento enorme de lápis novos,
perfeitamente apontados e prontos para o uso. Não resisti em pegar um deles,
mas antes pensei em alguma rápida
estratégia para não machucar algum dedo com o perigo afiado desses objetos
novos.
Foi nesse momento que me veio então. Meus olhos
levitaram-se, e por segundos, já sentia em mim um cheiro de laranjeiras. Eu
havia me transportado para um local aprazível, inclinado ao magnífico. Parecia
um parque de uma grande cidade, mas não
era nenhuma das quais eu conhecia aqui do sul. As árvores tinham troncos altos
e grossos, limitavam a presença do sol redesenhando os contornos de sua luz. Eu
me sentia protegido e de certa forma triunfante, como alguma conquista pessoal
tivesse me levado para li. Havia farelos de castanhas em minha boca, e eu
lutava para engoli-las decentemente.
Dois meninos jogavam cartas em minha frente, enquanto isso, dois cães
observavam o jogo com um certo interesse. O vento batia quente em meu ombro,
enquanto eu virava-me toda hora em busca de um convidado que encontrava-se
atrasado. Apesar de uma certa angústia que amplifica o grito dos dedos, havia
algo de paz que me assegurava um certo descansar.
Logo voltei dessa paisagem. No retornar, percebi que o lápis que
eu provavelmente escolhi com um delineado filtro de gosto estava no
chão. A esbelta ponta havia perdido um pouco de seu poder, rachada, deixou
resquícios em forma de farelos de grafite no carpete. Ficara lá, dessa forma
mesmo, desenhando um tipo abrupto de choque ou queda, registro do momento em
que me veio tal lembrança.
Desde então, essa memória tem me acompanhado nos trens e
trilhos e não faço ideia qual seja sua origem. No início, não dei muita atenção
ao fato. Há dias que havia em meu pulso uma fadiga larga, que amassava para o
abate meu pequeno corpo, o dando sono e cansaço. A rotina abatida de meu
trabalho tinha o poder de dar flechas certeiras aos ponteiros do relógio. Por
isso, julguei que poderia ser um estado de vigília, um princípio de sono, ou
seja, uma manifestação anacrônica do oceano enigmático que o inconsciente
sustenta. Porém, me mantive curioso. No mesmo dia havia de ter de encontrar
Oscar. Enquanto eu o esperava na charutaria esquisita na qual ele mesmo havia
escolhido, tintilou novamente a recordação daquela lembrança. Horas depois,
quando de pijama me ofereci ao sono, desviei a culpa de minha insônia, antes
devida ao pássaro irritante da vizinha de cima, para o mistério daquela
lembrança. Não conseguia parar de pensar de onde tinha vindo aquilo.
Quando dormi, finalmente, sonhei com a antiga casa de Bagé.
As brigas de mamãe e vovó, que estranhavam-se por vários motivos sendo o principal
a insistência de minha vó por dar passe livre aos animais campeiros na sala de
estar. Quando dirigiam-se a mim, ambas adotavam maneiras pessoais porém
igualmente aconchegantes de carinho, e aqueles tempos de infância constam como
os melhores quando a questão é sossego. Talvez pudesse ter algo a ver com esse
tempo pensei. Algo que, quando menino na estância, vivi, ficou guardado e só
despertou recentemente de meu caderno de anotações. Era uma solução à altura,
mas logo a descartei, pois não havia parque como aquele na cidade. Terminei meu
salgado, e voltei ao trabalho no museu.
Passou-se meia
semana. Eu já havia eliminado todas as
possibilidades prováveis em relação a memórias da juventude até agora. A viagem
para o Uruguai ou o acampamento nas Missões, nada fechava em tantos elementos.
Percebi então que eu poderia estar sendo um tolo. Talvez, tal memória pudesse
ter sido de algum filme que eu assisti ou algum livro, que por deslize,
assimilei como sendo uma narração pessoal, quando na verdade, nem a própria
ficção da lembrança poderia ter sido por mim elaborada. Os últimos filmes que assisti
tinham sido, na maioria, filmes frios. Um documentário sobre as florestas da
Sibéria, uma obra de Ozon,e, novamente uma trilogia de Sukurov que nem
lembro-me direito. Quanto aos livros, lia e muito para o meu mestrado em
História Contemporânea, e Woolf e Prado júnior eram caminhos descartáveis para
a solução chaveada. Ainda assim, depois de tanto silêncio devotado para tentar
concentrar-se nessas possibilidades, e análise apuradas das obras, desbanquei o
queixo com um suspiro na fronteira de ser classificado como um angustiante
grito.
Não acredito na crença que discursa sobre vidas passadas.
Então nem me dispensei para pensar sobre isso. O que mais me incomodava é que
eu sabia que possivelmente essa turbulência agrediria minha rotina para sempre.
A tal imagem que me elevava a um tipo perto da paz poderia levar a combustão
minha paciência, tornando-se uma pedra em meu sapato até eu estando em completa
nudez. Não queria em mim retrato de agonia semelhante a essa descrita para
sempre.
Eu precisava de novas pistas, porém, havia uma barreira.
Fazia tempo que não me vinha a lembrança, e esse tempo era uma brecha na qual o
esquecimento fazia de palco para aparecer. A distância da imagem me fazia
perder os detalhes, tornar a recordação borrada, e eu não podia confiar nos elementos
instáveis que me viam a mente quando pensava na memória. Ela esfacelava-se, e ficava em minha apenas a
sensação do estar lá. As folhas daquelas árvores apodreciam e aqueles meninos
envelheciam e iam ao pó. Precisava, portanto, esperar o momento que a dita
memória decidisse me visitar. Aguardar o seu engatilhar atento.
Em uma sexta-feira a noite, enfim, me veio. Solitariamente,
em meio a alguns grupos de pessoas que alto falavam bebiam e fumavam, enquanto
pensava na possibilidade de não aparecer para trabalhar na semana que estava
por vir, tive novamente renascida aquela sensação de proteção e paz. Aquela
agonia da dúvida perfuradora sumiu, e enquanto isso, eu apenas aproveitava
aquela adocicada paisagem. Uma sensação nobre de quem sabe que algo bom está
por vir, não importa que as pegadas do desastre sejam grandes e apontem para o
bairro de dormir. Enquanto tudo acontecia, falhei em tentar captar os mínimos detalhes
que poderiam ser pistas preciosas para posteriormente pensar na resolução do
mistério. Não me atrevi a ter atenção. Apenas deixei o tempo passar em mim
dando o meu tempo como veículo para que a recordação pudesse existir.
Novamente, quanto passou o espetáculo, retornei a clausura de meus pensamentos.
