domingo, 1 de fevereiro de 2026

teatro

 Quando minha cunhada abandonou meu irmão eu estava no teatro. havia ido secretamente ver a estreia da peça de uma nova professora, que recém tinha começado a trabalhar conosco do Dom Infante II. Ela era jovem, bonita, responsável e aparentemente talentosa. Não consegui acreditar com meus próprios olhos, então, lá fui eu. Estava com muita vergonha então sentei no fundo. Não queria ser vista porque meus motivos não era os menos benéficos e mais beligerantes possíveis e tinha a ciência moral total dos meus atos. Então, na verdade, escondia-me na fileira z-06 para esconder-me de mim. Ia ao teatro para fugir da minha vida. E ficava lá depois das luzes para esquecer do que eu sentia. Era como se meus 14 anos senta-se ao meu lado, pegasse na minha mão e sentisse nojo, dizendo: a sudorose aumenta com a idade? que nojo. Que nojo, eu disse. Meio sozinha, meio espiã. Até o momento em que vi a mensagem eu meu celular de Afonso e então fui embora. Eu não precisava ver a peça da talentosa diretora para saber que era talentosa. Infelizmente.

Encontrei-o em sua casa. A porta estava aberta. Eu o perguntei, tem certeza? Ele apenas falou: olhe em volta. Os móveis haviam sumido. São só objetos, devolvi. Meu irmão chorava de forma silenciosa, só percebida pelos soluções em colisão dentro da garganta. Sua voz, chorosa, era bonita. É por isso que há aqueles que cantam chorando, entendi. É como os chuveiros. Ela apenas levou tudo que haviam comprados juntos e deixou o apartamento. Que vendo assim, nu, simples, estrutural era feio. Seu apartamento é feio, eu disse, sem papas na língua. Sempre foi, ele respondeu. Questionei então o que aconteceu. Afonso me contou que guardava este segredo só para si havia meses. Tinha descoberto que sua mulher tinha uma amante.

Na verdade, começou muito antes disso. Primeiro sonhou que sua mulher teria uma amante. Depois, tiveram em um jantar com os sócios do escritório. Ele viu uma mulher muito elegante. Alta, com maquiagem sóbria, cabelos entre o laranja e o amarelo claro. Era a esposa de um de seus clientes mais importantes. Então, algo lhe disse, com uma estranha rígida e argilosa, esta será a amante de minha mulher. Lá, elas foram apresentadas. Foi uma pequena conversa protocolar. Mas meu irmão leu o rosto de sua mulher no exato momento que pronunciou seu nome para os presentes, naquela altura, testemunhas. Ele leu como seu olho desceu mais à esquerda e sua respiração parecia pressionada contra o chão. E os dedos viraram apenas periféricos das mãos, sem uso aparente. E a voz afrouxou como um colete salva vidas recém desinflado. Então ele viu ela se apaixonar desde o primeiro momento. Que durou semanas, pois começaram a sair juntas para praticar rapel (agora sua mulher gostava de rapel). Neste ponto acho que nem ela mesmo sabia, ele me disse. Mas a conheço muito bem. Então a vida dos dois melhorou muito. Havia mais sexo, mais presença. Por um momento, meu irmão quase amou a mulher - um amor de agredecimento, um amor de esperança. E sentiu-se também parte daquela paixão que se encaminhava lentamente para um endereço. Então, elas passaram sua primeira noite juntas e tudo mudou.

Toda vez que minha cunhada tentava tocar no assunto ele fugia, desesperado. No fundo, nunca acreditou que isto seria o bastante para terminarem um casamento, uma promessa de filhos, todos os sonhos que reviram juntos tantas vezes. Em um ato de desespero, segundo eu mesma, ela levou tudo. Deixou uma carta explicando tudo. Disse que havia mudado para o outro lado da cidade, portanto, pode ser que se virão no futuro. Falou que o amava muito, mas que a amizade deles tinha acabado. E que a relação não era mais possível pois havia escolhido ter uma relação com outra pessoa. Simples assim. Ela estava magoada com ele porque, quando mais preciso, ele não estava lá.

Finalmente tinha reunido a coragem para me chamar. Sentia-se envergonhado e enojado. E completamente paranoico. Não consegui parar de pensar nas duas juntas, transando sem parar, por cima de todos os móveis que haviam escolhidos um na presença do outro. Estava obssecado e eu não podia ajudá-lo em muita coisa uma vez que também guardava uma própria obssessão. Mas para ajudá-lo e despistá-lo de meus próprios pecados, falei com que vinha à mente. É apenas uma mulher. As mulheres são assim, eu disse. Não param para pensar. Não pensam.

Na semana posterior, o convenci a ir ao teatro. Eu tinha um plano perfeito: apresentar meu irmão a minha companheira de trabalho. Era um disfarce à altura. Ele tinha pedido licença do trabalho por questão de saude. Ninguem poderia saber o que de fato ocorreu, era vergonhoso demais. Ele não gostou da peça, é claro. Ele não gosta de teatro. Era sobre se Shekeaspere nascesse hoje em dia, e usasse as redes sociais para atrair seu público. A peça não era boa, o que foi um alívio, mas era bem feita e funcionava. O público ria e professores levavam seus alunos para assistir e depois escrever redações sobre. Suspeiteu se aquela altura meu irmão era um misogino incorrigivel. Se eu era a unica mulher que ele nao odiava ou que ele me odiou desde sempre e fora misogino desde sempre e precisou levar um fora de uma mulher para eu entender isso.O levei até a cabine dos atores e apresentei os dois. nada aconteceu, nem uma sobrancelha fora do normal. Os dedos eram coisas de agarrar e de obdecer. E só. Então fomos tomar uns copos.

