terça-feira, 20 de setembro de 2016

a escultora que não se escondia

“tem a pele nua” havia me dito Rita.

“não é todo mundo que é assim?’”

“não”, me disse ela.

confesso que não entendi o que aquilo gostaria de significar.

arrancar sentidos de Rita é como tentar escovar uma floresta. com suspiros.

quando enfim conheci sua amiga, tive impressão que deveria vestir camisas GG. não sabia onde colocar minha surpresa, não havia como me esconder. fiquei pasmo, atropelado por um bando de pássaros que esnobaram o pouso em meu rosto. mas porque haveria de ficar assim? ficou claro minha ineficácia em lidar com sinceridades de perto.

sua pele era transparente.

impossível o esconderijo. podíamos enxergar tudo. e não ligava para isso. na ocasião estava de regata, braços a mostra apesar de tudo. parecia estar confortável com sua situação. a primeira coisa que vi foram as veias grossas. eu podia observar  as artérias trabalhando. sem cessar, pulavam e descansavam num segundo. era como um relógio nu. a cumprimentei com um aperto de mão. não foi fácil. ruía. sem muita força segurei seus dedos. podia ver exatamente onde estava tocando. engoli  um susto. um assombro quente que usei para navegar. apesar de tudo, sua pele, era quente.

sentamos numa mesa, no lado de fora do café. ela, eu, Rita e França. ela pediu um suco de laranja. a medida que o bebia, eu acompanhava o curso do líquido laranja correndo pelo seu corpo. por algum tempo, ela era uma mulher com um risco laranja atravessado.

aquilo preencheu os próximos quatro anos meus de pura fascinação. laranja. tive vergonha de me prender por muito em seu destino. tropeçar no peito, cair nas bochechas. França tomou o papel de provocar assuntos na mesa. a elogiava. ao que entendi, era escultora. “das boas”, pincelava Rita. ela era um quadro vivo. uma expedição aberta. me pus a rastejar em seus detalhes quando estava imersa em distrações. o enlace dos músculos do pescoço me fascinava. a cartilagem no nariz, um tímido mas de personalidade, me ensinava a entender mais as árvores. o mais incrível era esse contraste: os olhos. os olhos eram a única parte de seu corpo que era opaca. não conseguia me dedicar a eles sem ganhar um arrepio a parasitar minha coluna.

Rita insistia de a tratar como sua nova descoberta. assim como França, a abraçava, arquitetava bons comentários, a protegia de qualquer males exteriores. eles já haviam decidido protege-la. de fato, a primeira vista, parecia um tanto frágil pela sua condição. mas isso me parecia um engano pronto. Rita fazia propaganda de mim para a mulher.

“você precisa vê-lo tocando. Heitor é músico, você sabia?”

a mulher só sorria. quando sorria era como se continentes rígidos abrissem grandes fendas na rapidez da viagem da luz. ou como se o tempo fosse um grão, passível de ser aspirado ou levado por qualquer direção de impulso de ar. tudo parecia possível. ela dizia pouco. mas nem precisava buscar muito as palavras. sem perceber falava de corpo inteiro.

depois da passagem, do choque, e talvez uma ponte aguda de repulsa, ela começou a me dar penteados novos. comecei a imaginar meus dias com sua presença. me vi bonito. de fato, gostaria de tocar algo para ela. a colocar perto de meu piano, com pouca roupa, e observar como seu corpo reagia ao som de Schubert, quem sabe. o que será que a música fazia em seu peito, observar a velocidade do sangue em seus túneis submersos, verdadeiras coreografias da pele, talvez ter a sorte de olhar seu coração desvairar em uma dança solo, enquanto Lazarus está sendo tocado por mim. poderia ver o que eu faço com seu corpo.

enquanto França fazia piadinhas recheadas de notas biográficas e explicava como aquela mulher fora parar em nossa cidade, em nossa mesa, em nossa memória hemorrágica, enquanto Rita pedira um sorvete de creme, e a mulher comia devagar um sanduíche de cogumelos (eu podia ver os cogumelos, agora pasta de cogu, viajando pelo seu esôfago, algo que qualquer outra mulher cobriria com lenços e interruptores de escuro), me batera em cheio uma vontade devastadora de dormir com essa mulher. de trepá-la.

fudê-la.

não consegui parar de pensar nisso. não consegui me concentrar nos assuntos da mesa, ficava calado tentando me despersuadir dessa manifestação que já se denunciava obsessiva. precisava fazer sexo com ela. observar as mudanças de seu corpo, os músculos se enriquecendo enquanto eu amaciaria seus ossos, observar seu pulmão trabalhando rápido enquanto eu adentraria dentro dela devagar e cada vez mais forte, cada vez mais pulmão, balões de festa. observar a trajetória do grito em seu interior.

enxergá-la por todos os cantos.

eu queria quebrá-la.

depois observar os pedaços no chão.
um por um.

