domingo, 23 de junho de 2013

A morte de Púshkin


I
Com uma lâmina
No lugar do sorriso
Aponta para você sorrindo
Dentro seu grito
Gangrena
O silêncio pedra
De afiar

II
Chegou em sua casa
Onde a língua russa alimenta
Deixou os olhos
Na abotuadura de sua mulher
Pouco importou o seio
De Tatiana e as palavras
em seu bojo
Amor um remo quebrado
Na geleira.

III
Sua espada feita de vento
Poesia respiração parada
Seu inimigo
Não temia temporal
Uma nuvem caída
Murcha
Carregava no peito
Durante o duelo
Foi o ferro contra o sopro
Seus golpes feitos de tempo
Você filho do voo
Esqueceu que a carne
Dentro do sonho
morre também
Seu amor a roupa verdadeira
O sabre dele acordou
Naquele jardim essa veste sem uso

Deflorava de seus pesos ossos.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

sobre os últimos acontecimentos meu cachorro não é silêncio

não há como não perceber. meu cachorro anda inquieto. hoje, em face de um prato de comida recém posto,   adicionou tal silêncio a cena que parecia querer era um diálogo com a tigela que só fornecia calorias. ficam os dois lá, a armazenar suas contusões. eu acordo, esquento um café. meu cachorro dorme com os olhos abertos. eu sento no sofá, observo o jornal. meu cachorro se senta mais perto. não emite um ruído, não denuncia uma fagulha, não quer saber de expressão. ele chega mais perto. esfrega aqueles olhos amarelos queimados na graxa da tipografia do impresso. meu cachorro não sabe ler. eu leio para ele. no final não me cumprimenta. adota uma parede como ponto de fuga. meu cachorro anda tão estranho. às vezes solta um berro, longo, adestrado. berros não são adestrados. exijo resposta. meu cachorro me segue pela casa, acha que lhe devo uma saída. uma explicação. ligo a televisão, escuto o rádio, suas notícias, me volto ao computador, salgada. deve achar é estranho meu cachorro me ver tanto tempo em casa, sinto vergonha da não fuga, mas finjo que não me pertence o abrigo. ele quer saber o que está acontecendo. quando ele abaixo o focinho, isso é uma pergunta. eu não sei o que dizer. eu não sei nem o que dizer para meu cachorro. nos últimos dias? é complicado, você não entenderia. ele desconfia de minhas reais preocupações. sim, tem muitas pessoas indo para rua. sim, elas estão com uma tristeza em labirinto. sim, elas se lembram que são pessoas na rua. sim, nesse país se mexer é desrespeito. você não compreende. meu cachorro quando não compreende algo vai para o jardim. faz coco nas mudas de manjericão, nas bromélias. depois de um tempo volta e relaxa no piso mais gelado do canto mais inóspito, meu cachorro se faz em confusão. eu ali, naquela casa, eu ali, naquela zona sul, eu ali, recheada de números. o que são números para o meu cachorro. meu cachorro só sabe o que vê. meu cachorro só vê a mim. sem ônibus, sem tarifas, sem tabela de superfaturas, construções. está visivelmente decepcionado a esse ponto. se antes me perseguia, como um comboio em tom de proteção, agora prefere ficar na rua. escutar uma mensagem que vem ao ar, algo do tipo. está triste. deve preferir ter outro dono, aliás, ter é dono nenhum. meu cachorro enfrenta a fresta da rua, debaixo do portão. de lá ele observa os carros passando, a bola das crianças correndo. de lá ele vê. não apenas escuta o que sobra dos canos submersos. pensei que estaria contente, eu aqui, sã, eu aqui salva, eu aqui. meu cachorro sabe que um mapa não é um ponto. que espaço é algo preenchido não desejado. nem sequer explicar as ranhuras da garganta eu pude, nem sequer depositar meu país uma palavra, numa frase, eu não citei Jango, eu não citei empreiteiras, eu não citei Mariguella. Não precisava. lembro que meu cachorro possui a herança dos lobos nas patas de trás, que de alguma forma ele reconhece uma pedra que poderá cair, um atalho a surgir, seu passado o deu o longo faro. eu poderia agora abrir aquele portão. deixar que ele descobrisse por si só. ao invés de ficarmos aqui, tomando uísque, declamando Murilo Mendes, o ensinando piadas de mitologia eslava, ou como os russos são bonitos. se eu realmente entendesse o que está acontecendo, o deixaria escutar a pimenta e decifrar o gás sozinho, depois ele me contaria, chorando chorando, voltaria a minha casa, daí sim o uísque, daí não a poesia, deitaria no meu colo imerso em um duplo sentimento, o de buscar asilo em meu tom de pele quente conhecido e  o de talvez me detestar pelo fato de minha humanidade me punir, que horror, que horror, me diria, chorando com a mesma coragem que não tive. mas cachorros não choram. preciso começar a desensinar coisas. pelo bem das espécies. a distância colabora com o cristal do olho, a mina do corpo.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