Era um pé sujo na rua atrás do teatro. Os atores eram jovens e socialmente inteligentes. Sentamos numa grande mesa. Minha colega entre eu e ele. Então o mais absurdo ocorreu: minha colega não parou de secar meu irmão. Começou a fazer perguntas esdruxulas de tao desinteressantes sobre seu trabalho com especialista em direito autoral de pinturas antigas. Ele a tratou com desprezo. Quanto mais desprezo tinha, mais ela insistia - imersa naquele rastro de conquista ou submissão máxima mesclado por desejo de humilhação. Não sei se olhou ele e achou bonito ou apenas viu em sua insignificancia a insignificancia de tantos homens que ja teve. Meu irmão era alguem que eu amava porque era meu, meu irmão. E só. Ele chegou a dizer que arte para ele era apenas dinheiro. E que deveria ser para os artistas. Por isso que a arte neste país nao ia para frente - pelo medo do dinheiro. Falou mal de teatro. Mal a olhava nos olhos, empinando copos de cerveja sem parar. O que eu posso dizer? Não foram embora juntos. Ela queria. Ele queria que ela queresse. Queria negar. E no fundo, esta é uma história com uma moral da história. Uma história ruim, portanto. Pois foi aí que percebi o quanto eu e meu irmão éramos parecidos. Não apenas fisicamente. E no fundo odiassemos talvez todas as mulheres do mundo. O que para ele talvez estivesse tudo bem - era sua condição. Mas para mim era um auto-extermínio. Tive vergonha. vontade de desaparecer com todos meus móveis eu mesma. Colocar fogo na casa. Me abandonar na cama. Precisava que algo ou alguém fosse embora.

Congresso dos Autores Desconhecidos

 Estava Rómulo e eu na esquina do grande Congresso dos Autores Desconhecidos. Era janeiro mas estávamos em Pádua, portanto, fazia frio como as chaminés fazem o elo entre o dia e a madrugada: sem noite. eu não falava com Rómulo havia seis anos e parte do meu corpo dividia-se em ter medo de estar lá com ele, enquanto a outra, medo de não estar e perdê-lo para sempre. havia se mudado para Suíça, com a mulher milimétrica, como assim chamavam os nossos amigos da Fronteira. Rómulo era previsível enquanto as mulheres, havendo um ciclo onde nós, os amigos mais íntimos, os que faziam ele chegar em casa mesmo bêbado e mandavam ele enviar mensagem aos pais mesmos brigados, apenas nós sabíamos. Primeiro veio a namorada desajeitada, depois, a certinha. A partir daí tudo se intensificava em uma intercalação sem fim: a completamente bagunçada dava lugar a neurótica, depois, era fácil saber que a intempestiva e passional máxima cederia para a pessoa mais organizadamente exagerada do século. eu amava a previsibilidade amorosa de Rómulo porque me dava estabilidade e e me aproximava dele, apesar dos anos. Rómulo deu a entender que nós, os seres que nascem na fronteira, na fronteira do sul do mundo, estamos sempre vivendo esta dívida de querer ficar em nossa casa mas ir embora. e assim, fui parar não sei como em Stutgart, e, depois disso, consegui uma residência em investigação em Salamanca. E agora estávamos juntos. Ele com uma mãe a menos, eu com um pai me faltando, o dinheiro, os amigos, o coração. Nós dois com uma tristeza que guardávamos no silêncio mais concreto, e que tinha, entre outros, nossos nomes.

O Congresso dos Autores Desconhecidos acontecem desde a guerra da unificação italiana: 1871. Pode ser difícil de imaginar, mas muitas pessoas que lutaram ou contra a monarquia, ou à favor da república ou pela unificação italiana eram escritores. E o motivo era simples: ir a guerra era naquele tempo ir atrás de palavras, principalmente, palavras faladas. Como muitos morreram, Ernesto Cavaglieri, um espano-italiano cuja família materina era de Lecce, teve a ideia de realizar a primeira conferência em nome dos soldados desaparecidos, cuja a ideia era ler seus nomes por dias a fio, contar suas histórias, suas vidas, para que não fossem esquecidos. Ao logo do tempo, as histórias foram sendo fabricadas para dar contínuo a tradição e o confresso dos soldados despaarecidos virou o Congresso dos autores desconhecidos de forma muito natural. Pessoas do mundo inteiro vinham à Itália para apresentar pesquisas, arquivos, textos, estudos sobre autores que viveram uma vida no anonimato, cuja existência talvez nem pudesse ser provada, mas que não podiam ser esquecidos. Cada ano a ansiedade era maior à espera de um nome a altura do seu tempo, que expressa-se a dualidade da guerra fria, o imperalismo no oriente-médio, um novo mundo frente as pragas. Que nos desse um alento, uma obssessão nova, fora do ócio, que fizesse a literatura, depois da guerra, ser viva de novo.