Irritava-me não ter poder sobre minha própria mente, que dirá, de meu destino.
Se esqueci daquilo, imagina o quanto do meu vivido pode ter desaparecido? Um
esforço em vão, um sacrifício de passado para que um futuro (que não se
mostrava por enquanto dos mais merecidos) pudesse tranquilamente surgir. Pensei
em voltar para a cultura dos diários que tive enquanto adolescente, mas me
pareceu uma besteira. Talvez esquecer seja o melhor que possamos fazer para
conservar o róseo de nossos rostos pensei, enquanto sentiam-me uma vítima da enganação
propiciada pela demência estoneante de minha mente. Talvez o custo da idade
fosse não lembrar das coisas e assim não poder voltar .
Logo logo, minha dúvida começou a mudar de foco. Cada vez
menos me importava onde eu estava, mas sim, saber quem era a pessoa que eu
esperava se tornou a dúvida principal. Talvez essa pessoa me ajudasse a saber
quando isso ocorreu, e me contaria quando, afinal, que tudo se deu, e talvez
ainda, me de um motivo para saber porque eu não recordo facilmente essa
memória.Ou simplesmente, saber quem era me faria lembrar na hora de todo o
resto. Ainda, de certa forma, a tal pessoa era responsável pelo filete de
agonia que quebrava a bela sensação da lembrança, a única centelha de incomodo
daquilo tudo. Precisava saber o final daquela tarde.
No sábado seguinte, vivi momentos de fobia. Senti-me um
velho por não poder recordar minhas próprias criações, rir e orgulhar-se de
minhas próprias atitudes que transpuseram-se ao eterno através do esquecimento.
Há anos sentia a idade rondando meus freios, mas nunca quis assumir tal
condição. Talvez fosse hora.
Uma coisa era certa.
Com absoluta certeza aquela lembrança não tratava-se de uma invenção. Devorei
Freud e seus apóstolos, mas o mais importante, me mirei certeiro. Não era bobo
ou criativo o suficiente para gerar tal arapuca.
Domingo de manhã resolvi passear. Há um sorvete artesanal
muito bom perto de um ótimo sebo no centro, no qual costumo ir. Na situação
estranha, entre colheradas de melado com creme gelado e tentativas de esmaecer
a mente nos versos de Juan Ramón, que tudo teve um fim. Entre uma pálpebra
confusa e outra, acordo de algum poema com a voz inconfundível de Antônia. Ela
está posta ao meu lado, e já já puxa uma cadeira para sentar-se. Tinha me
esquecido que ela morava ali por perto. Com todo egoísmo de meus pensamentos,
que só dedicados aaquele acontecido, nem passou o fato por minha cabeça, se não
poderia tê-la até convidado para um chá e dividir com ela o atual drama.
Antônia tem um rosto cumprido e cuida-se de um jeito estranho, usando
utensílios de beleza adversos, porém, conservando um ar cansado nas rotas de
seu rosto, mais derrotado que o normal para alguém de sua idade, dona de uma
certa beleza. Ultimamente começamos novamente a nos afeiçoar de forma amiga um
pelo outro. Nos encontrávamos toda a semana, com exceção das últimas pois ela
estava em São Paulo a trabalho. É uma mulher inteligente com quem as horas
nunca são perdidas.
Não resisti a informá-la da minha situação. Já tinha tentado
a explicar anteriormente para Oscar, mas sua sobrancelha tinha ficado demais
inquieta com meu relato. Jurando ter sido uma de minhas frescuras mandou eu esquecer e lembrar de alguns prazeres da
vida que estão longe da esquina do chatear-se com tudo. Antes dela por-se a contar
das ocorrências vividas em São Paulo (detesto ouvir falatórios e narrações de
viagem), a interrompi de forma brusca. Quieta, a mulher ouviu meu relato até a
última palavra. Surpreso com a falta de interrupção pela parte dela, tentei
usar tantos detalhes que no final tinha esgotado o que dizer, mesmo que tenha
sentido que seus olhos ansiavam por mais informações, me emudeci.
Depois de um tempo, visivelmente atingida, Antônia deixou a
confortabilidade da cadeira e levantou-se para sinalizar uma fuga ou abandono.
Tristemente decepcionada, deu-me para meu mistério uma data e um local:
“ Agosto de 82, Praça
do Reino”
Continuei confuso, e pretendendo entender de vez aquilo
tudo.
“Esperei você até perto da noite, mas você não veio, muito
menos avisou. Fiquei lá sozinha, a ver o dia
morrer, ”
Antônia foi embora de forma silenciosa, talvez sem pensar em
ver-me novamente. Naquele momento uma leve felicidade me aportou. Acalmei-me
como nunca antes, enquanto os nervos aterrissavam
da tontura em um acamado descanso. “Nada escapa a essa mente que nada esquece”,
pensei. Minha idade estava absolvida. Posso dizer que encontrava-me em paz.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
as bibliotecas
Talvez que agora não imaginaria como arranjar cem poloneses típicos, ou figurantes que se passem pelos tais poloneses, sem contar roupas originárias da Cracóvia do século XIX, sem contar com uma estação de trem do início da idade férrea brasileira, porque afinal de contas, eram-se necessários dois minutos de uma cena que era justamente essa: “enquanto na cidade de Ijuí os poloneses desembarcam ao fundo, Gestão ( o cachorro), segue aqueles que possuem as barras das calças mais apetitosas para seu focinho”.
Que agora só desviava a atenção para a falta de concentração, como o rastro dos caracóis embaixo da mesa do café, a menina que rouba dinheiro da própria mãe só pelo divertimento de superioridade, embora as chuquinhas coloridas, cuidadosamente arranjadas por uma mão estrangeira demonstre o oposto, a cerca da praça abaixada dividindo o chão com as pedras, a e olhe lá, um cachorro com patas finas e dorso preenchido, bigodes feito farpas e olhar imbecil, poderia ser ele o tal cachorro, o tal Gestão, será que se encaixa? as orelhas finas tal como descrito no script e a cor malhada para transparecer uma certa miscigenação que acabava em um tal de não-pertencimento, um devir no estrangeiro.
Que talvez eu fosse muito chata e minha própria natureza não era daquelas de pátio largo, de terra abundante, que permita a outros hastearem seus próprios guarda-sóis e cadeirinhas, piqueniques, que não entende um compartilhamento, uma presença, ou simplesmente uma conversa ( esse stage dos olhares que atiram e que quando acertam nada morre, mais vive, vive mais), um papinho de tarde, na praça, faz quanto tempo mesmo que não nos vemos? E o que mais reconheço é essa dispersão.