“Veneza”, Rita falava, “não está com nada. Maria Martins se fez foi depois de ir a Amazônia. precisamos levá-la imediatamente para o norte”. se desvencilhando dos braços de França, a mulher se continha. borbulhava pequenos sorrisos para confirmar que ouvira o que se falava naquela mesa. o tempo podia ser desacelerado acima de suas sobrancelhas.

“onde você nasceu mesmo?” perguntei a ela. mas não ouvi a resposta. a mulher nascia ainda, era possível observar.

minhas mãos em seu pescoço. como uma extensão de seus músculos. adjunto de anatomia. a tocando. a pesando aos poucos.

em algum lugar eu a bato. forte. como mármore. como a argila temperada. como a pedra branca que há tanto esta acostumada em seus dias em sua oficina, na qual toca, pela espátula, o garrote, a palheta, o martelo.

ao contrário de seus trabalhos ela não fica firme, não adquire contornos. cai no chão. se esparrama, se despedaça. recolho tudo que vejo. junto com uma corda. aperto firme, bato de novo. de novo. repito tudo e a penetro devagar, assistindo seu peito escandalizar. bater, em consonância. até a organização se desfazer. até os contornos se confundirem. tudo se misturar, da mesma cor, densidade. até tudo ficar homogêneo e não ser possível distinguir nada. como uma massa de bolo.

eu quero quebrá-la.

meu deus ela sabe disse. ela sabe e não fala nada. ela sabe e não me olha. não há nada que eu consiga esconder nesta mesa. por isto, e mais talvez, poderia fazer agora mesmo.

tem razão de me odiar. mas não odeia. se assim fosse odiaria o mundo inteiro. ela levanta o rosto para cima como quem processa alguma informação de última hora. usa os cílios como espanadores. usa o corpo todo para não dizer. fica em silêncio.

imagino se o som é o mesmo das coisas quando vistas.

eu quero quebrá-la até os ossos.

porto alegre, 2011.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

ex-namorada do novelista lê sua mais nova obra-prima enquanto em seu rosto crescem certos pelos malhados e bigodes

"então foi ele que matou meu gato"

diz a ex-namorada enquanto fecha o livro do novelista exatamente na página 97.

o novelista achava que ter segredos era quebrar segredos. a ex-namorada do novelista crê que quebrar segredos é a melhor forma de não ter mais nada com alguém.

"meu gato está agora para sempre meio morto, meio no livro. enquanto ele meio pobre, meio rico".

o que é um prêmio afinal? pensa a ex-namorada. ainda bem que existem os haters, pensa ela que quando recorda o número 97 esquece-se que já tomou banho. a ficção é o pesadelo do motor.

como falar a verdade para se vingar de alguém que já falou a verdade?

"houve uma época em que vivi com os bichos. hoje eles são mortos ou escrevem livros enquanto eu jogo minecraft".

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Eu conquistava o rei enquanto Teófilo decidiu me deixar

Eu conquistava o rei enquanto Teófilo decidiu me deixar.

Enquanto isso,  além daquele tabuleiro de xadrez de pedra e madeira, tia Janaína arrancava os brancos do cabelo em frente a um espelho, a cachaça de minha mãe recém acabava, e se você estivesse lá, veria, seguindo em direção ao sofá e olhando para o tabletes de desenhos marroquinos, o que veria deitado no chão era Teófilo decidindo me deixar.

Assim, aos urubus que são as manhãs de solteira. Aos parques que são os finais de dia para um recém despiedado. Canta Canta menina, embaça essa vida, agarra ele enquanto o tempo boceja. Mais de Teófilo eu tenho, o camareiro da intranquilidade, o charme basco, o bom gosto para o exótico. De Teófilo eu tenho, as formas das pernas, na minha mão o encontro dos lábios, o relevo das bolas, senhoras bolas, inclusive o meu pescoço sambista de alegria, eu tenho é de Teófilo. Mais ainda do Teófilo exato Teófilo que decidiu me deixar.

Duas casas à esquerda.

De nada desconfiei daquele mirradinho. Sempre aprisionado nos românticos ingleses esquecidos pela gramática, pouco restava para o amor de realidades, que eu jurava, era todo meu. Falava pouco Teófilo. Sobre os planetas, dissertava quando se sentia mal-vindo em algum lugar, chá de moças, reunião anual da família, que pensava estava ligado por um papel amassado com carimbo de cartório. Sobre os etruscos, comentava para não discutir sobre vinhos, era difícil pra ele adjetivar a diferença entre um Taunat e um Pinot. Para não falar de si, beijava, me beijava, me beijava sempre.

Eu conquistava o rei.