Eu e Rómulo sonhamos por anos estarmos aqui. Havíamos é claro lido Enrico Spaldi: o dono da casa editorial Spaldi, que descobriu diversos autores do início da alta idade média. Havíamos, é claro, seguido o trabalho de Clementino Abreu, que nos templos budistas da Mangólia, descobriu o poetas das pedras: Jan san Io. Nos vinhamos do continente do futuro, das américas, do continente das civilizações perdidas, da literatura de luta, da ressaca do milênio, do barroco máximo. Eu ofereci a Rómulo um café antes de fazermos o check-in e ele aceitou. Enquanto pedia seu ristretto à caráter, eu observava seu consumo excessivo de linho e tentava obter algumas pistas. O que Rómulo havia descoberto?! Sera uma nova epopeia maia, em algum vilarejo da Nicarágua? Ou o inicialismo lírico esquecido nas cavernas do Jalapão por algum nómade maluco, que podia sentir as linhas telúricas da terra com sua caneta e sua espinha e pensava ser sua coluna cervical seu tinteiro? Eu sei o que você está pensando, ele me disse. O que estou fazendo aqui e o porquê de não ter lhe avisado. Você não vai acreditar, disse ele.

Neste ponto estamos no saguão. Adeláide de Sá apresentou uma enorme lecture sobre a relação entre a escala cromática, a pulsão sexual e os espaços vazios na poesia de Célia Correia - uma agroprodutora recentemente falecida do extremo norte de Goiás. Os espaços seriam a monucultura da paisagem, expressa de forma inconsciente na respiração das páginas. A escala cromática viria dos cantos dos boiadeiros - de origem árabe, que dava predileção a palávras proparoxítonas ou de grande quantidades de letras, como os deslocamentos bovinos. Eu, que morria de medo de ser analisado por Adeláide de Sá, escutava tudo com atenção máxima. Tem pessoas que ficam mais bonitas quando sem palavras, eu penso, ou nós ficamos mais bonitos para nós mesmos quando deixamos alguém sem palavras. De qualquer forma, na ausência de palavras acho que surge a abundância do desejo. Não o desejo, aquele que nasce aos poucos, mas aquele que vem como a densidade de uma estrela de neutrons, no seu peito, de uma hora a outra. Eu olhei para Rómulo e ele disse: os brasileiros estão com tudo mais uma vez. Então ele entrou e iniciou sua comunicação.

Meu amigo tinha ganhado exatamente todas as rugas que imaginei que ganharia. Conhecia como seu rosto se retorcia para o aço do choro ou para o elástico do riso. Mas esta calma aparente eu não podia imaginar. havia desacelerado sua inércia, se convertido em um ser prudente - talvez mais chato. Falava devagar com um brilho que surgia por espasmo. Não sei o que a Suíça havia feito com ele, o que a ausência de terapia havia feito com ele, seus filhos, se é que os tinha - e sua esposa milimétrica. Eu avisei que faria mal a nós morarmos longe do mar, nós, que viemos da fronteira. Em Salamanca, tive um período de paranóia. Achei estar perdido para sempre, que haviam soldados pequenos que entravam em minha orelha à noite. Mas era apenas abstinência do oceano. Rómulo saudou a todos e de repente apareceu uma imagem no projetor: Era Lúcia do Carmo. Nossa amiga. Nossa amiga morta.

Minha almofada de Jasmim, escrevo de dentro do fogo dos fracos. Tenho todos os degraus alinhados como dentes de uma criança que tem pressa em nascer. Adivinho a reza das sementes e mudo o gosto das cerejas para a textura das cinzas ao serem desmanchadas. Eu quero menos hoje do que queria ontem e isto é uma conquista. Ganhar um ontem. Significa que estamos velhos, mais vivos, e menos sábios. Que esquecer alguém e iniciar uma nova biblioteca, que os antepassados sussuram alexandria no braile dos arrepios, quando ameaçamos nos apaixonar de novo. Te esquecer será meu maior feito. O cordão de esferas ameaça se retirar. As folhas tem equações mecânicas e se as formigas pararem de respirar os números variáveis e incógnitos nunca mais serão descobertos. A matemática é apenas isso: insistência, teimosia e fé. Perdi a fé, me restou as outras duas. E te esquecer é a outra ponta do tripé. Amar alguém que chega, amar mais alguém que vai embora. Não foste tu que me ensinou que as palmas só dão jeito para dentro por um motivo? Amar porque, seja qual for a direnção, é sempre para dentro.

Minha almofada de Jasmin era a forma como que nossa amiga Lúcia nos chamava. A última vez que a vi, estávamos juntos em uma cafeteria em Montevideo. Estava recém-separada, recém-juntada, de iniciando na arte da confeitaria. Eu fui visitar meus avós, ela, não sei ao certo. Rómulo estava ali, em minha frente, falando de nossa ex-amiga íntima que deve estar confortável em algum pedaço de Pirituba, enquanto ele lia suas cartas, cartas endereçadas a mim, contendo nossa juventude, contendo todos nossos os segredos, como, por exemplo, este fato nunca comunicado do que ocorreu entre Lucia e eu. O que nisso pode ser considerado literatura? O que possivelmente pode denotar isso como a maldita literatura? O estudioso basta? Ou nesse caso, um amigo um pouco fora de sua sanidade costumaz?

