quarta-feira, 27 de julho de 2011

porque não atravessar a rua

Se você visse meu cachorro agora. Tomando a arquibancada dô mundo. Apostando. O dia aguarda a facada que é a marcação do final de turno. Atrasada demais para meu cachorro. Ele me aguarda na porta do serviço, triste. Não quer saber de retícula de notícia. Das desculpas que arrisco às bibliotecárias. Me conhece o danado. Olha para mim. Sim cachorro, eu estou viva. Conforta-se com um instante de certificação e parte pra casa. Não confia em mim de proteção. Meu cachorro me aguarda, no meio do caminho. Patas intranqüilas no degrau, rabo ventilador, cansado de esperar. Ter que me buscar na noite assaltada por dificuldades. De novo, me vê e parte. A, se você pudesse ver ele antes. Deita no tapete, já fez seu trabalho, que desastre devo ser pra sua vida, pra que tanta preocupação. Eu olho. Mas olho reto, sem desvios, para ele ter certeza. Ele fingi-se desentendido. Sou um cachorro, desconcentrado, sabe que não entendo nada. Olha para um canto, limpa com os olhos toda janela das vistas. Desiste e se levanta, coitado. “vamos” eu digo acrescentando pressa. Ele levanta-se, me ultrapassa e sobe as escadas. e eu muda. Sabe que não ganhará muito com isso mas interpreta igual, nada mais a se fazer. Já no andar de cima, lanço algumas desculpas. Procuro amaciar orelhas, ele desdenha. Já está farto de meu discurso, das promessas tantas. Abro o refrigerador, peço para sentar. Apelo para desespero, lhe ofereço uma bolacha. Ele não vibra um músculo. Nem sequer salienta as despintadas narinas. Meu cachorro não agüenta mais meus costumes. Sou previsível. Mas lhe dou a bolacha, é óbvio. Ele mastiga, devagar, como nenhum animal do mundo faria. Digo que gergilim faz bem para o intestino e finjo ficar feliz por ele não devorar rápido todo volume da minha oferta. Alerto: limpe tudo, e aponto ao chão. De novo, finge não compreender. Dura pouco. Lambe as migalhas do piso apenas enquanto fiscalizo.
Mas o pior momento, o resfriado momento mesmo, o viral do gripal, é quando meu cachorro, depois de ter checado todo apartamento, identificado todos novos objetos, localizado os ausentes, mapeado a bagunça, não vai embora. E eu penso, cachorro, minha irmã menor está lá embaixo, na fase da reticiência, você não vai cuidar dela? Ele deita perto da escada. E eu penso, cachorro, porque tu se deitou e não fechou os olhos? Porque me observar tão insinuoso e desconfiado? A, se você visse me cachorro agora. E eu me finjo de desentendida. Pareço desconcentrada, olho par um canto, varro o entendimento para os laços da parede. Sabe que não sei de nada, não raciocino muita coisa. O cachorro me olha, sem deslizes. Abro o computador, abro uma cerveja, mexo nos rascunhos. Ele se mantém. Firme. Deitado, mas, de olhos abertos. Ao lado da escada. Como que clama: me diga agora. Fale tudo. Eu sei, o que está passando, mas é verdade? Não acredito. Desminta. Se for eu vou embora. Estou a um passo do primeiro degrau. Como me lembrasse. Olhe para mim e veja essa tua vida que só se recicla para virar madeira de cerca. Meu cachorro, se vocês o conhecessem. Ele é tão depressivo. Pouca coisa o alegra. O demos roupas. Ele rasgara todas e só depois desse menosprezo, as vista. Pensei, mas que solidão meu senhor. Lhe dei um gato para fazer companhia. Ele o gosto de um jeito estranho, o dando suprema liberdade,nem bola. Estava demais ocioso, o dei uma ocupação: entregador de papel higiênico nos banheiros, vigia noturno. Mas nem a fofoca dos galhos e do vento o faziem latir. E agora, ele afirma com os lábios caídos, deixe eu te reconhecer e entender o que se sucedeu. Então é mesmo o que me contaram. Olhe para mim e veja você.
Fumo um cigarro. Penso no que fazer antes que a cama cobre minha fiança. Vou até os livros. “Olhe que ridículo você parado. Não me dá um abraço nem nada. É só mais um que me critica” Vou até ele. Meu cachorro está rodeado de livros. Ele sabe Ele sabe dos livros. Não se move, não tem curiosidade. Juntou todos os triângulos, descobriu a deformação. Não há surpresas para meu cachorro em relação a mim. Chego perto perto, seduzindo-o para um carinho, uma roçada de pelo na minha perna, que seja. Nós somos esse silêncio complacente. Meu cachorro percebe que eu entendi, não há mais nada a se fazer, é uma bocadinha de pena. Ele espera eu começar a escrever esse texto, e der repente, se distância por entre as curvas da escada metálica. Magoada, sou orgulhosa. Não grito, exijo socorro. Finjo que choro, choro alto com nó na garganta, feito fazem os cachorros. Ele ignora, é preciso ir embora.
Pouco antes de me dar conta de sua ausência, percebo, eu e meu cachorro nos conhecemos muito bem, percebo, eu realmente estava falando com meu cachorro. Ele, respondendo. Meus pelos pressentem tudo. Nem a fofoca dos galhos e dos ventos nos fazem latir.
Se você me visse agora.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

