sexta-feira, 31 de maio de 2013

O Chile é aqui

para R. Bolaño

Roberto, o Chile é aqui.
Nicholas está bem
o sol da tarde enovelado
é o centro da cidade
Porto Alegre duas da tarde
ele sorri e mostra a barriga
cheia de cobranças
lotada pelas árvores que não nasceram
o governo estático do sul
aumentando sua pança

Nicholas não parece desolado
por seu  futuro esperado
desobedecer a expectativa
continua sem os dois braços
mais baixo que a humildade
pagando as contas
sabe-se lá como
limpando o cu
sabe-se lá como

por falar em cu
ele continua com todos namorados
a cadela socialista
o erro de ortografia
o continente sulino que tanto
evapora seus rios
e vende as nuvens

não pensa mais
em pular do precipício
todas as alturas são
muito baixas
para seu suicídio

Nicholas guarda carros
vende bilhete de loteria
fala quase nada
nem desconfia
que no espanhol seu nome é um livro.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

eu que já me transformei em mais de uma forma de não caber


I

Quando nasci, lembro de não ter gostado muito daqui. Havia barulhos sem nome e o cheiro da panela de pressão, dos feijões que alimentavam as cuidantes, me enjoava os recentes olhos. Um dia, duas pessoas chegaram. Uma tinha cheiro de limão europeu, outra, de folhas verdes por dentro. Juntas eram quase um limoeiro. Me fui com elas. A casa era grande e as paredes altas escondiam o frio no inverno. Primeiro olharam para mim, acho que mais especificamente para meus dedos esquerdos, e disseram “Antônio”. Depois os olhares vieram para meu rosto. Meu nome ficou “Augusto”. Nessa época que fui Augusto eu podia rir em qualquer altura. No verão, íamos passar as férias em Petrópolis. No quinto verão que viajávamos, tinha um caminhão. Lembro dos limoeiros quebrados, um cheiro de ácido muito muito forte. Eu pequeno fiquei bem. Até hoje não posso chegar perto de alguns tipo de frutas. Depois de um tempo, conheci uma mulher com cheiro de queimado. Me mudei para sua casa. Ela poderia ser sozinha em muitos sentidos. Não trabalhava, acho que vivia de alguma pensão do governo, gostava muito de tomar remédios e fumar, e de vez em quando chorava em frente a um retrato muito bem emoldurado. A mulher gritava “Henrique”. Entendi que era para mim. Por 12 anos a mulher gritou “Henrique”. Como não havia ninguém mais na casa eu respondia. A casa tinha tempestades estranhas, ondas de calor que vazavam precipitações. Às vezes algo se transformava em chama, por exemplo, um tapete: virava faísca e desaparecia. O mesmo aconteceu com a mulher. Cada vez ela ficava mais quente, e aquele cheiro todo, cada vez mais. Então chegou o clarão e puff. Doeu os olhos, claro. Ainda doem. Ontem li num  outdoor “Romero”. Mas hoje penso em “Felipe”. Talvez “Gustavo” combine melhor comigo.


II

Já fui músico. Já gerenciei um negócio próprio na avenida São João. Nunca tive filhos, talvez, porque nunca conheci meus pais. Às vezes quando o silêncio escapa (vezes que não me organizo bem) sinto o estômago doer. O médico já disse, é preciso parar de beber e fumar, porém, como sou só eu não há ninguém para me dizer isso dia sim, e dia também. Meu estômago tem o formato de um canhão e quando me aborreço muito ele possui os poderes de um canhão. Depois de algum disparo e cheiro de pólvora, olho para a rua e só vejo mulheres. Penso nas vidas que poderia deixar no meio de seus quadris, penso em crescer em suas barrigas, nos pais que não conheci virarem uma montanha no centro de seu umbigo. Mas no fim, todas elas me lembram minha mãe. Eu não conheci minha mãe. Quando quero diversão, passo por algum menino e deixo respingar que em casa tenho um pó bem branco, branco bem bom. Ignoro meu estômago. Geralmente dá certo.