Lucia Moura nasceu em 1984 e frequentou a escola de São Vicente, em Santana do Livramento. Ele continuava: mudou-se para Porto Alegre aos 16 anos, depois da recomendação de uma benzedeira para ficar longe da língua espanhola. Foi estudar francês, onde conheceu, no Instituto de Literatura Contemporânea, Romulo Schuartz, Marcela Viera e Sebastição Macedo. Ele continuou ali, narrando toda nossa vida para os presentes. Os almoços na Lancheria dos Onze, as noitadas no Cassino de Mentira. Os saraus que faziamos na cada da Antonia, aos noites de orgia na orla do rio. As recorridas espirituais no dia 2 de fevereiro, a nossa aparenta falta de comprometimento político diante do extremismo político ganhando força. A nossa natureza de gente da cidade virada para o que ele chamou de a romantização do guasca. O portunhol como forma de fugir não maneira de conectar. As bombachas encomendadas em sites chineses, a casa de milongas do Salomão que era primeiro de tudo, um ex-austríaco. Mas eu não estava lá. Meu nome não foi citado. Rómulo me apagou da história e eu sobre apenas com o destinatário das cartas de Lucia Moura, das cartas que ela nunca me enviou, e compuseram seu diário. Tudo o que eu fui para Lucia Moura era tudo que eu nunca consegui ser para Lucia Moura, essa, aparentemente grande escritora desconhecida que a partir deste momento, para Romulo, não poderia mais ser minha amiga.

Dizem que o ressentimento move os que envelhecem. Rómulo estava envelhecendo de forma relâmpaga agora em minha frente. Por um momento, era como se eu estivesse novamente e Salamanca, delirando. Será que eu de fato nunca conheci esta gente? Apenas achei que conheci? Fora Lucia uma miragem?! O que havia naquelas cartas de tão interessante? Aonde ele queria chegar? A Zona Norte de porto alegre se derretia dentro de mim. As ruas se borravam das fotos, como se fosse uma cidade abandonada no século 19. Uma cidade sucumbida ao êxodo em massa, ao vento, às águas. Claro, havia outra opção. E era simples: a vida estudada ali não era a de Lucia, nem de Rómulo, a minha, a nossa. Era apenas a dele. Não podendo se tornar um grande escritor virou um pequeno conadjuvante. Ao ponto de até, talvez, imaginar que o destinatário daquelas cartas poderiam ser ele. Que Lucia Moura tinha uma paixão secreta pelo homem mais previsível do Atlântico Sul. Que precisaria vir na universidade mais antiga do mundo, falar em uma língua que não era sua, longe de tudo que conheceu, que sim, ele fazia parte da vida de Lucia Moura, da grande escritora gaúcha - ainda desconhecida mas já não mais, Lucia Moura. Só não contava com a minha presença.

Pensando agora, isso poderia sim fazer algum sentido. Mas no fundo, lá no fundo, eu não sei o quão próximo eram os dois. Nunca sabemos o que ocorre entre nossos amigos quando deixamos a sala. Eu sei que ele elogiava seus ensaios, sua dedicação com Paul Celan, sua ideia absurda de adaptar As Metamorfoses para animais que vivem no pequeno zoológico da redenção. Não sabia até que ponto falavam de dinheiro, de família, de amor. Ou do fato de uma noite, enquanto Júlio Serate chorava as pitangas por sua ex-namorada de infância se agarrar com nosso amigo Sebatião Macedo em frente a Usina do Gasômetro durante mais uma fanfarra habitual, Lucia me confessar que não dormia a noites seguidas porque tinha certeza que havia alguem de nome Artur em seu quarto, falando sem parar. Alguem morto, mas vivo, e para isso, naquele momento talvez, Lucia me beijara, para se distanciar de Artur, e se certificar mais viva talvez, para forçar os olhos a fecharem por algo substantivo. Não sei se sabia portanto que Lucia também gostava das mulheres - que a Lucia tudo era uma chance de prolongar a interrogação.

Ao fim da comunicação, Rómulo disse que no segundo dia da conferência apresentaria dois trabalhos recém descobertos: Os cadernos da circunferência e Espaços sem fio. Eu consenti. Não tinha maldade dentro de mim. Sentia até mesmo uma rara emoção. Meu amigo não conseguiu me olhar nos olhos, estava irritadiço e nervoso mas eu o abracei com uma piedade que nunca havia experimentado, misto de agradecimento. Talvez esta fosse apenas outra história que Lucia, secretamente, estava a contar. Eu sabia que tudo que importava ali era como ele se sentia ou eu. E o que cada um sentia, ou qualquer coisa que fossse que tivesse ocorrido, importava? O nome disso é literatura, para nós, a coisa mais importante do mundo. Nos os dá fronteira tínhamos nossa particular e unica literatura.