o presente

Ícaro era o nome do grandalhão. Analisava com espanteza a simples caixinha de papelão, culpada é verdade, de sufocar aquela parte do gramado se ensaiando amarelo. Foi ele, antes de Mathias se pronunciar, aliás, desembocar o grito longo, que primeiro chamou a atenção de todos. Naturalmente, através da estranha imobilidade de Ícaro, sobrancelhas difíceis de se impressionar, os primeiros que chegavam naquela parte dos fundos do terreno de Elenice, sabiam de imediato que aquela não se tratava de uma simples caixinha de papelão. E inertes pelo mistério que havia congelado até o mais velho dos componentes de sua confraria, nada fizeram procurando motivos apenas com o silêncio. E então, é claro, veio o tal grito de Mathias – esparso e fantasiado de injeção, como tudo que vem das crianças. O menino se agachou, e com apenas dois de seus dedinhos vazios de atleticidades, abriu o objeto amarronzado, expondo a todos o interior.

Úrsula, como se reagisse ao cronômetro de uma fera esfomiada, procurou o peito de Gilberto, o magrinho que estava no seu lado no momento, e ali ficou. Gil, por assim mais conhecido, quase renegou a violência daquela tal liberdade - a menina a começar chorar estampada na sua pele - mas ao entender o que de fato acontecera, agarrou-a firme, e daqueles que lá estavam, foi o único que chegou a ter uma certa sensação de felicidade, quando as nascentes dos seios da menina revelaram seu avantajado volume durante a pressão entre os corpos. Em paralelo, o hondurenho Yann sussurrava baixinho algumas palavras em francês que se assemelhavam a uma oração, enquanto Milena e Sampaio corriam com lágrimas desenhando rotas, cada um para sua casa, perdidos. +

Lembro que a manhã estava jovem ainda. No sábado, depois de desistirmos da partida de vôlei, , no asfalto da rua Domingos, resolvemos ir para o matagal de Elenice, aproveitando que a velha não estava em casa, apenas porque era proibido e talvez perigoso. Mathias sempre tinha esse tipo de idéia, que todo mundo sempre achava que vinha da cabeça de Ícaro, porque ela só acontecia se ele concordasse. Gil gostava de cobras, então achou uma boa sugestão, e concordou ao mexer em uma franja que não mais existia desde que seus morenos foram raspados num surto de lêndea, ocorrido na semana anterior entre as crianças da sua família. Milena acrescentou que seria uma ótima oportunidade de nós procurarmos por madeiras para a construção, que estava a ser planejada, da sede do grupo – e Úrsula completou dizendo que talvez os resultados fossem maiores que o esperado, seria até capaz deles encontrar ao invés de madeira, satisfações maiores, como por exemplo, algum tesouro escondido nas cobertas de terra, o que os dariam capital para comprar quanta madeira quisessem. Até Yann disse que sim, até porque, sabia poucas palavras no português, e arriscou essa por achar não mais adequada a situação, mas por ser ela a mais engraçada dentre os termos estrangeiros que decorará com dificuldade. Então, fomos nós todos rumo a aquele abandono todo antes que o sol se esconder-se.

E lá estava, caído entre raízes fortes e folhas com cores que só o outono traria as folhas. Foi Sampaio que o achou. Estava sozinho e gritava demais, o pobrezinho. Não por ter o melhor ouvido mas sim a maior curiosidade, o pequeno insistiu em descobrir a origem daquela torneira de sons esquisitóides. Ao o ver, Úrsula criou cordilheiras de felicidade com as bochechas. Mathias repetia “eu falei, eu falei pra gente vir, não é?”, enquanto Milena declarava a Ícaro, “que bom que a gente veio, que idéia! Vamos salvar o bichinho”. E de imediato, pensando que o motivo do resmungo do animalzinho fosse o excesso de frio, a menina espichou as mangas de sua camisa e encavernou o pequeno com o algodão que sobrava dos braços. Todos queriam tocá-lo, fazer um carinho, ser íntimo do corpo do bichinho, ser seu amigo, um pouquinho pai também. Concordamos, acho que eu até que sugeri, em batizá-lo de Pêpe. Lembro que começarmos até a criar uma história para o recém chegado. Seu pai sumira de casa em busca de trabalho e comida, e nesse intervalo, a mãe ficara enferme e fraca, vindo a desmaiar na boca de um predador qualquer, e Pêpe, o quase órfão, fora salvo pela nossa chegada, uma benção do destino, ou simplesmente, salvação nossa.