Não lembro quem ganhou aquela partida de xadrez, não lembro quem nada. Apenas que no carro, Teófilo, que já estava  decidido a me deixar, pensava agora em como me deixar. Eu ainda nada sabia, enquanto ele dirigia e pensava em elefantes, eu migrava para a paisagem dos próximos minutos, nós, na cama, num silencio recompensado pelo corpos. Mas talvez, pensando agora no interior daquele Clio 97, se eu quisesse, eu digo talvez, perceberia os olhos fixos ao volante, as frases curtas, as falhas na câmbio, o rosto avermelhado sem porquês nebulosos. Quis chegar logo em casa, disse algo sobre a sua cabeça que não entendi por estar ainda digerindo aquele filme de três noites atrás, que loucura, ser congelado e acordar cem anos depois, sim, é preciso prestar mais atenção no presente e ver mais Cassavetes.

Depois até pensei, deve ter sido difícil para o pobre tomar uma decisão assim, e agir, imagina depois de alguns dois anos de clara reciprocidade, de stop na terapia, de sobriedade das pequenas pílulas, botar tudo a perder e me mandar embora da sua vida. Deve ter encomendado coragem da Coreia do Norte esse garoto. Ainda mais eu, que tanto carinho cultivava com água da chuva, com vitaminas especializadas, amor e amor. Gostava de Teófilo porque ele não sabia ser outra coisa, e justamente por isso, tão legível como um travessão - no íntimo absoluto, pedra de minha ruína interior - eu sabia de tudo e absolutamente tudo tal como o primeiro pensamento de Teófilo decidindo me deixar.

Talvez por isso, mesmo com poucas as peças, o jogo virou tão rapidamente, eu com um olho no peão, outro na solução aquosa que era o corpo de Téo, esparramado no tapete musgo, como um aquário abandonado, quieto mas no reflexo nas paredes espichando os membros em desacordo, debatendo-se, como quem quer ser maior para enfrentar tal desafio, eu vi, seu pensamento se formando, eu estava na mão direita - e da direção do ombro uma o braço uma só frase se formava. Eu que vivi a clandestinidade, onde falar a palavra exata poderia dar o gesto da morte a minha família, desde criança aprendi a ler uma frase ainda em gestação, e no caso de Teófilo ela tentava nascer por todos os lados, os cantos, os orifícios, como um chafariz a marcar um importante momento histórico, eu, no caso a que me fui, você, Teófilo, a tudo presenciou.

E por todo o tempo, intimamente, guardei o segredo, até de mim mesmo, eu sabia que ele sabia, e esperava o retocar das situações, como uma acadêmica do silêncio, me divertia com sua falta de equilíbrio, seu mal-estar na hora de cozinhar, a risada forçada para as mensagens de texto. Como se estivesse, no pior cenário, por trás daqueles eventos, eu, nos bastidores, cega para o observador, atrás dos holofotes, eu a que agia, o deixando sozinho, absolutamente sozinho, sozinho, contudo tão e tão bonito que nem lembrou quem amei de verdade se foi Teófilo ou apenas o fim.

Finalmente quando ele disse o que disse, largando por todas as paredes a impossibilidade da volta, uma palavra é impossível de ser retirada, uma palavra impossível de ser retirada é o material de construção das barcas, que hora de vir Camões, que hora!, eu que me via tão dona do controle, do estádio, senti uma náusea, uma dor, como se eu o tivesse traído ao ter contemplado aquela agonia toda, Teófilo, está tudo bem eu disse, as portas no futuro serão grandes o suficiente para que as pessoas saiam juntas, de mão dadas ou não, mais juntas e nós nos preocupamos com o futuro, até os das portas, não sei se disse isto realmente, ou só pensei, mas o agradeci com um sorriso em cada mão, não sorrisos irônicos ou orgulhosos, mas um sorriso de agradecimento que só é possível com o corpo todo.

Eu conquistei o rei. E é só disto que me recordo.

23.12.2010

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Shaimma e eu no meio da rua

Você não sabe o que é chegar em um lugar e a única pessoa que você conhece morrer. Morrer de um absurdo, uma morte arremessada, uma morte soletrada por uma única bala em uma praça que parece determinada se asfaltar com sua cabeça. Quando Shaimma morreu eu estava em frente a arma que a matou mas a vi gritar e corri para a segurá-la por trás então ela se foi. Quando Shaimma morreu eu a vi dizendo com os olhos “eles querem nos devolver nossa terra em cima dos nossos corpos” eu quis dizer que não mas é feio negar quem está quase sem vida

quando Shaimma morreu eu tinha saído apenas para comprar geleia e pão e embora não saiba ler em árabe pude entender que todas as lojas estavam fechadas então vi a passeata, então vi Shaimma ainda viva – mas já morta porque o destino é imutável – sacudir seu braço para mim na esperança que o meu fizesse o mesmo e assim fossemos mais fortes mas não