sábado, 31 de janeiro de 2026

cabeça de boi

Quando a encontramos, era uma noite sem lua. Nas noites sem lua gostávamos de fazer um jogo que consistia em andar pela cidade fugindo das luzes, silenciosamente, e contar um segredo. Aquele segredo seria um farol, para a memória, a noite mais duradora. Mas isso não sabíamos. Foi assim que a disse pela primeira vez que gostava dela. Foi assim que descobrimos muitas coisas um do outro, como quando ela testemunhou a morte do tio, ou quando achou que morreria em um barco em Johannesburgo. A doença de meu pai e a mania que tinha quando criança, de roubar coisas das pessoas de que gostava e enterrar no jardim para alimentar as plantas. Era uma noite sem lua, com muitas nuvens. Estávamos na quinta de São Inácio, um pedaço de terra antigo de seu bisavô. Andamos por horas na mata, guiados pelas luzes dos celulares, pelos ouvidos do peão Eugênio, sem conseguir distinguir quase nenhuma imagem, o que era vento com o que era bicho, o que era passado e o que era futuro, o que era noite inventada e noite real. O cão de Eugênio mergulhou o focinho na terra, jogamos ao lume de um fósforo, havia pegadas humanas em meio a algo que pareciam cavalos. Meu primeiro instinto fora o de meter os dedos naquela marca que poderia ser dos seus pés, enfiei os dedos na lama molhada e dóceis, que cedia facilmente, coisa que ela poucas vezes fez, como quem tem certeza de que a encontraria ao fundo. Limpei-me na minha própria camisa, ridículo, e olhei para Christian assustado. Aquele homem que mal falava nossa língua e que estava no meio do nosso país, sem pensar direito, sem saber dos perigos daquela mata. Das cobras, dos mosquitos, dos grileiros, dos fazendeiros, e que não tinha ideia de onde estava se metendo, mas, assim como eu, estava à sua procura. O cão se pôs a correr por uma trilha e o seguimos até um estrado. Não havia latidos. Quando chegamos, andamos mais um pouco, lá ele estava junto aos bois, lambendo a ferida de um deles, na perna esquerda. Mais adiante havia um aglomerado de cabeças, talvez umas trezentas. Eugênio calmamente começou a andar entre os animais, então se agachou. Pude ver uma mancha amarela refletindo de uma fogueira. Ela estava entre os animais, serenamente. Quase nua, coberta de terra e irreconhecível. E dormia silenciosamente.

Eu queria dizer que a conhecia durante toda minha vida. Que na maternidade, dividimos talvez os mesmos quartos ou as primeiras vozes humanos que ouvimos quando viemos a este mundo foram das mesmas pessoas, um médico apressado e uma enfermeira que falava muito justamente por não ter paciência. Queria dizer que crescemos juntos, que subíamos as árvores atrás de carambolas depois da escola, que decorávamos o grande raio de árvores frutíferas que separava nossas casas, ligada por uma mata rasteira mas rica e que a única diferença entre nós é que ela comia as frutas por prazer e eu as comia pelo seu caroço, pelas sementes, pelo gesto de jogá-las pelos cantos, e pensar que algum dia algo ali poderia nascer, algo poderia vir por mim culpa, por minha ação. Eu gostaria de dizer que comigo ela não tinha segredo algum porque quando nos conhecemos na infância isto de segredo não existe: a linguagem ainda é maleável, não é algo tão sério. Os segredos vem depois, as portas fechadas vem depois, a espera na linha – a eterna música da espera na linha, vem depois. Gostaria de recontar toda nossa história como se tivesse sido uma testemunha., mesmo que silenciosa, de sua vida. Porque era isto que eu sentia, porque é isso que eu senti quando a vi pela primeira vez: um amor de trás para frente, capaz de amá-la de forma instantânea por tudo que já havia feito ou pensado. Ao mesmo tempo, um amor sem futuro. Sem chance para acontecer. 

Nesta vez, a que realmente foi a primeira que a vi, estávamos eu e Chrsitian em um dos poucos botecos do centro desta pequena cidade. Ela estava sozinha, com os pés no chão, e escrevia sem parar em um caderno. Agenor, o dono do lugar, viu nossa atenção presa a ela e com desdém disse que não entendia uma mulher vinda de uma família rica, com tantas posses, se comportar assim. Ela não era bonita, não exatamente. Mas tinha uma presença firme, que descosturava a paisagem. Intui ser capaz de acreditar em tudo que me falasse. Em ser captado por qualquer expressão sua. Usava um vestido bordo que acabava antes dos joelhos, levemente rasgado. De vez em quando ria sozinha, cheia de si, como quem esnoba todos os presentes como quem diz não precisar de ninguém. Era única em meio aquela gente que repetia nomes, sobrenomes sem parar e personagens velhos. O filho que virava seu pai, que provavelmente morreria igual seu bisavô, por uma disputa qualquer em uma aposta de bar. Quinhentos anos de sobrenomes que se repetiam, de decisões que envelheciam mal, de profissões escassas. Todos se conheciam, todos eram iguais para não dizer parecidos. Aquela era a terra da família de meu pai, eu sei o que digo. Uma terra de imensos desertos, sem gente. Um deserto verde, de lavouras intermináveis que acabam até mesmo com a ideia de horizonte, com a ideia de início ou fim. Onde a terra pobre gera quilos de alimentos que não alimentam, que vão para outras terras. Onde o silêncio vem dos bichos que nos abandonaram, portanto, este é o pior tipo de silêncio. Um lugar sem movimento, pior do que a morte. 