bem que tentou Clarice não me amar
debaixo das medalhas
ervas pagãs
no cigarro apagado do
próximo fogo
mas seu desamor era engenheiro
duas cidades construiu
para a dar um começo
mas todas as ruas vinham até minha casa
bem que tentou Clarice esquecer minha casa
mas sua infelicidade
era uma motorista hábil
as duas jantavam no meu quarto
naquele tempo comíamos carne vermelha
a primeira vez que Clarice tentou me deixar
quem gritou foi sua sanidade
mas a sanidade de Clarice também a abandonou
depois de duas semanas de choro roxo entupido
extraí seu pequeno rio em minha cama
enquanto em coro o dia
caia lá fora
a segunda vez que Clarice tentou me deixar
quem foi embora foram seus olhos
ela voltava com a mão no rosto
fazíamos amor com
a mão no rosto
trocamos a o rosto pela mão
contávamos piadas para o escuro e quem
ria éramos nós
Clarice deixa os cabelos crescer
começa a fazer mímica e diz para eu ir embora
um lugar longe talvez Hungria
em Budapeste depois do um mês de aulas em húngaro
aparece imersa a casacos e mantas
às vezes acho que ela só queria era
passar férias na Hungria
Clarice vai para a natação e esquece de trazer vinho
junta as palavras de paixão que deixou
pelas estantes da sala
diz para eu esquecer o seu rosto
se passam três dias ela me liga para me perguntar
como é o seu rosto
bem que sabe Clarice que o melhor para Clarice
seria ela não me amar
não ler minhas cartas poemas que são só desculpas
não engolir meus beijos meus braços que são só desespero
mas o impossível sempre a caiu tão bem.