Logo começara a escurecer e todos sabiam que deveriam ir para casa em breve. Quando foi levantada a hipótese de quem ficaria com o pequeno, todos foram criteriosos. Ícaro já tinha três pastores alemães, o pai de Milena detestava animais (a criança nunca pudera ter nada de patas ou asas), Sampaio era alérgico, eu já tinha que cuidar de duas gatas, Mathias possuía em casa peixes, rãs e porquinhos da Índia que lhe ocupavam muito de sua paciência, Úrsula era instável e Yann, ora Yann, não tinha espaço de sobra na sua pequena casa, onde vivia parentes tanto por parte de mãe como de pai, sem contar os amigos refugiados de ambas as partes. Além disso, capaz da criatura aprender o francês, e vir a se sentir excluído no meio de todos, nas conversas futuras. A decisão do que fazer surgiu por parte de Milena, que trouxe à tona uma possibilidade encantadora. No outro dia seria o aniversário de Pedro, e bem que Pépe daria um ótimo presente ao rapaz. Mathias e Gil logo concordaram, sabendo que seus pais não haviam comprado nada para que eles dessem de presente ao amigo. Úrsula ficou cambaleante. Bem sabia ela da atenção que Pedro dava as suas coisas, e pior ainda, as coisas do outro. Não fazia muito tempo, o rapaz quebrara sua raquete novinha, quando ela esqueceu o brinquedo na sua casa. “Durou dois dias”, pensou mas deixou-se ir. Fora resolvido que essa seria a última noite que o animal passaria nesse acampado. No outro dia, Sampaio e Yann voltariam ao local, cuidadosamente, de manhã antes da velha tomar seu café. Levariam o animal à casa de Úrsula, onde ela o arrumaria apropriadamente para o encontro dele com seu dono, e após, Gil e Mathias o embalariam numa cesta bem bonita, feita com o que sobrou da decoração da Páscoa. Estava feito. Rapidamente, eu trouxe uma caixa, que encontrei por ali perto. O bichinho fora posto ali dentro, junto com fiapos de grama e pedaços de galho. Todos se despediram recheados de fôlego e cuidado, enquanto Mathias lacrava a caixa com os apetrechos que sempre guardava no bolso. Escondemos nosso segredo debaixo da copa da maior árvore do terreno. Não tinha erro. Voltamos todos para nossas famílias, onde comeríamos e iríamos para cama. Não sei se algum de nós realmente conseguiu dormir depois da luz ser desligada por força paterna. Estávamos ansiosos e reticentes com a distância exigida pela troca de dias em relação ao nosso animal. De qualquer forma, o tempo passou agradável, com a certeza de um dia agradável e de festa que nos esperava bufando.

E como tínhamos motivos para o sono nos ignorar. O que nos apresentava o domigo, naquele tempo, era isso. Pelo entorno, rasgos da fita que Mathias usara para preservar tão bem a casinha temporária do animal. Pelo chão os gravetos que Yann despejou com uma meticulosidade extrema. A caixa aberta, recebendo a luz do fim da manhã. Me recordo de perceber alguns pontilhados profundos nas abas do papelão marrom. O animal bem que tentara fugir, mas não conseguiu. Ficou registrada ali, a sua tentativa. Nosso crime estava exposto à céu aberto, tudo naquilo nos incriminava. Assim, enquanto Sampaio e Milena procuravam consolo dos pais em seus quartos, resolvemos ficar no exato lugar, em pé, erguidos pela raiva de nós mesmos. Olhei para para Mathias, procurando a exclamação de uma idea nova, que nada. Aguardei algum sinal de Ícaro, nos indicando funções a desempenhar, o que fazer, em vão. O animal parecia muito pequeno para conter apenas em si mesmo o tamanho da morte. Eram poucas as penas recém crescidas. O bico tão pequenino, a garganta sem tempo para se encorpar. “Isso não devia ter acontecido, não devia”, exclamava Úrsula ainda sem ter coragem para voltar os olhos e enxergar o corpo. Permanecemos ali, procurando motivos, tentando com a nossa vida exagerada, ressuscitar o pequeno com corpo frio, ao qual tudo que demos foi a morte. Parece-me que foi enquanto Gil tentava inventar razões “ele já devia estar fraquinho, não havia nada que pudéssemos fazer”, bem quando, acreditem, um arrependimento liquido brotou nos olhos de Ícaro (e o gigantão nem preocupou-se com o descrédito do ocorrido), na hora que Yann terminava sua oração “ainsi soit-il”, no momento em que Mathias acariciava a ave, o pássaro que nunca chegara aproveitar a liberdade máxima de suas asas, com seu dedo mais pequeno para não aumentar o estrago, que ouvimos alguém gritar de longe, era a mãe de Pedro a nos chamar, “Está na mesa meninos! Venham rápido para não esfriar”.