Eu e Christian havíamos chegado não fazia nem uma semana. Estávamos na Suécia, onde vivi por 9 meses. Eu havia começado a fazer um curso em mercado de ações, com a desculpa de que poderia ajudar os negócios da família. No segundo mês, abandonei o curso mas não falei disso para meus pais, que era quem pagava a universidade. Cheguei no inverno e as noites entravam dentro dos dias e infectavam até mesmo meus sonhos. Eu dizia para Christian, eu so sonho com a noite. Você percebe o que estou falando? Christian não sonhava, ou pelo menos, não lembrava de seus sonhos. Isto era apenas uma das muitas coisas que não tínhamos em comum mas que nos unia por ele ter uma paciência hábil e uma escuta generosa. Talvez fosse porque nos dois fossemos estrangeiros naquele país que não gostávamos, talvez fosse porque ele falasse algumas palavras em português e eu pudesse ser eu mesmo com ele. Ele havia tido uma grande paixão por uma menina brasileira, que conheceu na Suíça quando trabalhava em um albergue, uma paixão que nunca fora esquecida e volta e meia, quando estávamos bêbados, voltava com tudo lhe tirando as pernas, os pés, qualquer chance de equilíbrio. Era um destes estadounidenses que descobrem que há vida além de seu país e fazem de tudo para não voltar para casa. Com Christian descobri uma intimidade que nunca tive com meus irmãos. Éramos companheiros de casa, fazíamos compras juntos, assistíamos a filmes de ação ruins. Jogávamos tennis em uma quadra aquecida, esquiávamos. Assim, um dia eu lhe contei que teria que voltar para o Mato Grosso, Chrstian se inclui nos meus planos e eu não titubiei por um segundo porque já estava acostumado a sua companhia, a sua segurança e sabia que encontrar minha família seria muito mais fácil com sua presença. Teríamos que falar mais o inglês e esquecer as palavras em nossa língua que nos machucavam tanto e tão frequentemente. As palavras não podem se renovar, infelizmente. Meu pai estava doente, sou o primogênito, tenho que estar presente. Christian me perguntou o quão perto era o Mato Grosso do Espírito Santo e eu disse que era longe, muito longe. Tinha um péssimo plano de parar em Vitória para encontrar a antiga menina que eu carinhosamente chamo de três semanas, porque foi, realmente, o tempo que durou. Naquele dia, Christian estava triste porque havia finalmente entendido que a menina não iria querer vê-lo, mesmo estando no Brasil. Ela havia parado de responder suas mensagens, assim que desembarcou em São Paulo. O arrastei comigo. Ele chorava um choro fino, com soluços quase imperceptíveis e eu não conseguia entender se era saudade ou uma acomodante humilhação. Conversamos a noite toda, no balcão do bar, em frente a ela. De vez em quando via Christian a perseguindo com o canto do olho, no meio de alguma ou outra palavra que eu o dava. Fiz o que os amigos fazem nestes momentos, dão futuros possíveis. Mentem, usam a imaginação, o que preferir. Disse coisas como, veja bem, não era para ser. Talvez gostar dela foi só um jeito de tirar da Suécia, talvez coisas boas aconteçam aqui. É sobre você, não entendeu? É sobre o que você tem para dar. Christian ficava surpreso com meu discurso preparado para ocasiões como essa. Seus amigos não costumavam se interessar tanto por seus problemas, não pense nessa baranga, talvez diriam. Você pode ter que você quiser, elas são todas iguais. Eu sentia pena dele por me dizer isso, mas o admirava em seu exagero. Eu sua fidelidade com o impossível. Em um amor que era só dele e não envolvia nenhuma outra mulher. Não falamos dela, naquela noite. Eu não saberia como abordar o assunto. Mas sabia que os dois estávamos intrigados. E sabia que a cidade poderia facilmente se reduzir ao lugar em que estava, o que estava fazendo. 