quando Shaimma morreu eu tive todo o tempo do mundo para a socorrê-la, para achar o culpado, em menos de 5 minutos eu viajei do início ao fim da passeata, eu estava atrás e em frente ao cordão de isolamento, dentro e fora da embaixada, eu vi de cima a bandeira do Egito pegar fogo, vi as crianças jogarem pedras uma nas outras, um senhor de uns 70 anos se arremessado como um lençol pelo vento em direção ao muro, só que o vento era o muro, mas quando voltei com faixas, algodão e remédios, com a frase ‘o povo está do seu lado’ eu vi que na verdade tudo aquilo durara 10 segundos, que eu não tinha saído do lugar, de que Shaimma estava morta e eu só sabia disto porque estava vivo.

Sua cabeça em meu colo, seus olhos abertos. Em algum lugar dentro de Shaimma eu também morria para ela. Me concentrei, uma obrigação do desespero de conseguir ver além sua cortina marrom, sua íris impecavelmente inacessível, procurar dentro dela. Em algum lugar dela estávamos nós dois, há três semanas atrás na primeira vez que nos vimos no café Bourboun, a primeira vez

que vi Shaimma de verdade, ela e seu inglês suave e doloroso como um fóssil de um sabre, saindo devagar de sua boca enquanto falávamos do Brasil como quem mente já descobrir a resposta do mais minúsculo cadeado do mundo. Esta ou a vez que brigamos com um jornalista inglês, um tipo detestável, que cobria o oriente com a mesma roupa que uns usam para escalar os Alpes – bastou uns segundos para que ele defendesse a colonização inglesa – não bastou nada para eu ameaçá-lo com um tom de voz roubado (algum filme de ação ruim) e ali estava Shaimma imna, brava com os dois, mas calma o suficiente para segurar dois bastões de polônio com as mãos e ainda ter tempo de pensar.

Eu sabia que estes acontecimentos morriam dentro dela enquanto se ia e que um dia seriam apenas meus (quem em mim acreditaria?) eu precisava de Shaimma ima viva, eu vivo dentro dela, e neste momento nem pensei que aquilo em nada dizia ao meu respeito – estamos falando da ditadura, estamos falando da volta da teocracia, estamos falando de milhares de inocentes mortos pela raiva mais inóspita que agora foge nem pulga pelas ruas habitando principalmente os uniformes da guarda nacional.

Este foi o dia que o Egito não caía porque já estava no chão. Porque as covas já estavam abertas. Mas os muçulmanos não enterram seus mortos, eles queimam, e mesmo assim a sete palmos do chão, mesmo morto, mesmo jogados abaixo da terra ainda sempre é tempo para ser um traidor.
Isto importava para que?

Você não sabe o que é ir dormir, tirar a camiseta e pensar “há algo diferente aqui” e logo depois de alguns tonteios lembrar “isto é sangue”, tenho sangue na camisa, também nos sapatos, e não saber o que isto significa. Depois quem sabe, tomar um banho, e sentir pela primeira vez a pele ser a fronteira do ódio, não poder discernir ele da água se indo, por isso, nunca querer sair do banho

 “Oi mamãe, eu estou ligando, bom, uma coisa terrível aconteceu, você deve estar dando aula ainda certo?, bom uma amiga minha morreu, na verdade ela foi assassinada, mas para todos ela simplesmente morreu, porque não importa, sabe foram mais de 20 pessoas, eu queria chorar mas sinto que chorar nestas circunstancias, neste país, é esvaziar algo que não é meu, que me é proibido, eu não quero ficar aqui mas também não consigo voltar, eu estou te ligando mas não queria que você me ouvisse, apenas me respondesse, quem sabe, quando a gente vê alguém morrer esta morte, de alguma forma ela é nossa? Devia ter insistido mais, não diga nada para papai, não quero que piore”

“Maid, é você? Que dia você vem para o Cairo? Você pode me buscar no hotel, simplesmente, bem, simplesmente eu não consigo sair daqui. Shaimma morreu hoje e não sei o que tenho a ver com isto mas meus ouvidos estão carregados com todos aqueles tiros, eles pesam como um guindaste para baixo, é terrível – lembro da foto dos enforcados em 79 no Teerã agora, meus ouvidos (...) você viu na internet? Garanto que não saiu nada nos jornais – ”

o segredo – descobri mais tarde – é simplesmente não tomá-lo.