III

Foram vinte dias. Uma vez eu fui vinte dias. Não cheguei nem a ser mês. Não cheguei nem a tatuar algo ao invés dos olhos. Meus pais pareciam bonitos, através dos vidros. Pelo rádio, escutava coisas engraçadas como a fuga de um tal leopardo de um tal cativeiro, de um tal zoológico. Leopardo para mim é um bicho gordo e bem fofo que tem braços bem longos para agarrar tudo. Mas eu tinha um coração fraco, síndrome com nome difícil. Melhor assim. Pior para os leopardos.



IV

Uma vez fui feliz. Por um tempo. Não posso precisar o quanto pois quando se é feliz, como eu fui, se perde essa coisa-tempo. Tocava num clube matutino, ganhava pouco, mas conhecia muita gente com quem podia trocar os sapatos, as palavras, os elogios, os significados. Um deles em especial era muito meu amigo. Quando o conheci, era cego. Nós o chamávamos de Feridinha. Feridinha começou um tratamento experimental com um médico de currículo extenso, um tal de Dr. Xavier. Se desse certo, voltaria a ter imagens novas, e com os olhos úteis poderia palpitar sobre minhas camisas de tonalidades tímidas, a decoração do bar vazia de muitas limpezas. Um dia no quarto de Rita, acendi um cigarro e deixei a mulher só com sua nudez na cama. Olhei a janela, guardadoras de restos,  partículas, depois de um tempo não adianta mais tentar limpar o vidro, fica tudo lá: a areia trazida da praia, o seu último jantar antes do vegetaranismo, os farelos da pele de alguém que antes era ótimo de tocar. Nessa confusão achei espaço para ver meu reflexo. Será que Feridinha gostaria de mim depois de me ver? Noutro dia, tirei Lígia de uma sessão de cinema. A levei para as luzes e perguntei “meu rosto, que tal para ti?”. “Assim como antes. Belo, e talvez, assustador um pouco”. Depois disso, pensei em mudar de trabalho, comprar um Opala, conhecer o centro-oeste. Algum tipo de deserto deve ter comigo alguma intimidade. Nessa época me mudei para Góias. Numa noite de altas apostas, que a bebida me tirou os detalhes, ganhei um pedaço de terra. Hoje crio cavalos. Vendo seu sêmen, coisa estranha, mas que dá dinheiro. Não costumo mais me interessar por pianos.


V

Quando eu era velho tinha horas do dia que não faziam sentido. Pela noite por exemplo, as constelações, sempre as mesmas. Monótono diria. Antes eu fumava com a lua, fazia um cigarro de maconha, ficávamos lá a ver navios de todos os tamanhos. Então cansei. Aluguei minha casa para um menino de rosto bem passado e arranjei um emprego como recepcionista em uma boate. O negócio cresceu. Quando cheguei aos meus 80 anos, de alguma forma, o lugar já era meu. Às quartas-feiras, era a noite do sexo ao vivo. Era difícil achar alguém que topassem, por isso, recorríamos aos viciados por facilidade mesmo. Um deles, por muito  tempo, ia para casa comigo. Nessa época dormíamos o dia todo, pouco sabíamos do sol. Coleciono armas, de fogo e de lâmina. Estou vivo até hoje.

sábado, 4 de maio de 2013

o poema que você não escreveu para ela, eu tomei a liberdade de

história real
a gente ouve uma voz
o som de uma pessoa
como pode
o som de uma pessoa
a gente não para de ouvir
vai a pessoa
fica a voz
sem corpo
assombração na merenda
calo no ouvido
quando vai a pessoa
a gente fica surdo
confundindo a ordem
das chegadas e partidas

depois do acidente
sua voz virou formato
de grito
não consigo mais dormir
minha mulher reclama
que falo pouco
 tenho medo que
minha última voz
também seja um grito

(sinto muito que tenha doído tanto)

antes só quem parava ela
(a sua voz minha querida)
era o vento carinhoso
com nossa certeza de
todo o mundo agora

mas o agora nos traiu
tão forte
aquele ônibus
o movimento
a batida

só confio em futuro que esteja no plural.