Um dia fui tomar banho de rio. Deixei Chrstian com meus irmãos, precisava ficar sozinho. De início, acho que alucinei ao entrar na água. Senti perder controle do meu corpo por alguns segundo, senti mãos quererem me empurrar para fora da água, como quem diz, aqui não. Ainda não. Te conhecemos? Sinto que o nome da minha família era mal visto até mesmo para as águas que corriam da nascente até a foz. Sinto que as folhas conheciam nosso cheiro, que elas alertavam os insetos, que levavam a mensagem adiante. Não que haja uma consciência coletiva nos seres, na natureza, não que ela seja igual, ao contrário. Mas contra nós, se unia. Eu dizia baixinho, com os olhos abertos e doloridos contra o sol, não tem nada a ver com isso. Estou apenas a cumprir o papel de filho. Me perdoe, não sou como eles. De repente, ouvi uma voz dizendo: não se preocupe, não se preocupe! Era a voz de Eugênio, que trabalhava na fazenda da família dela. Vinha com ela e seu cachorro e de repente éramos quatro ali, sozinhos, no meio daquela ilha de verde. Eu não saberia dizer o que aconteceu. Mas sei que naquele dia conversamos muito, eu ela. Eugênio era mais silencioso, consentia e aprovava mais do que se expressava. Ela diz se lembrar de mim, mas não de rosto. De nome. Sua mãe já havia comentado que estaria na cidade, depois de décadas fora. Que meu pai estava doente e ninguém sabia o que ele tinha, que estava desesperado ao ponto de buscar diferentes tipos de gurus espirituais, e havia prometido até mesmo construir duas ou três igrejas evangélicas em troca de sua melhora. Eu estava muito nervoso de início mas ao mesmo tempo muito cômodo. Ela era o tipo de pessoa que faz alguém se sentir bem, que sabe lê-las com perspicácia, o que deve ser algo perturbador para si mesma. Me perguntou como estava, o que achava de toda esta história. Não sei eu disse. Faz anos que não penso nos meus pais, na minha família, nesta casa. No que fazem. Tudo que faço é para não pensar. Só estou aqui para garantir que as coisas não piorem, que mesmo se forem ruins, que sejam as menos ruins possíveis. Ela disse que havia gostado muito de mim e talvez um dia me contaria o porquê. Mas aquele ainda não era o momento. Eu podia sentir a vibração de seu corpo perto do meu, o que ele acordava em mim. Se ela erguesse um dedo na minha direção eu seria capaz de desmoronar. Eu chegaria em casa depois deste encontro e testaria meus braços, minhas pernas. Eu diria pra minha coxa, você sempre foi assim, ou está me pregando peças? É capaz de um braço agir dessa forma? Onde vocês estavam o tempo todo em minha vida, porque me enganaram de suas habilidades?  
Começamos a fazer muitas coisas nós três juntos. De início, eu ela e Christian, depois, Eugênio começou a nos acompanhar. Em um dia bom, caminhávamos bastante e ela nos explicava toda a história daquele solo. Ela tinha aprendido ler a mata com um senhor que trabalhou na fazendo do seu pai, quando era criança. Pelas folhagens sabia a composição do solo. Pelos tipos de nuvem, o que era bom de plantar, onde estava cada tipo de árvore. Sabia onde havia bichos mortos, sabia onde nada vingava, onde tudo daria fruto. Confiávamos cegamente nela. Eu conseguia ver os olhos de Christian melhorarem, conseguia ver o que o afeto dela fazia nele. Ela o dava o que eu não poderia, abraços longos, beijos na testa. O fazia enrubescer a qualquer momento de descompressão, o defendia quando faziam piada da sua ignorância ou humildade extrema. Eu e ele nunca conversamos sobre isso mas sabíamos que era impossível tê-la, nem por uma noite. E para nós bastava. Bastava vê-la movimentar-se com confiança, com sua voz baixa e contínua, bastava como sempre inventava que reconhecia um pássaro que nos chegava perto, com nomes que inventava na hora, bastava vê-la comer ou como tratava todos os habitantes daquela cidade com muita dedicação. Ela se esforçava para fazer daquele lugar uma cidade, um lugar para as pessoas. Mesmo que não se sentisse em casa, não, nós sabíamos, ela não pertencia ali. E também não entendíamos porquê não ia embora. Era como se estivesse esperando alguma coisa. 

Então começaram a acontecer estas coisas. As cabeças de gado começaram a desaparecer. Primeiro, foi no rincão do Seu Assuntino, 200 animais evaporaram da noite para o dia. Minha família foi a próxima, 150 animais apenas não estavam lá de um dia para o outro. Assim foi sucessivamente, até somar, com todos da região mais de 1000 desaparecidos. Diversos peões foram demitidos. A polícia trabalhava com diversas linhas de investigação. Perguntaram se tínhamos inimigos, se algum trabalhador da fazendo poderia fazer mal a nós, poderia ter-nos traído. As outras fazendas tinham seus mercenários, seus capangas contratados que passavam de cidade em cidade pressionando qualquer novo rico que aparecesse. Assustando a todos em bares, prostíbulos, fosse gente da política ou gente sem nenhum poder ou fama. Aquele conjunto de pequenas cidades virou um terreno hostil. Todos se olhavam com desconfiança. No meu caso, não dedicava muito tempo a pensar nisso. Me importava sim como afetava meu pai. Nesta altura já não consegui mais falar direito nem andar. Se comunicava por meio de algumas sílabas, parou de conseguir fazer o som do L e o som do F por exemplo. Poucos o compreendiam e escondíamos dele a perda da fazenda que era em verdade muito pequena comparada as quase 10 mil cabeças de gado que tínhamos. Entendemos que tudo que poderíamos fazer era aguardar sua ida. Depois disso faríamos os trâmites necessários, financeiros, administrativos. Depois disso eu iria embora novamente. 