domingo, 2 de junho de 2013

dança para dois de junho

Acordar, sofrer pelos dentes parados, lavar a cara, engolir almoço. Os índios, no Xingu os índios incomodam muita gente, no Xingu do Brasil, do mundo, um índio é morto, um índio é mortos. Lavar a louça, colocar um cd do Leonard Cohen, sentir os barulhos do estômago de Leonard Cohen em sua garganta, cantar para a Suzanne de Cohen, lavar mais a louça. Escutar Anos Dourados, lembrar do rosto dela na mesma cozinha, no mesmo dourado, olhar par ao pai mentindo ao dizer que sabe nada sobre o que diz essa música. Ligar um incenso, lavar a travessa de carne, parar tudo, parar tudo e dançar Clube da Esquina na sala vazia, convidar a cachorra, alegrar a cachorra, dançar com a cachorra, convidar o gato, o gato assiste mas não entende, os passos, a música, o cheiro de café, a alegria da cachorra. Doer o peito, ter um peito, sentir o roncar das áreas de incêndio do peito, perder a respiração para o movimento dos braços, amar Belchior loucamente, mostrar para os pais a nova música que fez com Pedro, Pedro agora canta sobre o tempo, areia seca corroi o osso duro do tempo, meu avô chora quando Pedro fala sobre o tempo, depois da volta do hospital, depois da dor,meu avô não perde tempo e agradece com choro. Olhar para a mãe e mentir que compreende completamente a letra de sua própria música. De pantufa chorar e dançar mais um pouco, a louça ainda suja, pedir uma brecha para a sujeira, de pantufa chorar com Nei Lisboa, de pantufa acordar de novo.Sujar a louça da pele. Da sala. Sujar o vazio com dança. A Turquia é aqui, ler o jornal, não ler o jornal e sim os blogues, ler nos blogs sobre porque a Turquia é aqui. Discutir sobre a Turquia com os pais, fazer um minuto de silêncio, entender que houve mortes e que haverá. Ir para o cinema, convencer a todos, aos pais, a irmã, a família, ao Xingu e a Turquia que faz bem ir ao cinema e assistir a um filme. Corrijo. Ir ao cinema e assistir a morte. Corrijo. Ir ao cinema e sentir dor, no maxilar, nos ventrículos, a água do corpo tremer e fazer doer tudo, expor lágrimas na pachimina, agradecer a si mesmo por ter saído de pachimina e esboçar rosto seco. Corrijo. Ir ao cinema e dançar ao contrário. Ver a irmã, ver o Araguaia, ver a família, ver aquilo que diz memória inconsolável. E daí dançar mesmo. Sair do cinema com a família, a dor, o Araguaia, a Turquia, o Xingu e dançar quadrilha. Comer bauru, que não é xis e nem hambúrguer, comer bauru com fritas que são francesas, cortar o livro, desenhar no Drummond, falar do menino que não se matou, falar do menino que três vezes não se matou, falar da dor que cinco vezes não se matou. Fingir a todos que não conhecer: o menino, as vezes, a dor, o matou. Enganar a todos muito bem, principalmente a Drummond. voltar para casa. pensar  em fugir, cantar Você Não Entende Nada Do Que Eu Digo e quase fugir pro Rio de Janeiro para a dança, para a água, para a memória, para a dor, para o teatro do inconsolável. Depois tentar dormir, mandar os dentes dormir, saber que na verdade nunca nada dorme. Ter certeza de que nada nunca dorme mas enganar tudo&todos de que pelo menos os dentes podem sim conseguir dormir. E é assim que a gente descansa. Estudar com o escuro como cantar uma canção de ninar para os dentes e assim aguardar no rosto a espera. A espera é uma rua que caminha. Lembrar que já saiu do cinema. Parar.

sábado, 1 de junho de 2013

A barriga do pai

Aquele pequeno grito atravessa seu rosto. Entre os enredos de pele e carne encontra novas aberturas, onde se amplifica e ressoa. Como nenhum grito possui tempo real (porque o incomodo não é algo passível de contabilidade), ele o acompanha durante uma caminhada até o ponto de táxi, um descanso depois do almoço, na memória dos tempos da faculdade o grito se instala lá pelos seus 20 anos. O grito se fantasia de juventude, de camiseta estampada e bom gosto musical, Schubert talvez, o grito o acompanha na aula de Mercadologia I. Senta-se na fileira de trás, sorri alto e o observa convicto. Naquele tempo ele não sabia o identificar nas multidões, nos estádios, nas festas. Quem dirá em uma sala de aula.

A mulher tinha cheiro de pomada nos dedos. Os mesmos dedos que depois usava para tomar carinho e presença do rosto dele. Mas não se pode tocar em tudo. Ela terminava de atar a nova fralda na criança que há pouco tinha parado de exibir barulhos, se acomodado no silêncio, o rasgando apenas com risadas tímidas. Ainda bem que ela chegou a tempo. Naquela época, sempre que a mulher saia de casa no fim de semana ou em dia de folga da babá, normalmente para a compra de alguns cigarros ou visitar a mãe, a respiração dele se transforma em um cronômetro. Na espera de seu retorno, não conseguia respirar direito, quem diria trabalhar.

A verdade é que não suportava ficar sozinho com a criança. Ela o ofendia. Ela o ofende. A roupa sempre suja, implicando em falta de cuidado. O seu desrespeito pelos objetos, fazendo ir ao chão qualquer coisa ao alcance de seus dedos. E principalmente, seu rosto. Era sobretudo uma bebê muito feio. Ele não tinha dúvida disso. Seu nariz era muito fino, o queixo agudo como um arco quebrado. Aqueles olhos enterrados que encurtam qualquer ângulo de visão. Cabelos escuros e lisos, como uma lagoa esquecida pelo movimento do mundo. Expulsa do trânsito das coisas. Desde muito tempo não suporta ficar perto da feiura.