fomos até a floresta e ficamos


Clemente,

sei que não estou sendo muito agradável. Você está um diferente país, imerso em uma luta diária para entender cardápios em outras línguas, tendo que acordar cedo para erguer e abaixar caixas em algum lugar perto do mar, completamente sozinho, enquanto eu só escrevo para te atualizar de minhas últimas fúrias.  Clemente, peço que perdoe meu excesso de pele levantada. Sabe como sou sensível em encontrar desníveis de satisfação em todo braço de semana. Como você está? Já fez algum amigo que já saiba pronunciar corretamente nosso sobrenome? Fale-me sobre tudo. Como de costume, escrevo desesperadamente para lhe contar algo muito incomum. Estou visivelmente assustado e não trata-se de um simples blefe por algum tipo de atenção familiar ou vontade de casar com holofotes. Anda ocorrendo algo estranhíssimo, não comento com ninguém, não deixo escapar (sabe como lutei para restabelecer laços de sanidade com o resto do mundo, não posso arriscar que olhem para mim novamente e só enxerguem loucura). Você é meu irmão e eu não saberia mais a quem recorrer.

Lembra quando éramos criança e alimentávamos escondidos Clark, todo dia dávamos nossa janta para ele que morava naquele pequeno escuro embaixo da escada? Até que inutilizada a comida começou a exalar cheiros desagradáveis e nossos pais descobriram tudo. Clark, nosso amigo imaginário, visivelmente abalado nos deixou para sempre e foi vender linguiças com pão preto em alguma van de estrada na costa leste. Bom lembrei disso hoje. Me fez pensar em como somos bons guardadores de segredos. É por isso que te darei um pouco do peso de minha aflição agora.

Desde que você foi para a Noruega voltei ao meu hábito de escrever. Ter você longe, e o desespero da correspondência entre nós dois, me ajudaram a ser um homem mais tranqüilo, acalmar qualquer tremor mais corajoso. Inventei esse gosto de ao amanhecer conversar com o gato, alimentar o cachorro, regar o jardim e adentrar em minha escrivaninha, calmo, e cheio de ideias. Antes escrevia apenas para você. Mas como suas respostas demoravam a chegar, vindas do velho mundo, comecei a querer preencher mais essa satisfação. Então me surgiu a ideia de na falta de outro destinatário, escrever apenas para mim. Quando me sentia exausto, úmido e sem cura por dentro, fazia utilidade com minha mesinha, meus papeis amarelados, minha caneta nanquim e colocava uma e outra palavra na horizontal. Por fim, tal como todas as cartas, guardava meus garranchos num envelope, decorava com selos e mandava-as para o correio. Escrever meu próprio endereço nos dois lados do envelope era engraçado e por mais bobo que isso possa ser, ainda sim, me dava justificativas de diversão. Seria uma estratégia interessante para sustentar uma conversa comigo mesmo, e quem sabe, vir a me dar reflexões valiosas que economizassem minhas preocupações. Pensar que dali alguns dias minha caixinha de correspondências não teria apenas cobranças, informes de liquidificadores novos e empréstimos me causava confortos por volta do pescoço e nuca.

Para minha surpresa a pequena caixinha continuou mergulhada em solidão (já que contas de luz e água não são companhias de verdade para ninguém). Depois que mandei a primeira carta estranhei. Passaram mais de uma semana e nada dela voltar. Pensei que era algum problema interno da empresa, algum deslize no transporte, que já seria resolvido. Nessa época (fora bem o período que deixei o escritório do Caxias e conheci Dalva) eu escrevia muito para me desapegar de algumas tristezas inflamadas no rosto que insistiam em praticar erupções nos piores momentos, por vezes, na hora do café da manhã ou almoço. Mandei uma carta, depois mais uma. E nada delas voltarem. Passaram-se um mês. Num sol de agosto, cheguei em casa depois de uma corrida (agora pratico cooper, acho que não mencionei em outras mensagens anteriores). Dona Glaucê, a senhora que trabalha aqui em casa nas quartas, tinha deixado nesse dia alguns envelopes do correio em cima de uma mesa.