Naquele dia Pedro ficou muito bravo com todos nós. Pensou que tínhamos desdenhado sua festa, a comida de sua mãe, tudo, sei lá. Fomos, é claro, mas brincamos pouco. Nenhum de nós almoçou e sequer chegamos a sentar na mesa com seus familiares. Parece que Ícaro mesmo, foi o que se saiu pior. Chegou até a vomitar mais tarde, quando a mãe de Pedro, Lourdes, uma bela alemã de pele explícita, lhe direcionou a palavra dizendo “Você tem certeza que não quer uma asinha de frango?”.

Se mantiveram quietos. Mergulhadas num tipo de silêncio, tal como os de funerais.

domingo, 17 de julho de 2011

saias de casa ( quando a mulher sai de casa)

1.
A mulher saiu de casa esquecendo-se do fim de sua chegada. Seguiu a risca os mandamentos da coluna assim como obedeceu o risco dos dias de chuva. Entrou em duas poças de água. Entrou em dois olhos azuis. Entrou em algumas centenas de nuvens de fumaça. A mulher não havia levado luvas, guarda-chuva ou sequer bons pensamentos. Costumava ver tudo como geometria, a da brisa por exemplo, era a forma da lâmina. A mulher que saiu para achar não teve o que queria. Primeiro vieram as lancherias. Depois vieram as surpresas da esquina, como galhos caídos e instabilidades da superfície. Depois um conhecido, que recentemente voltou de Malta. Escorregou pela conversa ruim de senhoras idosas na frente da previdência. Se encarregou de imaginar o filho bêbado do motorista que pelo que enganchou da sua conversa com o cobrador “está como se equilibrar em paredes”. Expandida mas não completa, relinchou um sorriso que eu vi sim senhora. A mulher desafogou-se, e já chegando em casa, lembrou que esqueceu o motivo de enfrentar a chuva, a idade, a metrópole azul. “Menos uma coisa” – pensou, e girou a chave, satisfeita.

2.
A mulher saiu de casa, mas a casa não saiu da mulher. O bolor da casa prosseguiu, o gélido do espaço cama-entre- chão, continuou. A mulher tinha tido até o instante 43 tentativas. Todas estacionadas em vagas proibidas. A mulher tinha uma cota diária de lenha para aquecer futilidades. A mulher tinha tios fantasmas em épocas de sonhos fortes. Se foram todas as abordagens do interesse. Todo dia escuta sons que vem no campo, embora more na cidade, todo dia reza com os olhos abertos e alto, como se num palanque. Os cabelos envelheceram a idade, ninguém adota culpa por nascimentos. Especialmente, os da morte. Só assim mesmo, pra mulher sair de casa.
3.
A mulher saiu de casa na calada. Pés de gelo, fortificavam a imagem do todo, corpo de avalanche. A mulher fugia. Contaram uns, quando em namoro com o álcool. A mulher se esquecia de interpretar - garantiam os donos de poses com cabeça cheia. A mulher mudou a casa de lugar. Afirmavam os passantes, sempre os mais atentos. A mulher não achava justo usar martelos pra feitura dos quadros. Fazer estratégia em dias muito claros. Esconder as palavras por garantia. Ficaram os parentes a dedilhar restos nas roupas que continuaram, nos objetos de higiene. Ficaram os cães a latir e dormir, como sempre fazem os cães, independente das molas do mundo. “O jeito que a gente apaga é escrevendo” – o vigilante da madrugada garante ter ouvido, enquanto, pasmem, a mulher se preocupava em lacrar a porta da casa da qual nunca voltaria a estar, mas conferiu todas tranas, das janelas, portas, de todo andar, antes de meter-se a partir para sua vontade vencedora e cheia de si. Reluzente.

4.
A mulher saiu de casa por um mínimo instante, um assombroso meio metro quadrado de tempo, imperceptíveis gemidos de passagem na idade, e retornou com os dois pés paralelos na sala, intacta. Pra ela era mais interessante abrir os fogos de artifício na casa, celebrar o que mais se ama – e quem sabe- depois construir um jardim – com lâminas e pedregulhos, do que resta. “O que é bom tem luz própria - explode”, bonito são os cacos. Os da casa dela, vooaram alto, caíram os pequenos asteróides nos telhados dos vizinhos – causaram buracos incendiosos. A mulher sorriu.