Você deve estar achando isto um absurdo. Uma semana em um quarto de hotel. Sem tomar banho. No décimo quinto andar onde tudo que está abaixo é a visão do passado. Aquele que se esquece. Teve uma dessas noites, acordei com uma dor:meu peito direito doía e no espelho procurei a bala, que deveria estar ali, a bala de fuzil que era minha, e não de Shaimma, porque mudei de lado para ajudá-la e acabei matando com minha própria ausência. Talvez se Shaimma não tivesse me visto ela estaria longe daquilo, aquela pólvora engavetada com fome de nada, mais perigosa por isso. Talvez conheci Shaimma no momento que ela morreu – e todo o pouco que vivemos se fez tão maior, como um afresco que exagera em detalhes, e  cada aresta vira uma porta bilionária, auto-reprodutora, e o movimento de suas batidas fosse uma pequena eternidade. Talvez a conheci apenas para a ver morrer assim da forma mais estúpida, sem direção, na minha frente – eu que nem devia estar lá – que não sei nada sobre as veias abertas, as cascatas arrombadas das veias abertas – mas mais principalmente eu que estou pouco me lixando

Você sabe que quando tinha 15 anos de idade descobri que tinha um tio mas não descobri o que era ter um tio – Ciro tinha um pouco mais que minha idade quando apanhou tanto, apanhou em todas partes do corpo simultaneamente, como se quisessem o expulsar de lá “seu merda puto comunista”, provavelmente meu tio soube que a vida tendia ao desaparecimento e descobriu isto em tentar diferenciar um ou outro rato de sua cela, como se isto significasse o único gesto da pluralidade, uma tentativa de conversar com os insetos que insistiam em se movimentar, de agradecê-los pelo enforcamento do tédio – até que um dia desapareceu e foi assim. “O Ciro fez tudo errado, teu tio era um idiota e pagou por isso, nós estamos aqui e inteiro” e ninguém fazia questão de falar porque era ainda a ditadura, e mesmo se não fosse, sua doce engenharia ainda respondia por algumas partes internas do corpo destas pessoas, meus parentes, quem diria “Meu tio se chama Ciro e está morto mas vocês estão vivos o matando ainda”. Você sabe o que é uma ditadura?

Você sabe o que a professor Gilberto nos disse no primeiro ano do ensino médio? A melhor coisa que já aconteceu neste país. Você sabe o que aconteceu com Igor? Foi expulso da aula por que mandou o professor tomar no cu. Eu nunca fui amigo de Igor. Eu que nunca fui amigo de Igor nenhum, mesmo eu filho de meu pai e talvez filho de Ciro, sobrinho de Ciro.

Tudo que Igor fazia não me dizia o respeito. Igor não sabia jogar futebol, não gostava de videogame, ia muito mal em matemática, em física. Uma vez Igor fez primeiros socorros numa professora, que enfartou ali na aula – no meio da oração subordinada, até hoje ficou faltando o ponto final daquela frase que no final estremeceu como feita por alguém que descobriu os dedos anteontem – Igor ajudou a tentar salvar sua vida isto eu lembro. Era parecido comigo, moreno, de pele escura, nós podíamos passar por parentes, mas talvez, sei lá: Igor foi estudar ciências sociais ou não, se formou em direito ou não, fez um mochilão pela America do sul ou não, Igor se filiou ao partido dos trabalhadores ou não – não sei, embora agora, me interesse

Porque estou tão sozinho e isto é tão verdade que gostaria de ligar para ele

“isto vai soar estranho, eu era aquele cara que sentava na quarta fileira à esquerda no colégio durante todo o ensino médio, sabe eu não entendia muito naquela época, aquela sua camisa lembra ‘god save the queen’ é clichê, hoje eu sei, mas me marcou muito eu não entendia, achava engraçado você um monarquista, um monarquista que manda o professor de história tomar no cu, de qualquer forma hoje uma pessoa morreu, uma pessoa morreu na pior circunstância do mundo,  indiferente, alguém que poderia ter filhos, que poderia iniciar uma dinastia, que talvez pudesse colocar sua mão atrás do mundo e mudá-lo milimetricamente de posição, hoje uma pessoa que gosto morreu na minha frente e eu queria falar é com você, eu preciso falar é com você”

Faz mais de três anos que eu não volto ao Brasil, você sabe, Shaimma esteve no Brasil a pouco tempo – e ela falando de lá é tão engraçado, não soube se podia confiar. Shaimma me falando de São Paulo, Shaimma me falando que tinha odiado São Paulo, mas não conheceu São Paulo e sim o que ela viu no meio da rua, existe meio da rua em São Paulo – me disse Shaimma. “Os policias tem treinamento o pior tipo, eles souberam me chamar de puta em inglês, eles são bem treinados, é bonito sim ver 10 mil pessoas na rua, gritando, tocando instrumentos, vocês dançam e isto é engraçado porque isto, ora, isto eles não podem fazer”.