Reconheci um deles. Finalmente meus textos haviam retornado. Ansiedade foi o que transportei por dentro durante aquela breve fração de horas que fiquei aflito em saber o que eu teria dito naquelas páginas. Eu precisava me ouvir. Ouvir é lembrar do futuro. O papel estava um tanto amassado. Foi aí que percebi, por meio de um grande arrepio: meu nome fora riscado, e como remetente havia um que nunca ouvi falar: Olavo Del Puri. Rasguei o envelope imediatamente para ler o que havia dentro, e imagine só. Meus papeis haviam sumido. Tudo que havia pensado tinha se perdido em meio a explicações que  não existiam. Ao invés disso, havia alguns recados desse tal de Olavo, que segundo informava a etiqueta da correspondência, aparentemente morava no mesmo local que eu. Mas quem era esse homem e como isso era possível? Me assustei. A carta mergulhou rumo ao chão, pois meus dedos viraram um grito. Por conseqüência de minha brincadeirinha pessoal, acabei por dar uma grande parcela de minha intimidade a um estranho qualquer. Eu tão contido em bocejos e suspiros acabei talhando meus sentimentos mais enclausurados a um nome que nunca pronunciei. Vergonha Clemente, senti vergonha e medo. Como saberia o que eu havia escrito naquela carta? Poderia ter sido qualquer coisa. Minhas noites improvisadas com Dalva, brincadeiras de colchão, exercícios de superação em relação ao meu medo de gasolina e cumprimentar estranhos, meus sonhos com cenário mongol que em dias tumultuados eu tinha durante o sono. Possivelmente nunca mais teria acesso àquelas informações que um dia pensei serem de importância extrema. Comecei a sentir-me manco. E observado por todas as frestas das horas.

Depois vieram mais cartas minhas, isso é, de Olavo. Conforme me escreveu o sujeito, ele ficou muito confuso com minhas correspondências. Quase não foram percebidas, mas quando foram, atingiram uma alta escala de surpresa.A curiosidade o fez lê-las, e acredite só, gostou bastante. Minhas histórias (não faço ideia das quais eram) o ajudaram muito no momento atual de sua vida. Para ele, sou uma flutuação entre o sagaz e o divertido, e agora, um de seus passatempos mais especiais. Deu risadas contando aos amigos de minhas peripécias escabrosas. Mesmo esta sendo uma situação absurda, ele admitira que nem gastara muito tempo pensando em como isso foi ocorrer, ou como era possível. Afinal, nossos endereços são os mesmos. Para as cartas moramos no mesmo lugar do mundo. “Prefiro apenas respeitar o mistério das coisas e concentrar em me entreter com seu universo, seus dias, seus pensamentos. Não posso ignorar algo que me faz tão bem ou rebaixá-lo apenas porque não compreendo. Quando você me contou sobre aquela história do restaurante australiano, acordei com outros olhos no dia seguinte. Também não sou fã de lulas ou crustáceos, fique sabendo”. Mas que diabos ele estaria falando? “Gostaria de te conhecer pessoalmente. Acho que temos muito em comum” me escreveu uma vez.

Clemente,estou pasmo. Pipocam ignorâncias em meus ouvidos e os passantes percebem que carrego transtornos por debaixo da camisa. Minha voz quando sai é doída. Não sei até que ponto posso confiar na realidade de um passeio, de um dia de trabalho, de um sonho. Não parei de mandar cartas para mim, para Olavo. Já perdi as fronteiras. O mais inexplicável é que gosto de conversar com ele, nos damos lindamente bem, apreciamos ambos centeio no lanche da tarde, apostar em resultados de boxe, ler Pirandello e Calvino, essas coisas. Mas agora te escrevo pedindo um conselho. Olavo marcou comigo um encontro num café no centro, Alvorecer chama-se (meio brega não?), às 15 de um sábado. Não sei vou. Não sei se não vou. O que acontece comigo é  o medo. Covardia. Não sei do quê, talvez do que aconteça, do que não aconteça, talvez do que possa descobrir, do que não possa saber. Aliás, pode ser que o medo seja isso: algo que não se pode ver nos olhos, assim como eu, você e todos nós, que quando sozinhos não conseguimos apontar nossos próprios olhos para nossos rostos afim de nos vestirmos por completos.