quinta-feira, 11 de abril de 2013

fita 1 - no ônibus

a mulher senta-se com a neta na parte da frente do ônibus. acentos preferências. elas dividem uma sacola. frágil, dando por si, estressada. a mulher penteia as pálpebras com a própria mão como se procurasse dentro dos olhos alguma coisa. nada. não encontrada nada pois a inquietação dos dedos salienta isso. a criança exala silêncio. raro para a idade. ela atravessa o vidro do ônibus com os olhos. nos raspões de velocidade deve haver algo que a conforta. o que será que sente a mulher que leva a família no ônibus, com seus olhos desgastados e tinta por sair? cada uma segura a alça da mesma sacola. dentro dela, uma velha televisão de tubo. quem será que estragou ali? qual é a culpa do silêncio? no ônibus nunca sabemos se algo está chegando ou indo embora.

penélope depois do acidente

preferia ter ficado deprê em casa
sem ter ninguém para calçar meus sapatos
meter a colher no chuveiro da lua
mastigar aflita uma felpa de horas
do que saber

você

seu sinal de perigo
sua placa favorita em pista rápida
seu novo namorado
velho cúmplice de colar tijolos
colar manhãs e ferros quentes

você

que rabiscou os planos de vida
nos casco de uma árvore
que o tempo já levou
que sempre esbanjou futuro
mas nunca conseguiu decidir nosso jantar

eu acreditei na imagem dessintonizada
guardei para mais tarde os tickets para o estádio

você e suas quatro namoradas
com as quais tinha que dividir você
na luta santa sangre sempre me restava
um ou outro braço seu
sempre cansado demais para dividir
a mesma velocidade
sempre saudável demais para erguer
um adeus

ficarei em casa
cavocando a própria pegada
talvez assim você não a reconheça na rua
ou não se atente em fazer chover só para
despistar meu próprio retorno.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

história de família

quando eu tinha uns sete anos
achava meus tios um máximo
eu lembro de admirá-los e um dos
principais motivos era que
eles podiam comer ovos de chocolate
antes da páscoa
para mim isso resumia o que significava
enfim crescer

eu chegava no apartamento deles
e tava lá a embalagem rosa de sonho de valsa
reluzindo  naquela bagunça toda
de gente jovem reunida
os cobertores morando no chão da sala
expulsos da cama pelo que entendi era amor

meus tios moravam na frente de um hipódromo
eu subia numa banqueta na janela
e ficava vendo os cavalos correndo
pensava em como eu era muito sortuda
e embora não tivesse idade para apostar
tinha a visão mais privilegiada

mas as embalagens dos ovos de páscoa
sempre estavam vazias
meus tios comiam muito chocolate nessa época
a hora que bem entendiam
comiam muito rápido
eu pensava que aquilo talvez quisesse dizer paixão

lembro de ver meus pais se beijando
aquele encontro rápido de rostos
o que é normal eu imaginava

mas era ao ver meus tios rindo
meus tios tinham uma facilidade grande em sorrir um para o outro
é que eu abastecia a vontade de peneirar
e talvez encontrar essa felicidade nas minas do futuro

meus tios nunca chegaram a assinar nenhum papel
nunca disseram sim para um juiz ou homem de lei
apenas arriscavam tudo um no outro
em silêncio concordado

hoje o hipódromo está fechado
e meus tios já não estão mais juntos

eu bem que tenho idade para forrar o tempo
fazer apostas altas
e perder tudo em um suspiro
evito comer doces temendo pelo pior da saúde.

meu tio quando vem me visitar
carrega culturas rígidas
eu sei que ele gostaria de sorrir mais
mas não é algo que depende dele

o sorriso são como as plantas
precisam ser assistidas na medida certa

caso contrário deixam de existir.

receitas de amanhãs

gostaria que nossos filhos
sempre nos perguntassem as horas.

mesmo na posse de seus calendários
nos perguntassem se fará frio à noite
quando estarão a viver suas próprias vidas.

gostaria que nossos filhos
nos pedissem para colocar no correio suas cartas
mesmo que não tivessem coragem de escrevê-las.

depois de terem manchado o choro
com um rosto em especial
encasacassem o corações por
puro desespero de o vê-lo tremer demais.

que nossos filhos nos ajudassem a vestir
nosso verdadeiro tamanho
já que os dias não nos cabem mais
perdemos os botões como quem inventa o pó

domingo, 7 de abril de 2013

só usar roupas frouxas para que não saiba onde os olhos se fecham
inverti a lógica e todo dia é um sucesso

só que faz calor

quinta-feira, 4 de abril de 2013

pretéritos

cena dois

eu poderia trepar com ele agora mesmo
trancar os dentes e amar o tempo presente
por caber nos braços finos de minhas horas

eu poderia trepar com ele para sempre
só com ele, em prédios nascendo, em rios discursando,
no tempo descartado do almoço do cansaço
eu treparia com ele nas cabines de embarque dos sonhos pesados
em cima dos bosques, dos vidros temperados

eu cuidaria da minha saúde e olharia para minha bunda
como quem olha para a bunda de quem ele vai trepar
eu prestaria atenção e mimaria minha pele toda
porque é só com a toda que eu treparia com ele

eu treparia com ele para acordar
eu treparia com ela para dormir
eu treparia com ele para tomar banho
eu treparia com ele para  conseguir ficar sozinha
apenas comigo mesma

só que se eu trapasse com ele agora mesmo
e todos os dias todos os dias o mesmo
eu ia gostar demais
e se ele trapasse comigo todo dia iria saber
como eu tenho problemas com o demais.