Shaimma era muito bonita e eu a admirava. Mas não a desejava, não era nada disso. A queria perto – a queria parte de mim, no fundo para me sentir melhor no fundo, no fundo porque precisava dela. Precisava de alguém que falasse árabe, precisava de alguém que fosse eu, que como uma rede de pesca tirasse as palavras do meu cérebro e as entregasse frescas e limpas para um comerciante para que eu pudesse pedir um prato que viesse sem carne. Precisava dela perto de mim porque eu sou uma criança e não sei nada da vida e ter alguém prestando atenção no meu sotaque faz os pés cravarem mais fundos mesmo quando inventamos de andar na vertical. Por algum breve tempo ousei pensar que ela pudesse me conhecer e tive medo

medo que ela soubesse que eu estava ali, que eu estava escrevendo sobre o que acontecia em sua cidade mas não me importava

Shaimma isto é um trabalho para mim e ver morrer ver viver é como a divisão dos dias e das noites do meu tipo específico de tempo, eu vejo a destruição e faço o absurdo de a mergulhá-la em um balde de bisturis, de recortá-la, de embaralhá-la, de escalá-la em uma história e depois mandá-la para longe – famílias vendo o jornal em suas casas do outro lado do mundo – os jornais
eu faço isto porque tenho raiva de todos, e isto tudo me é indiferente, eu mesmo vim de um lugar onde as armas vieram antes de apontar os dedos (estes que saíram de moda) e tudo que fiz foi me anestesiar ou ler Fausto, ler algo que me falasse da maldade verdadeira para que de alguma forma estivesse no controle e os curativos me fossem desnecessários

hoje é seu povo, amanhã é outro, faz mais de cinquenta anos que é seu povo, só estamos aqui durante um mês -  e vamos embora – porque as pessoas se acabam em todos os lugares do mundo mas a paciência de quem assisti acaba sempre antes e este é o mundo dos vivos, são estes os tipos de vivos que nos pagam

Você sabe que eu me sinto uma merda. Quando olhei Shaimma nos seus olhos antes de eles apagarem tudo que já tinham visto e procurei ali dentro todos os chás que tomamos juntos, todas as conversas que tivemos, todas as vezes que a deixei em casa, que ela me ajudava a deixar meu entrevistado mais a vontade, que ela me ajudava com informações, com livros, quando ela me colocava nas histórias primeiro do que qualquer outro jornalista – tudo que eu estava procurando era rever estes momentos entender se ela percebeu em algum deles isto. Se ela me conheceu ou julgou, era muito esperta e sei que podia ser possível

Você sabe o que eu gostaria de ter dito. De ter dito quando ela morria. Queria ter podido falar de ti para ela. Queria poder falar que não era nada disso. Que eu a amava. Não exatamente ela mas o que ela representava.

Você sabe o que é se sentir uma merda?

Talvez você ache que você saiba. Mas se você morreu, se você morreu como morreu, foi porque venceu. Porque não conseguiu dar a eles nada do que queriam. Nenhum deles conseguiu entrar dentro de sua cabeça, atrás dos teus olhos, e enxergar tudo o que você viveu. Tudo o que você viveu era o mais importante para eles. Porque vocês viverem era um perigo. E não saber como vocês fizeram isto um perigo maior.

Poderia morrer. Mas veria você, veria Shaimma, e diria o que para vocês dois?

Amanhã, ou talvez depois, Maid vai vir me pegar no hotel. Ele me obrigará a tomar um banho na força. Ele mesmo lavará meu cabelo, e depois disso, ele nunca mais sairá de lá. Eu gostarei mais do meu cabelo, com Maid lá, e conseguirei sair deste hotel. Irei até o aeroporto e voltarei para casa.
Irei para a universidade de mamãe. A esperarei na saída de sua aula. Eu diria a ela: Mamãe. Foi horrível. Mas Ciro, o tio estava lá. Eu falei com Ciro. Ela vai chorar. Porque dez anos em cima dos seus olhos farão isto com eles. Depois iremos para casa.

Iremos para casa pelo meio da rua.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

feijões vermelhos

Estávamos no lugar errado. E na hora certa. O que é pior. Nós os que chegamos no horário. O horário do azar. Nós os pontuais. Os que obedecemos. Enganados.

Nos disseram que aquele era o lugar onde poderíamos conseguir. O visto digo. Para que pudéssemos ficar. Quem sabe ver nossos filhos falando português nos parques assim como os balões levitam. Os balões. O homem da direita faz um com um chiclete que julgo mentolado. Ele o estoura rapidamente. É mal educado. Tão mal educado que os olhos tem só em caso de emergência. Por exemplo: alguém falar seu nome completo. Alguém que ele demorou anos para esquecer ligar surpreendentemente para seu telefone. Uma mulher maior que o mundo andar em sapatos menores que os pés que o pisam. Gostosa. Safada. Mal educado.