Uma conhecida falta de interesse. É de sol o dia, a mesa está na varanda tal como o palco de todos os domingos, os avós se sentam a mesa, a tia lúcida por loucura da doença, um gato (acho que Rodolfo o nome) sai do colo do pai para buscar com os dentes uma borboleta que tonta dá piruetas longe de um processo de brincadeira, mas sim de conseqüência de idade avantajada, e um pulo do felino é o bastante para que seu tempo pare de contar. O restaurante dos primos vai bem, as férias já estão planejadas, aspargos e azeite decoram o linguado irreconhecível pelas queimaduras que entende-se na travessa de madeira sobre a mesa. Ouve-se um grito, é a mãe, é só a mãe, sozinha no quarto impossível de andar, com um bolsão de água abaixo de seus pés, impossível de nadar, com seu reflexo de pavor no próprio espelho do líquido. Eram 13h15, seu irmão mais novo avisará que estava para chegar e você aproveitava a submersão de todos nessa história, para poder dar uma fugidinha rápida, andar lá pelo calçadão, encontrar um namoradinho quem sabe, o parelelismo de sons dos rolinhos de água no rio ao alcançar a margem com as de suas línguas suadas em giro, em busca do que todos prometeram que era divertido, que era o início do melhor.
Ou não. Mas sei que poderia ter sido assim, porque afinal, seu plano deu certo, todas as idades ficaram entretidas com sua mãe e seu irmão, vovô foi pegar a câmera, o pai correu para o quarto jogando tudo que era estampado com personagens infantis dentro de uma grande bolsa (depois de três filhos ainda não sabia do que precisava um recém-nascido), a avó tentava explicar para a tia o que estava acontecendo enquanto a tal doença não cooperava jogando a senhora para os anos 1900 e letrinhas, e eu me deixava chorar sem ninguém saber, parte por ninguém experimentar aquele peixe cuja morte foi em vão e eu ajudei a preparar com as medidas contadas em uma balança de cozinha, parte por não saber que eram esse irmão que estava chegando e o que ele queria. Claro que chegou um momento que percebemos que faltava você, onde estava você e tudo. Tio Anselmo foi atrás de você a partir das minhas informações garimpadas há muitas semanas, te encontrou por ai, a levou para o hospital. E depois do menino nascer, mesmo assim, todos continuavam dedicados tão somente a isso que nem papai lembrou-se de te dar um grito, uma surra, um interrogatório e até hoje não sei por onde você andou ou o que fez, foram tão poucas as conversas, diálogos de resumos.
E agora mantém os olhos caídos, no que poderia ser um sinal de submissão ou respeito, mas que na verdade é o signo de uma distância, de uma altura por onde seus pensamentos rodeiam, tão a cima, onde nunca poderei escalar mesmo com algum suborno em qualquer sentido. Me detenho em seus dedos enquanto um desses mágicos de rua nos escolhe para suas palhaçadas, como se não fosse fácil perceber que ali nenhum feitiço duraria, se instauraria com facilidade, não sei porque julgou que havia harmonia para ser quebrada e foi o que fez com seu rosto pintado, sendo constantemente remaquiado pelos novos cordões de suor, perto da testa, que não paravam se surgir, culpa do verão, culpa do trópico, culpa de uma maior intimidade com os baralhos do que com os seus planos. As suas cutículas são envezadas, não tão dóceis, você ainda não as tira buscando embelezamento, você ainda não se preocupa com as próprias decisões do corpo por ele mesmo. Seus dedos são cumpridos, são os dedos que sempre quis ter, aos quais associei a excelência no piano e no vôlei de praia, dedos como os da tia Irene que hoje ninguém mais lembra mas se te olhassem, recordariam do jeito delirante e despreocupado que aquela mulher possuía de tocar gaita nos bares do interior, músicas em francês recheadas de cenas de bordeis, histórias trágicas de prostitutas, sexos que deram bem sexos que deram mal, mas ninguém entendia mesmo, embora gostassem muito o público do bar Veneza, o principal de Eldorado. Tão grande é essa aversão, ou até mesmo, essa agressão com seu corpo, e mesmo assim você permanece contentora de uma beleza assustadora que as pessoas não entendem, e assim gostam ainda mais.
O mágico continua com suas palavras mal conjugadas, das quais eu nem percebo, até o momento em que ele resolve levar o braço perto do seu rosto, sua mão chega a tocar o lóbulo de sua orelha direita, você meio que ri nervosa não diz que não gosta, e daquele contato ele tira uma moeda de prata da republica Del Uruguay, muito antiga. Bastou um movimento tão clichê para ele tocar em você, uma desculpa tão pouco engenhosa, rotineira até. Conheço até bem a capacidade de seus ouvidos, a hora em que você os desliga propositalmente dona de grande insensibilidade, ou quando eles trabalham como uma folha, recolhendo apenas as manchetes que os interessam. Mas de fato a curvatura de suas orelhas e o caimento pós-cartilagem, aquela coisa sempre em queda onde de vez em quando você usa do brilho de um brinco para demonstrar um amor-próprio, um chamamento, eu desconheço por completo, ainda mais com nossos braços sempre faltando uma finura para um encontro, sempre algo está nesse entre, uma avenida, um cabo de telefone ou essa mesa, na qual agora nos encontramos.
Foram dez minutos que se foram, gastos por um fósforo desconhecido, sem nenhum peso fecundo o bastante para não levitar da memória. Mas posso jurar que você tenha gostado dessa intromissão, aliás, o acaso sempre te tratou como uma filha querida, uma pupila, sempre com olhos de conforto, bóias estratégicas em cada geografia, agasalhos correspondentes a térmica de cada dia, de cada situação. Uma bolsa de estudos em Cuba, os lábios tidos sem esforço das presas, a exposição de Velásquez justo naquele dia, a desenvoltura social típica dos bons malabaristas. Claro, as dificuldade também. Sempre postas em lugares estratégicos, com cabines de emergências e ambulâncias a fazerem a escolta de seus passos. Um braço quebrado aos nove, um acidente de bicicleta aos 14, uma quase gravidez aos 16. Uma tristeza daquelas sem sal, fácil de se afogar, como uma marca de nascença impressa nas irregularidades da pele, salvo o aparecimento de qualquer tentativa de esconderijo. Porém diferente nesse sentido. Você gostava de a exibir, esbanjar uma solidão para todos, um tipo de solidão que fazia de você intocável e atribuía a ti a impossibilidade. No Santa Inês, as professoras só reclamavam das temáticas das redações, sempre com alguns neologismos trava-línguas e algumas vezes caindo ao ilícito, pervertido é a palavra, mas as notas se mantinham acima da média com o mesmo esforço de um ser de asas a pairar a favor de uma corrente de ar, não incomodava no geral, tinha uma oratória desenvolvida com assustadora segurança se comparada a falta de maturidade de sua formação dentária, mantinha um fôlego saudável para os esportes, se dava bem com a maioria dos estudantes, embora meio estranha dentro daqueles par de calças jeans Levis apertados e camisetas picotadas a exibir em sua estampa a discografia, variando o dia, dos anos setenta por inteiro.