Imaginava quanto demoraria para a mulher descobrir isso. A forma que encontrou para lidar com essa adversidade foi se ater a um personagem pronto. A figura do pai distante e hostil que tanto antes detestou. Se viu sem saída e teve que assumir essa coreografia com a mais péssima desculpa. Em casa a fala era economizada, os comentários de vez em quando hostis para não alimentar novos tópicos. Era entendido como um adulto que não sabia lidar com suas emoções, principalmente as mais especiais, tal como o fato do amor exagerado de um pai por um filho. Alguém que não sabia expressar seus sentimentos. Uma vez que, ocorria mesmo era o fato de sua lucidez o mostrar exatamente o que sentia a tal ponto que esconder a verdadeira sinceridade era a  forma de proteger sua família.

 No início, tentou disfarçar como conseguia. Estudava sorrisos forjados. Quando a mulher passava o bebê para seu colo ele inventava um exagero de cautela. Dizia ter medo de machucar, a criança, tão delicada. Tão perfeita em suas limitações. Quando, na verdade, nem se culpava por às vezes desejar que esse passatempo quebrasse. Parasse de funcionar. Assim como tudo que vem com defeito.

Cobria seu dia com maiores compromissos. Passava mais tempo forra de casa, usava o escritório para ler, assistir a algum filme. Se interessou por novas coisas que precisavam do domínio da minúcia e do exagero de dedicação. Começou a praticar modelismo de aviões, carros. O período fora de casa o gastava a mente. Embora sozinho imerso por seus oceanos conhecidos sentia saudade da mulher. Apesar do que aconteceu com suas vidas ele a amava muito. Se conheceram cedo. Ela era muito bonita. Uma das mais que até hoje já pode conhecer. Seu corpo não exagera em nenhuma deformidade. Suas pernas respeitam o cursor de um lápis hábil. Seus olhos equilibram-se no rosto de maneira perfeita, expondo-se em cores, tal como a azul que sugere o quão sua visão é especial. A sua presença é completa porque apenas o fato de sua beleza ocupar lugar no espaço já o basta.

O menino tem sete anos agora. Eles estão a tomar café. Por uma tentativa de se aproximar do pai a criança repete seus gestos. Simula a personalidade de seu familiar. Fechada. Sabe que proporcionar silêncio  na hora de comer, por exemplo, é visto como um agrado. A criança aprendeu que amar é também algo estático. É também distância. Respeito. A indiferença não quer dizer insensibilidade para ela. Nunca a passou por sua cabeça que o pai não a ama. Ele sempre esteve lá. Nas fotos de aniversário, nas comemorações. Ele nunca perdeu uma luta de judô do filho. Sempre concordou com qualquer atividade que o menino se prepusesse a desempenhar. Apreender francês, comprar  algum videogame. Enquanto que seus colegas de colégio mal viam seus pais, por serem separados ou apenas irresponsáveis, o seu sempre estivera próximo. O amava por ele preencher uma cadeira, principalmente. E pela certeza de não  ter que levar sua solidão sozinho.

A mãe está no trabalho. Ele observa o menino. Os anos não consertaram em nada os mesmos motivos que o fez manter em seu pulmão, no lado direito, um desdém tuberculoso.  Ele cresceu. Contudo é ainda baixo para sua idade. Os ombros são muito próximos, o nariz espichou de altura mas a largura ainda é insatisfeita. Ele passa a impressão de alguém doente, alguém sem sorte desde pequeno. Alguém que não merece ser visto. Marcar presença em uma rua, ser percebido em toda sala que entra. Sua falta de beleza vem do fato de que ele é opaco. A luz não volta de seu rosto. Ela some. Desaparece. O menino tem semelhança com cantos escuros.