Christian nos perguntou se aquilo era comum. E se não era comum, porque ninguém falava do assunto. Por que não víamos em telejornais, porque não havia mais agentes de segurança e especialistas e roubos no campo. Eu tentei explica-lo que seria muito vergonhoso e essa gente tentava resolver seus problemas do jeito deles, não do jeito certo. Ele se sentia em um filme de bang-bang. À esta altura o português já tinha melhorado muito, já havia esquecido a menina de Vitória. Estava atuando como bombeiro voluntário da região, estávamos nos preparando para a temporada de seca e de queimadas, e a pouco conheceu uma menina que trabalhava com trilhas em um parque estadual, o que o deixava cada dia mais a vontade com aquela região. Sobre nossa amiga, nós a víamos cada vez menos. Principalmente de noite, quando saíamos para nossas caminhadas, quando fazíamos alguma fogueira e contávamos histórias de nossa infância. Ela lembrava com detalhe tudo na sua vida, diz ela, desde que estava na barriga de sua mãe. Sempre fora assim, era a memória da família. Era quem as pessoas recorriam para se certificar que tal coisa havia acontecido e de como havia acontecido. Mas agora, parecia cansada, abatida. Seus abraços diminuíram, se tornou mais silenciosa. Custava-me a crer que estivesse por exemplo se alimentando. Podia ver o osso moldando sua carne, seus cabeços quebrando no final dos ombros. Seus olhos a cada dia mais fundos, tão fundo, com dois leitos asteroides. Mas nossas perguntas sobre seu estado eram inúteis. Nunca falava de si, nunca falava do que realmente sentia. É uma dessas pessoas que está sempre disposta a fazer algo pelo outro, mas que a qualquer sinal de abertura, sentíamos o barulho da encilhada agindo. Tinha medo que minha preocupação a afastasse cada vez mais. Então, apelei e um dia conversei com Eugênio. Ele me garantiu que em sua família tudo estava bem. Ela morava em uma casa afastada dos pais, feita de madeira, simples e sem caprichos. Mas não é porque não se dava bem com eles. Nada aparentemente tinha mudado, nem financeiramente, nem estruturalmente. Eugênio também não sabia de ninguém que poderia ter chego ou ido embora da sua vida. Era amiga de todos e de todo mundo mas nunca a havia visto nem com um homem nem com uma mulher. Não sabia nem se considerava este tipo de aproximação. 

Foi antes da morte de meu pai, uns dois dias antes eu diria. A soma já estava em três mil gados desaparecidos. Mortos? Fugidos? Não se sabe. As câmeras não mostraram nada, as câmeras mostraram isso: um desaparecimento. Nenhuma tecnologia do mundo era capaz de explicar o que aconteceu. Alguns criadores já cogitavam vender as terras e transferir o cultivo. Alguns, os pequenos, já tinham ido embora e o preço das terras em geral estava mais baixo do que nunca. Os mais velhos falavam até mesmo que se tratava de algo sobrenatural, algo próximo a maldição. Ninguém se importava se os bichos estavam vivos ou mortos, apenas queriam achar o culpado. Estávamos jantando em casa e meus irmãos se demonstravam muito preocupados com as perdas. Era pior do que uma gripe ou qualquer doença, não sabíamos como enfrenta-la. Não a víamos. Eu estava cansado, sentia falta da minha amiga, sentia falta de Chrstian, cada vez mais envolvido na sua nova vida com aquela namorada que havia arranjado. Eugênio me ligou e me disse que fazia dois dias que não a via e isto nunca havia acontecido. Perguntou por ela em toda cidade, sem nenhum sinal. Queria saber se eu sabia de alguma coisa, pois a família estava preocupada. Nunca tinham sido capazes de compreendela, por isso mesmo, estavam mais afoitos do que nunca. Assim começou nossa busca. 

Christian nos encontrou depois da janta e fomos de casa em casa perguntar por ela. Nenhuma pista. Por um momento, cogitei a ir naquele rio. A mergulhar naquela água, a dizer, agora é hora? Tens algo para me dizer. Eu estava desesperado a ponto de usar as técnicas que ela usava para encontrá-la. Mas nós não éramos ela. Aliás, sabíamos muito pouco sobre sua presença. Apenas a amávamos. E nos preocupávamos por ela ter feito alguma besteira. Por ter se machucado feio. Por algum homem te-la pego em algum momento em que a viu desprotegida. Durante cinco dias nos encontramos todo dia, pela noite. Começamos a entrar na mata juntos. Nas trilhas, até mesmo no parque estadual, o que era proibido aquela hora da noite. Eu não vou mentir, achei que estaria morta. Eu falava mentalmente com ela todas as coisas que eu tinha coragem de dizê-la. Enquanto me doíam os dedos do pé e caminhávamos sem rumo por horas a fio na noite, guiados apenas por um cachorro, um cachorro sem nome, o cachorro do seu Eugênio, eu dizia o quanto a desejava, o quanto era especial, o quanto gostaria que me deixasse amá-la como eu queria. Nesta ponto, falava com uma morta. Tinha esperança de vê-la, nem que fosse como um fantasma. Uma despedida. Uma explicação. Lembra por que gostou de mim? Lembra do que contaríamos um ao outro? 

Então o cão gritou. Vimos as marcas de pés, pequenos, humanos, leves. Inicialmente, como disse, pareciam trezentas cabeças de gado, todos ao redor dela, como se a protegessem. Como se ela fosse um deles. Ou o oposto. Eu sabia que estava viva. Eu sabia que estava bem. Eu sabia que nunca entenderia esta forma de estar vivo. Enquanto nos aproximávamos dela, e o cheiro de terra, estrume, de mato seco, o cheiro de urina, de bicho, nos acometia, nos tornava em apenas mais um deles, pudemos ver mais ao fundo até quando as nossas luzes deixavam ver, milhares de animais um ao lado do outro. Ela ainda estava desacordada e muito fraca. Andamos por uns três quilômetros e encontramos nosso carro. Eu estava muito aliviado e fiz algo que não imaginaria, rezei. Rezei e nunca falamos para ninguém o que aconteceu.