Claro que eu não entendia. Aliás, quando eu nasci você já existia por completa. E sobre você, eu nunca soube o que pensar. Observava equilibrada na pura atenção, por exemplo, a sua maratona cotidiana: o levantar às 7h45, o alongamento das pernas com o auxílio da pia do banheiro, o lavar a cara sem olhar a cara, a música soando de sua direção (hoje sei que a maioria delas é de autoria do Caetano), o chá rápido e a saída pela porta da frente sem nenhuma palavra solta com endereço humano. Acredito que nesse sentido, fui a sua primeira platéia fervorosa, e estava sempre presente. Ao mesmo tempo que essa ausência se construía, você estava tão presente mesmo quando não voltava para casa. Já vi mamãe sentada na cama a encarar as pernas sem ver, chorando vagarosamente com uma delicadeza controlada, uma impressão de costume, e do vão da porta sabia que aquele vermelho dos rosto era sua obra.
Na casa da vovó, tenho certeza. Eu tentava ler um livro seu, de Murilo Rubião, permeado de anotações elaboradas em qualquer espaço do vácuo da tipografia, tentando no vocabulário dos onze anos encontrar uma representação de mundo a partir daquelas palavras. Vovó e mamãe conversavam sobre Estéfano, nosso irmão há cinco anos. As crises de asma assustavam, além disso, havia alguns problemas com seu coração. Apesar de sua saúde incompleta, foi ao falar de você que vovó sentou-se mais perto e pôs-se a fazer calor com suas mãos em colcha nas mãos de mamãe. Era isso um medo de te perder de qualquer maneira, sem nenhum motivo que se demonstrasse sólido, acredito.
Tinha medo de você me ver como adversária, ou não reconhecer no meu rosto, os olhos e cabelos claros tão inexistentes em ti, uma familiaridade óbvia. E o próprio ato de conversar com você me fazia às vezes sentir um resfriado no peito, uma pisoteada quente no rosto, um planejamento prévio, antes de dormir domar as palavras com a cadência e conteúdo estudados como receita, para garantir sua aprovação. Mas independente de minha geniosa obra frasal, a sua resposta era sempre com palavras curtas e breves sem a companhia de um visto compenetrado. A atenção de seus ouvidos tinha de ser disputada com tantas outras coisas de seu interesse que eram mais importantes para você do que eu, o que fazia de mim sempre uma fazedora de incômodos, um atraso sem escalas. Ainda lembro, em uma vez rara vez, que nasceu e morreu no mesmo dia, você me disse - enquanto uma lágrima armava-se no encontro de suas pálpebras rochosas e branquiadas – “a coisa mais importante no mundo que você pode dar para alguém são seus ouvidos”. Naquele tempo infelizmente eu ainda não tinha idade para seriedades, mal escutava o desaforo de seu rosto e garganta, segurando aquele pastel de queijo, onde até o momento eu procurava o queijo, que eu suspeitava já estava extinto antes mesmo do surgimento do pastel, com os pequenos dedos habitados pelo relevo das primeiras aulas de violão, nada entendi. “É preciso ouvir com os olhos, ou até a pele, o corpo todo, menos com os ouvidos”, dizia você, e eu nem percebia que aquilo era obra de uma tristeza que traz consigo um esclarecimento. Mais tarde aprendi que respeito para você flerta com desprezo, e passei a testar isso em toda oportunidade que surgia.
Talvez que seu vôo poderá atrasar amanhã, mas mesmo assim é preciso chegar antes ao aeroporto, São Paulo precisa de você no dia seguinte em pé e com café tomado. Talvez que ainda falta visitar Cleo e Vitor, Magali e Núbia, e tomara que essa última ande melhor, que você não agüenta mais tirar conselhos de onde não há para que ela saia daquele apartamento e descave do quintal da desistência todas as coisas que importam. Talvez, entre uma colher e outra do chessecake de amoras, você olhe para mim rapidamente, esparrame o olhar no curto dos meus cabelos, faça graça do aro de meus óculos, e até respeite a minha tentativa de tentar parecer interessante. Temo um medo de no fim, ter me tornado muito parecida com a mulher que você sempre foi, um tipo de aço que não serve para construções, uma represa infértil, uma felicidade enjaulada, uma proteção que imita as das garras. Esses olhos com o enquadramento de uma cela que não existe, a emoldurar momentos mas não os deixar visíveis em nenhum corredor, a ninguém. Mas eu sou a pessoa que ficou, provavelmente, a que sempre vai ficar, e você, uma burladora de muros, mesmo que tenha todas as chaves, todos os códigos, apela pelas fugas, aquela que não reconhece o portão de sua casa no quarteirão, aquela que sempre vai embora.
Estamos agora em nossa cidade. A cidade em que você cresceu e abandonou, a cidade em que eu cresci já no seu abandono. Tantos cinemas novos aconteceram e sumiram pelos bairros, tantas coisa que não chegou até você. Eu resolvo pedir mais uma água e você também. O garçom mais jovem do que nós duas resolve estender a nós um convite e conversa. Pergunta se somos daqui ou estamos apenas de passagem, se viemos para a Bienal, ou talvez a Feira do Livro, se já vimos alguma peça legal da cidade e encaixado nisso, tudo na mesma chance ele acrescenta, que uns amigos estão na temporada com uma peça bem “legal”, algo baseado em Vera Karam ou coisa assim, mas que ele recomenda e se necessário, até nos acompanharia em alguma sessão. Eu apenas respondo que somos daqui, enquanto você, diz que está de passagem e que já perdeu seu interesse por montagens da Vera, há um bom tempo. É incrível mas percebo que até o garçom, talvez nem ele saiba, mas está puxado por você. E se ele resolvesse me perguntar algo sobre ti, quando eu for ao banheiro ou algo do tipo, se ele tocar na sua intimidade, eu não serei útil em nada, por pura ignorância de assunto. Você nunca chegou até nós com um namorado, a notícia de um namorado ou algo do tipo. Embora mais tarde eu tenha conhecido pessoas que estavam atrás de você, nunca te vi com ninguém e das tuas relações só conhecia alguns amigos de vista. O garçom ficou um tempo em silêncio, e pergunta se somos irmãs. Admito que me surpreendi, e o espanto inicial me deixou toda mudez. Olhei para você, à espera da resposta, que veio ao natural, um simples sim, sem nenhuma pitada de desdém. Me pergunto de onde ele tirou tal idéia, como ele percebera isso de uma ausência de sinais. Um silêncio tímido e duas anatomias tão diferentes não o levariam para esse caminho. Quando ele enfim retorna para seu trabalho, percebo que o conheço, é um amigo de Estéfano, do tempo do colégio. Nem deve saber que ele está morto.
