Você tenta manter a calma dependente de seu jardim. Por
perto. O que há de estrelas há de escuro
quando se quer sumir. Hoje você quer sumir. Raspar as diversas cabeças que já
ergueu por aí, no pico de um cordão de calçada. Cair de quatro fortificado de
pura fraqueza. Quem sabe. Derreter em picos de indiferença, viajar mentalmente
com uma frota de silêncios do tipo tiros tranquilizantes. Você quer hoje é ser
atingido. Em cheio. Em vasto. Estender a pele até o fim da rua e sentir tudo.
Os passos pesados da vida dos apressados, as raízes das árvores crescendo
timidamente, as rodas dos automóveis e bicicletas. No raspar das panelas, você
sabe. Não existe dias bons ou ruins. Sorte ou azer. Voo ou queda. Apenas os que
se ficam e os que se vão. É é disso que você tem medo. Dos que se recusam a ir
embora. Dos que moram na sua noite. Indefinitivo. Hoje é um dia assim.
Primeiramente, ao acordar em casa, no sofá, enjaulado em dores nas costas você
se sentiu brevemente alegre. Mesmo pelo sono ter sido incapaz em sua tarefa de
renovação. Mesmo tendo voltado de manhã para casa com a carteira de cigarro
vazia e nomes recém decorados de pessoas que nunca precisará usar pelo resto de
sua vida. Você fora sozinho aquele bar. Não teve coragem de noite pesada e por
isso optou pela mesmice do anti-surprendente. Você optou por cerveja. Por falar
com a mulher mais sem graça do estabelecimento. Por discutir Robert Bresson com
um pedinte na rua que tentava-o o convencer de que era Julio César. Naquele
lugar de elegância foragida um homem chorava compulsivamente enquanto falava no
celular. Você teve a impressão de aqueles os goles de cachaça que ele tomava
saiam pelos olhos logo depois. Você pensou alguma frase boba, brega, do tipo “o
choro é embriagante”. Você riu de si mesmo enquanto o homem devorava-se a si
mesmo selvagenmente. Deixando todas as quinas dos ossos expostas e passíveis de
causar quedas aos presentes. Nada aconteceu. E para dar trela a isso, você fez
de tudo. A mulher mais sem graça do estabelecimento te agarrou no caminho para
o banheiro. Te cozinhou com os olhos. Tentou colocar as mãos dentro de sua
calça. Você impediu por falta de ineditismo. Por não querer ser vítima dela. Da
mesmice. Da monotonia. A forma mais fácil de infelicidade. Em algum momento,
entre conversar com o canto de uma parede e tentar pescar algum tipo de vontade
na mesa ao lado, você pensou em Cleo. Tudo que veio a sua cabeça fora uma
imagem. Você pensava em elefantes. E a imagem apareceu do nada. No meio da
savana. Você pensava no show do New Order que nem chegou a ver. E a imagem
apareceu. No meio de um bizarro triângulo de amor. O cabeço bagunçado, o sutiã
em falta e aquele ar típico de quem te quer por não te desejar. Era mais fácil nunca ter tentado. Era mais
fácil nunca ter criado janelas por aí. As rosas que nunca morreram são alertas
infinitos. Você acalma o arrepio do momento e acha engraçado. É tão engraçado
quando não nos reconhecemos mais. Aquela mulher nunca o pertenceu. Do mesmo
jeito, você a roubava a noite, durante o medo, durante o tédio. Vocês nunca
aconteceram e talvez o motivo disso você já saiba. Você nunca conseguiu lidar
bem com os outros. Talvez por isso ter se formado em cinema tenha sido a pior
decisão do mundo. Talvez por isso sua carreira nunca tenha andado mais do
que o monte olimpo. Seu fracasso em se
relacionar permeia tudo. E é o grande motivo dessa falta de água para boiar.
Para afogar até. Você lembra de Maria que só saiu com você porque de uma forma
muito estranha e até hoje não entendida soube que era circuncidado. Antes
disso, só namorava judeus. Você fora o primeiro namorado não judeu de Maria,
que era, em tese budista. Você se sentia especial por isso. Ou pelo fato de ter
alguém ali para transar ao invés de apenas estar ali. Hoje é carnaval. Hoje é
para sempre carnaval desde hoje. Hoje você usa uma tinta azul ao redor dos
olhos na tentativa de dissimular. De ver mar onde não tem. Hoje é um dia para
não morrer. E sobreviver na sua ferida aberta, na piscina construída no
despespero que o o encontrou. Há dias que tem vida própria. Que você quer conversar
com o taxista e falar sobre tênis sem saber o significado da palavra ACE, e
finge saber o que não pensou por pura inquietação e vontade de interagir com
nada, tem dias que você não suporta que o taxista dirija uma palavra com você.
Tem dias que você quer é procurar alguém para aceitar o trabalho de o fazer mal,
péssimo, insignificante e fervorosamente fugas, dando sem ter o que repassar,
fingindo desejo nas mãos que não recordam como agarrar, fodendo aos gritos pela
vontade de ficar sozinho e em silêncio. Abrindo os curativos em público para
que o desconhecido infeccione mais. Tem dias que você se despe completamente em
pleno inverno, assim como Lúcio que deu para chorar depois de duas vodkas de
cachaça, tem dias que você não se vê, assim como Túlio que não se convidou para
o próprio aniversário e deixou todos esperando com garrafas vazias em seu
apartamento na Fernando Príncipe, tem dias que você não se conhece, ou é mais
do que um ao mesmo tempo, assim como Martha que só é gay quando bebe demais.
Você não entende que dia é hoje. Recém cinco horas da tarde. Você só guarda a
impressão, aquela singela impressão com braços de polvo, de que esse é um dia
que fará de tudo para não ser levado embora, expulso. Você sabe que hoje tem
uma guerra para perder. Só tem medo de saber como isso irá ocorrer. Quantas
balas serão necessárias para o doce abate.
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