a senhora aleatória hoje me perguntou
"como faço para sair da cidade?"
o que eu deveria dizer a ela
"senhora, olhe para seu braço
não vê a mancha preta no local do cotovelo?
é o asfalto recém posto"
ou então
"a cidade nunca sai de nós
mesmo com o suor das cachoeiras
há um ruído de motor em cada palavra nossa
acredite, já tentei alvejante"
a senhora aleatória tremia
enquanto aguardava uma resposta
uma direção
eu sabia que ela deveria estar muito doente
ter um corpo nos cansa
o corpo é uma grande pergunta
o que ela queria dizer afinal?
desejava sumir dali? ou "sair" da cidade
é o nome de alguma linha de ônibus?
perguntei a ela se gostaria de saber
onde ficava a rodoviária
"Não."
"o aeroporto?"
"Não"
"o rio?"
"Não"
a senhora aleatória e suas setas girando
tinham pouco tempo.
eu precisava ser rápida
ajudar é doar velocidade
"é que hoje eu não lembro como sair da cidade
nunca sei se tenho que ir para direita ou esquerda"
ela me explica
eu que já não aguentava mais respondi
"Aaaa, sair da cidade você diz? É fácil, só pegar a direita"
ela abriu um sorriso e me agradeçou profundamente
enquanto ia embora, parou, e me disse
"boa sorte"
não que ela acreditou que havia uma saída
no fundo acho que estava tentando é me dizer alguma coisa.
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domingo, 28 de abril de 2013
sábado, 13 de abril de 2013
fita 2 - o cobrador
eu quero
torradas que rejuvenesçam
um café com olhos
acordar cedo para espiar a vida
sentada
sem soslaio, ponto ou corte
de ruptura
exportar agosto em forma de sorrisos
roda treinando em frente
a minha própria plantação.
torradas que rejuvenesçam
um café com olhos
acordar cedo para espiar a vida
sentada
sem soslaio, ponto ou corte
de ruptura
exportar agosto em forma de sorrisos
roda treinando em frente
a minha própria plantação.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
fita 1 - no ônibus
a mulher senta-se com a neta na parte da frente do ônibus. acentos preferências. elas dividem uma sacola. frágil, dando por si, estressada. a mulher penteia as pálpebras com a própria mão como se procurasse dentro dos olhos alguma coisa. nada. não encontrada nada pois a inquietação dos dedos salienta isso. a criança exala silêncio. raro para a idade. ela atravessa o vidro do ônibus com os olhos. nos raspões de velocidade deve haver algo que a conforta. o que será que sente a mulher que leva a família no ônibus, com seus olhos desgastados e tinta por sair? cada uma segura a alça da mesma sacola. dentro dela, uma velha televisão de tubo. quem será que estragou ali? qual é a culpa do silêncio? no ônibus nunca sabemos se algo está chegando ou indo embora.
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