Eu te pergunto porque não foi visitar nossos pais, você mexe na bolsa até lembrar que o cigarro largou por uma promessa, há algumas semanas. “Você não sabe como são essas coisas, não posso ir lá, ainda”. Você me subestima, como se eu não tivesse condições de entender o seu medo. Conheço seu medo e o tamanho exato para a cova desse. Mas calo-me porque não te quero triste agora. Para mim, pouco importa as tuas visitas a terra natal as tuas demonstrações de afeto, não sofro mais, mas sim os outros, os que não desistiram. Começo a repensar a idéia de vir aqui, te encontrar nesse café, como se fossemos tão chegadas e isso fosse um costume. Começo a detestar essa vista que levarei ao fechar os olhos, o Guaíba sem nenhuma agressão do vento, o cais beneficiado pelos arames soltos pelo sol. Começo a detestar a ti, sem reconhecer nada em teu corpo, com vontade de entender a espessura de tua pele pela ação de um tapa, um soco. Queria me levantar e colocar minhas mãos ao redor de sua cabeça, a firmando contra a minha, controlando a quantidade de luz de tuas pupilas, a tua visão e se possível teus pensamentos, e depois, ir embora, leve. Você resolve tentar uma conversa, vejo que sua saliva se esgota antes de começar a falar, está nervosa. Fala que leu meu livro mas não gostou do final, que realmente, pensamos a vida por lentes de tamanhos bem diferenciados. Comentou que reconheceu algo nos personagens, e principalmente, se identificou um pouco em Virgínia, aquela negligência consigo própria, e uma solidariedade velada, até vergonhosa com os ademais, um desejo de posse por aversão, um pacto com o tempo de ele não esquecê-la em vão. Eu permaneço inerte, tentando descobrir o que você realmente quer falar, até que mudando de assunto e de órbita geral, você me pergunta, na tentativa de uma normalidade de fala, “como estava o enterro?”. E viajo por completa par o mês do outono, junho, um dia mal-morado, com tendência de agressão pela chuva, o silêncio das planícies de gelo, todos com a impossibilidade de encarar uns aos outros, vovó ainda viva resmungando baixinho protegida pelo braços de um de nossos primos, papai depois de promover murros na parede do hospital a utilizar as mesmas mãos, agora com alguns machucados a cicatrizar, para abraçar mamãe, em especial tapá-la os olhos. Eu acertando os últimos detalhes na secretaria, como se aquilo tudo fosse um show eu o produzisse nos mínimos detalhes. Volto e re-loco o olhar a sua face, tranqüila, lhe digo “como todos os enterros de garotos jovens, triste e assustadoramente injusto”. Não dou mais nenhum detalhe, não a passo o conhecimento desse sofrimento, como é saber que o coração possui um tempo físico, de relógio, e cada dupla batida corresponde a um segundo a menos de um estoque com nível à baixo do normal. Você estava aonde mesmo? Marrocos, filmando uma reportagem sobre colonização francesa, rodando um filme no interior de Moçambique, cercada de morte por todos os lado, do pior tipo, a morte em potencial. E pegar um vôo, e o tempo, e o contrato, e o incomodo. Agora você me aparece e pergunta sobre esse irmão, sobre o meu, inclusive. Voltamos ao silêncio das construções antigas. Os passos que por mais leves geram chiado nas madeiras velhas. Claro que você já pode ir embora. Claro que já se passaram três horas e nós insistindo.Por algum motivo você veio a essa cidade e resolveu visitar só a mim. E agora, tento adivinhar quase como um divertimento a hora exata que você se mostrará realmente você e partirá com uma das desculpas sorteadas de seu armazenamento mental elaborado empiricamente ao comprimento dos anos.
De alguma forma, agora te olho e sei tudo, mas você não se assusta, permanece intacta como uma árvore antiga após a passagem da cor cinza-escuro pelo céu. Há algo que nos aproxima e que dividimos mutualmente, o mesmo algo que nos faz permanecer em silêncio sobre essa mesa, sem vontade de abandonar esses assentos, praticando o ato de permanecer à mercê de uma impossibilidade que só a insistência pode trazer, de preferência uma de bico longo e faminto. É um tipo de desespero que nos impede de levantar e decidir por uma entrega ou um abandono, pelo encontro ou pela despedida e transforma nossas pernas, nosso movimento contido, em âncora e chão. E se a falta pode preencher, foi em nossa família que ela explorou suas formas. Herdamos eu e tu o medo da correspondência, mesmo que fechar os envelopes já seja uma maneira de ler, mesmo que o desvio já seja uma maneira de dependência, a nossa ligação está em cada tentativa de corromper os fios, em falhar a voz.
Nunca é fácil fazer parte da história de alguém, o passado nos rebaixa a meros leitores, é um livro que ganha suas páginas nos olhos dos outros. E nós somos aquelas que escutam pelos olhos, lembra?, uma biblioteca inteira nos impede de sair dessa mesa.
Que agora só desviava a atenção para a falta de concentração, como o rastro dos caracóis embaixo da mesa do café, a menina que rouba dinheiro da própria mãe só pelo divertimento de superioridade, embora as chuquinhas coloridas, cuidadosamente arranjadas por uma mão estrangeira demonstre o oposto, a cerca da praça abaixada dividindo o chão com as pedras, a e olhe lá, um cachorro com patas finas e dorso preenchido, bigodes feito farpas e olhar imbecil, poderia ser ele o tal cachorro, o tal Gestão, será que se encaixa? as orelhas finas tal como descrito no script e a cor malhada para transparecer uma certa miscigenação que acabava em um tal de não-pertencimento, um devir no estrangeiro.
Que talvez eu fosse muito chata e minha própria natureza não era daquelas de pátio largo, de terra abundante, que permita a outros hastearem seus próprios guarda-sóis e cadeirinhas, piqueniques, que não entende um compartilhamento, uma presença, ou simplesmente uma conversa ( esse stage dos olhares que atiram e que quando acertam nada morre, mais vive, vive mais), um papinho de tarde, na praça, faz quanto tempo mesmo que não nos vemos? E o que mais reconheço é essa dispersão.
