quinta-feira, 18 de abril de 2013

tecelagem

às vezes encontro um homem. saímos de um cochicho direto para um sorriso.

ele me conta coisas que não me interessa dizer. ele me conta coisas que ninguém que me interessa conta. por isso escutá-lo é tão precioso. por isso já possuo a experiência de expecionar minas.

ele sabe falar com as mãos. portanto é poliglota, um dos maiores. às vezes, cubro seu rosto com apostas. ele espirra, e perco tudo.

dependendo da previsão do tempo diz que me ama. já me amou: num rio congelado. numa insolação esfarelada.  numa poça de água vazante.

mas na maioria do tempo, nem recorda de mim. passa dias sem telefonemas. sem e-mails. cartas ou coices. e mais. nunca me deu desculpas. nem de presente. nem de.

mas daí, de repente, começa a me ver em palmeiras. pias. toalhas de mesa, pompons de cotovelos. me presenteia com um guarda-sol e me dá um parque.

diz  "nunca mais vá embora". eu respondo que nem possuo a chave da porta.

tem dias que nos fantasiamos. eu sou o silêncio. ele o grito. de vez em quando dividimos balanços. nos escondemos atrás da frase incompleta. somos incapazes em respostas. por isso nos beijamos tanto. beijar é perguntar.

em casa quando tempo transborda, para salvar os papeis das paredes, invento algo. antes, pintava tabuleiros nos intervalos. hoje é isso. fico a desfiar suas palavras.

puxo todo o fio, até desmancharem. depois uso o que resta. começo a bordar. é assim que faço cobertas. meias. luvas e casacos.

fazem anos que só há calor. o mais longo verão riscam especialistas.

tomara que amanhã esfrie.

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