Nos disseram que neste endereço conseguiríamos ter os nós das gravatas prontos automaticamente. Que depois de virmos este endereço teríamos empregos. Não como os tigres que caçam. Mas como os tigres que não se deixam ser caçados. Teríamos documentos. A lei nos olhando bonito. A chance de sermos dignos também longe de casa. Mas este homem, o mal-educado, parece estourá-la tão facilmente. Depois ainda deixa um cheiro de goma de mascar velha. Ranzinza. Com essência de menta. Gozando da gente. Dizendo que tá tudo bem no ar. Só que não tá.

Porque a gente tá aqui e faz duas horas. Duas horas nesse cubículo fechado. Branco. Tão branco que é transparente. Que dá para ver o outro lado. Tão transparente que dá para ver seu passado. No outro lado, o de dentro, pessoas como nós os constroem, os limpam, os esfregam. E nas horas que as esfregam deixam ir embora pequenos arquivos de papelão onde estariam escritos: nesse dia peguei meu filho na escola e vimos um papaguaio azul. Nesse dia paguei um café a um desconhecido só porque eu podia. Tão brancos que dá até para ver o nome mais correto do desperdício. Dor.

Somos no total oito. Todos homens. Todos pontuais. Ao lado do sujeito de chiclete tem o tal de Afonso. O tal de Afonso quando entrou aqui, depois de uma hora que estávamos sentados e entendendo a diferença entre esperar e não poder escapar, chegou e disse um monte de coisa. Disse por exemplo que ele não falaria o nome dele. Porque não merecemos saber. Porque não merecemos nada. Só que na plaquinha, do lado esquerdo do uniforme dele, tá escrito: Sargento Afonso. O-. Eu sei até o sangue do tal do Afonso. Em outro momento até me atreveria a rir. Mas quem ri cria exporta tempo da clandestinidade. E a clandestinidade é ser livre. Algo tão inacessível naquele momento.  Um absurdo de tão.

O Afonso, que tem sangue, que é O negativo também tem uma arma. E essa arma tem um dono que não é nem a mão do sargento nem o próprio sargento. Eu tenho medo é desse quem. Não dele. Eu tenho medo é do absurdo. Porque na mão do absurdo os gatilhos vão nos dedos e não o contrário.

Nós estávamos em silêncio. Então entrou mais um homem. No lugar em que não devia caber nenhum. Éramos onze. Ele também estava armado e gritou algo do tipo

É o seguinte seus desgraçados. Quem aqui é Fernandes Salgado? Ninguém vai sair daqui até alguém dizer que é Fernando Salgado. Por que alguém de vocês simplesmente é. É o puto do Fernando Salgado.

Ficamos nos olhando. Nós, os pontuais. E todos parecíamos estar no chão. Porque era olhando para o chão que nos comunicávamos uns com os outros. Ali que divulgávamos nossas medidas de medo, criávamos um rinoceronte de dúvida. Furioso mas incapaz de agir. Um ou outro poderia ter de fato conversado entre si, porque falamos francês e os homens nunca entenderiam, mas ninguém ousou domar uma palavra até o fim. Teve um que começou a falar algo do tipo Tous.. mas então nosso rinoceronte soltou um rugido e imediatamente ele se calou. Mas não era nisso que eu pensava.
Feijões. Estava faminto. Fome tanta fome que quanto mais parecia que queriam me devorar eu só pensava em batatas e feijão vermelho. O feijão vermelho da minha tia que morreu anos atrás, antes da morte existir. Antes de, em Porto Príncipe. O feijão que veio dos cantos de acordar de nossos antepassados. Que nos manteve vivos mesmo quando nenhuma lupa nos achava no mapa-múndi.

Faz quase dez horas que estamos aqui e todos nós temos um buraco dentro. Um buraco que se alinhado: Um túnel de fome. Todos nós menos o Sargento Afonso que come um chocolate que ele não sabe mais veio de Guine Bissau. Que ele não sabe. Ele come, mas nem sei como. Porque o homem da minha frente acabou tendo que urinar ali mesmo e deve ser difícil ter prazer com aquele cheiro. Ele deve gostar. Ele deve até gostar. Um tipo especial de cobertura.

Vamos lá seus desgraçados. Quem aqui é o puto do Fernando Salgado. Vocês só vão sair dessa merda até alguém me dizer. Porque alguém vai dizer.

O mesmo homem, que descobrimos era sargento, repete.

Um dos caras, o mais baixinho de todos, de pele mais escura, levantou corajoso e disse Você é louco, isso não faz sentido, a gente nem nasceu aqui.

Isto é exatamente algo que Fernando Salgado diria respondeu o sargento. E deu um murro no estomago vazio. Que parecia até um tambor. O couro ali. Ressoando. Brrums.

Eu vou sair daqui e quando voltar vocês vão me entregar o Fernando. E o resto vai voltar para os seus filhos disse o homem de cinza.

Todos eles saíram. Só ficaram nós. Nós oito.