Uma conhecida falta de interesse. É de sol o dia, a mesa está na varanda tal como o palco de todos os domingos, os avós se sentam a mesa, a tia lúcida por loucura da doença, um gato (acho que Rodolfo o nome) sai do colo do pai para buscar com os dentes uma borboleta que tonta dá piruetas longe de um processo de brincadeira, mas sim de conseqüência de idade avantajada, e um pulo do felino é o bastante para que seu tempo pare de contar. O restaurante dos primos vai bem, as férias já estão planejadas, aspargos e azeite decoram o linguado irreconhecível pelas queimaduras que entende-se na travessa de madeira sobre a mesa. Ouve-se um grito, é a mãe, é só a mãe, sozinha no quarto impossível de andar, com um bolsão de água abaixo de seus pés, impossível de nadar, com seu reflexo de pavor no próprio espelho do líquido. Eram 13h15, seu irmão mais novo avisará que estava para chegar e você aproveitava a submersão de todos nessa história, para poder dar uma fugidinha rápida, andar lá pelo calçadão, encontrar um namoradinho quem sabe, o parelelismo de sons dos rolinhos de água no rio ao alcançar a margem com as de suas línguas suadas em giro, em busca do que todos prometeram que era divertido, que era o início do melhor.
Ou não. Mas sei que poderia ter sido assim, porque afinal, seu plano deu certo, todas as idades ficaram entretidas com sua mãe e seu irmão, vovô foi pegar a câmera, o pai correu para o quarto jogando tudo que era estampado com personagens infantis dentro de uma grande bolsa (depois de três filhos ainda não sabia do que precisava um recém-nascido), a avó tentava explicar para a tia o que estava acontecendo enquanto a tal doença não cooperava jogando a senhora para os anos 1900 e letrinhas, e eu me deixava chorar sem ninguém saber, parte por ninguém experimentar aquele peixe cuja morte foi em vão e eu ajudei a preparar com as medidas contadas em uma balança de cozinha, parte por não saber que eram esse irmão que estava chegando e o que ele queria. Claro que chegou um momento que percebemos que faltava você, onde estava você e tudo. Tio Anselmo foi atrás de você a partir das minhas informações garimpadas há muitas semanas, te encontrou por ai, a levou para o hospital. E depois do menino nascer, mesmo assim, todos continuavam dedicados tão somente a isso que nem papai lembrou-se de te dar um grito, uma surra, um interrogatório e até hoje não sei por onde você andou ou o que fez, foram tão poucas as conversas, diálogos de resumos.
E agora mantém os olhos caídos, no que poderia ser um sinal de submissão ou respeito, mas que na verdade é o signo de uma distância, de uma altura por onde seus pensamentos rodeiam, tão a cima, onde nunca poderei escalar mesmo com algum suborno em qualquer sentido. Me detenho em seus dedos enquanto um desses mágicos de rua nos escolhe para suas palhaçadas, como se não fosse fácil perceber que ali nenhum feitiço duraria, se instauraria com facilidade, não sei porque julgou que havia harmonia para ser quebrada e foi o que fez com seu rosto pintado, sendo constantemente remaquiado pelos novos cordões de suor, perto da testa, que não paravam se surgir, culpa do verão, culpa do trópico, culpa de uma maior intimidade com os baralhos do que com os seus planos. As suas cutículas são envezadas, não tão dóceis, você ainda não as tira buscando embelezamento, você ainda não se preocupa com as próprias decisões do corpo por ele mesmo. Seus dedos são cumpridos, são os dedos que sempre quis ter, aos quais associei a excelência no piano e no vôlei de praia, dedos como os da tia Irene que hoje ninguém mais lembra mas se te olhassem, recordariam do jeito delirante e despreocupado que aquela mulher possuía de tocar gaita nos bares do interior, músicas em francês recheadas de cenas de bordeis, histórias trágicas de prostitutas, sexos que deram bem sexos que deram mal, mas ninguém entendia mesmo, embora gostassem muito o público do bar Veneza, o principal de Eldorado. Tão grande é essa aversão, ou até mesmo, essa agressão com seu corpo, e mesmo assim você permanece contentora de uma beleza assustadora que as pessoas não entendem, e assim gostam ainda mais.
O mágico continua com suas palavras mal conjugadas, das quais eu nem percebo, até o momento em que ele resolve levar o braço perto do seu rosto, sua mão chega a tocar o lóbulo de sua orelha direita, você meio que ri nervosa não diz que não gosta, e daquele contato ele tira uma moeda de prata da republica Del Uruguay, muito antiga. Bastou um movimento tão clichê para ele tocar em você, uma desculpa tão pouco engenhosa, rotineira até. Conheço até bem a capacidade de seus ouvidos, a hora em que você os desliga propositalmente dona de grande insensibilidade, ou quando eles trabalham como uma folha, recolhendo apenas as manchetes que os interessam. Mas de fato a curvatura de suas orelhas e o caimento pós-cartilagem, aquela coisa sempre em queda onde de vez em quando você usa do brilho de um brinco para demonstrar um amor-próprio, um chamamento, eu desconheço por completo, ainda mais com nossos braços sempre faltando uma finura para um encontro, sempre algo está nesse entre, uma avenida, um cabo de telefone ou essa mesa, na qual agora nos encontramos.
Foram dez minutos que se foram, gastos por um fósforo desconhecido, sem nenhum peso fecundo o bastante para não levitar da memória. Mas posso jurar que você tenha gostado dessa intromissão, aliás, o acaso sempre te tratou como uma filha querida, uma pupila, sempre com olhos de conforto, bóias estratégicas em cada geografia, agasalhos correspondentes a térmica de cada dia, de cada situação. Uma bolsa de estudos em Cuba, os lábios tidos sem esforço das presas, a exposição de Velásquez justo naquele dia, a desenvoltura social típica dos bons malabaristas. Claro, as dificuldade também. Sempre postas em lugares estratégicos, com cabines de emergências e ambulâncias a fazerem a escolta de seus passos. Um braço quebrado aos nove, um acidente de bicicleta aos 14, uma quase gravidez aos 16. Uma tristeza daquelas sem sal, fácil de se afogar, como uma marca de nascença impressa nas irregularidades da pele, salvo o aparecimento de qualquer tentativa de esconderijo. Porém diferente nesse sentido. Você gostava de a exibir, esbanjar uma solidão para todos, um tipo de solidão que fazia de você intocável e atribuía a ti a impossibilidade. No Santa Inês, as professoras só reclamavam das temáticas das redações, sempre com alguns neologismos trava-línguas e algumas vezes caindo ao ilícito, pervertido é a palavra, mas as notas se mantinham acima da média com o mesmo esforço de um ser de asas a pairar a favor de uma corrente de ar, não incomodava no geral, tinha uma oratória desenvolvida com assustadora segurança se comparada a falta de maturidade de sua formação dentária, mantinha um fôlego saudável para os esportes, se dava bem com a maioria dos estudantes, embora meio estranha dentro daqueles par de calças jeans Levis apertados e camisetas picotadas a exibir em sua estampa a discografia, variando o dia, dos anos setenta por inteiro.