Não consegue compreender como foi que isso aconteceu. Sua mãe sendo tão bonita. Ele escolheu aquela mulher com exatidão. A pincelou de uma paisagem renascentista. Teve tanta certeza em seu investimento que nunca procurou outra. Desde começos a preencheu de confiança. Sua fé por ela só aumentava enquanto faziam amor, enquanto experimentava cada encontro de pele do seu corpo e certificava-se de sua perfeição, sendo feliz por ter tido sucesso, acertado na escolha, por ter conquistado o melhor do melhor. A desejava também por orgulho de a ter, de possuir o belo do tom de corpo próximo ao seu, no controle de seu tônus. Mas principalmente porque eles eram iguais. Ambos bem freqüentados pelas formas, bem selecionados. Ambos belos. Quando ela engravidou fora tudo pensado de antecedência. Queria muito um filho. Queria engordar seu orgulho.

Não foi o que aconteceu. No navegar dos dias, no pentear dos momentos, tinha vezes que ele entristecia. A sensação de derrota consumia sua tranqüilidade. Não gostava de sair com a criança na rua, não gostava de pensar o que os outros achariam. Que aquele seria ele aos sete anos de idade. Começou a desenvolver uma vontade muito grande de ter outro filho. Desde que o menino nasceu pensava constantemente nisso, tal como uma cicatriz no lado central do olho. O único motivo de não propor a mulher o assunto era medo. Medo que na segunda aposta a decepção fosse ainda maior. Medo que pela segunda vez, medo que o segundo pulmão também guardasse tamanho desgosto.

Incerto de sua decisão, ele a levava para passear em qualquer hora do dia. Às vezes, se uma mulher esbarrasse nele no prédio onde trabalhava, ou, se avistasse uma pessoa muito interessante na rua, no trânsito, ele ficava imaginado. Colocar um filho dentro daquelas barrigas, como eles seriam, que acréscimo uma mulher ruiva daria ao seu possível projeto. Como os rostos dessas crianças seriam desenhados, como elas ficariam no futuro. Como ele velho olharia para elas, com a idade que tem hoje, e o que sentiria ao saber que tudo deu certo. Poderia ter outra família. Poderia ter várias. Mas não era isso que ambicionava. Não adiantava em nada. Seria apenas uma fuga.

A mulher sempre o elogia de como está bem arrumado, com cheiros agradáveis espalhados no mapa do corpo. Se cuida. Usa o dinheiro para isso. Frequenta especialistas em saúde, em esporte, vai a manicure, spas. Não apenas porque adora seu rosto e gosta de visitar o próprio corpo.Mas também em respeito a própria beleza da mulher. Ele acha que tem que devolver a ela o mesmo que ela o proporciona. A mesma intensidade. Por isso, se um dia chegou a pensar que ela talvez estivesse o traído, se por acaso dormiu com outro homem e engravidou e que a criança seria essa, talvez, e que essa concepção é exterior a ele, logo deixou essa raciocínio sumir. Nunca a deu motivos para tal coisa. Além disso, tinha certeza que ela o amava.


Era difícil para o convívio com esse infortúnio. Mas não impossível. Desde que surgiu a criança em sua vida, qualquer palavra dela abastece o grito que ele carrega. Por mais que ambos costurem a mesma tenda de silêncio, nenhuma ausência pode impedir que o grito continue lá. O atravesse. O raspe. O tire mais um pedaço além do filho. Poderia ter previsto que isso talvez acontecesse. Mas não fez.

Sentou em seu quarto. Ficara a colar pedaços de fuselagens de mini-aviões, spitfires, miniaturas da segunda guerra. Passou pela sua cabeça que nunca teve vergonha pelo o que sente pelo filho. Que nunca se sentiu mal por ver ele como um problema a ser contornado. Deixou de lado a cópia do avião inglês. Correu por entre seus pensamentos a facilidade com as quais aquelas metralhadoras instaladas nas asas do caça poderia causar facilmente qualquer destruição. Veio uma amargura. Numa hipótese boa, por se dar conta de que por dentro seus órgãos eram dissimétricos, pouco elaborados. Teve a impressão de que sabia muito da morte.


Chorou a tarde inteira. Só parou quando ouviu barulhos vindos da sala onde o menino estava. Ali naquele momento se assemelhavam.