terça-feira, 8 de setembro de 2020

frigorífico

Muito tempo se passou desde a última vez em que se viram mas apesar disso sabia de sua situação. Cleia havia ido embora há pouco, levado as crianças. Colocou tudo que tinha dentro do carro e dentro é muito longe, vai até o Mato Grosso. De repente, ele viu que o que tinha era quase nada. Os móveis, os armários, os eletrodomésticos, o cachorro. Era tudo dela, cabia em dois par de rodas e sabia se fazer sem ele. Mudou para a casa da mãe, com mais quatro irmãos, dormia no sofá. Na primeira semana, comprou uma colher de massa. Sua própria colher de massa, por um tempo o humor melhorou, pensou em voltar a estudar. Mas logo perdeu o emprego foi ficando triste, recolhido. Suas famílias ainda eram próximas, as pessoas conversavam, fofoca de bairro. O Gelson tá mal, coitadinho, disse sua mãe, enquanto costurava uma toalha de mesa. Eu sei, ele não é desses, retrucava enquanto tornava a visão parte do alto, mirando o teto da casa, como se a solução estivesse acima. Talvez levar o amigo para uma viagem. Talvez se se divertissem, dançassem, fossem ao baile. Uma feijoada, para que tudo melhorasse.

Nesse dia o Gelson apareceu no portão. Corre, corre irmão, disse. Os dois entraram no carro da mãe dele e foram até a 101. Nem se questionou, apenas entrou no carro. Não importava aonde ia, qual seria a emergência. Se corriam para salvar alguém ou safar a si mesmos, se Gelson havia feito besteira e agora eram dois, se era um cúmplice, um parceiro de fuga ou apenas um companheiro de viagem. Quando eram jovens se encontravam e só, sem nenhum motivo. Não faziam nada por horas, ficavam na calçada conversando, jogando bola, apostando ficha. O Gelson era seu amigo mais gentil, esperava ele terminar as frases, encontrar as palavras certas, quase nunca o julgava. Tirava sarro do seu cabelo, das suas roupas, porque assim tirava sarro de si mesmo, mas nunca do jeito dele, da timidez, do fato do pai ter ido embora, como os outros meninos costumavam fazer. E sentia-se abraçado como quando, aparecia sem avisar, dividia um pedaço de sanduíche. Quando dizia, é a tua cara. O que mané? Se fazer de salame, é a tua cara. Tinha os olhos com um tipo de castanho claro que imagina possuir a terra jovem, quando recém chega em uma cidade. A terra jovem se um dia a terra já o foi. Possui os olhos da primeira vez, das primeiras chances. Das tentativas que não cansaram.

Aperta o cinto, vamos pra BR. Um caminhão tombou lá faz uns minutos, o Cadu tava por  perto, ligou a pouco.

É pra hoje.

Achava que a qualquer momento, lançaria mão de um grande segredo. O castanho havia marcas de cansaço, de quem segura algo por muito tempo. Talvez só estivessem mais velhos, mais cansados, e só.

Tu te lembra meu irmão, o Prisma.

Claro.

Voltou, cansou da fazenda.

Aquele lá tem jeito pra política.

Por que?

Convenceu todo mundo a dar a poupança dele e se foi pro mato.

É uma família esperta.

Tenho as minhas dúvidas.

Pois agora voltou e tá sem dinheiro nem a gente. Só que tem um dedo a menos. Perdeu, na serralheria.

Se eu fosse perder um dedo acho que seria o do meio. Ninguém perde o dedo do meio. Seria um grande feito.

Tu é maluco.

O carro começou a desacelerar, Gelson o descansou no acostamento. Em frente, o caminhão branco estava atravessado no canteiro, com as portas abertas. Os dois correram em direção ao automóvel, ao longe chegavam mais homens. Foram alguns dos primeiros, tiveram sorte, pegaram as melhores peças. Enquanto se aproximava, notaram a água no chão, se acumulando, e um cheiro muito forte. O automóvel parecia um animal cansado, desmaiado em meio a uma longa viagem. Uma baleia branca, com seu óleo precioso à mostra. Era um sinal que algo podia ser interrompido. Um sinal de sorte.

Pega desse lado.

Gelson puxou o corpo do bicho. Deviam ter mais de 100 lá dentro. partidos ao meio, com as costelas à mostra, ainda com as patas, separados de sua pele, de seus extremos. Vivendo de ponta cabeça sua pós-morte. Era muito pesado, não havia como carregar nas costas, estavam muito fracos os dois. Tirou o casaco, o colocaram no chão, e ali puseram a carne fresca e seu recheio de ossos, a arrastando até o porta-malas.

Ele e Gelson tinham um cheiro fresco, um cheiro de força, do suor, do sol, o músculo daquele boi, o cheiro de água, de terra, de verde, início da noite. Era um cheiro que temperava de algo que já passou. Conseguiram pegar mais uns três pedaços, encheram o carro. Enquanto davam partida, viam dezenas correndo com as carnes nas mãos, fazendo fila, se organizando na pista em torno do incidente.

Isso vai dar pra meses, disse a Gelson. É comida pra dedéu.

Testemunhou seu primeiro sorriso em meses, um sorriso esticado, que não se rende fácil. E teve a certeza de que confiava mais no amigo do que na sorte.

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