Claro que eu não entendia. Aliás, quando eu nasci você já existia por completa. E sobre você, eu nunca soube o que pensar. Observava equilibrada na pura atenção, por exemplo, a sua maratona cotidiana: o levantar às 7h45, o alongamento das pernas com o auxílio da pia do banheiro, o lavar a cara sem olhar a cara, a música soando de sua direção (hoje sei que a maioria delas é de autoria do Caetano), o chá rápido e a saída pela porta da frente sem nenhuma palavra solta com endereço humano. Acredito que nesse sentido, fui a sua primeira platéia fervorosa, e estava sempre presente. Ao mesmo tempo que essa ausência se construía, você estava tão presente mesmo quando não voltava para casa. Já vi mamãe sentada na cama a encarar as pernas sem ver, chorando vagarosamente com uma delicadeza controlada, uma impressão de costume, e do vão da porta sabia que aquele vermelho dos rosto era sua obra.
Na casa da vovó, tenho certeza. Eu tentava ler um livro seu, de Murilo Rubião, permeado de anotações elaboradas em qualquer espaço do vácuo da tipografia, tentando no vocabulário dos onze anos encontrar uma representação de mundo a partir daquelas palavras. Vovó e mamãe conversavam sobre Estéfano, nosso irmão há cinco anos. As crises de asma assustavam, além disso, havia alguns problemas com seu coração. Apesar de sua saúde incompleta, foi ao falar de você que vovó sentou-se mais perto e pôs-se a fazer calor com suas mãos em colcha nas mãos de mamãe. Era isso um medo de te perder de qualquer maneira, sem nenhum motivo que se demonstrasse sólido, acredito.
Tinha medo de você me ver como adversária, ou não reconhecer no meu rosto, os olhos e cabelos claros tão inexistentes em ti, uma familiaridade óbvia. E o próprio ato de conversar com você me fazia às vezes sentir um resfriado no peito, uma pisoteada quente no rosto, um planejamento prévio, antes de dormir domar as palavras com a cadência e conteúdo estudados como receita, para garantir sua aprovação. Mas independente de minha geniosa obra frasal, a sua resposta era sempre com palavras curtas e breves sem a companhia de um visto compenetrado. A atenção de seus ouvidos tinha de ser disputada com tantas outras coisas de seu interesse que eram mais importantes para você do que eu, o que fazia de mim sempre uma fazedora de incômodos, um atraso sem escalas. Ainda lembro, em uma vez rara vez, que nasceu e morreu no mesmo dia, você me disse - enquanto uma lágrima armava-se no encontro de suas pálpebras rochosas e branquiadas – “a coisa mais importante no mundo que você pode dar para alguém são seus ouvidos”. Naquele tempo infelizmente eu ainda não tinha idade para seriedades, mal escutava o desaforo de seu rosto e garganta, segurando aquele pastel de queijo, onde até o momento eu procurava o queijo, que eu suspeitava já estava extinto antes mesmo do surgimento do pastel, com os pequenos dedos habitados pelo relevo das primeiras aulas de violão, nada entendi. “É preciso ouvir com os olhos, ou até a pele, o corpo todo, menos com os ouvidos”, dizia você, e eu nem percebia que aquilo era obra de uma tristeza que traz consigo um esclarecimento. Mais tarde aprendi que respeito para você flerta com desprezo, e passei a testar isso em toda oportunidade que surgia.
Talvez que seu vôo poderá atrasar amanhã, mas mesmo assim é preciso chegar antes ao aeroporto, São Paulo precisa de você no dia seguinte em pé e com café tomado. Talvez que ainda falta visitar Cleo e Vitor, Magali e Núbia, e tomara que essa última ande melhor, que você não agüenta mais tirar conselhos de onde não há para que ela saia daquele apartamento e descave do quintal da desistência todas as coisas que importam. Talvez, entre uma colher e outra do chessecake de amoras, você olhe para mim rapidamente, esparrame o olhar no curto dos meus cabelos, faça graça do aro de meus óculos, e até respeite a minha tentativa de tentar parecer interessante. Temo um medo de no fim, ter me tornado muito parecida com a mulher que você sempre foi, um tipo de aço que não serve para construções, uma represa infértil, uma felicidade enjaulada, uma proteção que imita as das garras. Esses olhos com o enquadramento de uma cela que não existe, a emoldurar momentos mas não os deixar visíveis em nenhum corredor, a ninguém. Mas eu sou a pessoa que ficou, provavelmente, a que sempre vai ficar, e você, uma burladora de muros, mesmo que tenha todas as chaves, todos os códigos, apela pelas fugas, aquela que não reconhece o portão de sua casa no quarteirão, aquela que sempre vai embora.
Estamos agora em nossa cidade. A cidade em que você cresceu e abandonou, a cidade em que eu cresci já no seu abandono. Tantos cinemas novos aconteceram e sumiram pelos bairros, tantas coisa que não chegou até você. Eu resolvo pedir mais uma água e você também. O garçom mais jovem do que nós duas resolve estender a nós um convite e conversa. Pergunta se somos daqui ou estamos apenas de passagem, se viemos para a Bienal, ou talvez a Feira do Livro, se já vimos alguma peça legal da cidade e encaixado nisso, tudo na mesma chance ele acrescenta, que uns amigos estão na temporada com uma peça bem “legal”, algo baseado em Vera Karam ou coisa assim, mas que ele recomenda e se necessário, até nos acompanharia em alguma sessão. Eu apenas respondo que somos daqui, enquanto você, diz que está de passagem e que já perdeu seu interesse por montagens da Vera, há um bom tempo. É incrível mas percebo que até o garçom, talvez nem ele saiba, mas está puxado por você. E se ele resolvesse me perguntar algo sobre ti, quando eu for ao banheiro ou algo do tipo, se ele tocar na sua intimidade, eu não serei útil em nada, por pura ignorância de assunto. Você nunca chegou até nós com um namorado, a notícia de um namorado ou algo do tipo. Embora mais tarde eu tenha conhecido pessoas que estavam atrás de você, nunca te vi com ninguém e das tuas relações só conhecia alguns amigos de vista. O garçom ficou um tempo em silêncio, e pergunta se somos irmãs. Admito que me surpreendi, e o espanto inicial me deixou toda mudez. Olhei para você, à espera da resposta, que veio ao natural, um simples sim, sem nenhuma pitada de desdém. Me pergunto de onde ele tirou tal idéia, como ele percebera isso de uma ausência de sinais. Um silêncio tímido e duas anatomias tão diferentes não o levariam para esse caminho. Quando ele enfim retorna para seu trabalho, percebo que o conheço, é um amigo de Estéfano, do tempo do colégio. Nem deve saber que ele está morto.