Foi quando o não premeditado aconteceu. Um dos homens se levantou e apontou para o baixinho, recém filho de uma surra, que ainda gesticulava espasmos no canto. Tão contorcido que parecia um corrimão de tão fino. Levantou, chegou perto e disse:

Este só pode ser Fernando Salgado. Foi o único maluco para dizer alguma coisa. É esse o desgraçado. É o tipo de coisa que Fernando Salgado faria.


Antes que o outro pudesse se defender, o homem o deu um. Dois. Socos. Os outros se levantaram. Estavam com muita raiva. Cheiro, urina, menta, chocolate. Como o espaço era pequeno, e não dava para fazer uma fila, fizeram um círculo. E bateram. Bateram em Fernando Salgado, porque ele era Fernando Salgado. O homem ali poderia ser uma morte, o fato é que, já era a introdução de uma.

Então, enquanto os tambores, enquanto os socos, se repetiam, lá no fundo. Espremido contra a parede estava nosso rinoceronte, agonizando, eu o via, estava doente, ferido, quase se indo. Mesmo com toda fome do mundo e por causa talvez de toda fome do mundo.

Eu gritei.

Em francês, porque a memória do medo é sempre de infância. Depois em português, porque em estrangeiro é mais apavorante. Eu gritei por ajuda. Enquanto o sangue do homem se espichava pelos cantos, o líquido também desesperados por uma saída, enquanto eu encarava o seu vermelho e a primeira lembrança que vinha eram dos feijões, também vermelhos, e de seu molho, também líquido, enquanto eu alucinava e ali estavam os feijões que tanto queria comer, saindo aos montes de dentro da barriga e da cabeça do homem mesmo assim eu gritei.

O sargento veio. Me perguntou que merda eu estava fazendo. Falei que um homem estava morrendo. Você nos chamou por causa disso? Você nos encheu o saco por causa disso? Isto é exatamente algo que Fernando Salgado faria.

Eu bem que gostaria de ter dito “mas não sou ninguém”, mas isto era inútil. O lugar era tão pequeno e nem tinham lugar para cair, mas eu desmoronei, e esta é a chave para a abertura de espaço, primeiro com a ajuda do sargento, depois veio o homem alto, depois os outros, e é claro, aquele, o pequenino, que carregando meus feijões nos braços, eles meus feijões vermelhos até que enfim, e nas pernas não hesitou de me dar uns pontapés. Uns belos de uns pontapés.

então fui dormir

eu pedi a Rebecca para que cortasse o papel para mim.

de que formato, ela perguntou.

do formato que um papel tem que ser.

então ela me deu esse negócio meio triângulo, meio losango, e porque eu amava Rebecca e porque ela era minha irmã eu disse

você estragou tudo

não posso escrever nesse papel

porque esse papel tem o teu formato

então não o posso jogar fora

você estragou tudo,

muito obrigado.

terça-feira, 17 de junho de 2014

os inícios

foi em uma viagem à Escócia, bebia muito a Escócia (entende-se memória escassa), conheci um homem que não lembrava onde tinha nascido.

perambulava pelo  mundo há tanto tempo, tirando fotos da Cabul devastada, se apaixonando por mulheres erradas na Trícia, e agora não lembrava onde esteve primeiro.

seus pais moraram em Hamburgo um dia, mas ele não sabia do depois, seus principais documentos se perderam ao ter de sair por uma emergência do navio Del Ganda, no mini acidente de 94. de qualquer forma, não acreditava nos papéis estatais, como sua cidadania lituana, sendo que nunca conheceu os avós.

naquela noite foi muita a cerveja escura, a mesma cerveja que por pouco não transformava nossos pulmões em negros aquários, como imaginava a cada copo. o homem ficou triste quando deu-se conta do que passava. não lembrar do início pode ser traumatizante e por um tempo foi - ele chorou no meu rosto o que poderiam ser lágrimas de trauma, mas era de fermentado escocês mesmo. ou, pode ser engraçado: terminada a cena preencheu os restos das horas rindo largo, por todas as sobras.

era um homem loiro, como muita barba, um tipo que sabia apostar. depois de uma semana viajaria para o Chipre à trabalho, trabalho é claro que encontraria depois de chegar.

acho que dormimos juntos porque caímos no mesmo lugar. por um momento, experimentei essa sensação de começo de impossível acesso. do controle. de não ter nada antes de mim. em nossa proximidade a condição dele me vazava pelos caminhos do pescoço.

essa sensação de tábuas soltas, embaixo da cabeça, pó de noite, uma goma de mascar gravada na nuca e as costas tortas como se tivesse saído de um barril.

acordei sozinho no chão. ele já tinha ido,  nunca mais o vi. no outro dia tive que ir ao cabeleireiro. era a primeira vez que raspava a cabeça.