Eu te pergunto porque não foi visitar nossos pais, você mexe na bolsa até lembrar que o cigarro largou por uma promessa, há algumas semanas. “Você não sabe como são essas coisas, não posso ir lá, ainda”. Você me subestima, como se eu não tivesse condições de entender o seu medo. Conheço seu medo e o tamanho exato para a cova desse. Mas calo-me porque não te quero triste agora. Para mim, pouco importa as tuas visitas a terra natal as tuas demonstrações de afeto, não sofro mais, mas sim os outros, os que não desistiram. Começo a repensar a idéia de vir aqui, te encontrar nesse café, como se fossemos tão chegadas e isso fosse um costume. Começo a detestar essa vista que levarei ao fechar os olhos, o Guaíba sem nenhuma agressão do vento, o cais beneficiado pelos arames soltos pelo sol. Começo a detestar a ti, sem reconhecer nada em teu corpo, com vontade de entender a espessura de tua pele pela ação de um tapa, um soco. Queria me levantar e colocar minhas mãos ao redor de sua cabeça, a firmando contra a minha, controlando a quantidade de luz de tuas pupilas, a tua visão e se possível teus pensamentos, e depois, ir embora, leve. Você resolve tentar uma conversa, vejo que sua saliva se esgota antes de começar a falar, está nervosa. Fala que leu meu livro mas não gostou do final, que realmente, pensamos a vida por lentes de tamanhos bem diferenciados. Comentou que reconheceu algo nos personagens, e principalmente, se identificou um pouco em Virgínia, aquela negligência consigo própria, e uma solidariedade velada, até vergonhosa com os ademais, um desejo de posse por aversão, um pacto com o tempo de ele não esquecê-la em vão. Eu permaneço inerte, tentando descobrir o que você realmente quer falar, até que mudando de assunto e de órbita geral, você me pergunta, na tentativa de uma normalidade de fala, “como estava o enterro?”. E viajo por completa par o mês do outono, junho, um dia mal-morado, com tendência de agressão pela chuva, o silêncio das planícies de gelo, todos com a impossibilidade de encarar uns aos outros, vovó ainda viva resmungando baixinho protegida pelo braços de um de nossos primos, papai depois de promover murros na parede do hospital a utilizar as mesmas mãos, agora com alguns machucados a cicatrizar, para abraçar mamãe, em especial tapá-la os olhos. Eu acertando os últimos detalhes na secretaria, como se aquilo tudo fosse um show eu o produzisse nos mínimos detalhes. Volto e re-loco o olhar a sua face, tranqüila, lhe digo “como todos os enterros de garotos jovens, triste e assustadoramente injusto”. Não dou mais nenhum detalhe, não a passo o conhecimento desse sofrimento, como é saber que o coração possui um tempo físico, de relógio, e cada dupla batida corresponde a um segundo a menos de um estoque com nível à baixo do normal. Você estava aonde mesmo? Marrocos, filmando uma reportagem sobre colonização francesa, rodando um filme no interior de Moçambique, cercada de morte por todos os lado, do pior tipo, a morte em potencial. E pegar um vôo, e o tempo, e o contrato, e o incomodo. Agora você me aparece e pergunta sobre esse irmão, sobre o meu, inclusive. Voltamos ao silêncio das construções antigas. Os passos que por mais leves geram chiado nas madeiras velhas. Claro que você já pode ir embora. Claro que já se passaram três horas e nós insistindo.Por algum motivo você veio a essa cidade e resolveu visitar só a mim. E agora, tento adivinhar quase como um divertimento a hora exata que você se mostrará realmente você e partirá com uma das desculpas sorteadas de seu armazenamento mental elaborado empiricamente ao comprimento dos anos.
De alguma forma, agora te olho e sei tudo, mas você não se assusta, permanece intacta como uma árvore antiga após a passagem da cor cinza-escuro pelo céu. Há algo que nos aproxima e que dividimos mutualmente, o mesmo algo que nos faz permanecer em silêncio sobre essa mesa, sem vontade de abandonar esses assentos, praticando o ato de permanecer à mercê de uma impossibilidade que só a insistência pode trazer, de preferência uma de bico longo e faminto. É um tipo de desespero que nos impede de levantar e decidir por uma entrega ou um abandono, pelo encontro ou pela despedida e transforma nossas pernas, nosso movimento contido, em âncora e chão. E se a falta pode preencher, foi em nossa família que ela explorou suas formas. Herdamos eu e tu o medo da correspondência, mesmo que fechar os envelopes já seja uma maneira de ler, mesmo que o desvio já seja uma maneira de dependência, a nossa ligação está em cada tentativa de corromper os fios, em falhar a voz.
Nunca é fácil fazer parte da história de alguém, o passado nos rebaixa a meros leitores, é um livro que ganha suas páginas nos olhos dos outros. E nós somos aquelas que escutam pelos olhos, lembra?, uma biblioteca inteira nos impede de sair dessa mesa.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Não sofre não rapaiz. Aqui num tem mar não, mas alma da espuma sobra em marca nos monumentos.veja por você. Nessa cidade, à leste, alguns graus adivinhados, dois janguadeiros se esforçam pra não anoitecer junto com a tarde. Levantam caixas de papelão com a mesma força que atenuam quando tocam suas esposas. Os olhos vermelhos do encontro com o sal, aqui também há, um cansaço que incha a visão de ficar tanto tempo submerso. Meus peixes favoritos comem mel com pão batido em lanchonetes de azulejos Empretados e ventiladores de teto. Em minha frente três deles liberam palavras e riem mostrando o perigo dos dentes. O da direita admite, já foi, mas hoje não é. Enquanto o do fundo, que antes escutava guardando, mas hoje não quer, limpa a boca com um gole de cerveja amarela. Nenhum sabe, falo por eles, e o de barbatana mais arrugada deixa no ar: “nunca saberemos”.
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